Notas iniciais
Fernando sente que estava sendo perseguido. Será que o seu passado nunca vai deixá-lo em paz? Enquanto isso, um detetive de polícia começa a investigar uma morte que poderá ter algo a ver com a noite fatídica.

PENITENCIÁRIA DE ITAITINGA, CE

Um entregador desceu da moto com uma mochila. O rapaz entrou no presídio para entregar uma marmita que deixaram para um detento. Assinou para o responsável e entregou. Foi embora.

A vistoria no local era rigorosa. Os agentes penitenciários abriram a marmita de plástico e mexeram na comida para ver se notam algum tipo de droga ou até mesmo celular e chip. Passou da inspeção e despacharam para o detento.

Um dos carcereiros levou o alimento para o detento.

― Aí, moleque. Presentinho para você.

― O que tem hoje?

― Teve sorte. É um bife de categoria. Acho que deve ser cupim, carne nobre. Tem alface e muito mais.

― Preferia mil vezes se tivesse um celular aí dentro.

― Não reclama, vai. Só me faltava essa. O Brasil na porra duma crise e tu frescando com a cara da gente. Coma logo, vê se come quieto.

O homem abriu o recipiente. O cheiro parecia ótimo. Comeu tudo, ficou satisfeito e foi dormir. Momentos depois acordou com uma falta de ar e uma forte pressão no peito. O homem começou a ter convulsões e a sangrar pela boca. Arrastou-se até a grade e tentou chamar o carcereiro. Morreu ali mesmo com o sangue escorrendo pela boca.

A PRIMEIRA VÍTIMA

O carro da polícia civil parou no estacionamento da penitenciária. Um homem saiu do carro acompanhado por mais alguns outros. Entrou no local.

― Detetive da delegacia de homicídios, Jonas Lambert. Onde está a nossa vítima?

O diretor do presídio levou o policial para ver a cena do crime. A perícia forense já estava fazendo a sua parte.

― O que temos? ― perguntou Lambert ao perito chefe.

― Parece que havia uma alta dose de veneno no almoço que ele comeu. Encontramos resquícios no fundo da marmita e levamos para análise. O diretor disse que um motoboy trouxera, mas não havia remetente.

― Neste lugar não há inspeção?

― Há. O problema que a inspeção é ao olho humano. Não temos equipamentos de ponta para vasculhar o que havia no componente da comida ― explicou-se o diretor.

― Se trouxessem antraz morreriam todo mundo e ninguém saberia do que foi. Ceará miserável. Como o sortudo se chamava?

― João Hélio da Costa.

― Diretor, traga-me a ficha criminal do indivíduo.

O homem trouxe o que o outro pedira. Um arquivo cheio de páginas.

― Parece que o João não era tão bonzinho assim. Foi preso por pequenos delitos e por dois mais pesados, estupro e assassinato ― disse Lambert.

― O que acha que foi? Acerto de contas? ― perguntou outro policial.

― A pessoa que planejou a sua morte, fez isso com minúcia. Tudo no esquema. Provavelmente sabia o que o morto gostava, exatamente. É um processo delicado demais para ser feito por um reles membro de uma gangue rival.

― Detetive Lambert, achei nos arquivos os dois crimes mais pesados que ele cometera ― disse o seu parceiro. ― Parece que ele estuprou e matou uma mulher em 2010.

― Quero todos os detalhes desse caso. Alguma vítima que sobreviveu pode ter feito isso.Vá pesquisando enquanto isso. Estou disposto a ir até o fim nesse caso.

...

Fernando terminou os estudos, estava cursando a faculdade de direito pelo terceiro ano. Foi uma alegria para a mãe dele saber disso. Ao dia, trabalhava como auxiliar administrativo com Lucas, o antigo colega de classe; e à noite, estudava.

Na verdade, foi Lucas quem o incentivou a mudar de vida. Hoje, os dois são verdadeiros amigos.

― Não me diga que o tal Fábio está indo atrás de você?

― Eu juro que sim. Ontem mesmo eu recebi um embrulho contendo esta figura. Uma suástica. A pessoa que me deu isso sabia do meu passado.

― Pode ter sido aqueles caras que você se envolvia. Por Deus, por que aquele Fábio iria fazer isso? Soube que uma tia dele o levou ao interior. O cara só pode estar a quilômetros daqui.

― Estou com medo. Eu nunca contei para a minha mãe. Ela nem sabe que eu já fui um usuário de drogas.

― Pra mim isso é paranoia da sua parte. Você fica se martirizando por causa de um passado. Se toca, cara. A sua vida é o presente. Nosso Senhor esquece os pecados dos arrependidos. Você precisa ficar calmo. Ah, é melhor apressarmos pois a hora do almoço está para acabar.

Fernando não parava de pensar no embrulho que recebeu.

...

DELEGACIA DE HOMICÍDIOS

― O que temos?

― Olha só, tenente. Achei no arquivo do computador. Parece que o tal João era metido num grupo neonazista. Naquela noite, eles encurralaram três pessoas negras. Assassinaram duas a sangue frio. Checando mais, eram três. João Costa, Leonardo Fernandes e Caio Escobar. Os três foram presos. Disseram que havia mais dois, mas nunca deram nomes. A vítima que ficou viva contou que eram apenas três.

― Quem era?

― Fábio Souza Silva. Ele era filha de Maria das Dores Souza Silva e irmão de Danilo Souza Silva. O pai dele morreu anos antes num acidente de trânsito. O senhor está achando que foi ele quem enviou a comida envenenada.

― Só pode. Quero fazer contato com o Fábio ainda hoje.

― Vai demorar um pouquinho. Hoje ele mora em Sobral com a tia.

― A minha jurisdição só envolve a região metropolitana. Quero fazer uma ligação ao promotor de Sobral o quanto antes. Quero reabrir essa investigação.

Lambert sentia o cheiro de vingança no ar.

...

Léo era entregador de garrafões de água. Todo dia ele entrava às 8 da manhã e saía por volta das 7 da noite. Foi o único emprego que durou muito tempo para alguém que estava na condicional. Depois daquele episódio, ele foi mandado embora de casa. Ultimamente estava se aproximando da família, porém deixou a vida confortável de um bairro nobre para viver numa casa simples da periferia.

Ele chegou na sua bike, como sempre. Abriu o portão, mas a porta estava encostada. A casa dele era um pouco afastada, a última de uma rua deserta sem saída. Ele se afastou, olhou para a janela da parte de cima, tudo desligado. Não se importou com isso e entrou. As luzes estavam apagadas, mas algo estava se mexendo embaixo da sua cama.

― O que diabos é isso?

Ele acendeu a luz do quarto, pegou o cabo de uma vassoura e levantou o lençol. Ele se assustou ao ver uma galinha preta debaixo da cama. Espantou o animal para fora de sua casa.

Ele não costumava receber visitas, exceto de uma namorada chata que ele deu um fora.

Preparou o seu próprio jantar no microondas, comeu, tomou banho e foi se deitar. Durante a madrugada, escutou barulhos oriundos da parte de baixo. Calçou o chinelo e foi averiguar.

Desceu as escadas, viu a galinha, que ele colocou para fora de casa, dentro outra vez.

― O que diabos está acontecendo?

Virou-se, recebendo uma forte pancada. Desmaiou ali mesmo.

...

― Oi mãe.

― Mãe, o Fernando chegou.

― Oi, filho. Como foi na aula?

― Foi tudo bem. Vai ter uma bateria de exames relâmpagos. Preciso estudar.

― Chegou outro embrulho. De novo sem remetente. O que será? Abra aqui mesmo.

― Que é isso mãe. Parece que desconfia de mim.

― Desculpa, mas é estranho.

― Tá bom, eu abro. Afinal, eu não estava esperando nem o embrulho de ontem, nem o de hoje.

Fernando abriu vagarosamente o pacote. Ele já previa o que estava acontecendo, mas tinha uma pontinha de esperança. Nada. Havia uma pena negra no fundo da caixa.

― O que significa isso, Fernando?

― Nada. Só algum engraçadinho querendo aparecer.

― Ontem, domingo, você ficou estranho no jantar quando chegamos do culto. Depois que recebeu aquele pacote. Agora me aparece com uma pena de galinha preta? Lê o bilhete.

― Que bilhete?

Ele nem se deu conta que tinha um papel na caixa. Ele leu:

“Sua sina é minha sina.”