E eu quero um momento para ser real
Quero tocar as coisas que eu não sinto
Quero segurar e sentir que estou no lugar certo.
– I'm Still Here — John Rzeznik

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– Eu não passo a maior parte do tempo na cabine do Percy. — Nico murmurou em algum momento durante o jogo de cartas. Leo sabia que ele estava ansioso para terminar a partida e ficar pendurado no mastro como sempre, mas estava fazendo o máximo de estratégia possível num jogo de baralho comum para que demorasse.

Nico se escondia sim, mas não era dos outros. Era de Leo. Por isso ele preferiu não responder, fingindo estar concentrado no jogo.

– A cabine de Percy me deixa mal. — Nico suspirou, surpreendendo Leo. Não achou que ele iria continuar falando, até por que o latino estava o forçando a passar tempo consigo.

– Eu também ficaria. — Leo coçou o queixo desajeitado. — Quer dizer… Você e Percy são amigos há anos, certo?

– Nós somos primos. — Nico começou a mexer com o seu anel. Era vez dele de jogar, só que Leo não queria chamar a sua atenção. Talvez Nico ainda dissesse algo. — Eu o conheci com onze anos quando ele me resgatou junto com Thalia Grace.

Thalia. Ah. Leo havia ouvido mais histórias dos filhos dos Três Grandes que eram tão impetuosos e poderosos quanto os pais. Leo havia visto em Jason, Thalia e Percy. Provavelmente tinha uma quedinha por superpoderosos que podiam acabar consigo.

Espera, quê? Thalia havia sido única. Não?

– Eu conheci Thalia. — pigarreou. — Ela fez o Jason lembrar de muita coisa, principalmente do grampeador.

Nico levantou o rosto no mesmo instante e Leo pode notar que ele tentava não sorrir. Ele finalmente jogou a sua carta — uma jogada nada inteligente. Se aquele fosse um strip poker, Nico já teria perdido as calças.

– Grampeador?

– Yep, o que causou a cicatriz no lábio dele.

– Aqui? — Nico perguntou colocando o dedo sobre os lábios e... Wow. A boca dele sempre foi pequena e redondinha assim? Leo teve que piscar para sair do estado de surpresa.

– Mais em cima.

Nico foi mexendo o dedo por todos os cantos menos no lugar certo. Leo teria se irritado com aquilo, por que o garoto era bem mais desajeitado que o normal, se não tivesse achado extremamente adorável. Era engraçadinho do mesmo jeito que um filhote era engraçado.

Meio perdido no momento (na verdade muito perdido), Leo se inclinou e segurou o pulso de Nico, assustando-o. De repente lembrou-se como havia o achado doce com os olhos arregalados. Nico era… Uma criança de quatorze anos que havia passado por um monte merda, mas não era ruim. Não fazia mal para ninguém, só tinha problemas.

Ele abaixou a mão dele fazendo seus dedos cruzarem exatamente onde estava a cicatriz de Jason.

– Aqui.

Não estava mais preocupado com isso. Debaixo do cabelo espesso de morcegos bebês, havia um rosto bem ornamentado e muito infantil. Como se Nico não tivesse entrado na puberdade, mas com certeza a sua voz não era fina.

Nico ia dizer alguma coisa, provavelmente mandar Leo parar de ser tão assustador próximo desse jeito quando o barco deu um solavanco e Leo se desequilibrou, e em vez de ir para trás, ele foi para a frente e acabou empurrando Nico para trás.

Okay, aquilo era constrangedor. Leo havia acabado de cair em cima de um Filho de Hades, fazendo o coitado bater a cabeça por que era isso que a sua expressão dizia: Dor. E Leo estava muito próximo. O bastante para ficar super desconfortável.

– Err… — antes de Leo conseguir se embaraçar ainda mais, os dois semideuses ouviram gritos frenéticos no convés.

Estavam sob ataque.

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A cada animal demoníaco que aparecia Leo estava determinado a nunca mais entrar num zoológico na sua vida. Com escolha ou não, ele não iria. Não queria ver mais nenhum bicho; nem as zebras, as dóceis e meigas zebras.

Mas com sorte ele tinha Nico sobre o mastro lhe dando as melhores ideias. Ele era brilhante. Leo se perguntou como seria uma peça armada pelos os dois. Poderia trabalhar nisso quando a Guerra acabasse.

Leo notou como estava olhando para o futuro. Antigamente ele preferia não pensar muito sobre nada, com medo de cair em pensamentos pessimistas. Talvez Jason estivesse certo, algo havia mudado em si. Ele não tinha tanto medo como antes, e não sabia dizer se estava se acostumando com o perigo ou o perigo estava diminuindo.

De qualquer forma sentiu-se orgulhoso por ser útil quando conseguiu fazer o barco arrancar. Faria o que fosse preciso para deixar seus amigos seguros, isso era fato. Não era um herói como Percy, mas ele pelo menos tentava em vez de desistir de cara.

– Ah, não foi nada de mais. — respondeu após ser elogiado. — Eu queria que o fogo tivesse durado mais tempo e agora nem da para usar de novo.

Leo olhou para Nico automaticamente, como se esperasse aprovação. O moreno revirou os olhos, mas sorria. E ninguém notou.

Então Piper quase levou uma flechada. A primeira coisa que Leo pensou foi: “Nico desça da porra do mastro”; enquanto Jason gritava para a namorada se abaixar. Era instinto.

– Esperem! Ali. — Frank os impediu de se armar, apontando para um ponto sobre a parede rochosa. Contra a luz solar, uma figura pequena se destacava, com brilhinhos como se tivesse usando peças de armadura. Leo ia mesmo gritar pra Nico descer quando Hazel ficou em pé parecendo furiosa, indo em direção à flecha.

– Huh, Hazel? — Leo tentou, mas ela já havia pego o bilhete que estava pendurado. Era tanta coisa ao mesmo tempo que Leo não notou Piper falando sobre o papelzinho.

Assim que ela terminou de ler, um silêncio pesado caiu sobre os tripulantes reunidos do Argo II.

– O bilhete está assinado? — Nico perguntou.

– Pelo amor do fogo nas sobrancelhas de Herfesto, desce daí. — Leo finalmente pediu. Nico o olhou surpreso.

– Eu não…

– Desça, Nico. — Leo teimou. Nem sabia que conseguia soar tão mandão. Por um instante lembrou de Annabeth e isso o rendeu um arrepio. — Tipo cara, qual é. Você está com a guarda mais baixa que as calças de um nerd. Olha ali. — Leo começou a estudar o topo do penhasco sem parecer mais nervoso que o estado normal numa situação de vida ou morte. — Não é uma boa trajetória. Mesmo que pudessemos armar a catapulta antes que o cara fizesse chover flechas, não acho que conseguiríamos atingi-lo. Mas você seria o primeiro. — ele olhou feio para Nico. — A não ser que queira ser nosso homem bomba, é melhor descer.

Em um instante Nico estava de volta no convés, parecendo bastante emburrado. Leo controlou o sorriso. Não era hora para isso. Mas ele não podia evitar achar as expressões de Nico cômicas, agora que as reconhecia.

– A minha mãe morreu a tempo de mais para você agir assim agora.

Leo segurou a respiração.

– A minha também, mas vamos tentar não acabar como elas, okay?

E surpreendetemente foi Frank que deu continuidade à conversa sobre o assunto mais importante no momento.

Leo não conseguiu agradecê-lo mais.

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– Deve ser foda. — Leo comentou após alguns minutos que Hazel e Jason haviam saído. — São dois amigos preciosos pra mim lá em cima, mas nenhum deles é um parente. Ainda mais… Com o lance de Hécate.

Nico respirou fundo enquanto o vento passava por eles, bagunçando o cabelo de ambos. Piper estava com um estúpido sorriso no rosto que Leo não conseguiu ignorar desde que fez Nico descer do mastro, estranhamente quieta. Leo não queria saber o que aquela mente brilhante e maluca dela estava tramando.

– Eu preciso confiar em Hazel como ela confiou em mim ao me salvar. — Nico olhou na direção do penhasco. — Eu sei muito bem que se não fosse por ela… Eu estaria morto.

Piper se remexeu e fez uma careta como se tivesse levado uma flechada. Aquela flechada, na verdade. Leo se sentiu do mesmo modo, notando como o jeito direto e auto depreciativo de Nico era… Triste. Não quis que o garoto pensasse isso, apesar que era verdade.

Leo não conseguia mentir e dizer que se preocupou com Nico desde o início, mas agora ele queria que fosse verdade e isso significava alguma coisa. Olhando para Piper, viu que ela pensava o mesmo.

De forma cautelosa, ela tocou seu ombro. Nico nunca era hostil com ela. Na verdade não irradiava metade da sua aura assustadora com Piper, como se ela o influenciasse. Leo não se sentiu meio intrigado pelo fato de Piper conseguir aquilo tão facilmente, que isso.

Bom, as intenções dela eram muito melhores que as suas. Desde o começo. Isso era motivo o suficiente para ele não discutir.

– Você é um ótimo irmão, Nico. — Piper disse sincera. — E um bom amigo, quando se deixa ser. O que você estava contando… Sobre o Bob, eu não sei se eu faria isso por um primo.

– Faria sim. — Leo e Nico responderam em coro. Os dois se encararam antes de Leo cair na gargalhada e Nico tentar esconder a risadinha. Piper revirou os olhos.

– Vocês me julgam mal.

– Mas você não é a reencarnação da Madre Teresa? — Leo perguntou, recebendo o costumeiro soco no braço da sua melhor amiga. Nico riu.