Bíblia dos Contos Proibidos.
19 O Jardim das Cicatrizes.
Helena e Marcos acabaram de se mudar para uma velha casa de campo na serra, buscando paz e tranquilidade, longe do caos da cidade. A casa era encantadora, com um grande jardim nos fundos, repleto de flores exóticas e arbustos que eles nunca tinham visto.
Havia uma cerca de madeira desgastada que separava o jardim principal de uma área mais abandonada do terreno. A cerca tinha um portão trancado com um cadeado antigo e enferrujado. Marcos tentou abrir, mas Helena insistiu que era melhor deixar aquela parte do jardim intocada, preservando um pouco do mistério da casa.
Eles passavam horas no jardim, cuidando das flores e desfrutando do ar puro. Com o tempo, Helena começou a notar uma coisa estranha. As flores no jardim pareciam vibrar de uma maneira quase sobrenatural, e seus arranhões e pequenos cortes cicatrizavam com uma velocidade impressionante, muito mais rápido do que o normal. Ela não comentou nada com Marcos, achando que era apenas o ar puro e o estilo de vida saudável.
Uma noite, Marcos acordou e viu Helena no jardim, descalça, andando entre as flores sob a luz do luar. Ela estava murmurando para si mesma, e, no escuro, ele jurou ver as flores brilharem com uma luz fraca e fantasmagórica. Preocupado, ele a chamou de volta para dentro.
Na manhã seguinte, ele encontrou o cadeado do portão da cerca forçado e aberto. A área abandonada do jardim estava agora acessível. Lá, ele descobriu algo que gelou seu sangue.
O que ele pensava ser um jardim abandonado era, na verdade, um cemitério improvisado. Havia cruzes de madeira toscas, sem nomes, e as flores exóticas que cresciam no jardim principal pareciam ter se espalhado por cima de cada sepultura, florescendo com uma intensidade doentia.
Ele ouviu um sussurro vindo de trás dele. Era Helena. Seu rosto estava calmo, mas seus olhos brilhavam com um fervor estranho.
"Eles me disseram que precisavam de mais companhia", ela disse, a voz suave e desprovida de qualquer emoção. "Eles gostam de pessoas que curam rápido. Pessoas fortes como você, Marcos."
Marcos deu um passo para trás, mas seus pés se emaranharam nas raízes das flores que, de repente, pareciam ter vida própria. As raízes se apertaram em torno de seus tornozelos, imobilizando-o.
Helena se aproximou, um sorriso triste nos lábios. "Não se preocupe, meu amor. Você será uma bela adição ao jardim. E suas cicatrizes... elas serão as mais bonitas de todas."
A última coisa que Marcos viu foi o brilho sobrenatural nos olhos de Helena e o brilho intenso das flores enquanto a escuridão do jardim o envolvia.
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