─ Membros da nova Fraternidade estão na cidade e já desconfiam que este lugar existam vírus. Parece que eles têm um faro apurado.

─ Padre, por favor. Eu não tenho medo desses aventureiros. Esqueceu que no passado eu matei um bocado deles? Serão mais alguns para a minha coleção de troféus. Não sei por que se deu o trabalho de vir até aqui só para me falar algo trivial.

─ Você tem que tomar cuidado. Eu só estou dando uma notícia útil e pedindo que fique atento para o perigo.

─ Sim, claro. Ficarei atento, muito obrigado.

─ Vejo que está muito confiante, filho. Essa autoconfiança toda tem a ver com aqueles jovens que acabaram de sair?

Aruan levantou e caminhou para a janela ali ao lado. Ficou observando a parte de fora da casa.

─ Aqueles dois rapazes fazem parte da família de Alcateia Lunar.

─ Como assim?

─ Você sabe da minha condição que eu preciso para me manter vivo. A cada dez anos beber sangue de um homem lobo para adiar minha morte por vinte anos. Durante os últimos dois anos, eu não consegui encontrar um sequer para me satisfazer. Descobri que um tal de Ludwig van Krauss possui o sangue. Aquele rapaz que estava comigo e consequentemente o irmão dele são alcateiano.

─ Como descobriu?

─ Ah, padre, mesmo também sendo vampiro o senhor não tem mais a mesma inteligência de antes. Quando decidiu parar de beber sangue, o senhor ficou a desejar no quesito inteligência e por isso envelheceu. Conheci Ludwig na praça do centro, apertamos as mãos e senti a sua aura percorrer pelo meu corpo. Sou acostumado a reconhecer um lobo a quilômetros.

─ Aquele rapaz que veio pegar o irmão é homossexual. Ele vive com o namorado aqui em Pierrot. Não seria mais fácil você conquistar o outro irmão?

─ Não se trata de quem é mais fácil ou não. Por mais que Ludwig seja homofóbico ou duro, ele vai ser meu. Ludo é uma pedra dura, mas eu sou água mole. Não preciso recitar novamente o velho ditado para mostrar o que vai acontecer nesta história.

Aruan estava disposto a levar Ludwig para o seu lado haja o que houver.

LOUP-GAROU

Durante o retorno para casa, os dois irmão mantiveram-se calados por um bom tempo. Ludwig pensou nas palavras que Viemont havia dito a ele.

“ Antigamente existiam 3 clãs na França: Homens Lobos, Fraternidade e Família Negra. Homens Lobos eram guerreiros que se opuseram à tirania da oligarquia da época; Família Negra são os vampiros cujo existiam no meio dos mais ricos e conseguiam viver mais de duzentos anos; Fraternidade é uma seita demoníaca que visa acabar tanto com os vampiros quanto com os homens lobos.”

“Homens lobos era grande em número de adeptos. Você é um descendente deles. Acho que a sua família escondeu isso de ti por todos esses anos.

Não é verdade...

Aos poucos você verá mudanças em seu corpo. Os lobos costumam se irritar fácil e consegue ter o aspecto híbrido entre homem e lobo se instigados. A minha maldição consiste em beber apenas sangue humano, nunca mais comi alimentos, contudo apenas os glóbulos vermelhos é que me satisfaz. Contudo, há um tipo de sangue que faz com que eu nunca envelheça.”

Ficou pensando nas vezes que foi enganado pela sua própria mãe. Teria que tirar aquela história a limpo.

Pierre era diferente, pensava sempre no pior que vinha do irmão. Achou que o motivo dele estar com raiva e fechado era porque veio buscá-lo. Mesmo não entendendo o motivo que o caçula foi fazer naquele lugar, resolveu quebrar o gelo entre os dois.

─ Você está bem? ─ Ludo não respondeu. ─ Olha, eu sei que você me odeia e odeia todos os gays da face da Terra. Porém você é o meu irmão e querendo ou não temos o mesmo sangue, portanto você nunca vai se livrar de mim. E já que está passando esses dias na minha casa, eu tenho o direito de saber o porquê de você ter ido naquele lugar.

─ Não tem outra coisa pra falar, não? Muda de repertório.

─ Você pode dá uma trégua de cinco minutos? Cinco minutos não é nada, pode ser?

─ Tudo bem. O que quer saber?

─ O que foi fazer lá?

─ Vou te responder com uma outra pergunta: você sabia que a nossa família guardou um segredo de gerações e que o nosso sangue é de um clã antigo chamado Homens Lobos? O Viemont havia me dito isso, inclusive ele me demonstrou que era um vampiro mesmo não tendo presas como nos filmes.

─ Peraí, como assim vampiro? E que história é essa de homem lobo?

─ Deixa de fingimento. Você sabia que a minha família era estranha e acobertou isso. Mas eu vou ter que falar com a mamãe sobre isso.

Pierre também ficou chocado, pois não sabia de nada.

Quando o carro parou em frente à casa, Ludo saiu imediatamente para entrar no imóvel. Chamou a mãe por todos os lugares até a mulher responder.

─ Filho, eu estava preocupada. Acordei e não o vi mais aqui ─ disse ela o abraçando.

Ludwig permaneceu parado, frio e encarando a mãe. Pierre chegou logo depois, também com a cara de poucos amigos. A mulher ficou preocupada com as expressões dos filhos.

─ O que houve com vocês? Por que estão me olhando assim?

─ Mãe, vamos sentar ─ disse Pierre.

Lúcia ainda estava estranhando a atitude dos filhos. Depois que voltaram, eles estavam mais fechados, principalmente Pierre já que ele era mais carinhoso com a mãe.

─ Ludo foi para a casa de Aruan Viemont. Aquele homem que jantou conosco ontem. Parece que o tal conde ameaçou-o, pois eles não eram amigos coisíssima alguma. Quando retornamos, ele me falou de algo referente à nossa família pertencer a um clã antigo chamado Homens Lobos. A senhora pode nos explicar?

Lúcia tentou negar.

─ Não finge. Eu descobri tudo. Aruan é um baita de um vampirão que precisa do meu sangue para poder sobreviver. Ele me contou que no tempo em que ele nasceu, havia três clãs que eram inimigas entre si. Por que a senhora nos escondeu isso, mãe? Fala!

─ Tudo bem, tudo bem. Eu decidi esconder esse fardo de vocês com receio que acabem como o pai de vocês. Ele trabalhava naquele maldito escritório na capital, mas não passava de um mercenário. Seu desejo era que eu contasse isso a vocês para prepará-los para um futuro não tão distante.

─ E que mal seria em nos contar?

─ Pierre, eu tive uma grande vergonha em dizer que a nossa família foi a responsável pela matança indiscriminada de vampiros. Ajudamos a Fraternidade de Baphomet a fim de dar o paradeiro das pessoas com o vírus. Se este tal de Aruan está sozinho no mundo foi graças a nós, pois os vampiros quiseram dominar o planeta no século XIX.

─ Por que não contou isso? A gente tem sangue de lobo?

─ Vocês sim, eu não. Sou uma humana comum. Mas os meus dois filhos possuem poderes imensuráveis. Eu só queria protegê-los do mesmo destino do pai de vocês. E já que os dois resolveram descobrir logo toda a verdade, eu vou contar tudo de uma vez. Jean Claude era gay, e me casei com ele já sabendo disso.

Ludwig ficou terrivelmente chocado com o que a sua mãe disse. Gritou e pediu para ela calar a boca. O rapaz subiu as escadas e se trancou no quarto. Pierre também ficou surpreso, porém nem tanto.

─ Sabia que não podia esconder isso de nós. Por que fez isso, mãe? Por que não nos contou sobre a homossexualidade do papai?

─ Você conhece o seu irmão. Ele já tem raiva que tem você como gay, não iria aceitar um pai homossexual. Inclusive eu vou falar com ele.

─ Espera, mãe.

Lúcia batia na porta querendo conversar com o filho. O rapaz chorava amargamente e não quis falar com a própria mãe.

─ Me deixa em paz...

─ Filho, entenda. Eu não podia falar que o seu pai era um homem lobo e ainda por cima gay.

─ Parece igual aquelas doenças hereditárias, não é? Vai de pai para filho. Felizmente eu não a peguei e quem se ferrou foi meu irmão.

─ Não fale assim. O seu irmão não tem culpa de ter nascido gay. Poderia ser em qualquer família. Vamos conversar.

─ Que nojo eu tenho de pertencer a uma família de assassinos. Quem sabe a única vítima dessa história seja mesmo o tal conde lá. Agora saia de trás da porta, eu não quero mais ouvi-la.

Lúcia saiu arrasada, arrependida de ter escondido aquilo tudo.

Palácio Lures e Viemont

Aruan viu o padre sair pelo portão. Ele sempre bebia licor quando passava os seus dias naquela enorme residência. Agora ficava lendo um livro no escritório enquanto Jane se encontrava com ele depois de ter despedaçado um homem na noite anterior.

─ Como foi a diversão?

─ Patética. Aquele gatuno era de quinta categoria. Gostei não.

─ Aposto que prefere aqueles vadios garotos de programa que você adora contratar e que acaba mordendo e chupando o seu clitóris enquanto geme feito uma cadela no cio.

─ Hum, você me conhece como ninguém. Que tal repetirmos?

─ Por favor, ma cherie, não tenho mais cabeça para isso. Chamei-a pois tenho uma missão para você.

─ Pode falar.

─ O meu querido Ludwig não Beethoven esteve aqui hoje pela manhã. Revelei a minha condição como vampiro e que precisaria do sangue dele pois ele fazia parte do clã dos homens lobos. Queria que tivesse visto a cara dele ─ Viemont deu um copinho com licor para a amiga. ─ Infelizmente não pude beber o sangue dele, porque o padre Damien veio falar comigo. Também o irmão mais velho veio buscá-lo. Foi a minha grande chance de me aproveitar da minha presa.

─ Bom, se quiser algo de mim estarei sempre disponível, porém tenho preço.

─ Ah sim. Quando foi da última vez que pedi para assassinar aquele caçador de vampiro e te paguei 100 mil dólares. Que tal 500 mil? O trabalho é simples, você vai atrás do tal Lorenzo, o ruivinho noivo do irmão mais velho do meu Ludwig. Descobri que ele trabalha numa floricultura neste endereço e que almoça nesse pequeno restaurante ─ ele entregou um cartão. ─ Quero que seduza o rapaz e consequentemente toda a família dele. Quero Lud todinho para mim.

─ Para que tanto trabalho? Parece-me uma família simples.

─ Sim, eles são inofensivos. Porém não se esqueça de que clã eles fazem parte. Todo cuidado é pouco.

─ Um brinde para a nossa amizade.

─ Por meu sangue que corre nas veias de van Krauss.

Os dois brindaram.

Lorenzo almoçava quando um par de mãos tampou-lhe os olhos. Ele logo descobriu quem havia chegado era Jane Rafaelli.

─ Oi, querido.

─ Oi. O que faz aqui?

─ Eu disse que estava passando uns dias na casa ou palácio do meu irmão. Estou pela França faz alguns dias e só pretendo ir embora daqui a uns meses.Hoje resolvi espairecer pela cidade, aproveitei para vim almoçar neste restaurante. Nunca pensei que você vinha aqui.

─ Nossa, que legal. Pelo menos vou ter companhia para mim. Pode se sentar.

─ Obrigada.

...

Horas se passaram, já era noite. O padre Damien descansava em sua humilde casa quando um dos coroinhas o chamou aos gritos. O homem abriu a porta e perguntou o que tanto o afligia. O menino disse que a igreja estava pegando fogo. O idoso foi imediatamente atrás do garoto. Chegando lá ele viu a igreja de Pierrot sob as chamas.

─ Jesus Cristo ─ disse ele assustado. Quem poderia ter feito isso?

...

Do lado de fora da propriedade de Viemont, o casal da Fraternidade estava pronto para invadir o local. Eles pediram a ajuda a um homem que se identificava como irmão, pois participava da mesma seita. O homem era meio barbudo e loiro. Levava consigo algumas armas de fogo e brancas. O trio pulou o muro e seguiu o mesmo percurso dos outros rapazes que na noite anterior tentaram invadir. Entraram na mesma portinha dos fundos. O irmão foi na frente, seguido pelos dois.

─ Não estou gostando nada dessa escuridão ─ disse Dorothy.

─ Fique quieta, querida. Deixa o nosso irmão nos guiar, não é ir... irmão? ─ os dois estavam sozinhos.

Mais alguns metros dali o homem ficou perdido. Acendeu uma lanterna para tentar se guiar. Sentiu um forte cheiro de carne podre seguido com a vista medonha de ossos no chão. Percebeu a presença de alguém vindo, era como se fosse uma pessoa nua sem olhos e nariz, apenas com uma boca com vários dentes. Um grito e um tiro, foram tudo o que os dois ouviram. Eles resolveram voltar correndo.

─ O que está havendo?

─ Corra e não faça perguntas ─ disse o homem.

Os dois conseguiram escapar, correram de volta. Era pelo menos uns cem metros do palácio para o muro. Dorothy parou por um momento. Sergey ficou preocupado pois a mulher parecia ouvir vozes do além.

─ Me ajuda... Me ajuda...

Dorothy olhou para o mausoléu ao lado do palácio. Estavam a apenas uns cinquenta metros de distância. Era como se fossem os apelos de uma mulher trancafiada há muito tempo naquele lugar.