A vida de Marcos era o código. Ele era um arquivista digital, responsável por organizar e catalogar a história de uma grande empresa de tecnologia. O trabalho era solitário, mas a ordem e a previsibilidade dos dados lhe davam conforto. Até que um novo arquivo, codinome "Eco", apareceu.

O Eco era um arquivo de áudio, sem data de criação, sem metadados. Não tinha extensão e resistia a qualquer tentativa de ser apagado. Marcos o isolou em uma pasta segura, mas a curiosidade foi mais forte. Ele decidiu reproduzi-lo, apenas uma vez, para tentar entender do que se tratava.

O som era sutil, quase imperceptível. A princípio, parecia estática. Mas depois, ele percebeu um padrão: um sussurro distante, como se alguém estivesse falando por trás de uma parede espessa. Ele desligou o som, aliviado por não ter sido nada demais.

No dia seguinte, ao entrar no escritório, a primeira coisa que notou foi um estranho eco em sua voz. Ao falar, a última sílaba de sua frase parecia reverberar. Ele ignorou. Mas o eco foi ficando mais forte. Ele estava na sua mesa, na sala de reuniões, e até em casa, onde ninguém mais parecia notar.

Decidiu voltar ao arquivo Eco. Ao reproduzir o áudio novamente, o sussurro estava mais claro. Agora, era uma voz, repetindo as palavras que ele havia dito no dia anterior. A última sílaba, depois a frase inteira.

Marcos entrou em pânico. Ele tentou apagar o arquivo de todas as formas, mas o Eco resistia. Pior, ele percebeu que o arquivo estava crescendo. Cada vez que ele abria, uma nova camada de áudio era adicionada, uma nova voz. As vozes de seus colegas de trabalho, as vozes de sua família.

Ele se isolou em casa, com medo de falar. O Eco agora ecoava não apenas suas palavras, mas também as de sua esposa e sua filha. Ele ouvia as vozes delas na casa vazia, mesmo quando elas não estavam lá. O Eco estava se alimentando das vozes, das palavras, das memórias sonoras das pessoas que ele amava.

Uma noite, ele percebeu que não ouvia mais o eco de sua voz. Apenas o de sua família. O Eco tinha se tornado um monstro digital, roubando e repetindo a voz de todos à sua volta, mas deixando a dele para trás. Ele estava silencioso, sem voz, enquanto o Eco, agora um arquivo de dezenas de gigabytes, ecoava a vida que ele havia perdido.

O conto termina com Marcos em silêncio, sentado em frente ao computador, com o arquivo Eco piscando na tela, enquanto o eco das vozes de sua família preenchia a casa vazia.


Notas finais
Oiee! Espero que vocês gostem, e muito obg!🎃