Baby Care
8 Biblioteca
Notas iniciais

“…e como os dentes dele já estão saindo, li em alguns lugares que dar gelo envolvido em um pano ou picolé de leite pode ajudar a amenizar a dor na gengiva. E, sobre a Bonney, acho que sua maneira estranha de agir deve ser por conta da maternidade, mesmo. Dê tempo a ela, Ace… Tenho certeza de que ela os ama. É apenas uma fase.”
— Carta de Sabo para Ace, enviada uma semana antes do sumiço de Bonney.
Querida família,
Como estão as coisas em casa? Todos estão bem? Como está a colheita? Depois de tanto tempo sem notícias de vocês, sinto-me preocupada e meu peito dói de tantas saudades que sinto de casa. Nina melhorou sua leitura e interpretação? Ela, Marion e Aurora gostaram das randoserus? Espero que Marion, especialmente, consiga se adaptar a escola, já que é uma criança muito tímida. Me tranquiliza saber que estarão juntos, a união da família é muito importante em momentos como este.
Sobre minha vida aqui, finalmente estou adaptada. Tive um pequeno problema com meu primeiro emprego, mas já estou em outro, que, felizmente, me paga muitíssimo bem. Não faço trabalho muito pesado, não preciso pagar aluguel e ainda recebo alimentação. É uma ótimo emprego, e meu empregador é uma pessoa muito gentil. Amanhã será a cerimônia de entrada da universidade, não imaginam o quanto eu estou feliz com isso. Esperei um ano inteiro para finalmente estar aqui, e me sinto realizada. Gostaria que estivessem aqui comigo, compartilhando desse momento.
Espero que esta carta os alcance. Por favor, mandem notícias suas através de cartas ou liguem, eu já adquiri um celular. Deixarei aqui meu número e endereço. Por favor, me digam como estão, para que meu coração consiga se acalmar.
De sua irmã que os ama muito, Koala.
Depois de depositar a carta na caixa de correio, Koala olhou de canto de olho para Sabo, que se mantinha de pé ao seu lado, fitando seriamente canto nenhum. Desde o dia em que seu patrão a pegou conversando com um homem suspeito chamado Sterry, o rapaz tem estado de mau humor, o que acabou resultando em dias um pouco mais tensos que o normal. Ele não a estava ignorando; tratava-a com educação e falava apenas o necessário, geralmente assuntos relacionados à casa ou Blaze, mas dificilmente passava disso.
Mas ela também não daria o braço a torcer. Admitia que não deveria ter dado atenção ao homem, mas ela saberia lidar com aquilo e Sabo deveria ter mais confiança nela, e não agir como um louco e se colocar na frente dela. Havia algo errado. Ele saíra aquele dia com pressa de manhã, depois de pegar o papel que Reiju lhe entregara, e depois voltou só no fim do dia, e de péssimo humor, diga-se de passagem. Koala não tinha culpa alguma do que quer que fosse o acontecido, e parecia-lhe, sinceramente, que ele despejara suas frustrações nela.
Portanto, ela não lhe pediria desculpas.
Aquele era o primeiro dia da universidade, e, mesmo com raiva, não conseguia deixar de ficar um pouco nervosa. Seria o dia em que apenas conheceria o campus, assistiria a cerimônia de entrada e conheceria os clubes. A fim de não chamar atenção, ela e Sabo haviam decidido que era melhor ir caminhando aquele dia, deixando o carro quieto na garagem depois de levar Blaze para a escola.
— Mamãe… — ele dissera de manhã antes de entrar na escola, meio desanimado e cabisbaixo, depois que Sabo saiu para manobrar o carro. — papai e mamãe triste né?
— Não se preocupe com isso. — ela deu um sorriso forçado, abaixando-se na altura dele. — está tudo bem. Entre e dê um oi para sua professora por mim.
Blaze entrou, e de longe Koala acenou para Reiju-sensei, que sorriu em cumprimento. Seu pequeno estava tão triste… Será que estava traumatizado depois de ver aquela discussão com Sterry e a dos “pais” em casa?
— A cerimônia vai ser pra lá. — Sabo indicou inexpressivo.
O loiro, como sempre, usava uma touca cinza e óculos falsos, além de roupas em tom neutros e nem um pouco chamativos. Quando chegaram ao campus, passando entre os outros alunos ansiosos, Koala ficou tão absorta na grandiosidade do local que nem reparara nas outras pessoas ao seu redor.
Sabo pegou a mão dela, costume que tinha quando tentava chamar-lhe atenção.
— Koala?
Ela virou-se de uma vez, surpresa com o toque. Com as bochechas coradas, ela encarou a mão dele junto da dela. Ao perceber o que fizera, ele largou-a, parecendo ligeiramente envergonhado.
— Desculpe.
— Tudo bem. — ela balançou a cabeça, um pouco agradecida por ele finalmente demonstrar algum sentimento.
Sabo olhou em volta, percebendo que recebia alguns olhares de estudantes que passavam, murmurando sobre a possibilidade de serem um casal de namorados. Já deveria estar acostumado, mas sempre ficava impressionado com a capacidade das pessoas de fofocar e espalhar rumores por aí.
O loiro não se incomodava em si no rumor sobre ele e a menina, mas não gostava, de forma alguma, de chamar atenção. Por isso, chamou Koala para saírem dali, e finalmente irem para a cerimônia de entrada. Chegando lá, não estava ansioso por isso quanto Koala parecia estar. Tinha certeza de que seriam as mesmas palavras da última vez, os mesmos velhos carecas do corpo estudantil. Shanks era o único que se destacava ali, sendo o mais sadio e divertido.
Olhou-o lá no palco, discursando algo sobre as melhores notas ou algo do tipo. De repente, seus olhares se cruzaram, e sorriu para ele. Gostava muito de Shanks. Ele era como um segundo pai para Luffy, e ajudou muito Ace durante o sumiço de Bonney. Dentre todos os adultos de sua infência, Shanks era uma das pessoas em que Sabo mais confiava. Durante um tempo, quando questionou sua própria capacidade de cuidar de Blaze, chegara a considerar entregar o menino para o ruivo. Como era recém-casado na época com Makino, tinha certeza de que receberiam muito bem seu sobrinho. Mas, no fim, não conseguiu se desfazer dele.
— Sabo-kun. — Koala sussurrou para ele, aproximando seu rosto dele para que escutasse. O mais velho inclinou a cabeça para ouvir. — você reparou que o reitor tem uma cicatriz no olho esquerdo? Na verdade, parecem três...
De fato. Shanks não costumava discutir sobre aquilo, mas também não era como ele, complexado com a aparência. Em geral, costumava fazer alguma brincadeirinha e depois desconversava, tudo sempre de bom humor.
— Sim. Ele a ganhou quando era adolescente, durante uma briga. — contou a ela.
— Como sabe disso?
— O próprio que me disse.
— Não sabia que era íntimo do reitor.
— É, meio que isso. — deu ombros.
Era bom que estivessem conversando normalmente, refletiu ele. Até esta manhã, ainda estava um tanto irritado com ela por ficar conversando com Sterry praticamente na porta de casa. Odiava-o, e apenas em vê-lo perto de sua família era o suficiente para levar seus nervos ao extremo. Mas, depois de pensar com clareza, percebeu que tinha agido como um babaca. Koala era sua amiga, e acima de tudo, deveria ter falado com ela de uma forma mais respeitosa.
Por fim, quando a cerimônia acabou, foi a hora de ir para as barracas dos clubes. Por terem que cuidar de Blaze, provavelmente não poderiam comparecer a todas as atividades caso se unissem a algum clube, mas queria que Koala tivesse uma boa experiência e créditos na universidade, então apoiava a ideia dela se juntar. Se fosse necessário um pouco mais de esforço dele para isso, que fosse. Não se importava.
— Não, obrigada, hehe… — ouviu Koala recusar um pedido de um veterano, que perguntava ela queria se unir ao clube de astronomia. Os barulhos vinham de todos os lados, estudantes e mais estudantes tentando chamar atenção dos calouros com folhetos e palavras de incentivo.
— Não olhe nos olhos deles. — Sabo alertou, andando ao lado dela. — isso dá esperança a eles.
— Você se juntou a algum clube quando estudava? — ela olhou em volta, vendo a infinidade de barracas e stands.
— Cheguei a me juntar ao clube de robótica no primeiro semestre. — respondeu. — os senpais eram todos muito legais. Me pergunto se já se formaram.
— Pretende entrar no clube novamente, então?
— Não. — ele riu de desdém. — seria muito complicado. O clube me custava o resto do dia, nunca sobraria tempo para cuidar de Blaze ou das coisas de casa.
Koala se sentiu tentada a alfinetá-lo dizendo que ele não se preocupava realmente com o estado da casa, mas resolveu guardar para si o comentário.
— Sabo! Koala! — ouviram alguém correr até eles, e quando se viraram, viram Luffy, com seu sorriso costumeiro de orelha a orelha e uma pétala de sakura caída no cabelo. — como vocês estão hein? Querem ser meus companheiros?!
— Luffy, sabe que não tenho interesse nenhum em música. — Sabo tirou a pétala da cabeça dele, com um cuidado fraternal.
— Poxa, por que?! Você sabe tocar violão, piano, guitarra… Aff, mas tudo bem! — o moreninho recuperou os ânimos num instante e se virou de uma vez para a moça. — E você, Koala?!
— Me desculpe, mas também não tenho interesse. — sorriu em pesar. — estão precisando de membros?
— Já temos alguns membros na banda, mas nunca é demais né? Ano que vem os veteranos vão se formar e aí sim as coisas vão ficar complicadas.
— Kid ainda não se formou? — Sabo perguntou, e o outro negou com a cabeça.
— Ele trancou a faculdade ano passado, por algum motivo. Eu o vi hoje quando…
Os dois irmãos continuaram a conversar, totalmente imersos na conversa, e Koala pediu licença furtivamente para explorar o lugar sem a presença de Sabo. Seu patrão era sempre tão sozinho. Nunca o via falar de algum amigo ou coisa parecida, sempre comentava sobre os amigos do irmão, mas, de seus próprios, nunca. Ele costumava dizer que não tinha amigos, mas não conseguia acreditar nisso. Sabo conhecia tantas pessoas, e elas sempre pareciam gostar dele de verdade. Nami, Reiju, até Hiyori… Todas pareciam ter uma real afeição pelo rapaz.
Mudando totalmente o foco de seus pensamentos, Koala viu de longe um stand cheio de livros, e algumas pessoas em volta distribuindo folhetos, parecendo fazer propaganda do clube. Isso lhe chamou atenção, e se dirigiu lá. Desde que saíra de Gifu, Koala não tinha lido sequer um livro, o que era um pecado considerando que cursava literatura. Quando estudante, costumava passar seu mínimo tempo livre – que era geralmente durante a calada da madrugada – lendo um livro debaixo dos cobertores, com uma lanterna acesa.
— Olá, está interessada no clube de literatura? — falou uma rapazinho que distribuía os folhetos. Ele parecia ser um pré adolescente ou até uma criança, baixinho e de cabelos castanhos.
— Vocês são o clube de literatura? — sorriu animada, dando uma olhada rápida nos membros. — eu sou caloura de literatura.
Dentre os membros, havia três rapazes, contando com o que falara com ela. Um deles era um rapaz de pele bronzeada e cabelos verdes, que parecia cochilar jogado num canto ali perto. O outro, de semblante sério, tinha cabelos pretos espessos, cavanhaque e usava brincos nas orelhas, além de um casaco grosso. Os dois eram bem belos, principalmente o último. Ele tinha um charme especial, reparou ela. Se ele tivesse estudado na mesma escola que ela, certamente seria um dos mais populares.
E sentada na banca, havia uma linda mulher de cabelos negros, olhos azuis penetrantes e um sorriso gentil. Ela parecia organizar os livros na mesa, quando se virou para Koala.
— Literatura? Que bom, talvez se interesse no nosso simples clube. — disse ela, curvando-se. — me chamo Nico Robin.
— Fisher Koala. — curvou-se também, um pouco tímida. A presença deslumbrante da outra a fazia se sentir envergonhada.
— Eu sou Tony Tony Chopper! — o menininho sorriu, pegando nas mãos dela. — eu faço medicina! Law também! — Chopper se virou incomodado para Law, que não parecia nem um pouco interessado em tudo aquilo. — Ei, Law, se apresente para ela!
O homem demorou o olhar nela, analisando-a e tirando conclusões em sua mente que não conseguiu deixar de ficar curiosa para descobrir do que se tratavam.
— Trafalgar Law. — disse simplesmente, voltando o olhar para os papéis na própria mão.
— Este aqui é o Zoro. — Robin apresentou o dorminhoco. — me desculpe os modos dele. Ele costuma tirar muitas sonecas.
— Tudo bem. — Koala riu, achando engraçado aquele grupo tão distinto. — gosto muito de ler e escrever livros, sempre quis entrar em um clube de literatura… — foleou um livro verde que estava por perto. — A escrita e a leitura são muito importantes pra mim, pretendo um dia publicar um livro.
— Então, vai se dar muito bem no nosso clube. — a morena lhe estendeu um papel, que continha algumas informações do clube. — apareça na nossa sala amanhã, todos os membros estarão presentes.
— Sim. — sorriu, sentindo uma nova amizade surgir. — pode deixar, eu irei sim.
(…)
Na creche, Reiju e outras duas professoras assistentes ensinavam aos pequenos como tocar instrumentos simples de percussão, uma atividade comum entre as criancinhas de sua faixa etária. Todos estavam bem animados pra começar, não parando de tagarelar em suas falas de bebês.
— Certo, agora que todos pegaram um instrumento, vamos começar a tocar o… — a moça passou o olho nos pequenos, até notar algo diferente no menino de cabelos tão cor-de-rosa quanto os seus próprios. — Blaze-chan? O que foi? — ela se abaixou na frente dele, afastando-o um pouco das outras crianças.
O menino olhou para ela, cabisbaixo, e depois voltou a olhar pro chão.
— Shenshei… — sua voz saiu embargada, e viu que lágrimas começavam a sair de seus olhos. — quero mamãe e pa-papai…
A voz baixa dele logo se transformou em um choro alto, que chamou a atenção de todos para os dois. Reiju suspirou, e colocou a mão na testa dele. Ele estava com febril.
— Ligue pros pais dele — pediu para outra professora, que rapidamente atendeu seu pedido.
(…)
Onde estava Koala?
Depois de uns minutos conversando com o irmão, Sabo notou que Koala não estava mais ali. Custava ela avisar que daria uma volta? Ou até aonde iria? Isso o polparia de uma busca desenfreada, sem saber nem por onde começar. O campus era enorme, ela poderia estar em qualquer lugar.
— Olá, Sabo.
Olhou para o lado, vendo Robin em sua barraca do clube de literatura. Estava sozinha, reparou.
— Oi Robin. — sorriu ainda meio distraído, tentando avistar a babá por aí. — cadê o resto dos membros?
— Foram entregar folhetos. Não estava sendo muito rentável manter todos aqui em volta, era melhor que saíssem por aí espalhando seus charmes. — respondeu ela. — e você? O que está procurando?
— Uma amiga. — retrucou tirando os óculos, que começavam a embaçar, e pendurou-os na gola da blusa. — sabe se ela passou por aqui? É baixinha, cabelo curto castanho-claro, casaco marrom…
— Vi sim. — A Nico sorriu elegantemente, achando graça de alguma coisa que Sabo não entendia muito bem do que se tratava. — ela passou aqui. Koala, não? Uma garota encantadora.
— Ah, sim. — ele pestanejou, meio sem jeito. — sabe onde ela foi?
— Visitar a biblioteca. A menor, aqui do bloco C.
— Mas essa não estava fechada?
— Sim, mas eu tinha a chave, vai ser reaberta esse ano. Emprestei a ela para que explorasse. Koala ama livros tanto quanto eu.
Era verdade, Sabo refletiu, agradecendo a Robin e partindo para a biblioteca. Koala não tinha livro nenhum na bagagem – pelo menos, até onde havia visto – e, no seu tempo livre, era comum vê-la sorrindo e suspirando pelos cantos, encarando a tela do celular. Um dia, quando a moça estava muito imersa em seu próprio mundo, pôde ver que ela lia muitos livros. Talvez fosse interessante presenteá-la com alguma coleção de livros, em seu aniversário. Afinal, nem sabia seu aniversário… Tinha que perguntar a ela.
— Koala?
Ao abrir a porta e chamar por ela, viu-a com a cara enfiada em um livro grosso, de capa avermelhada. A garota se assustou com a voz de Sabo acoando na biblioteca vazia, deixando o livro cair.
— Me desculpa. — ele chegou até ela rapidamente, pegando o livro e devolvendo a sua mão. — devia ter entrado com mais cautela.
— Tudo bem, não tem problema. — respondeu. — como sabia que eu estava aqui?
— Robin me contou quando passei por ela.
Koala não pôde deixar de notar, com uma pontada no peito, que ele chamara a mulher pelo nome, indicando intimidade.
— Vocês se conhecem? — tentando parecer o mais tranquila possível, ela desviou o olhar dele, devolvendo o livro para a prateleira.
— Sim, há algum tempo. Ela é a melhor amiga da Nami, e uma das melhores amigas do Luffy, por mais que as personalidades deles sejam tão diferentes. — contou calmamente, analisando-a.
Koala estava muito bonita. Usava um casaco marrom grande, que a fazia parecer ainda mais miúda e indefesa do que sempre. Usava também uma saia plissada preta, além de meia-calça preta e botas, tentando fugir do frio que fazia naquela estação. Os dedos dela passearam entre os livros há muito tempo não tocados, parecendo pensativa.
— Sabo-kun… — em tom baixo, ela disse seu nome, e ele voltou a olhar seu rosto de perfil. — estive lutante contra isso, meu orgulho não permitia, mas… Me desculpe.
Hipnotizado, ele piscou, confuso.
— Desculpar pelo que?
— Por toda aquela história. Com aquele homem, e… De ter dito onde morávamos. Me desculpe. Eu vou tomar mais cuidado a partir de agora.
Alguns segundos se passaram, em total silêncio, até que Sabo balançou a cabeça lentamente, sem desgrudar os olhos dela.
— Eu que preciso me desculpar, fui um idiota. Não deveria ter falado com você daquele jeito, tão mandão e autoritário. — aos poucos, passo a passo, ele se aproximava dela, até que estavam perto o suficiente para que ela pudesse sentir seu hálito quente. — mas entenda, Koala… Não sei o que dá em mim. Quando vejo uma situação de perigo, quando penso em alguém fazendo mal a vocês dois… Não consigo controlar, fico com raiva de mim mesmo, por ter tanto medo…
— Medo? — ecoou ela, sentindo a temperatura de seu corpo esquentar alguns graus. Sabo estava muito perto. Podia ver claramente seu rosto, agora que ele não usava mais aqueles óculos pendurados no rostos. Podia ver o contorno seu rosto, o tom escuro de seus olhos e todos os detalhes da cicatriz no olho esquerdo que ele tanto se empenhava em tentar esconder. — medo de… — era difícil para ela falar. O coração em seu peito disparava. — de alguma coisa acontecer com Blaze, imagino.
— Claro. — ele sussurrou, perigosamente perto. — mas também… De perder você.
Foi a última coisa que ele disse, antes colar os lábios dele aos dela. Nos primeiros segundos, Koala se assustou, ficando parada apenas sentindo os lábios dele se mexerem. Mas ao passar dos instantes, o susto foi passando e ela fechou os olhos, entregando-se ao momento mágico.
Ele passou os braços ao redor de sua cintura, colando seu corpo ao dela. Os lábios dela eram deliciosos, macios e quentes… Totalmente beijáveis. Sabo nunca havia beijado ninguém, sequer uma vez em toda sua vida, e, quando via cenas do tipo em livros ou filmes, costumava pensar que tudo o que seus personagens descreviam era nada mais que puro romantismo.
Mas aquilo era tudo tão real… Poderia ficar o dia todo ali, sentindo o calor dela, com a mão passando por todo o seu corpo. Sentiu vontade de deitá-la no chão, abrir aquele casaco, descobrir mais sobre todas as curvas de seu corpo...
— Sabo-kun… — ela murmurou, afastando um pouco os lábios. Mas ele se negou a se afastar, trilhando beijos até seu pescoço. — o seu… Seu celular… — ela ofegava, tentando se manter sã.
Foi só então que ele reparou que o celular tocava. Droga. Estava tão aceso, tão cheio de desejo… E um maldito celular foi capaz de estragar tudo. Com muito sacrifício, e murmurando xingamentos em português consciente de que Koala jamais saberia o significado, ele se soltou dela e atendeu o celular, impaciente.
— Alô?
Ainda ofegante, Koala tentou se recompor. O casaco estava um pouco amassado, e ainda podia sentir o calor masculino de Sabo em si. Isso era muito louco. Em um minuto estava ali, quieta, ponderando sobre a escolha da fonte para o título do livro que pegara, e depois estava li, aos beijos, com seu patrão, numa biblioteca vazia e mal iluminada.
Colocou a mão nos lábios, sentindo-os mais inchados. Talvez estivessem um pouco avermelhados também…
— Certo. Estou indo aí agora!
O tom nervoso e urgente de Sabo distanciou seus pensamentos, preocupando-a.
— O que foi?
— O Blaze, ele tá com febre. — Sabo digitou rapidamente um número no celular. — vou pegar o carro do Luffy emprestado. Você também vem?
— É claro. — respondeu convicta. — não precisava nem perguntar.
(…)
Quando enfim chegaram à escolinha, para sua paz de espírito, Blaze estava dormindo tranquilamente na enfermaria, longe do barulho das outras crianças. A febre não era tão alta, e, da última vez que enfermeira da escola medira, estava na casa dos 38º, mas o ideal era que o levassem para casa e o deixassem descansar no dia seguinte.
Apenas no momento em que deitaram Blaze na cama, tiraram o uniforme e colocaram o pijama, é que o menino enfim acordou. Um tanto atordoado, e com o olhos ainda inchados de ter chorado, ele engatinhou até o pai, estendendo os bracinhos.
— Papai. — ele disse.
— Filho, você tem que deitar. — apesar das palavras, Sabo o aninhou em seu colo, sentado na cama.
— Deixe-o, Sabo-kun… — Koala sorriu, levantando a franja e colocando um adesivo para febre na testa dele. — crianças doentes podem ser mimadas.
Se sentia tão culpada… Se ela e Sabo não estivessem num momento tenso, talvez tivesse prestado mais atenção no pequeno e notado algo estranho nele. Será que ele ficara assim por causa deles? Por que sentia o clima ruim?
Determinado a fazê-lo dormir, Sabo deitou-se de lado cobrindo-os com o edredom, e Blaze escorou–se nele no meio da enorme cama de casal. O rosadinho bocejou, sonolento, esfregou os olhos, e olhou para Koala.
— Dómi também, mamãe, — Blaze colocou a mãozinho em seu lado esquerdo, o lado livre da cama de casal. — dómi comigo.
Hesitante, ela olhou para os olhos tom violeta de Blaze, cheios de expectativa. Em seguida, olhou para Sabo.
— Dorme com a gente, mamãe. — provocou ele, sorrindo de canto.
Mesmo com vergonha, ela se deitou, em pleno início de tarde, ainda com as roupas que usara na rua. Não era costume dormir aquele horário, que normalmente ela estava trabalhando a todo vapor. Porém, algo naquele momento – debaixo de um edredom com Sabo e Blaze, parecendo verdadeiramente uma mãe e um pai — a fez se sentir tão calma, tão serena, que, pelo resto da tarde, ela simplesmente dormiu.
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