#BABYBATWINGS
5 05.
Notas iniciais
Acenda o fogo, a brasa que vai brilhar
Acenda o fogo, uma chama no meu coração
Vamos correr enlouquecidos
Vamos brilhar no escuro
– Charlie Brown — Coldplay
xx
Nico foi o primeiro a abraçar a irmã quando ela desceu exausta do precipício, quase inconsciente, mas inteira. Deixou que Frank a levasse apenas por que era o mais sensato, e pela a primeira vez Leo não soube dizer com quem estava mais preocupado.
De qualquer jeito, ele tentou conversar com Jason de forma normal antes de procurar a companhia de Nico com pressa. Claro que Jason percebeu, por mais exausto e perdido em pensamentos de batalha que estivesse. Mas ele não disse nada, e Leo só conseguiu pensar onde poderia achar Nico, como um instinto natural. Pareceu o certo, estar com o garoto quando ele tinha uma expressão tão aflita. Sabe-se lá o que Nico podia fazer sozinho naquelas horas.
Achou-o na enfermaria, reunindo ambrósia e néctar com os dedos trêmulos. Nico estava... Distraído. Aquilo era tão raro que... Tipo, não devia acontecer. Era primeira vez que Leo via... Ele tinha que aproveitar.
Nico estava sempre assustando as pessoas, e essa podia ser a hora do jogo virar. Leo se aproximou mais cauteloso o possível, ficando atrás de Nico. Debateu por alguns instantes o melhor jeito de fazer aquilo. Poderia ser a única coisa que iria fazer antes de morrer, tinha que valer a pena.
– Eu voltei pra você…– Leo fez a voz mais grossa e arrastada que conseguia sem soar muito ridículo, controlando o riso. — E você me dá as costas?!– ao dizer isso ele segura a cintura de Nico com força e o vira na sua direção. A expressão do italiano foi ouro até ele tentar se afastar, fazendo com que Leo perdesse o equilíbrio (de novo, já estava ficando ridículo, Valdez) e o empurrasse para trás. Mas eles não caíram no chão. Nico foi prensado na mesa, ainda de pé, com Leo muito próximo o segurando.
– Valdez…– a temperatura de Leo caiu. — Me solta.
– Ou? — Leo provocou fingindo não estar completamente assustado.
– Ou eu corto as suas mãos, pare de me cutucar! — Nico exclamou colocando as mãos no peito de Leo pedindo espaço, abaixando o rosto.
Leo pode notar que ele estava ficando vermelho. E também notou que estava batucando uma falha representação de código morse na cintura de Nico. Ah não, “Eu te amo” de novo não.
Leo o largou na hora. Afastou-se um pouco, sem conseguir olhar para Nico. Pode ouvir o Filho de Hades bufar. Notou, pelo canto do olho, que ele havia se agachado, e isso fez Leo entender que havia derrubado o que Nico pegava na sua brincadeirinha. Observando melhor o garoto agora, talvez aquela não tivesse sido a melhor ideia. Nico parecia realmente exausto e preocupado.
– Hey… Foi mal. — Leo ofereceu do seu jeito desconsertado, segurando boa parte das ambrósias que Nico escolhera. Nico tentou pega-las de volta, mas os braços dele estavam cheios de elixir, por isso Leo se afastou. — Você decidiu fazer a dieta do engorda?
– É para Hazel. — Nico fungou miserável. Ele estava chorando? Leo gelou. O que havia acontecido de verdade?
– Ela está bem, não está?!
Nico desviou os olhos, levantando-se. O coração de Leo deu saltos mortais. Ele ficou em pé num pulo e deixou a ambrósia em cima da mesa de qualquer jeito, agarrando os braços de Nico.
– Leo eu tenho que levar isso…!
– O que aconteceu? — Leo perguntou preocupado, fazendo a voz de Nico morrer.
– Hazel está bem. — Nico respondeu pausadamente após um longo silêncio, mostrando que ele se controlava para não quebrar em choro.
– E você? — Leo o soltou, ficando constrangido por atravessar o espaço pessoal de Nico tantas vezes. Era automático. Antes que percebesse já havia feito.
– Eu preciso levar isso logo, já demorei de mais. Não acho que ela precise de tudo, mas... Ela está mal. E Frank é exagerado, mesmo que ela não estivesse.
– Eu te ajudo. — Leo se deu por vencido, lembrando-se que não podia cobrar explicações de Nico. Hazel estava bem e aquilo ia ter que bastar.
Mas não bastava. Não mais.
xx
– Do que você estava falando antes? Algo sobre eu estar de costas. — surpreendentemente foi Nico que cortou o silêncio enquanto eles andavam para fora da enfermaria.
Leo desviou os olhos, demorando para dizer:
– Achei que ia ser bem assustador se eu fosse algum fantasma que pediu ajuda se virando contra você.
E agora ele se achava um grande idiota insensível por ter feito piada enquanto Nico sentia-se miserável o bastante para chorar, com a sua irmã e melhor amiga de Leo de cama.
– Por que diabos? — Nico pareceu tão ultrajado como deveria ficar.
– Por que eu assustei ou por que da escolha? Bem, — Leo não deu tempo para Nico responder. Era melhor assumir seus atos. Ele era idiota, ia morrer como um. — primeiro por que você assusta todo mundo e segundo por que eu precisava de algo remotamente no seu nível.
Nico murmurou contra a respiração. Quando Leo quis perguntar o que ele disse, um Frank nervoso apareceu no corredor, parando na frente dos dois. Leo não tinha prestado a menor atenção no caminho ao redor deles, por isso surpreendeu-se ao reconhecer o caminho para os quartos.
– Nico, você demorou de mais! — ele exclamou, estando tão preocupado que esquecera que Nico deveria lhe intimidar. Então Frank olhou para Leo, fechando a cara. — O que você está fazendo aqui?
Em qualquer outra hora Leo teria ficado ligeiramente ofendido pela falta de cortesia.
– Relaxa, o navio 'tá no comando do Festus. Dragões são bons pra essas coisas. — Leo deu de ombros. Ele entregou o que carregava para Frank antes que ele respondesse. — Toma, eu não privaria sua namorada disso por muito tempo.
– Hã… Tá. — Frank não quis ficar desconfiado por que Hazel era mais importante. Ele foi correndo até a porta dela, desaparecendo em seguida. Nico nem teve tempo para pedir que levasse a ambrósia nos seus braços.
– Vai lá. — Leo estendeu o braço na direção do quarto de Hazel. — Ela quer te ver, disso eu tenho certeza.
– Leo…
Sexta vez. Leo sentiu o impulso de beijar a testa dele, mas se controlou completamente, apertando os lábios e tensionando o corpo. Mesmo assim o vermelho nas suas bochechas lhe traiu.
– Eu vou ficar aqui. — Leo nem perdeu tempo disfarçando. Ele apoiou na parede, virando o rosto de leve. — Não se preocupe.
Nico ficou parado sem reação, sem parecer notar a atitude estranha de Leo de tão perdido em pensamentos. Depois de alguns instantes ele levantou o rosto e assentiu.
– Vamos… Nos falar depois?
Leo deu um sorriso sincero.
– Estou sempre aqui para conversar com você.
E era verdade.
xx
Leo ainda estava pensando sobre o que Nico havia dito depois que ele saiu do quarto de Hazel. Não era exatamente a primeira vez que ele falava como se sentia, mas era a primeira que ele falava tanto e Leo simplesmente queria ajudar, se provar um amigo útil para Nico. Não devia ser tão importante, mas era.
Por isso ele nem questionou Jason quando o garoto pediu que mudasse de curso. Os olhos elétricos de Jason pareceram notar a sua distração, mas ele não comentou sobre. Na hora do almoço, Leo teve aquele momento de decisão onde ele podia ser babaca de novo e sentar longe de Nico, como havia feito na última vez que eles ficaram íntimos.
Leo ficou exatamente do lado dele. Nico o encarava como se esperasse sua reação, e quando Leo sentou-se ele abaixou o rosto para esconder o sorriso que fez Leo abrir o seu próprio.
– Ela está viva. — Leo exclamou após engolir a sua comida enquanto Jason falava da sua visão. — Graças aos deuses e me passe o molho de pimenta.
Frank franziu a testa.
– O que isso significa?
Nico apontou para a sujeira no rosto de Leo, e o latino o limpou na hora.
– Isso significa: Me passe o molho de pimenta, Zhang. Minha fome vem da felicidade.
Frank passou o molho. Nico revirou os olhos. Eles continuaram discutindo, e Leo tentava fazer Nico falar de vez ou outra, por que o garoto tinha ideias brilhantes de estratégia, mas só tomava atitude quando era muito necessário. Piper o ajudou. Não demorou muito para Hazel notar o que faziam e sorrir.
Leo desviou o rosto repentinamente envergonhado, vendo Jason quieto de mais. Mas ele não estava observando ninguém. Estava completamente distraído, como se tivesse tendo outra visão.
– Jason? Argo II para Jason. Responda.
Jason voltou a vida. Leo não deixou de ficar preocupado com o amigo. Se era difícil para ele ficar no fundo e ser descartável, devia ser três vezes pior ser o líder. E ele tinha um monte de coisa para se pensar sobre.
Então Leo sorriu quando notou o nervosismo do Treinador Hedge no desenrolar da conversa. Nunca que ia perder uma oportunidade de importunar o bode velho, preocupado ou não.
– Treinador? Para quem tem ligado todas as noites, seu bode velho?
Pela a primeira vez, Nico o lançou um olhar de aviso por uma brincadeira. Nem ouviu Hazel, simplesmente parou na hora como um mascote obediente. Então Nico estava prestando atenção. Isso atiçou sua curiosidade. O que mais faria Nico se pronunciar? Oh, Leo queria tentar.
– Espere. — Hazel chamou a sua atenção de novo. — Por que estamos indo para a Croácia?
– Bem, tecnicamente, estamos em território Croata há mais ou menos um dia. Este litoral pelo qual estamos navegando é da Croácia, mas acho que no tempos dos romanos chamava-se… Como foi que você disse mesmo, Jason? Bodácia?
– Dalmácia. — disse Nico. Leo assentiu e Jason se assustou. Leo sorriu lembrando quando tinha a mesma reação. — A Croácia era a Dalmácia. Você quer visitar o Palácio de Diocleciano, não quer?
– Sim, quero. — Jason respondeu após um instante. — É para onde Reyna irá primeiro, por que ela sabe que eu iria até lá.
Depois disso, Leo aproveitou toda abertura que não fosse estritamente séria para testar um pouco a sua nova descoberta: provocou Frank um pouco, nada. Mas quando Jason terminou sua grande explicação sobre Diocleciano, Leo tinha a piada perfeita (por que era ridícula de mais para não irritar):
– Vá em frente, Professor Grace! — Leo disse fingindo estar tirando notas no caderninho. — Quero tirar dez na prova.
– Cala a boca, Leo. — Nico suspirou.
Leo se esforçou para não fazer um gesto de vitória. Ele iria tanto irritar Nico após Jason saísse, também para distraí-lo do lance com Plutão.
– Dizem que é assombrado pelo fantasma de Diocleciano. — Nico respondeu Piper pegando uma uva. Leo lhe empurrou suas batatinhas chips, com um olhar que dizia que ele ia comer. O menino o fuzilou, mas comeu do mesmo jeito. Logo Hazel estava lhe empurrando comida também e Nico tentava não bufar várias vezes em seguida.
Após Jason falar, Nico sorriu.
– Ah, essa lenda.
– Que lenda?
– Supostamente, o cetro de Diocleciano pode convocar os fantasmas de qualquer legião romana que adorasse os deuses antigos.
Leo assobiou.
– Ok, agora isso é legal! Você poderia controlá-los facilmente quando entrássemos na Casa de Hades. Nico é o nosso ticket para a Zumbilândia.
Nico enterrou o punho na bochecha de Leo, virando seu rosto para o lado sem machucá-lo. Piper riu.
– Você não entendeu, Leo. — ela disse. — Jason é o filho de Júpiter que deve empunhar o cetro, não é?
– Eu espero. — Hazel franziu o cenho. — Nico não está em condições de liderar um exército.
– Hazel… — Nico tentou, mas ela olhava mais feio.
– Eu não colocaria dessa forma. — murmurou Jason. — Mas é isso mesmo.
Leo já ia soltar uma piada agora que o instante de silêncio apareceu quando Nico disse (como se estivesse pressentindo a idiotice de Leo vindo):
– O cetro pode nos dar grande vantagem, de qualquer jeito. E… Você ainda vai precisar da minha ajuda, apesar de eu não controlar nada. — olhou para Hazel rapidamente e ela pareceu uma mãe que aplicou um bom castigo.
– Ah, eu quero ir também. — Piper exclamou. Leo sabia o quanto ela queria aproximar Jason e Nico e fazer uma missão com Nico.
Espera, missão com o Nico? Ele não ia ficar? Ele havia dormido o bastante pra lutar? Leo queria ir junto. Não, tinha que ir.
– É melhor não, Piper. — a voz de Nico era gentil. — O fantasma de Diocleciano pode parecer um filho de Júpiter, mas ele é super… Assustador. E eu sou o único que pode falar com espíritos. Nem Hazel pode fazer isso.
O sino do navio soou. Festus rangeu e zumbiu no alto falante.
– Chegamos à Split. — Leo comentou meio contrariado, mas ninguém perceberia por conta do seu sorriso. Bem, ninguém menos Nico, que conhecia a sua máscara como Leo conhecia a dele. — Hora de nos separarmos.
– Podemos deixar Valdez na Croácia? — Frank pediu.
– Me deixem na Croácia. — Leo não ia gastar nenhuma oportunidade.
– Não. — Nico e Piper responderam ao mesmo tempo. Leo grunhiu.
– Frank é encarregado de defender o navio, Leo você tem todos os reparos que sempre sonhou a fazer. Nico e eu… Precisamos encontrar um fantasma.
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