Uma picape chegou na cidade mais cedo daquele dia. O homem, aparentemente tendo os seus quarenta anos parou o carro no que parecia uma lanchonete. Ele vestia-se com roupas de fazendeiro, era ruivo cheio de sardas no rosto. Uma mulher estava ao seu lado, era a sua esposa, também de idade beirando os 40 anos e loira, com cabelos acima dos ombros, também vestindo roupas caipiras.

─ Cidadezinha agradável essa. Lembra-se das nossas aventuras em Tenessee? ─ disse ela.

─ Quando matamos aquela família de vampiros? Não foi uma das melhores recompensas da fraternidade. Era uma família de classe média e pouco conhecida.

─ Dizem que aqui na França é um campo florido de bebedores de sangue. Está pronto para enfiar aquela adaga de prata no coração do primeiro canino que aparecer?

─ Sim, querida. Antes vamos dar uma lanchada.

Eles entraram no estabelecimento e pediram dois hambúrgueres com vitamina. Enquanto esperavam os pedidos, eles planejavam mais uma missão para a fraternidade.

─ Com as coordenadas que temos, vamos começar a matança. Há uma família que nenhum único membro morre desde os anos 40. Isso significa que eles podem ter vida eterna pelo vírus vampiresco. Dorothy? Está me escutando?

─ Sim, estou. Apenas estou pensando. Aqui existe um palácio do século catorze com ainda moradores. Talvez eles sejam vampiros.

─ Esse palácio não é patrimônio do governo francês?

─ Querido Sergey, aquilo é patrimônio particular por várias gerações.

─ Isso não quer dizer que haja realmente vampiros famosos por lá. Se houvesse, pela importância do lugar, a fraternidade já teria nos dito muito antes de chegarmos aqui. Deve ser alguma família Addams excêntrica.

─ Enfim, amor, você ainda não me disse para onde vamos. Não quero ficar debaixo da ponte, se é que aqui tiver ponte.

─ Contatei um padre via Whattsapp, ele vai nos alojar numa vila da paróquia dele.

─ Porra, Sergey. Tinha que ser um padre? Eu odeio o cristianismo! Eles não aceitam que o mundo é laico.

─ É isso ou ficar debaixo de uma ponte.

Dorothy não teve outra solução a não ser aceitar.

PROBLÈME DE FAMILLE

Special Guest Stars:

Mordomo Yerai

Melissa Viemont

O carro de Lúcia parou bem em frente à casa de seu filho mais velho. Depois de buzinar algumas vezes, Lorenzo apareceu para dar as boas-vindas aos hóspedes. Os dois saíram do carro e foram pegas as bagagens no veículo.

─ Quer que eu ajude?

─ Claro, querido. Obrigada.

─ Quer que eu te ajude também, Ludwig?

─ Não preciso da sua ajuda ─ disse o outro com cara de poucos amigos.

─ Filho! Desculpe-me, Lorenzo.

─ Eu sei como é que é. Vamos entrando.

Os três entraram em casa logo em seguida Lúcia colocava o veículo na garagem. Ludwig entrou vagarosamente, com fones de ouvido e cantando baixinho sua banda de rock preferida. Viu Pierre em pé na sala esperando pelo irmão caçula.

─ Como vai, Ludo?

─ Vou bem, e você?

─ Bem.

─ Será?

─ Como assim? Por que perguntou “será”?

─ Sei lá, talvez nesses dois anos tenha contraído a AIDS.

Pierre ficou furioso e foi até ele tirar satisfações. Ludwig sentou-se no sofá e esperou a sua mãe quando de repente o mais velho lhe tira o celular.

─ Com que direito você faz isso?

─ Com que direito você diz que tenho aids?

─ Eu não disse que você tinha, eu só presumi. Afinal você é gay e todos os gays são promíscuos!

─ Cala a boca, moleque homofóbico do caramba se não quiser que eu parta a sua cara ao meio!

─ Experimenta! E não é da sua conta que eu sou, Pepi. Dá logo essa porra do celular!

Pierre se controlou para não avançar no irmão. Apenas entregou o aparelho e foi sair dali para fora. Lorenzo viu a angústia do parceiro, perguntou do que se tratava, mas ele não respondeu. Lúcia foi até o filho dar um abraço.

─ Querido, você está bem?

─ Estou sim, mamãe ─ ele teve que esconder o nervosismo. ─ Vamos entrar.

─ Bonita decoração de vocês. Mas sabe o que eu realmente espero há muito tempo? Um neto. Eu quero muito um netinho, filho de vocês.

─ Senhora Krauss, gostamos muito de crianças, mas é que não planejamos nenhuma adoção até hoje justamente porque não temos tempo para um filho. Nós dois trabalhamos e estamos nos melhores momentos das nossas vidas.

─ Oh sim, claro. Podemos ir ao quarto de hóspedes?

Ludo esperou os três subirem para também subir. O quarto que ele ficaria era ao lado do da sua mãe. Assim que viu a cama, deitou-se nela ainda com os fones de ouvido.

...

Palácio Lures e Viemont

O mordomo andou pelo longo corredor até chegar ao gabinete do seu patrão. Ele estava lendo um livro de romance literário. O mais velho pigarreou e entregou o cálice com sangue para o amo beber.

─ Que horas são?

─ Passa do meio dia, senhor.

─ Preciso me comunicar via Facebook com os meus amigos ─ ele abriu o notebook e ficou bisbilhotando as redes sociais. ─ Preciso encontrar outra presa para me relacionar o quanto antes.

─ Com todo o respeito, senhor, mas por que matou o jovem rapaz que se aventurou para esta residência ontem à noite, se o senhor mesmo admitiu que ele era uma boa pessoa e ainda lhe pagou muito bem.

─ Yerai, meu caro, sim é verdade. O rapaz era bom de cama, mas ruim de cérebro. Quando abri a gaveta da escrivaninha para entregar-lhe os quinhentos euros, eis que o meu relógio de ouro do início do século XX estava a aparecer e percebi de imediato que ele olhou de lado para o objeto reluzente. Saí do quarto, mas deixei a porta entreaberta para ver o que o jovem faria. Ele roubou o objeto e o guardou no bolso da sua jaqueta. Foi o fim para ele.

─ Desculpe se duvidei do senhor. Mas ainda tem muitas bolsas de sangue guardadas para o senhor. Por que matar os jovens assim?

─ Eu sinto que aquele que precisa ser encontrado esteja perto.

─ O descendente da Alcateia Lunar?

─ Sim. Cada década, eu mato um descendente que existe nesse mundo para nunca envelhecer durante vinte anos. Os homens lobos já foram uma ameaça para mim e minha família. Sinto que essa ameça esteja próxima e não vou perder a chance de beber esse sangue precioso. Estou ficando sem tempo, há dois anos que era para eu ter bebido, mas não encontrei.

─ Por isso o senhor mata os seus próprios amigos de internet e sai por aí com meretrizes e rapazes?

─ Exato.

Um rosto branco observou a conversa dos dois, era o espírito de uma garotinha de sete anos. Ela vestia um vestidinho branco que deixava ainda mais evidente os seus cabelos negros. Viemont viu a assombração atrás da porta e a chamou. Ela foi até o homem.

─ O que você quer?

─ Quero assistir a televisão.

─ Claro, vamos.

Viemont segurou na mão da fantasma e a levou para a sala de estar. A menina se sentou na poltrona e o homem ligou o aparelho para ela assistir.

─ Assim está bom?

─ Coloque na Nickelodeon, eu gosto de assistir o Bob Esponja.

─ A minha sobrinha é igual a mim, cheia de gostos. Pronto, fique quietinha aqui enquanto saio.

─ Sim, tio.

─ A senhorita Melissa ficará sob minha tutela enquanto está fora. Vai passear pela propriedade?

─ Não. Darei um pequeno tour pela minha cidade natal.

─ Faz quase seis meses que não sai de casa, realmente está desesperado para encontrar um descendente de sangue de lobo?

─ Isso não é da sua conta. Fale para o motorista retirar o meu carro, por favor.

Mais uma vez o anfitrião teve que passar pelo mausoléu trancado e lembrou-se de um tempo passado que ele não gostava de lembrar. O motorista trouxe o seu carro, mas ele preferiu mesmo dirigir. Os portões do palácio se abriram e o carro passou.

...

A picape parou na frente da igreja da cidade. Era um lugar honesto, pequeno, mas com construção gótica tipicamente europeia. O homem saiu do carro e pediu para a mulher esperar ali já que ela detestava padres. Ele caminhou pela igreja até ver o sacerdote rezando no altar.

─ Padre Arnold Damien?

─ Sim, sou eu ─ Damien era um típico padre branco, magro, de olhos castanhos claros e cabelos brancos.

─ Sou Sergey Bulankov. Quero saber se há quartos para alugar como o senhor dissera há alguns dias.

─ Sim, meu jovem. Há uma vila da paróquia em que eu sou um tipo de síndico do lugar. Eu estava esperando por vocês. Cadê a sua esposa?

─ Não se sentiu bem, por isso preferiu aguardar no carro.

─ Venha, eu vou te dar as chaves e o contrato.

Pierre ficou muito chateado pelo que o seu irmão falou e foi falar com ele no quarto. O rapaz estava cochilando e ainda não havia arrumado nada.

─ Já veio dar o sermão?

─ Por que você se tornou um troglodita?

─ Ah meu saco. Aonde quer chegar com esse papinho, bro?

─ Você me trata mal só por eu ser gay, isso não é suficiente? Sou dez anos mais velho e devia me respeitar.

─ Fala sério. Eu respeitar um casalzinho de boiolas? Olha pra você. Como consegue ter um orgasmo com um pau entrando no teu cu? Aquele Lorenzo por acaso é hermafrodita?

Pierre, com toda a violência, pegou Ludo pelo colarinho e o encostou com força na parede.

─ Me solta.

─ Não, você vai me ouvir, irmão. Você pode me xingar, frescar comigo diversas vezes. Eu aguento porque sou seu irmão. Porém, se eu ouvir ou ver você maltratando o Lorenzo dentro da minha casa ou na minha presença, eu juro que quebro os seus dentes e sua cara.

Ludo se desvencilhou e saiu daquele quarto. Desceu as escadas e saiu da casa. Lúcia até tentou perguntar para onde ele iria, mas não deu tempo.

O jovem conhecia aquela pacata cidade na palma da mão. Nasceu quando ainda tinha 8 mil habitantes, hoje ultrapassava os 15 mil. Havia uma praça onde pegava wi-fi e as pessoas passeavam todos os dias com seus filhos e animais de estimação.

O Conde Viemont andava com seu smoking caríssimo, bengala e um charuto que era indispensável. Além disso usava um chapéu preto. Parecia ter parado no século XIX. Ele caminhava distraído enquanto mantinha um best-seller debaixo do braço. Nisso ele esbarrou feio deixando cair o livro. A pessoa passou direto, sequer pediu desculpas. O conde apanhou o objeto e viu o rapaz indo para mais no interior da praça.

─ Quanta falta de decoro da parte daquele jovem.

O homem viu o rapaz se sentando num banco.

Enquanto isso, Pierre reuniu a mãe e o Lorenzo para uma conversa Não foi nada fácil visto que o tema era o seu próprio irmão.

─ Olha, se ele está incomodando vamos embora amanhã mesmo.

─ Não, que é isso. Pra que isso? ─ questionou Lorenzo. ─ A senhora é a nossa convidada e seu filho também.

─ Você é tão compreensível com aquele imbecil, mas sempre é alvo de ataques dele. Mas tenho que concordar que não posso deixá-la ir agora que veio. Mãe, deixa que eu conserto o Ludo nem que seja na porrada.

─ Não! Ninguém é corrigido assim, amor ─ protestou Lorenzo.

─ Adoro os dois. Se as pessoas vissem como os gays são tão felizes. Eu tenho orgulho de ser mãe de um.

Os três sorriram.

Voltando à praça, Ludo ficou mexendo no seu celular quando Viemont sentou ao seu lado. O rapaz afastou-se um pouco.

─ O clima de hoje está bom, você não acha?

─ Acho que sim.

─ Como era bom os velhos tempos onde as pessoas conversavam cara a cara, se entendiam como verdadeiros cavalheiros ou damas. Hoje essas tecnologias degradaram o bom e velho costume.

─ Nossa, cara. Você assim parece o meu bisavô falando.

─ Muitos preferem conservar o que aprendeu e outros gostam de se renovar. Eu sou conservador nesse sentido. Aliás, eu sou do tempo em que as pessoas pediam desculpas quando esbarravam nas outras.

─ Opa, desculpe cara. Eu estava distraído. Espere aí, você não tem cara de velho. Se veste, fala e age como tal, mas parece ter a minha idade.

─ Vinte e cinco para ser exato. Aliás foi falta de decoro não me apresentar. Sou o conde Aruan Sean-Poirot dé Viemont III. Mas pode me chamar de Aruan, se quiser.

─ Nossa, preciso escrever esse nome complicado. Parece até da realeza quer dizer, é um conde. Desculpa aí, Aruan. Não foi minha intenção, mano.

─ Sem ressentimentos, caro anônimo.

─ Ah, sou Ludwig van Krauss.

─ Foi um prazer conhecê-lo Ludwig. Adoro o seu nome, igual de Beethoven. Aperte minha mão e irei embora.

Ludwig apertou a mão do homem. Aruan sentiu uma corrente de energia percorrer todo o seu corpo. Uma informação importante chegou ao seu cérebro. Ele estava cara a cara com um descendente de homens lobos.