Baby Care
32 Deixe-me te amar

“Eu odeio você, Ace! Vou embora, e ninguém nunca mais vai me ver!”
— de Sabo para Ace, quando tinham doze anos.
Quando Pudding terminou de explicar, em detalhes, tudo o que sabia, a cabeça de Koala já girava de tanta informação. Jamais se perguntara sobre seu pai biológico, uma vez que ele era uma lembrança muito distante em sua mente. Nunca se passara por sua cabeça que ele tinha uma família, e que essa família, por consequência, também era a família dela. E, mesmo se cogitasse essa possibilidade, como poderia imaginar que seu pai fora criado em berço de ouro? Um homem perdido como ele não dava nenhuma pista de que era um rico excomungado da família, e, mesmo se desse, uma criança jamais perceberia.
— Eu dou todo o crédito pra Robin por isso. — declarou Pudding.
— Para a Robin?
— Foi ela que desconfiou desde o início. Quando nos conhecemos, ela notou a semelhança entre nós, lembra?
Realmente, havia uma lembrança de um dia assim.
— Primeiro, ela achou que fôssemos irmãs. A minha mãe tem muitos filhos, não seria algo muito difícil de acontecer, mas depois de investigar melhor, faria mais sentido que fosse minha sobrinha. Ela conhecia e mantinha contato com um vizinho seu, que conheceu seu pai, e ele a ajudou na pesquisa da sua árvore genealógica.
— Isso.. Isso é... — piscou uma centena de vezes. — q-quando descobriram isso?
— Desde que voltou de Gifu. — ela deu um sorriso arrependido. — não disse nada antes porque queria esperar o momento certo. Ainda não acho que seja o momento certo, mas é o mais necessário. Não precisa se preocupar com nada, porque pode contar comigo. Eu vou te ajudar. Tenho algumas irmãs que vão ficar felizes em te conhecer também! A Lola, a Chiffon.
Respirou fundo, procurando se acalmar. Agora que havia a possibilidade de sair da casa de Sabo, a ideia a deixava dividida. Parecia um pouco extremo... Não. Essa não era exatamente a palavra certa. Definitivo, talvez? O que seria deles se ela fosse embora mais uma vez? Seria um caminho sem volta.
No entanto, não teve coragem de compartilhar suas inseguranças com Pudding, ainda mais depois de tudo o que ela havia lhe dito. Não falou muito depois daquilo, apenas abriu um sorriso inseguro e disse que iria pensar no assunto. Felizmente, sua “tia” não forçou nada, provavelmente imaginando que ainda estava se acostumando com a ideia, o que não era mentira.
Porém, o que a afligia de verdade tinha cabelos loiros, e uma personalidade muito complicada.
(...)
Uma vez, quando eram garotos — por volta dos doze anos, mais ou menos — Sabo e Ace discutiram feio. Não lembrava o porquê, mas Ace havia feito algo que, mais de duas vezes, ele lhe pedira para não fazer. Lembrava-se dele dizendo “quanta frescura!” e isso ser o gatilho para que começassem a se socar, e que Luffy ficou entre os dois em dúvida sobre o que fazer.
Dadan, a babá deles na época, deu um cascudo nos dois, e ainda fez Sabo se desculpar com Ace, porque, segundo ela, quem batia primeiro sempre devia desculpas, e esse era um fato. Como aquilo era injusto. Ela nem sequer quis entender o que levou àquilo, e, no auge da raiva, pensou em fugir de casa no meio da madrugada.
Quase riu do pensamento. Toda criança enfurecida já pensara nisso um dia, mas ele quase teve coragem de realmente tentar. No fim, desistiu da ideia, mas não se recordava o que lhe fizera desistir. O que havia em sua mente eram lembranças de uma noite quentinha, aconchegante, e muito bem dormida, totalmente diferente de sua última noite.
Jogado em sua escrivaninha com a garrafa de vinho mais caro da adega, sentia o sono começar a querer pegá-lo. Não pregara o olho, e a consequência começava a aparecer. Talvez por isso estivesse começando a ter pensamentos e lembranças bobas e sem importância. Estava começando a delirar.
— Sabo? Os fornecedores chegaram para...
Abriu os olhos de uma vez, assustado. Era Hack.
— Estava dormindo?
— Dormindo? Não — esfregou a mão no rosto. — o que você dizia?
Hack suspirou.
— Não é nada, deixe pra lá. Eu posso cuidar disso pra você antes da chegada do gerente de TI. — deixou umas pastas na mesa dele. — isso aqui é pra você analisar, mas faça isso mais tarde. Mudando de assunto, e o seu pai?
— Ainda não deu notícias — olhou para o celular. — nem ele e nem Inazuma.
— Não faz tanto tempo assim que eles viajaram, devem estar se instalando ainda.
— Eu sei, mas mesmo assim... — estalou a língua. — é muita coisa pra pensar ao mesmo tempo.
— Sabo, você poderia descansar um pouco, sabe disso. — Hack, que vinha agindo como um segundo pai para Sabo, deixou de lado um pouco o fato dele ser seu chefe, e resolveu ser sincero com o jovem patrão. — você é só um garoto. Pode ser genial, muito talentoso, mas não precisa de tanta responsabilidade sobre seus ombros. Ao menos, não aqui.
— Lá vem você de novo com essa história — ele revirou os olhos. — sabe que não é simples assim.
— Você não é o único na empresa. Eu sou seu advogado, estou aqui pra te substituir no que precisar aqui dentro. Já vi duas pessoas fazerem isso com si mesmas, e o resultado não foi muito bom pra nenhum deles.
Embora não gostasse naquele papo, a curiosidade falou mais alto.
— Quem?
— Seu pai — ele respondeu. — se lembra do golpe dos Marshall, não lembra? de Teach.
É claro que lembrava. Foi nessa mesma época que seu pai começou a precisar trabalhar dobrado para compensar o prejuízo.
— E o outro?
— O seu irmão.
Nem precisar perguntar qual deles, afinal, era óbvio que se tratava de Ace.
Ouviram uma batida na porta, e ao invés de perguntar de quem se tratava, Hack, que estava mais perto da porta, a abriu.
— Quem seria a senhorita?
— A secretária me deixou entrar, eu sou a...
Ela não terminou de falar, pois Sabo se levantou da cadeira num pulo, até erguendo um pouco da escrivaninha no movimento. Seu estômago se revirou, e seu olhos com sombras escuras se arregalaram ao vê-la.
— Koala.
Hack olhou para um e outro.
— Bem, vou deixá-los à vontade, com licença.
O doutor acenou para ambos com a cabeça e saiu.
Koala tinha as mãos juntas à frente do corpo, e remexeu os dedos, nervosa. Não sabia como havia tido coragem de visitar aquele lugar. Era tudo muito diferente, jamais vira um prédio comercial por dentro, ao vivo e à cores. Todos eram tão formais, sérios e ocupados, que se sentira acanhada no meio de todas aquelas pessoas. Até mesmo Sabo parecia diferente, usando terno e gravata completos, naquela sala enorme e toda cheia de vidros.
Ali de pé, olhando para ela, Sabo experimentou uma mistura de sentimentos. Um lado seu estava irritado, e insistia em lembrar do acontecido da noite anterior, mas seu outro lado queria apenas correr e abraçá-la. Queria sentir seu cheiro, tocar seu cabelo, sentir a curvatura de sua cintura. Não a vira o dia todo, mas parecia uma eternidade.
— Boa tar... Quero dizer, boa noite. — ela disse.
Já passava das seis? Olhou no relógio na parede.
— Boa noite. — repetiu, meio desnorteado, até que se deu conta de algo. — cadê o Blaze?
— Trouxe ele comigo, mas dormiu no caminho. A sua secretária deixou ele deitadinho no sofá da sala dela.
— A Padomi gosta muito de crianças.
— É — deu um sorriso breve. — percebi.
O silêncio se instalou. Logo entre eles, que tinham tanto a dizer um ao outro.
— Eu queria saber se você já se acalmou. — como ele apenas a encarou, ela explicou: — você saiu muito irritado de casa ontem.
— Bem, acho que eu tive motivos. — retrucou.
Ela percebeu que o diálogo entre eles não seria fácil.
— Eu pensei no que disse sobre eu não te aceitar, sobre não gostar de você sendo você.
Ele deu as costas, com dificuldade de encará-la. A paisagem da cidade ao pôr do sol estava bem em sua frente, mas não prestou atenção em nenhum detalhe.
— E então? — perguntou, carrancudo.
— Eu errei quando levei sua... — ela balançou a cabeça, evitando a palavra “mãe” — levei aquela pessoa para te ver sem te consultar. Foi errado.
Por um instante, achou que ela pediria desculpas e que lhe daria a razão.
— ...Mas — ela continuou. — tem algo, dentro de você, que impede você mesmo de ser feliz. Por muito tempo, achei que fosse apenas uma coisa, mas agora, pensando bem...
— Pensando bem o que? — ele deu um bufada irônica. — conseguiu desvendar todos os mistérios da minha vida?
— Não — negou com a cabeça calmamente. — mas eu acho que, no fundo, você ainda é só um garotinho. Um garotinho que precisa de amor, carinho, e compreensão. Que foi tão machucado e tem tantas cicatrizes que quando alguém se aproxima, tem medo que seja para te machucar.
O buraco em seu peito começou a parecer mais vazio que antes, e, mesmo que não fosse a intenção dela, mesmo que sua cabeça dissesse que ela estivesse falando coisas idiotas, seu coração dizia o contrário.
— Não poderia estar mais longe da verdade. — disse com a voz trêmula.
— Eu acabei escutando o que você e seu amigo diziam. Eu sei que você não precisa se esforçar tanto assim no trabalho ao ponto de nunca parar em casa. Sempre achei que isso não fazia muito sentido, ainda mais em uma empresa com tantos a ajudar.
— Foi você que sempre disse que queria que eu assumisse ou negócios — se virou de uma vez, erguendo a voz.
— Sei disso, e ainda acho que era o certo.
— Então por que não consegue compreender?
— Porque você queria compensar alguém, não era?
Ficou mudo, e sua mente ficou em branco.
— Você queria compensar seu pai, porque ele está doente, porque te deu um teto, porque te deu um lar. Você queria compensá-lo, e fazer tudo sozinho, porque assim, então, quem sabe, se sentiria verdadeiramente amado por ele.
— Isso não tem nada a ver com ele!
Ela tinha uma expressão triste, como de alguém que quer chorar. Lentamente, ela andou até ele, abraçando-o. Sua vontade era de retribuir o abraço, mas não podia fazer isso. Não podia abaixar sua guarda.
— Eu amo você. Meus irmãos amam você. Seu irmão ama você, e, claro, seu pai. Até nossos amigos amam você. Todos amam você.
Ela estava tremendo. Seu rosto estava afundado em seu tronco, mas podia senti-la chorar.
— Mas — ela deu uma fungada — se você não consegue entender isso, tudo o que eu posso fazer é lamentar.
Por que? Por que abraçá-la era tão difícil? Porque não conseguia dizer que a queria de volta?
— Vou estar à sua espera.
Ela se virou, e enquanto se dirigia à porta, — o que na mente dele, parecia em câmera lenta — ele esticou o braço, e encheu o pulmão de ar, preparado para dizer “não vá”.
Queria se jogar de joelhos no chão, e implorar, mesmo que isso lhe custasse todo seu orgulho, para que ela continuasse em sua vida. Para que tudo voltasse a ser como era antes, para que conseguisse se sentir feliz de novo.
Mas, na mesma hora, a porta se abriu, e Hack apareceu na porta.
— Sabo, o gerente de TI chegou.
O loiro parou, e recolheu a mão. Koala se curvou para Hack, e passou pela porta, sem olhar para trás.
Sabo passou por Hack, seguindo-a até o corredor, e a viu de longe, pelas janelas de vidro, agradecer a secretária por cuidar de Blaze. Ela o pôs nos braços, seu angelical rosto adormecido aconchegado no colo daquela que tinha como mãe.
— Sabo? Precisamos ir. — Hack chamou sua atenção.
Mas continuou ali, vendo-a pegar o elevador, e indo embora.
Cheio de dúvidas, incertezas e tristezas, passou o resto do dia tentando se ocupar com o trabalho, mas não adiantou. Sua mente estava focada nas palavras de sua namorada.
“Todos amam você”.
(...)
Koala foi paciente. Assim que voltou para casa, agiu como se tudo estivesse perfeitamente bem, embora sua mente estivesse um verdadeiro turbilhão. As crianças perguntavam se estava bem, e o motivo de sua ausência, mas conseguiu contornar tudo contando uma história qualquer. Os mais novos acreditaram, mas Shin não.
Um dia inteiro se passou, e Sabo não voltou para mansão.
Depois, mais um dia se passou, e continuou esperando.
Quando o terceiro dia se passou, perguntou à Pudding se a proposta do apartamento ainda estava de pé.
E então, no quarto dia, quando todas as crianças voltaram da escola, avisou-os que precisariam se mudar, e que deviam pôr nas malas tudo de mais importante, e que mais tarde buscariam o resto. Foram muitas as perguntas, e para quase todas, não tinha uma resposta.
Blaze foi junto, afinal, mesmo em uma casa cheia de empregados, ela era a responsável por cuidar dele, independente de onde estivesse.
Então, numa noite de sexta-feira, Koala e suas sete crianças foram embora da mansão.
(..)
— Não é tão ruim, não acham?
— Eu prefiro a mansão — Nina cruzou os braços — quando vamos voltar?
Embora a refeição fosse a preferida deles, pizza, ninguém parecia exatamente animado com a nova mudança.
— Quando eu souber te responder isso, eu vou dizer. Mas, por enquanto, vamos ter que nos acostumar com aqui.
— Mana! — Aurora chamou sua atenção. — e quando Sabo-san vem?
— Q-quero saber... — Marion murmurou, tímido.
Rock a encarou, esperando a resposta.
Não poderia dizer a verdade a eles. Aceitou que, oficialmente, Sabo e ela estavam separados. Era difícil lidar com aquela dor, e ainda ter que pensar em uma forma de explicar às crianças que a pessoa que pusera na vida delas, que lhe prometera estar com elas, a partir de agora não estaria. Não sabia como as coisas se sucederiam a partir de agora, afinal...
Olhou para Blaze, aninhado em seu colo.
Por quanto tempo mais ela poderia estar com Blaze? Tinha dúvidas se Sabo ainda a quereria como babá de seu sobrinho estando tão ressentido. Era doloroso se sentir rejeitada por alguém que amava tanto, e, ao mesmo tempo, saber da possibilidade de perder outra pessoa que amava.
Quando deu a hora de ir dormir, e as crianças se arranjaram em seus quartos, Koala terminou de tirar algumas coisas da mala. Se mudar sozinha já era difícil, mas com aquele número de crianças era quase impossível.
Entre suas coisas, encontrou um DVD branco.
“24/08/2015
Festival cultural”
Era verdade! Fazia muito tempo que ela pegara naquele DVD, e após tantos acontecimentos, até se esquecera dele. Já estava tarde, e amanhã tinha um dia cheio, mas mesmo assim, não resistiu à tentação de abrir. Colocou o CD em seu notebook, esperando ansiosa por algo.
Mas não apareceu nada. Estranhou, então tirou o CD para analisar. Estava arranhado! E eram arranhões estranhos, não pareciam terem sido feitos pelo tempo. Parecia que alguém o havia arranhado de propósito.
Por algum motivo, estava decepcionada. Com a caixa do DVD em mãos, jogou-se na cama, olhando para o teto. Ergueu a caixa, estranhando suas próprias atitudes. Não estava agindo como ela mesma nos últimos tempos.
Que estranho, a caixa parecia mais pesada que o normal. Mediu o peso com a mão, checando se o CD estava lá. Não, estava na mesa. Começou a balançar, sentindo que havia algo dentro dele. Estava... Dentro da capa? Isso. Havia um DVD na capa, entre o papel e o plástico. Era um CD branco, intacto. Mordida de curiosidade, logo pôs o CD no notebook, e este sim abriu.
Era Ace! Ele estava em um show, num lugar aberto.
“You show us everything you've got
You keep on dancin' and the room gets hot
You drive us wild, we'll drive you crazy”
Conseguia distinguir Ace lá no palco, tocando guitarra e cantando. Quem estaria gravando? Tentou prestar a atenção na voz, e algo nela lhe parecia estranhamente familiar. O vídeo então teve um corte, e agora Ace começava a cantar outra música. Essa ela conhecia. “Can’t take my eyes of you”.
“You’re just too good to be true
Can’t take my eyes off you
You’d be like heaven to touch
I wanna hold you so Much
At long last love has arrived
And I thank God I’m aliver
You’re too good to be true
Can’t take my eyes off you”
Essa parte era encantadora. Ace lentamente descia do palco, e quando ele chegou ao chão, a multidão abriu espaço para ele. Até que a câmera captou uma única pessoa parada: Bonney. Ela estava com as bochechas muito vermelhas, observando Ace ir até ela com o olhar fixo apaixonado.
“I love you, baby
And if it's quite alright
I need you, baby
To warm the lonely night
I love you, baby
Trust in me when I say
Oh, pretty baby
Don't bring me down, I pray
Oh, pretty baby
Now that I've found you, stay
And let me love you, baby
Let me love you”
“Deixe-me te amar” traduziu em sua mente, automaticamente lembrando-se de Sabo. Procurou-o em algum lugar da câmera, mas não o viu. O resto do vídeo era basicamente uma declaração de amor de Ace para Bonney, continuando a canção.
No outro corte da câmera, outra pessoa tomou a câmera e quem gravava apareceu. Era em um lugar diferente, na rua. “O que achou do show, Coby?” a outra voz perguntou.
Coby?! Nossa, como ele estava diferente! Tão pequeno e franzino. Passado o susto, reparou em algo na câmera. Era um tom vívido de rosa que ela conhecia bem. Pausou o vídeo, e tentou enxergar bem o que acontecia ao fundo do vídeo. Era Bonney, a mãe de Blaze, e ela estava... Com outra pessoa? Parecia um homem, mas não conseguia decifrar bem quem era, mas certamente não era Ace. Bonney tinha os braços cruzados, e quando o homem passou a mão por sua cintura, ela lhe deu um tapa no braço.
A câmera mexeu um pouco, e por alguns segundos, perdeu-os de vista, mas quando encontrou novamente ela entregou algo que parecia dinheiro. Demorou para distinguir o que era, mas foi a única conclusão que chegou.
Quem era aquele homem? Tinha a impressão de já tê-lo visto em algum lugar, mas onde? Será que não passava, de fato, de uma impressão? Sabia tão pouco sobre a mãe de seu menino que talvez estivesse criando algo ficcional em sua mente.
No dia seguinte, pediu o contato de Coby para Pudding, que conseguiu através de outros amigos. Se havia alguma pista, Coby deveria saber.
“Eu vi o vídeo e sou eu mesmo, na época da escola. Eu era do fã-clube do Luffy-san e gostava de Ace-san também” — ele deu um leve risada. — “faz anos que eu não vejo essa gravação. Lembro que ela sumiu por uns dias, e quando voltou, estava arranhada, acho que essa que você viu era uma cópia. Enfim, lá no fundo parece a Bonney, mesmo, mas não faço ideia de quem está conversando com ela. Quando gravamos isso não a vimos. Era numa rua à duas quadras da escola, é tudo o que me lembro”
As informações que Coby dera não contribuíram muito, mas mesmo assim agradeceu e não insistiu mais no assunto, afinal, não gostava de incomodar os outros num sábado de manhã.
Por hora, deixou aquele assunto de lado. Tinha muitas coisas para resolver, como o evento na creche, e bancar a detetive não estava no topo de sua lista de prioridades.
Suspirou, sentindo sua respiração tremular enquanto arrumava a bolsa de Blaze. Era difícil agir como se nada tivesse acontecido quando estava tão despedaçada. Pior ainda era saber que o pedaço que faltava não estava muito longe dali fisicamente, mas sim, emocionalmente.
(...)
Quando saiu da empresa, Sabo foi praticamente obrigado por Hack e Yamato — e um pouco por Padomi também. — a tirar o dia de folga. Que fossem para o inferno, todos eles. O que mais precisava naquele momento era se concentrar ao máximo no trabalho, para assim poder ocupar a mente com algo que não envolvessem mulheres.
Na verdade, não eram “mulheres” no plural, e sim apenas uma. Para tentar tirá-la de sua cabeça, resolveu fazer atividades que o agradavam quando era um colegial. Foi ao centro de tacadas, comeu lámen de uma barraca, sentou-se na grama observando o rio correr. Mas, no fim, voltou ao seu antigo apartamento. A senha ainda era a mesma, e quando adentrou, encontrou-o vazio. Isso o surpreendeu, por algum motivo. Em algum lugar de sua mente, pensou que encontraria o mesmo lar que dividiu com Koala e Blaze, tudo do mesmo jeito. Todas as risadas, brincadeiras, e até brigas foram naquele lugar, e lhe despertavam lembranças.
Recordava-se de quando maratonaram filmes musicais da Disney, e dormiram os três jogados no sofá, enrolados em cobertores quentes. Lembrou-se do dia em que hastearam o koinobori na varanda, no dia dos meninos, e Koala fez mochi de feijão doce. Lembrou também do dia em que achou um modelo de “Thomas, o trem” em lego que jamais vira, e comprara a enorme caixa de presente para Blaze. Sabo e Koala ficaram até tarde montando os trilhos do trem, e jogaram muita conversa fora, falando sobre futilidades.
Sinceramente, Sabo não estava mais com tanta raiva assim de Koala. Ainda estava ressentido, mas o último encontro o fez perceber que não sentia rancor dela, mas sim um sentimento que era uma mistura de saudade, remorso, culpa e saudade. Mas, como poderia voltar a encará-la quando não conseguia ser o que ela queria?
Talvez eles não estivessem destinados a ficar juntos. Talvez toda aquela situação fosse uma prova disso, afinal, parecia que o universo estava sempre decidido a tentar separá-los. Iria embora. Estava sendo pressionado por seus sócios a deixar o país, e era isso o que faria. Ainda tinha que decidir o que faria em relação à Blaze. Talvez deixá-lo com seu pai, quando este retornasse, e Koala poderia continuar cuidando dele. Seus problemas com ela não o afetariam.
— Pra onde vai? — ouviu Shanks perguntar, parado à batente da porta do quarto de hóspedes. Não havia um motivo real para estar na casa de Shanks, por isso resolveu que iria para um hotel aquela noite.
— Um hotel. — respondeu.
— Está bem tarde.
— É, mas com certeza vai ter algo aberto.
Shanks, que estava de braços cruzados, suspirou e adentrou no quarto, claramente incomodado com aquela situação.
— Sabo, sabe que tenho apreço por você como tenho por Luffy. Vocês são como filhos para mim.
Olhando para ele por um instante, continuou arrumando a mala.
— Por isso, não posso deixar de te dar um conselho: se você realmente ama essa mulher, tem que lutar pela felicidade de vocês.
— Você não sabe da história.
— Eu sei o suficiente.
A prepotência dele começava a irritá-lo.
— Alguém com o histórico como o seu não deveria ter a coragem de dar nenhum sermão. — respondeu atravessado, com a intenção de provocá-lo.
Mas Shanks permanecia impassível, com uma fachada paternal que o incomodou mais ainda.
— Você tem razão. — ele deu um sorriso triste. — eu quase perdi a Makino. Não consegui superar a morte de Roger. Aquele homem... Ele era tudo pra mim. Era meu mentor, o único pai que eu tive. Ele nunca iria querer me ver afundado na bebida, levando meu relacionamento pro buraco. Mas sabe de uma coisa? Quando eu me dei conta disso, e comecei a me esforçar, a querer sair daquela... Tudo foi diferente. Porque a Makino estava lá, e ela me amava tanto quanto eu a amava. Não apenas ela, e nem apenas eu, mas... Juntos, conseguimos fazer dar certo.
Quando começou a entender o que ele queria dizer, sua raiva foi diminuindo, até sobrar algo parecido com vergonha e culpa. Sem conseguir encará-lo, mirava o chão.
— N-Não adianta mais nada me falar isso. Eu já decidi. Vou morar nos Estados Unidos.
— Fugir não vai resolver nada. — Shanks balançou a cabeça. — essa é a saída dos covardes, e você é filho de Dragon, Sabo. É um D de verdade, não como os Marshall e alguns outros. Não é um covarde. — o ruivo sorriu, pondo a mão em seu ombro. — não deixe o fantasma do seu passado o impedir de ser feliz no futuro.
— Mas... — engoliu o seco, sentindo os olhos começarem a molhar, mas se segurando. — m-mas e se...
— Se tem certeza de que ela é a mulher da sua vida — Shanks disse sério, quando o loiro finalmente o encarou fundo nos olhos. — vá atrás dela.
Por uns segundos ele ficou lá, parado.
— Agora! Anda! — deu um tapinha no braço dele. — vá atrás da sua mulher! Não perca tempo.
Perdido por alguns segundos, Sabo tateou a cama atrás de seu celular, com as mãos tremendo, e quando o pegou, saiu correndo pelo corredor. Instantes depois, ele voltou correndo, e sorrindo para Shanks, disse:
— Tenho certeza de que ele estaria orgulhoso de você agora. E parabéns pelo novo bebê.
Shanks deu um largo sorriso, vendo-o sumir novamente. Pegou o celular, e procurou um contato específico.
“Deu tudo certo. Daqui em diante, eles vão se acertar sozinhos”
A resposta foi um monte de emojis felizes. Bem coisa de um menino de doze anos, pensou com graça.
(...)
Quando deu onze horas, Koala recebeu uma mensagem de Reiju avisando que Blaze estava aos prantos, e ninguém conseguia acalmá-lo. Felizmente, seu apartamento era mais perto da creche do que a mansão, de forma que demorou alguns minutos apenas para chegar lá. Com o coração na mão, encontrou a irmã de Sanji com o outro rosado no colo, chorando tanto que soluçava.
— Ele não participou muito das brincadeiras e dormiu antes de todo mundo. Mas então do nada acordou chorando muito, acho que teve um pesadelo, e chamou por mamãe e papai. — a professora explicou.
— Ah, meu amor — Koala pôs Blaze no colo, abraçando-o. — a mamãe tá aqui, calma... Calma...
Ele continuou soluçando, mas ao menos não estava mais gritando. Pegou a bolsa com suas coisas, e se desculpou com a moça pelo inconveniente, partindo logo em seguida.
Não devia tê-lo deixado ali num momento de sensível. Blaze precisava de carinho, atenção e... Respirou fundo.
Ele precisava do pai. Aquela situação estava passando do ponto. Seu bebê estava mal, e isso era culpa dos dois. Blaze precisava de Sabo, a pessoa que o criou sozinho por um ano inteiro. A pessoa que Blaze amava.
A pessoa...
A pessoa que Koala amava. Não havia como negar. Enquanto andava pelas ruas escuras, frias e vazias, apenas com si mesma e seus pensamentos, Koala percebeu o que Sabo representava em sua vida. Ela o amava, de corpo e alma, apesar de todos os seus defeitos. Quando ela o deixou e voltou para sua terra natal, ele gostara dela o suficiente para ir em sua busca.
Blaze se mexeu em seu colo. Ele voltara a dormir.
Não se considerava uma mulher fraca. Pudding estava certa no que disse, mas... Se Sabo conseguira insistir e perseverar em várias situações, ela também conseguia, pelo bem de Blaze, de seus irmãos, e de tudo o que construíram juntos.
E por ela também, porque... O amava, simples assim.
Enquanto pensava em ir atrás dele assim que o sol raiasse, tudo aconteceu num instante: Koala se preparava para virar uma rua, quando uma van parou em sua frente, e um homem parrudo abriu a porta e lhe apontou o cano de uma arma.
— Hoje é o seu dia de sorte, mocinha. Me entrega o menino e você pode ir.
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