Clara sempre teve uma relação estranha com o pomar de amoras de sua avó. Quando criança, a avó lhe dizia que as amoras mais doces eram as que vinham direto da árvore, mas que nunca, sob nenhuma circunstância, ela deveria tocar na amora branca.

"Aquela", sua avó dizia com um brilho misterioso nos olhos, "é a amora que se alimenta de memórias. É uma amora amarga, e faz a gente esquecer tudo o que é bom."

Clara, na inocência, sempre obedeceu. O tempo passou, a avó envelheceu e a memória dela começou a falhar. Os médicos diziam que era o tempo, mas Clara sentia um calafrio toda vez que visitava o pomar e via a velha amora branca, solitária e intocada.

Um dia, ao visitar a avó, a viu segurando uma pequena caixa de música que antes tocava uma melodia alegre. Agora, o som era uma sequência de notas erradas, quase um gemido.

"Clara", a avó disse, com a voz esvaziada, "onde aprendi essa música?"

O coração de Clara se apertou. Naquele momento, ela viu a caixa de música e a amora branca como a mesma coisa: um devorador de memórias. Impulsionada por um desespero avassalador, ela voltou para o pomar, disposta a quebrar a maldição.

A amora branca parecia brilhar sob a luz do crepúsculo. Com a mão trêmula, Clara pegou a fruta e a levou à boca. Ela esperava amargura, mas, em vez disso, sentiu um sabor metálico e frio, como o de lágrimas secas.

A amora começou a inchar na sua boca e a queimar. Clara sentiu um choque elétrico atravessar seu cérebro. Uma memória feliz com sua avó, de um piquenique à beira do lago, desapareceu. Depois, o som da risada da avó. Depois, a imagem da avó.

Clara sentiu o pânico crescer. Ela correu para a casa e encontrou a avó na cadeira de balanço, com um olhar vazio. Clara tentou gritar, mas as palavras presas em sua garganta não se formavam. O rosto da avó parecia estranhamente familiar, mas a memória de quem ela era se esvaía.

Clara olhou para o reflexo no vidro da janela. O rosto da avó era agora o seu. A amora branca não havia apenas roubado as memórias, mas também a essência. Ela sentiu a mesma voz esvaziada. E no pomar, uma nova amora branca, intocada, esperava.


Notas finais
Oie pessoal tudo bem? Mais um conto para vcs! bjs!👻