A lua estava brilhante. Logo estaria cheia, pois dia 23 de março a bola prateada ficaria com o seu maior brilho e potencial no céu noturno.

Ludwig ficou deitado na cama pensando em tudo o que havia acontecido nesse dia pela manhã. A história sobre o passado de Viemont, o segredo envolvendo o passado de toda a família e a homossexualidade do seu próprio pai foram o estopim para que ele odiasse a sua mãe.

Escutou mais uma vez as palavras de Viemont vindo em sua mente.

“Antigamente existiam 3 clãs na França: Homens Lobos, Fraternidade e Família Negra. Homens Lobos eram guerreiros que se opuseram à tirania da oligarquia da época; Família Negra são os vampiros cujo existiam no meio dos mais ricos e conseguiam viver mais de duzentos anos; Fraternidade é uma seita demoníaca que visa acabar tanto com os vampiros quanto com os homens lobos.”

“Homens lobos era grande em número de adeptos. Você é um descendente deles. Acho que a sua família escondeu isso de ti por todos esses anos.”

Ele também pensou nas palavras de sua mãe que lhe contou toda a verdade horas antes. A notícia impressionou até mesmo o seu irmão mais velho.

“Eu decidi esconder esse fardo de vocês com receio que acabem como o pai de vocês. Ele trabalhava naquele maldito escritório na capital, mas não passava de um mercenário. Seu desejo era que eu contasse isso a vocês para prepará-los para um futuro não tão distante.

─ E que mal seria em nos contar?

─ Pierre, eu tive uma grande vergonha em dizer que a nossa família foi a responsável pela matança indiscrimanada de vampiros. Ajudamos a Fraternidade de Baphomet a fim de dar o paradeiro das pessoas com o vírus. Se este tal de Aruan está sozinho no mundo foi graças a nós, pois os vampiros quiseram dominar o planeta no século XIX.

─ Por que não contou isso? A gente tem sangue de lobo?

─ Vocês sim, eu não. Sou uma humana comum. Mas os meus dois filhos possuíam poderes imensuráveis. Eu só queria protegê-los do mesmo destino do pai de vocês. E já que os dois resolveram descobrir logo toda a verdade, eu vou contar tudo de uma vez. Jean Claude era gay, e me casei com ele já sabendo disso.”

Era algo que ele não poderia mais suportar. Precisava tirar as coisas a limpo. Decepcionou-se por seu pai ter sido gay e nunca tê-lo falado. Sempre foi influenciado por amigos preconceituosos, tanto do trabalho quanto da universidade. Sua banda de rock havia membros homofóbicos que fez a cabeça dele. Agora tudo isso desabou na sua consciência. Tinha orgulho do seu pai, não poderia odiá-lo.

Agora eu sei o que vou fazer ─ disse ele se levantando da cama.

Pierre ainda conversava com a sua mãe quando Lorenzo chegou em casa. O genro perguntou à sogra por que o clima estava tão pesado. Pierre respondeu.

─ Oh, minha nossa. Isso sim é um grande segredo de família.

─ Pois é. O mais interessante é que Ludo ficou mais indignado em saber que o nosso pai era gay. Quero ver agora a desculpa dele.

─ Amor, eu tenho que dizer algo. Eu me encontrei com aquela moça que veio jantar com o irmão no domingo. A Jane. Ela foi almoçar no mesmo restaurante que frequento.

─ Não gosto disso.

─ Está com ciúme?

─ Não é isso. Hoje o Ludo foi atrás daquele conde. O homem revela tudo e minha mãe revela o segredo. Depois a irmã do cara aparece do nada? Isso não tá me cheirando bem.

Conversa vai, conversa vem, ambos escutaram um barulho vindo do quarto de Ludo. Lúcia saiu do seu quarto, pois também ouviu. Os três abriram a porta à força e viram o lugar vazio com a janela aberta.

─ Ah não, Ludo. Pra onde você foi?

Ludwig caminhava tranquilamente pela cidade até chegar num ponto de táxi. Esperou por alguns minutos até que o carro chegou. Ele entrou no veículo.

─ Vamos para o Palácio Lures e Viemont, por favor.

LUDWIG E ARUAN

O casal Bulankov conseguiu fugir do local sem nenhuma escoriação. O plano deu errado, principalmente quando entraram naquela armadilha onde havia um monstro morando. Mesmo assim Dorothy não parou de pensar na voz que havia conversado em sua mente. A voz vinha do mausoléu ao lado do palácio.

─ Eu não acredito que mesmo depois de tudo o que aconteceu você ainda queira voltar para aquele lugar mal assombrado.

─ Querido, eu juro que ouvi a tal voz. A voz de uma mulher pedindo ajuda. Aposto que o tal conde a trancafiou naquele lugar.

─ Mesmo assim eu prefiro cair fora da cidade. Já ateamos fogo naquela maldita igreja, já conseguimos os órgãos, até nos mudamos para este quartinho medíocre.

─ Por favor. Eu nunca insisti em nada. Dê essa exceção.

Sergey pensou e logo teve que ceder. Dorothy adorou a decisão do marido.

─ Mas, vamos aguardar alguns dias para isso. Não seria lógico irmos hoje ou amanhã.

─ Tudo bem.

Os bombeiros foram chamados imediatamente para apagarem as chamas que consumiam a igreja. O capitão chegou ao padre para dar-lhe maiores informações.

─ Eu sinto muito isso ter acontecido, Padre Damien. Parece que o incêndio foi criminoso.

─ O que quer dizer com isso, filho?

─ Provavelmente alguém fez isso na intenção de destruir a igreja.

Damien ficou pensando.

...

O táxi parou logo em frente ao portão do palácio.

Viemont tomava chá na sala quando soube que uma pessoa o chamava do lado de fora. Um dos vigias afirmou que era um rapaz jovem, moreno claro e que se chamava Ludwig van Krauss queria vê-lo. O conde deu um pulo da poltrona e pediu que o convidado entrasse imediatamente.

─ Olha só quem resolveu voltar. O meu mais novo amigo de infância. Diga-me, por que decidiu retroceder a esta humilde residência?

─ A gente pode conversar?

─ Claro. Só que desta vez no meu quarto.

─ O quê?

─ Calma, bobo. Eu não vou ter más intenções, eu juro que me esforçarei para isso. Vamos?

Ludo acompanhou o conde até o elevador. Aruan esperou o visitante entrar para apertar o botão da cobertura. Poucos segundos eles estavam no corredor antes da suíte. De volta àquele lugar, Ludwig ficou mais à vontade.

Aruan mandou o rapaz se sentar na cadeira. O próprio conde pegou outra e ficou na frente do rapaz.

─ Agora que já estamos aqui, o que você veio fazer?

─ Vim pedir perdão por tudo o que a minha ascendência fez com a sua família. Quando você me contou sobre os clãs, eu não quis acreditar. Porém eu forcei um pouco para que a minha mãe dissesse a verdade. Ela me falou absurdos, disse que a nossa família há tempos fez uma aliança com a Fraternidade para acabar com o seu clã. Disse ainda que o meu pai foi um mercenário.

─ Eu lamento muito por você. A minha família e meus amigos foram perseguidos por séculos por essa fraternidade. Ainda me lembro de certos detalhes. Uma pessoa que eu confiava muito me traiu no passado e me obrigou a fazer algo realmente detestável. A minha vida não tem mais sentido depois disso.

─ Parece que não só eu tenho problemas de consciência por aqui.

─ Todos esses anos em que eu vivi, décadas, séculos... O tempo parece que nunca passou. Que culpa eu tenho se dentro do meu corpo corre um vírus que impede a minha morte? Que culpa eu tenho de não conseguir comer ou beber outra coisa a não ser sangue ou carne. Todos aqueles animais que eu crio no pasto vão para o abate justamente para eu coletar o sangue. Afinal, é muito arriscado beber sangue de humano se primeiro terei que matá-lo.

Ludwig ficou calado.

─ Você pode me salvar dessa. Posso te oferecer um abrigo neste palácio e em troca de tempos em tempos você me permite beber do seu sangue.

─ Não sei.

─ Eu não vou te matar. Seria ilógico para mim.

─ Sim, e as outras pessoas? Aqueles que você matou para beber o sangue?

─ Elas nunca quiseram me ajudar. Sempre tinham interesses. Eu precisei usar a força para beber o sangue. Não se preocupe, você pode recusar.

─ Já me decidi. Vou te ajudar.

Aruan olhou nos olhos de Ludwig.

─ Seu pai...

─ O que tem ele?

─ Você sempre odiou os gays. Por quê?

Ludwig estranhou a pergunta, mas logo respondeu.

─ Porque eu fui ensinado que o homem deve se deitar com a mulher.

─ Errado. O homem deve se deitar com quem ele ama, não necessariamente uma mulher. Seu pai foi um mercenário e homossexual. Gays não sentem atração por mulheres, mas aposto que ele foi forçado a se casar com uma mulher por seu avô.

─ Conheceu o meu avô?

─ Claro que sim. Soube de relatos que o seu pai apanhava e sofria nas mãos dele unicamente por ser gay. Imagina o desgosto do seu pai em ser forçado a se transformar em algo que ele não queria? O resultado foi um assassino e “hétero”.

Ludwig jamais parou para pensar naquilo. O conde acertou bem fundo da sua consciência. O rapaz abaixou a cabeça com vergonha. O conde logo foi pegar algo no frigobar que havia ali.

─ Se for bebida, eu tô fora.

─ Refrigerante.

Ludo aceitou. Era uma latinha de refrigerante de uva. Aruan foi até um telefone no criado mudo e ligou para o mordomo preparar comida para o convidado. Minutos depois, o empregado trouxe uma bandeja com frango, arroz, verduras e suco, além de maçãs. O conde ficou bebendo licor enquanto via o convidado se alimentando.

─ Você bebe refrigerante e é um vampiro?

─ O meu vírus é igual a diabete. De tudo um pouco. Não faz mal. Se eu exagerar aí posso morrer. Como estava o alimento?

─ Saboroso.

─ A minha cozinheira é a melhor da França. Podemos começar?

Ludwig retirou a jaqueta e a camiseta preta. O conde pegou a arma branca e mandou o jovem se deita na cama. Vislumbrou o corpo de Ludo, não muito forte mas havia músculos ali. O homem enfiou a pontinha da arma nos pulsos e na articulação do cotovelo. Sem muita cerimônia, ele começou a chupar o sangue de cada buraquinho que fez. O jovem sentiu um pouco de dor, mas até que era bom aquele tratamento. Aruan lambeu os lábios escarlates de sangue e começou a beijar o abdome do outro.

─ Hei, isso não estava no trato! ─ disse irritado, mas o conde nem ouviu.

O loiro começou a beijar os músculos do abdome definido do rapaz até chegar em seu peito. O moreno tentou se levantar, mas foi impedido pelo conde que logo começou a beijá-lo no pescoço. O visitante se levantou.

─ Tá doido, cara!

─ Você é... gostoso.

─ Eu sei que sou gostoso! Estou falando que você quis tirar uma casquinha se aproveitando da situação!

─ Hehehe sabia que você fica mais apetitoso com raiva.

─ Eu vou para um quarto de hóspede... ─ Aruan abraçou o rapaz por trás e disse sussurrando em sua orelha. ─ Nem morto que você vai dormir num quarto de hóspede. Você vai se deitar aqui na minha cama.

─ Tudo bem ─ disse Ludo se desvencilhando. ─ Mas nada de agarrar, encoxar, lamber, beijar, etc. Ouviu?

─ Eu juro que não faço isso.

Ludo se deitou na ponta cama e Aruan na outra ponta. O vampiro lambeu os lábios e sorriu com mais uma conquista.

No dia seguinte, Aruan e Ludo foram até a casa de Pierre. O jovem decidiu ir morar com o vampiro e nem quis mais saber da família. Lúcia implorou de joelhos pedindo perdão ao filho, mas o jovem não quis nem saber.

─ Não quero saber de suas desculpas. Nem tentem me seguir ou mando o Viemont soltar os cães sobre todos vocês!

─ Filho, não!

Pierre discutia com Aruan.

─ O que você fez com o meu irmão para ele ficar assim?

─ Relaxa, rapaz. Eu só domestiquei o Ludwig.

O rapaz nem quis olhar para trás e colocou as malas no carro e saiu com Aruan.

Lúcia ficou pasmada com a atitude do filho. Sentiu-se mais culpada ainda.

Aruan e Ludo entraram no palácio quando viram o padre Damien esperando pelo conde. Este pediu a Ludo que o esperasse na sala enquanto conversava com o sacerdote. Os dois entraram no escritório.

─ O que foi agora, padre?

─ Sabia que ontem à noite alguém ateou fogo na minha igreja?

─ Nossa, e por que isso me diz respeito? ─ disse sarcástico.

─ Eu tenho quase a certeza que foram aqueles aventureiros amantes de Baphomet. Aquele casal de canalhas da fraternidade.

Aruan ficou calado.

─ Soube que você contratou a Jane para afastar a família do rapaz. Como pode fazer isso ser tão perverso?

─ Isso não tem nada a ver com o senhor. Se fez as suas próprias escolhas, deixa eu fazer as minhas.

─ Você não deu escolha para o jovem lá fora assim como foi com Belinda.

─ Belinda mereceu o castigo. Ela abraçou a ideia de me trair. Não venha querer defendê-la, padre.

─ Tudo bem, não falo mais nada. Fique avisado que aquela dupla de aventureiros é esperta. Fique vigilante.

─ Por favor, padre. O que aqueles imbecis podem fazer contra mim?

...

Palácio Lures e Viemont, Dias depois

Sábado. O casal Bulankov aguardou o fim de semana chegar para invadir o jardim do palácio. Dorothy e Sergey conseguiram chegar lá à noite, quase onze horas. Ambos foram até o mausoléu, cortaram o cadeado com um alicate e tiraram as correntes. Dentro, o local era amplo e com estátuas de anjos.

─ Isso é...

─ Um sarcófago ─ completou Sergey.

Havia um sarcófago. Os dois viram um selo igual um pergaminho sobre a tumba. Retiraram e retiraram a tampa de pedra. Um forte vento tomou conta do lugar. Uma mulher que estava deitada abriu os olhos. Os olhos azuis que Aruan Viemont não via há mais de duzentos anos.