Bíblia dos Contos Proibidos.

17 A Frequência Silenciosa.


O relógio digital no painel do carro marcava 03h17 da manhã. A estrada sinuosa do interior de São Paulo estava deserta, iluminada apenas pelos faróis do velho Gol de Beto e pela lua cheia que se esgueirava entre as nuvens carregadas. Ele voltava de um plantão extra na gráfica, exausto, e a única coisa que queria era chegar em casa, tomar um banho e desabar na cama.

Para combater o sono, ele ligou o rádio. Esperava encontrar uma daquelas estações de música sertaneja de madrugada, mas o que veio foi apenas um chiado de estática agressivo. Beto franziu a testa. Aquela estrada costumava ter um sinal decente. Ele girou o botão do dial, deslizando o ponteiro pela faixa FM e AM. Nada. Apenas o som opressivo e sem vida do ar vazio.

Ele estava prestes a desligar o aparelho quando, em uma frequência que nem sequer deveria estar ativa, o chiado cessou abruptamente. Por um segundo, houve um silêncio absoluto no carro, um vácuo que pareceu mais alto que qualquer ruído.

E então, começou.

Não era música, nem voz humana. Era um som pulsante e rítmico, baixo no início, que lembrava o bater de um coração gigante ou talvez o funcionamento de uma máquina pesada, distante. A cada pulsação, a luz do painel do carro e os faróis oscilavam levemente, em sincronia.

Beto sentiu um arrepio na espinha, um instinto primitivo gritando que aquele som estava errado. Ele tentou mudar a estação, mas o dial parecia travado naquela frequência. O som aumentava, agora acompanhado por um zumbido de alta frequência que fazia seus dentes doerem e sua cabeça latejar.

Ele acelerou. A ansiedade transformou a sonolência em adrenalina pura. A paisagem borrada da estrada rural parecia observá-lo. Foi quando ele viu.

Parado no acostamento, a uns cinquenta metros à frente, havia um carro. Não um carro comum, mas um veículo antigo, talvez dos anos 70, completamente preto e sem placas. Não havia sinais de faróis ligados, nem motorista visível.

Beto pisou no freio com força, o carro cantando pneu e parando a poucos metros do veículo estacionado. O som no rádio do seu carro ficou insuportavelmente alto, um martelar ensurdecedor que vibrava em seu peito. A luz do seu painel morreu de vez, e os faróis se apagaram, deixando-o na escuridão, iluminado apenas pela lua.

O zumbido parou. O pulsar também. O silêncio voltou, mais profundo e ameaçador do que antes.

Beto olhou para o carro preto. A porta do passageiro começou a se abrir lentamente, rangendo na noite silenciosa. Uma figura alta e esguia saiu, vestindo roupas que pareciam antigas, da mesma época do carro. O rosto estava completamente na sombra, uma tela vazia.

O pavor gelou o sangue de Beto. Ele tentou ligar o carro novamente. O motor gemia, mas não pegava. A figura começou a andar em sua direção, os passos na brita do acostamento eram os únicos sons da noite.

Em um ato de desespero, Beto bateu a mão no rádio uma última vez.

A estática voltou com força total, um rugido branco e sem sentido. Os faróis do Gol acenderam de repente, cortando a escuridão e revelando o acostamento vazio.

O carro preto e a figura haviam desaparecido.

Beto dirigiu o resto do caminho para casa aterrorizado, o rádio no volume máximo com o chiado da estática. Ele não conseguiu dormir naquela noite, e nunca mais dirigiu por aquela estrada sem companhia.

Até hoje, ele jura que a estática não era apenas ar vazio, mas o som daquela coisa tentando, e quase conseguindo, cruzar para o lado dele da frequência.