Baby Care

26 Coração


"Sei que é difícil, Ace. Ficar sem a Bonney te despedaçou. Posso imaginar sua dor, mas infelizmente, nunca saberei como é. Apenas quero que saiba que estou aqui para o que precisar. Qualquer coisa, mesmo. Eu nunca deixaria de te ajudar, meu irmão."

— de Sabo para Ace, dois dias antes de Ace entregar Blaze para Sabo.

Quando era bem pequena, Koala sentia-se extremamente sozinha. Sempre fora uma criança muito responsável, por isso, quando chegava da escola, punha seu avental e começava a limpar a casa com gosto, tratando de prestar atenção no tempo para que preparasse o jantar antes de seu pai chegar, ao entardecer.

E, quando jantavam, Fisher Tiger ignorava todo o cansaço de um dia longo de trabalho e ouvia atentamente a todas as aflições de uma menina de sete anos, além de atritos e notas exemplares na escola. Aqueles momentos — de refeições com seu pai — eram de extrema alegria para ela, porque havia alguém com quem conversar. Como tinha inveja de suas amigas com irmãos!

Foi aí que algo aconteceu. Um belo dia de domingo, em que o sol estava mais forte que o normal e os pássaros cantavam lindamente, uma linda mulher loira apareceu em sua casa, com um embrulho nos braços.

— Este é seu filho — ela disse diretamente a Tiger. — não posso ficar com ele. Deus há de me perdoar por mais um pecado terrível, mas não posso.

Nem se lembrava do rosto da moça, apenas de seu cabelo amarelo como o sol, que aquele pequeno gorduchinho de pele escura e desdentado herdou. Tiger passou muito tempo calado, observando o menino que tanto parecia com ele.

— Ele é seu? — perguntou a ele, pondo o dedo na palma do neném. — é esquisito.

— Na verdade, é nosso — respondeu. — teremos que criá-lo juntos, Koala. Acha que pode me ajudar com isto?

— Posso! — sorriu satisfeita.

No início, teve de admitir que foi divertido. Gostava de brincar de casinha, mas quando Shin começou a engatinhar e mexer nas coisas, a pequena Koala percebeu que teria de amadurecer rápido demais. Aos dez anos, quando seu irmãozinho enfim se tornou um pouco mais independente, Tiger voltara da cidade com um garotinho nos braços. Ele tinha apenas um ano, e se chamava Rock. Outra criança de cabelo chamativo.

— De onde ele veio? — perguntou a seu pai, mas não obteve resposta.

Apenas após o sexto bebê ser abandonado em sua porta, — Nina, a mais nova e última a ser adotada — quando Koala tinha por volta de quatorze anos, é que exigiu que o pai lhe contasse de onde seus irmãos vinham, e a verdade não poderia chocá-la mais.

Anos antes de Koala sequer nascer, Tiger criara um negócio que agenciava prostitutas em Shibuya, onde quase todas as mulheres eram imigrantes ilegais, assim como ele. Com o tempo, ele cansou-se do caminho errado e resolveu morar no interior, longe da maioria da sociedade. Mas, em uma visita à antiga cidade, reencontrou uma das prostitutas, e desse relacionamento Shin surgiu, o único que era seu filho de sangue.

As demais prostitutas, que seguiram com a mesma vida, acabavam por ter filhos inconsequentemente e sabendo que Tiger era um bom homem, davam-lhe seus filhos para que ele criasse como bem entendesse. No fim, quem criava mesmo era Koala, que passava a maior parte do dia com eles.

Agora, vendo-os crescidos brincando uns com os outros, lá fora, pensava que tudo havia valido a pena. Os amava com todo o seu coração, e sobrara bastante espaço para amar Blaze também. Não sabia nem explicar o tamanho da dor que sentira quando o dia de partir chegou, quando se mudou para Tóquio. Quase todos choraram, mas manteve-se firme para não fraquejar. Ela ia embora para vencer na vida, pelo bem de todos, e chegou na capital com aquilo em mente.

— Uhuuuuuuul! — Rock gritava, descendo a ladeira em um carrinho de rolimã.

Sabo corria atrás dele, rindo a plenos pulmões, seguido pelas crianças menores.

— Miá veix! — Blaze gritou quando Rock parou lá na frente.

O ruivinho subiu correndo com o brinquedo que Sabo fizera com eles, e entregou para o próximo. Notou como isso foi maduro da parte dele. Normalmente, Rock não cederia para os outros assim tão fácil.

Nina e Aurora, sendo menores, sentaram-se juntas, colocando Blaze entre elas para “maior proteção”. O carrinho desceu em alta velocidade e chegando no fim, os três caíram. Achou que chorariam, mas o trio se debatia no chão rindo.

— Você caiu feião, ahahaha! — ouviu Nina dizer.

— Você que caiu tipo... Bum! Ahahaha! — Aurora respondeu.

Blaze balbuciou algumas coisas também, mas ninguém entendeu.

Sabo olhou para Koala de longe, feliz por vê-la ali com eles. Normalmente, ela estava sempre ocupada com algum afazer ou cuidando do plantio. Como, segundo ela, todo o plantio já havia sido feito, tinha o dia livre para fazer o que quisesse, até porque Sabo ajudava a limpar a casa e a preparar as refeições. Às vezes, ele se aventurava auxiliando-a na plantação, porém sendo um homem da cidade, mais atrapalhava do que ajudava de fato. Mas até que era notável a determinação dele em ajudar.

À tarde, após o almoço, todos os mais novos cochilaram, — fisicamente cansados daquela brincadeira da manhã — e os três mais velhos adiantavam as lições de férias da escola. Como a casa estava calma, Koala aproveitou para ir à casa de Kokoro-san, uma gentil amiga da família. Tinha de entregar a parte dela da colheita, já que senhora entregara parte de sua própria colheita para ela mais cedo.

E foi sorrindo, aproveitando a tranquilidade de mais um dia calmo.

(...)

Comendo uma melancia, sentado no corredor de fora, Sabo refletiu sobre como estava gostando de estar ali. Não esperava que fosse gostar tanto, considerando que sempre fora um cara muito urbano. Após tanto tempo ali, quase esquecera-se do cheiro de poluição e de como era andar em meio a uma multidão.

Olhou para seu celular, checando se havia sinal. Às vezes ele falhava, e ficava preocupado se alguém ligasse com alguma emergência. Seu pai, especificamente, não saía de sua cabeça desde a conversa que tivera aquela conversa com Koala no dia anterior. Temia que ligassem para dar más notícias, mas ficar alheio a tudo também era um tanto angustiante.

— Você... É... — Shin apareceu atrás de si, com um caderno e lapiseira em mãos. — Sabe equação do primeiro grau?

Assentiu satisfeito, e bateu de leve no lugar ao seu lado para que ele sentasse. Bem desconfortável, o garoto sentou, e mostrou o problema e o que não entendia do dever. Sabo era suficientemente bom em matemática, e conseguiu sanar a dúvida de Shin com rapidez.

— Não é tão difícil depois que pega o jeito, não é? Ah, mas não se esqueça que quando o xis vai para o outro lado do igual, sempre se torna negativo.

— Por isso o sinal sempre ficava errado — Shin coçou a cabeça, meio frustrado com a própria burrice.

— A partir de agora, não vai mais errar isso.

Sabo podia ver que Shin queria algo mais, ou ele não teria saído do quarto e ido até ele. Os deveres de casa eram uma desculpa para algo mais, e se sentia feliz por ver seu cunhado esforçando-se minimamente para se dar bem com ele.

— A sua... — Shin pigarreou, olhando para qualquer canto, menos para ele. — A sua perna, ela...?

Levantou a perna, checando a canela. Ela ficou roxa uns dias depois do chute de Shin, mas já estava melhor agora.

— Não foi nada — tranquilizou-o com um gesto com a mão.

— Tem certeza?

— Doeu, é verdade, mas já sarou. Você tem uma perna boa, sabia? Seu chute é muito forte — ajeitou-se em seu lugar quando uma ideia passou por sua mente. — Já pensou em entrar no clube de futebol?

— Futebol?

Shin pensou na ideia.

— Tinha um na minha antiga escola.

— E não tem na nova? Normalmente o time de futebol é o mais cobiçado.

— O que é “cobiçado”?

— Tipo desejado.

— Ah. Enfim, tem, mas não posso entrar num clube mesmo — o loiro mais novo deu de ombros. — tenho que fazer o jantar pros menores, colocar as roupas no varal, e...

Shin ficou quieto de repente, e Sabo conseguiu imaginar o que ele pensava. Desde que Koala fora embora, parecia que Shin, o segundo mais velho, assumira para si todo aquele fardo. Isso não estava certo. Não era certo quando Koala era mais nova, e continuava sendo errado com ele. Shin só tinha doze anos, não deveria estar se preocupando com coisas assim. Devia estar na rua, brincando com os colegas de escola, caçando besouros e aproveitando a infância. Responsabilidades eram para adultos, como ele.

— A minha irmã — Shin finalmente abriu a boca, mas falava como se fosse um assunto delicado — ela tava muito mal.

— Mal como?

— Quando o papai morreu, ela não chorou. Nem uma vez. Todo mundo chorou, até eu, mas ela não. A mana não teve reação nenhuma no velório, apenas ficou lá, encarando retrato dele. — Shin passou a mão pelos cabelos, perturbado. — e quando todos foram embora e tiramos as roupas pretas, ela começou a trabalhar. Não parava um minuto, sempre cozinhando, preparando comida, com um sorriso tão... Tão... De plástico. — foi a única metáfora que conseguiu pensar. — não era ela mesmo. Não era, não.

Continuou escutando, atento.

— Mas aí você chegou e — Shin virou-se para ele. — achei que a culpa fosse sua.

— Em parte, era sim. — Sabo confessou em voz baixa.

— A maior parte, não. Era nossa. — enfatizou. — ela se mantém assim porque quer ser forte por nós, mas...

Shin não queria que sua irmã abdicasse tudo por eles. Em sua mente de moleque, vinha pensando numa forma de não atrapalhar a vida de Koala novamente. Ela não concordaria com isso, mas se aquele homem cooperasse, quem sabe...

— Só quando você passou mais tempo com ela, que a mana começou a sorrir mais vezes, de verdade. Mas ela ainda...

— Ainda guarda dor no coração — completou por ele. — sim, eu percebi.

— Então, você — Shin o encarou esperançoso. — pode fazer algo por ela?

Isso era tudo o que Sabo mais queria.

Conversaria com Koala à noite. Estava ficando preocupado com a falta de tempo. Logo precisaria acessar a internet para resolver assuntos relacionados à faculdade, além de outros assuntos de família.

Mas, enquanto ela não estava, aproveitaria uns últimos momentos. Quando Shin o agradeceu — como um menino educado, mas envergonhado — Marion acordou, e ficou o encarando como se perguntasse algo. Aprendeu de alguma forma o jeito como ele se comunicava, e entendeu que ele queria notícia de Koala.

— Ela ainda não voltou.

O azulado assentiu, e desceu para o quintal, pegando sua bicicleta. Notou que ela tinha rodinhas nos pneus traseiros. Ah, aquilo não estava certo. Resolveria aquela situação imediatamente.

(...)

— É muita gentileza sua trazer esse alho-poró.

Koala desceu da caminhonete de Kokoro, carregando um caixa com vegetais. Ao seu lado, a senhora carregava outra. As duas iam para a casa de Koala, já ao anoitecer. Não planejava demorar tanto, mas a mulher a manteve ocupada falando sobre os acontecimentos dos últimos tempos e reclamando do filho, pai de sua neta Chimney. Koala não era o tipo de pessoa que sabia cortar uma conversa no meio, então assentia e escutava o que ela tinha a dizer. Depois de um tempo, Kokoro percebeu que a segurara demais e a levou junto com os vegetais que planejava dar à família. Era demais para ela e a neta, e os Fisher precisavam de muito mais alimentos que elas.

— Não há de que, menina. Não carece ficar agradecendo o tempo todo — a loira respondeu. — seu pai era um bom amigo. Se não ajudasse, não estaria retribuindo sua amizade.

O sorriso de Koala diminuiu um pouco.

— Todos da vila foram muito gentis conosco. Clover-san, Shyarly-san, todos.

Finalmente chegaram à casa, que estava bastante silenciosa. Enquanto Kokoro-san colocava os vegetais na cozinha, foi procurar pelas crianças. Em um quarto, Nina e Aurora dormiam. Por coincidência, na hora em que abriu, Blaze estava acordando a coçava os olhos.

— Mamãe.

Ele se levantou, caminhando até Koala. Estava um fofo com o cabelo rosa bagunçado, apenas de fralda e camisa. Ele usava o penico, mas ainda precisava de fralda para dormir.

Pegou-o no colo e o aninhou. Ele estava quentinho e macio.

No outro quarto, os três mais velhos ainda faziam a lição, e não viu nem sinal de Marion. Ele estaria com Sabo?

Caminhou até o quintal dos fundos, deparando-se com uma cena curiosa. Como não queria chamar atenção, manteve-se escondida o máximo que pôde, espiando o que acontecia: era Marion, em sua bicicleta, como de cotidiano, mas dessa vez Sabo estava atrás dele, segurando o banco.

— Não olha pra baixo — ele pediu, como se falasse a milésima vez. — olha sempre pra frente.

Marion estava sujo e um pouco ralado, e sua expressão era de frustração. Seu irmãozinho devia estar muito chateado, coitadinho. Seu primeiro pensamento foi de interrompê-lo, mas então ele começou a pedalar e, mesmo caindo de novo, levantou-se e sentou a bunda novamente no banco, pronto para outra.

Sentiu-se envergonhada por seu pensamento. Marion não era um coitado. Ele queria andar de bicicleta. Talvez todos estivessem errando com ele quando o incapacitavam.

— Maion — Blaze apontou para o menino. — e...e...Ele bai adar bishiqueta?

— Acho que sim. — respondeu esperançosa.

— Papai eshina ele.

Blaze não podia estar mais certo. Ficou ali mais alguns minutos e, após algumas caídas, ele conseguiu se manter equilibrado andando por mais de um minuto inteiro. Parecia pouco, mas mesmo caindo, Marion virou-se para Sabo, com um sorriso de orelha a orelha. Sabo ficou imensamente feliz, e o jogou para o alto, bagunçando seu cabelo depois.

— Viu como você consegue? Só precisa praticar.

Com as bochechas rosadas, Marion abriu a boca:

— P-P-Podemos ir de novo?

Koala nem acreditou. Foi bem baixo e rouco, mas era a voz de Marion! Era a primeira vez que a ouvia desde que voltara.

— Ele finalmente falou, hein? Que grande conquista a desse rapaz.

Assustou-se ao ouvir a voz de Kokoro-san atrás de si.

— Sabe, ele é um bom rapaz. Dá pra ver que fez bem a todos vocês. Dará um bom marido no futuro, não é nada feio e — ela virou a cachaça pela garganta. — veio até aqui por você.

Atormentada por aquelas palavras, refugiou-se na cozinha. Colocou Blaze na cadeira, e sentiu Kokoro entrando na cozinha e se sentando ao lado dele. Para não encará-la, começou a lavar os vegetais.

— O rapaz gosta de você — a velha continuou. — todos estão dizendo isso. Um riquinho como ele não aguentaria muito tempo num lugar como esse se não gostasse de você.

— Ele gosta, mas... — segurou suas palavras, que saíam fortes demais. Suspirou, controlando-se. — ele gosta de mim. Sei que gosta, mas Sabo-kun... — era duro dizer a verdade. — ele não me ama.

— Como sabe disso?

— Quando estávamos em Tóquio — virou-se para ela. — ele nunca, repito: nunca disse que me amava. Sequer uma vez. E então, quando eu perguntei diretamente a ele, ele ficou com uma expressão de cachorro perdido, mas não conseguiu me responder. Como eu posso me relacionar com alguém sendo a única pessoa que ama de verdade?

Com os olhos cansados e cheios de pés de galinha, Kokoro a fitou por um longo tempo, pensando nas palavras dela. Koala quase gritava para que ela a respondesse, quando a senhora enfim disse:

— Minha filha, o amor não está só nas palavras, mas principalmente nas ações. Não conheço o mocinho direito pra saber a situação de vocês, mas se ele for um namorado carinhoso, que te trata com respeito e zelo, isso não é um tipo de declaração de amor? Veja bem: meu falecido marido era um demônio quando bebia, mas quando estava sóbrio, só ouvia palavras de amor de sua boca. Todas vazias. A única coisa que ele me deixou foi o vício em cachaça e nosso filho, outro patife.

Koala encarou o chão, considerando as sábias palavras da velha senhora.

Em seguida, olhou para Blaze, que se ocupava mordendo um pote.

— Eu...

Estava tão balançada que mal sabia o que queria dizer.

— Se as crianças estão te segurando aqui, Koala — Kokoro começou a dizer. — não precisa se preocupar.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que fico com elas. Pode voltar para Tóquio, estudar, trabalhar e se formar, como seu pai queria. Então, quando perceber que já tem condições de ficar com elas — a mulher fez uma pausa dramática. — as crianças serão suas.

(...)

— ...Papai foi pra roça e mamãe foi trabalhar...

Aconchegado no futon, Blaze adormeceu. Ele se acostumara a dormir com as outras crianças, pois agora seguia o exemplo delas em tudo. Todas as crianças dormiam no mesmo quarto, o maior da casa, enquanto os outros dois quartos eram ocupados por Koala e seu pai, no passado. Como era visita, Sabo fora instalado no quarto do pai, ao lado do de Koala.

— Você canta mal. — Nina comentou, rindo de leve. Ela tinha os olhinhos semicerrados, de sono.

— É? Vou parar então. — sussurrou.

Os outros já dormiam, e não queria acordá-los.

— Sabo-san — Nina a chamou em um outro sussurro.

— Hm?

— Eu queria que a minha vida fosse assim pra sempre.

Confuso, sentou-se.

— Assim como?

— Desse mesmo jeitinho — a rosada sorriu, fechando os olhinhos. Ela esfregou a bochecha no travesseiro. — parece um sonho.

Chamou por ela em voz baixa algumas vezes, mas ela não respondeu. Nina dormiu, assim como os outros.

Levantou-se e foi até seu quarto, com várias coisas se passando por sua mente. Já era tarde — na verdade, ainda era cedo para os horários urbanos, mas ali já era escandalosamente tarde — e estava na hora de dormir. Mas precisava conversar com Koala, e tinha que ser naquele dia.

— Koala? — a chamou quando parou em frente ao seu quarto.

— Entre.

Piscou, confuso. Normalmente, ela perguntava o que ele queria e saía do quarto. Ele nunca havia sequer pisado no quarto dela.

Quando o adentrou, reparou como não tinha muitas decorações. Apenas uma cômoda, uma estante de livros e uma escrivaninha de chão, que ela devia usar mais quando era uma estudante.

Ela estava sentada no chão, com algo em mãos. Reparou que ela uma foto. Por um instante, pensou que fosse dela, do pai, ou de uma das crianças. Mas quando se aproximou dela, viu que se tratava de uma foto de casal.

Sentou-se de frente para ela, no chão mesmo.

— São meus pais.

Ela entregou a foto a ele, pare que olhasse. Sabo a pegou, e nela havia um casal na casa dos vinte anos. Ou menos. Eles estavam em um bar, com cigarros na mão e... Espere, a mulher estava grávida? Olhou para Koala.

— Ela estava grávida de mim nessa época. — esclareceu. — eu não me lembrava do rosto dela. Não muito bem. Arrumando o quarto do meu pai, eu a encontrei. Eles eram um casal de inconsequentes que vivia o momento, e eram muito imprudentes. Minha mãe não me abortou, mas também não teve muito cuidado na gravidez. Quando eu nasci, tinha problemas respiratórios, e isso os fez gastar muito dinheiro comigo.

Atento a tudo o que ela dizia, Sabo assentiu.

Mas para sua surpresa, Koala se virou de costas para ele. Não entendeu nada, e quando ia perguntar algo, ela o surpreendeu novamente.

Tirando a camisa.

Ele ficou sem fôlego, mas não teve tempo de se sentir excitado. Seus olhos se arregalaram ao ver a enorme... Tatuagem? Não. Não parecia ser o caso. Aquilo era uma queimadura. Ou era uma tatuagem, de fato?

— O-O que é isso?

— Meu pai me batia muito. Me deixava sem comer. Minha mãe, normalmente não me maltratava, apenas me negligenciava. — narrava tudo com indiferença na voz. — Mas um dia, eles beberam muito e enlouqueceram. Meu pai disse que eu era um demônio, que sugava a vida dele, e minha mãe estava desmaiada de bêbada e não pôde me defender. Morávamos aqui na época, e eles criava porcos. O ferro de marcar os porcos estava bem ali à mão, e ele me marcou. Como se eu fosse uma porca. Eu só tinha três anos.

Sabo cerrou os punhos tão forte que sentia que poderia sangrar. Sentia tanta ira que sua vontade era sair por aí como um louco e revirar o caixão da mãe de Koala.

— Você me disse uma vez que escrevia cartas pra sua mãe, por quê?

— Se lembra disso? Estava doente.

— Não me lembro de muito, mas me lembro disso.

Ela assentiu, compreensiva.

— Eu sempre escrevi, realmente. Mas não escrevo mais. Não depois que descobri a verdade, quando já tinha quinze anos. Sempre tive esperança que minhas memórias turvas fossem inventadas, mas no fundo sempre soube a verdade. De qualquer forma, minha guarda foi passada para o meu pai Tiger. Meu pai se matou logo depois de me marcar e minha mãe foi presa, morrendo cinco anos depois, de infarto. Meu pai era o único parente dela, muito distante. Primo de um cunhado, algo assim. Tiger me criou bem. Até se tatuou com a mesma marca, acredita? Bem no meio do peito. Era bem escandaloso. Ele era... Era...

Koala tentou segurar, mas as lágrimas vieram como cascatas, sem que conseguisse se controlar. Parou de segurar os seios, e começou a tentar secar as lágrimas, em vão. Quanto mais tentava impedir, mas elas vinham, seguidas de soluços infantis. Mas por que estava tão triste agora? Seu pai estava morto, mas o momento de sofrer passou. Mas então, por que doía tanto? Por que ainda doía?

Sabo se levantou e a pegou como uma princesa, sem olhar com malícia para sua seminudez. Então, a deitou no futon e desligou a luz. Achou que ele sairia, mas seu ex-patrão se deitou ao lado dela, colocando o edredom por cima dos dois.

— Pode chorar — ele sussurrava. — chore com vontade. Lave a alma. Vou ficar aqui com você. Eu vou sempre estar aqui.

Era muito aconchegante ali, nos braços dele. Sabo era quentinho, e suas palavras lhe transmitiam paz. Se sentia... Protegida, cuidada, amada.

Amada?

Lembrou-se das palavras de Kokoro. Foi inevitável.

Passado algum tempo, apenas alguns soluços continuaram. No fim, até o soluço parou, e apenas ficou ali, naquele casulo protetor que ele criara para ela. Estava escuro, mas conseguia enxergá-lo pela luz da lua que entrava pela janela aberta.

— Obrigada — ela sussurrou. — me sinto melhor agora. Muito melhor.

Ele tirou algumas mechas de cabelo da testa dela, tudo para ver seu rosto melhor.

— Não me agradeça por fazer o mínimo, coração.

Coração. Como ela amava quando ele a chamava assim.

— Ko — ele a chamou.

— Sim?

— Na verdade, eu... — ele pigarreou. — eu vim aqui por um motivo.

— Aqui no meu quarto?

— Sim. Exatamente. Há algum tempo eu penso nisso, mas...

Ela esperou que ele falasse. Koala não percebia por culpa da penumbra, mas ele tinha a expressão muito decidida.

— Vamos ficar aqui. Blaze está amando viver aqui, e se adaptou muito bem. As crianças já gostam de mim, e eu me comprometo a cuidar da plantação. Você não vai precisar mais fazer aquilo. Só tarefas domésticas, que é o que você gosta. Sei que não sou bom nisso, mas vamos fazer dar certo. Eu prometo. — ele disse. — eu posso fazer isso. Posso lidar com tudo isso. Só o que eu não posso, coração, é ficar sem você.