Lorenzo recebeu os convidados para entrarem na casa. Os dois olharam para a moradia, muito classe média, muito chinfrim.

─ Quem são essas pessoas? ─ perguntou Pierre.

─ Amor, são...

─ Chamo-me Aruan Viemont e esta é minha parente irmã, Jane Rafaelli. Somos amigos do Ludwig. Foram anos conversando pelo Facebook e agora ele disse ontem que estava na cidade. Viemos visitá-lo. Algum problema?

─ Não. Entrem, por favor.

Pierre levou os convidados para a sala de estar. Os dois se sentaram no sofá bege enquanto aguardavam o garoto. O irmão mais velho nunca ouviu o mais jovem mencioná-los, por isso a curiosidade.

─ Como vocês conheceram o meu irmão?

─ Jane e eu gostamos muito de rock e foi num bate papo de um grupo do Facebook que nos conhecemos. Ludwig nos disse que estava vindo passar uns dias aqui e aproveitamos para esta calorosa visita.

─ Meu irmão nunca foi de fazer amizades, pois ele é meio preconceituoso com o que ele chama de “caipiras” referindo-se ao povo do interior ─ disse Pepi.

─ Asseguro que ele jamais nos destratou, não é Jane?

─ Claro que sim. Ele é um amor de pessoa. Ontem mesmo foi para a nossa casa nos visitar, mas parece que não nos encontrou pois havíamos saído ontem.

─ Então foi por isso que o Ludo chegou ontem aborrecido. Tá vendo, Pepi, você julgou o seu irmão errado.

Lúcia desceu para a sala e viu os dois convidados converso com o filho e genro. Ela também entrou para a conversa.

Ludo estava online pelo seu notebook quando a sua mãe o chamou para o jantar. Ele desceu, foi lavar as mãos e foi à mesa. Quando viu Aruan ali ele escorregou e caiu no chão. Lúcia correu para ver o que o filho tinha.

─ Você está bem, querido?

─ Estou.

─ Eu disse que quando o Ludo nos visse, cairia no chão ─ disse Aruan sorrindo.

CHÂTEAU HANTÉ

Special Guest Star:

Arrumadeira Frans

Enquanto isso, o casal Bulankov chegou em casa depois de mais uma matança na lista deles. Pelo que Sergey havia programado, sairia da cidade no dia seguinte e entregaria os órgãos aos membros da fraternidade. No entanto, algo que chamou a atenção de Dorothy foi a conversa daqueles rapazes e os rumores que sempre havia escutado a respeito do palácio de Pierrot.

─ Agora me diga. O que foi que você escutou daqueles caras?

─ Eles estavam falando que vão invadir o palácio de Pierrot. Disseram que pode haver tesouros lá dentro, e que possivelmente é assombrado por vampiros.

─ Você acredita mesmo nesses boatos?

─ Não custa tentar.

─ Tudo bem. Porém, hoje não. Os caras já vão pular o muro e a segurança vai se reforçar. Deixaremos para um outro dia.

─ Perfeito. Por isso eu te amo. Lembra-se quando nós nos conhecemos na fraternidade?

Londres, Março de 2003

Na periferia dessa maravilhosa cidade, um grupo sempre se reunia para as suas adorações secretas. Era a sociedade conhecida como Mors ad Lamia. Os membros dessa fraternidade faziam um pacto de sangue e juramento eterno para acabar de vez com os humanos vampirescos que ainda existiam nos tempos modernos. Eram pessoas de qualquer raça e opção sexual, porém deveria deixar o credo para adorar ao deus deles, Baphomet. Claro que eles se reuniam secretamente, pois poderiam ser alvos de cristãos fervorosos.

Os membros sempre teriam que utilizar capuz ao saírem à noite. Numa dessas noites uma mulher, que sofria depressão, foi levada por um colega de classe para assistir a essas reuniões. A sala era bem iluminada, ampla, arejada. O símbolo do pentagrama inverso era visível atrás do palco. Uma estátua do ídolo deles era visível bem ao lado do mesmo palco. Ela até pensou em sair, mas o amigo disse que ela se sentiria bem.

Aos poucos a mulher foi gostando das palavras confortantes do reverendo. Todos aplaudiram a reunião que tiveram. Depois das orações ele conversaram entre si.

─ Quero apresentar uma amiga minha. Ela estuda na mesma universidade que eu. Dorothy Dallagno.

─ Prazer em conhecê-la, Dorothy. Eu sou Sergey Bulankov.

Ambos trocaram olhares.

Dias atuais...

─ Agora que está convencido de ficar aqui, o que pretende fazer?

─ Perguntar a uma pessoa idosa que possivelmente terá muitas respostas às minhas perguntas ─ disse Sergey.

Igreja de Pierrot

O padre estava pronto para sair da igreja, depois de um domingo de missas, quando viu Sergey parado no corredor entre as cadeiras bem em frente ao altar. O russo caminhou até o mais velho e fez o sinal da cruz. O sacerdote foi até o visitante.

─ Não esperava vê-lo aqui, filho. O que quer?

─ Padre, eu quero fazer apenas algumas perguntas a respeito desta cidade. O senhor veio em minha mente, pois é idoso e com certeza conhece a história dela.

─ Vamos nos sentar. O que você quer saber?

─ Padre, o que tem naquele palácio?

─ Qual palácio?

─ O senhor sabe. Lures e Viemont.

─ O que eu poderia saber?

─ Há realmente algo de sobrenatural naquele lugar? Quem são os moradores?

─ Você faz perguntas nas quais não pode obter respostas.

─ Por que não?

─ Por que não faço a mínima ideia de quem são os proprietários daquele lugar. Se for só isso mesmo é melhor eu me retirar. Preciso fechar a igreja.

─ Tenho a impressão de que o senhor esteja me escondendo algo. Será porque lá moram uma família de vírus?

Padre Damien desconversou e pediu para o homem se retirar. Sergey respeitou o mais velho, mas disse que ainda teria uma boa conversa com o sacerdote.

...

Durante o jantar na casa de Pierre, Aruan trocava de olhar com Ludo de instante em instante. O rapaz rockeiro odiava aquilo, aquela encenação. Jane também era espontânea e cativou os demais que estavam ali.

─ Meu filho tem muito sorte em ter amigos assim como vocês ─ disse Lúcia. ─ Ultimamente ele anda estressado por causa da morte do pai dele. Ter expectativa de ver o meu menino alegre é uma sensação de orgulho.

─ Claro que estamos felizes com vocês. Ludo deve se divertir muito com vocês ─ disse Lorenzo.

Ludo revirou os olhos. Queria que aquilo tudo terminasse. Por isso se levantou e pediu para o “amigo” fosse com ele até a cozinha. Quando Aruan chegou lá, ele foi puxado violentamente pelo outro.

─ Mas que merda está fazendo aqui?

─ Visitando o meu amigo.

─ Ficou maluco. Não tem a noção do perigo? Não costumo ficar de conversa mole pra viado. Comigo é na base da porrada.

─ Sempre soube que a diplomacia não era o seu forte, por isso eu já vim preparado.

─ Saia daqui e não volte nunca mais.

─ Você não tem opção de mais nada.

─ Opção de quê?

─ Vou dar o meu veredicto. Se você não for para a minha casa amanhã pela manha, às 9 horas, eu vou fazer algo terrível com a sua família.

─ Olha aqui, eu não tenho medo das suas ameaças.

─ Eu sei que você não se simpatiza pelo seu irmão, certo? Portanto, eu investiguei que a sua mãe trabalha numa boutique de roupas chiques em Paris. Boutique Vêtements D'amour. A proprietária da cadeia de lojas é uma conhecida minha. Com uma ligação eu posso fazer a mulher despedi-la ou pior, criar uma situação que a sua mãe possa ser taxada de ladra. Gostaria de hipotecar a casa?

─ Maldito.

─ Amanhã, às nove. Se ainda gosta da sua mãe.

Aruan voltou para a mesa.

─ Diga-me, querido, como é aquele palácio onde vocês vivem? ─ perguntou Lúcia.

─ Apesar do muito espaço a minha família ainda mora conosco. São décadas de companheirismos ─ disse o conde.

...

Palácio Lures e Viemont

Três sujeitos gatunos resolveram entrar na vasta propriedade. O local não tinha um grande sistema de segurança, nem cerca elétrica. Os muros eram altos suficientes para nenhum amador conseguir escalá-los. Acontece que era muito comuns ladrões invadirem, porém nunca voltavam com vida. Os seguintes homens eram os mesmos vistos por Dorothy Bulanvok.

─ A corda está pronta? ─ disse um deles.

─ Claro que sim. O gancho deve ter ficado preso em alguma pedra ─ disse o outro, barbudo.

─ Então vamos lá ─ disse um moreno.

Os três subiram o muro. Conseguiram ficar de pé e verem a vastidão do terreno do palácio. O muro tinha pelo menos 1 metro de espessura.

Eles desceram escalando e entraram sem chamar a atenção. Avistaram o palácio a menos de cem metros. Correram para a parte dos fundos da casa e viram uma porta aberta. Será que eles esqueceram aquilo lá? Antes de entrar, o barbudo escutou uma voz.

─ Me ajuda...

─ O que foi isso?

─ Quê? ─ perguntou o líder.

─ Alguém falou alguma coisa pedindo ajuda.

─ Deixe de loucura. Eu estou a menos de trinta centímetros de você e não ouvi nada ─ disse o moreno.

─ Mas eu ouvi.

─ Parem de discutir os dois. Senão vão acordar os moradores. Armas em punho.

Os três estavam portando revólveres caso precisassem deixar as pessoas como reféns. Eles entraram pela portinha vermelho dos fundos. Desceram uns cinco degraus, logo perceberam que havia outra porta, agora de ferro, na frente deles. O objeto estava um pouco aberto o que facilitou a entrada dos três. Era tudo escuro. Nem parecia uma mansão, apenas uma caverna ou uma masmorra. Encontraram uma bifurcação. Escolheram o lado direito. O moreno pegou o esquerdo, pois se perdeu dos outros à frente. Percebeu logo que havia cometido um grande erro.

─ Gente, cadê vocês?!

Um rosto negro surgiu atrás dele, bem perto da sua nuca. Ele se virou de repente, com a lanterna do celular iluminou o ambiente. Havia terra no chão. Quando viu esqueletos humanos logo bateu o desespero. Virou-se e viu a sombra.

─ AHHHHH!

─ O que foi isso? Roger? Cadê aquele idiota?

─ Eu não sei. Ele estava bem atrás de mim.

─ Vai lá procurar ele e traga-o para continuarmos com a invasão.

O barbudo voltou. Foi ao mesmo local e viu rastros de sangue. Levou uma pancada na cabeça.

O líder dos ladrões viu uma porta logo à frente. Estava trancada. Escutou barulhos se aproximando. Atrás estava um breu. Claro que ele ficou com medo e não se atreveu em chamar os outros colegas. Com um tiro, conseguiu abrir o cadeado e entrar. Estava num corredor para mais uma outra porta e por fim estava na cozinha. O local era grande, mais parecido com cozinha industrial e de hotel. Não havia ninguém, exceto por uma garotinha toda de vestido branco brincando de boneca. Ela sorriu para o invasor e correu. Ele foi atrás e quando estava prestes a sair do lugar deu de cara com Frans. O homem apontou a arma para a arrumadeira.

─ O que quer?

─ Bora, velha. Leve-me até o tesouro.

Frans caminhou na direção dele.

─ Mais um passo e eu atiro.

Frans deu dois passos. O homem atirou contra o peito dela, porém a mulher, que era um espírito, não caiu morta no chão. O homem ficou chocado com aquilo.

─ Acho que vou deixar você de presente para a súcubo ─ disse ela.

...

Aruan e Jane despediram-se dos moradores daquela casa e pegaram o carro, pois o motorista já estava esperando. Dentro do automóvel eles finalmente puderam retirar as máscaras.

─ Finalmente consegui sair daquela casa. Você está me devendo muito. Cheiro de pobreza só basta o bojo da privada.

─ Eu sou generoso com quem me ajuda. Inclusive eu já pressionei o Ludwig a ir para o meu palácio senão a querida mamãezinha será demitida.

─ Você é perigoso mesmo.

─ Eu não. Só quero o que mais quero. Beber um bom sangue de homem lobo.

A limusine chegou na entrada da propriedade. O carro passou assim que o portão abriu e eles saíram do veículo. Jane mais uma vez viu o mausoléu ao lado da casa maior.

─ O que você esconde ali à sete chaves?

─ Segredos do passado. Um passado mais além que o seu.

─ Fiquei curiosa.

─ Não, querida. Melhor nem tocarmos no assunto. Preparada para receber o meu presente de boas-vindas? Frans uma hora dessas já deve ter preparado tudo.

─ Beleza ─ disse a súcubo.