Azul Na Escuridão
2 Noites Chuvosas
Notas iniciais
Naquela noite, Fitz saiu na varanda de seu apartamento — extremamente branco (como sua pele), perfumado e arrumado, já que ela não suportava ver uma partícula de poeira flutuando pelo ar — somente com uma camisola de seda (cor meio esbranquiçada), seus pés descalços tocando o chão gelado e, pela primeira vez, seus cabelos soltos e ao vento.
A brisa anunciava chuva. Ela acendeu as luzes da varanda, se sentou em uma das poltronas e esticou seus pés na outra. Levantou sua cabeça e deixou-a leve para poder fazer o que faria. Mexia ela de uma lado pro outro, estralando seu pescoço.
Cantava baixinho qualquer música enquanto seus cabelos compridos, lisos e castanhos-claros voavam por causa do vento. Seus ossos do colarinho, completamente à mostra.
Ela nunca gostava de mostrá-los, mas agora ela estava ali, na sacada, no terraço, na varanda, como quiser chamar. Ela ali estava mostrando todos os seus ossos para quem olhasse para o quinto andar. Talvez ela não ligasse. Talvez estava se preparando para algo novo.
Então a chuva começou a cair.
Mariana derrubara uma lágrima que fora levada junto com as gotas de chuva, e logo depois, várias outras lágrimas saíram.
Era ela se extravasando.
Tudo que estava dentro de seu coração estava saindo pelas lágrimas naquele segundo e doía tanto que ela nem conseguia gritar! Mas após terminar de chorar, dera o primeiro sorriso... um único sorriso em quatro anos! E depois, uma risada muito gostosa. Uma gargalhada.
Ela ficou de pé e dançou na varanda molhada pela chuva, passos frenéticos e agitados. Ela estava animada sem ninguém saber a razão. Ela gritou numa altura muito grande:
–Então agora é a hora de deixar isso escapar de dentro de mim!
Os moradores já reclamavam na portaria enquanto ela gritava várias coisas estranhas e dançava na sacada, não se importando muito com o que os pedestres da rua pensariam ao ver uma garota de camisola de seda muito magra pulando e gritando.
Então ao ver a revolta de todos ela dera uma gargalhada muito musical e entrara em seu apartamento mais uma vez. Secou-se e secou o apartamento. Aquela animação toda era não conhecida por ninguém e a causa também não. Talvez nem ela soubesse por que estava fazendo aquilo. Mas a razão com certeza era importante.
Após tudo isso ter acontecido, Mariana procurou em sua casa algumas folhas de papel e uma caneta com bastante tinta. Então ela se vestiu adequadamente com outra camisola (seca) e começou a escrever uma carta enquanto afagava seus próprios cabelos.
Após um tempo, Mariana fora à cozinha e buscara um chá de camomila. Começou a bebericá-lo de olhos fechados, e a cada gole, mais uma frase de sua carta estava pronta.
Ao ver seu chá quase no fim, deu um grande gole e acabou com ele de uma vez. Apoiou sua xícara na mesa onde estava e pôs-se a escrever mais um pouco.
Escreveu até a noite acabar, até a madrugada passar e até a manhã chegar. O texto, no fim, não ficou tão grande, apenas umas poucas folhas, mas ela apagava e reescrevia, chorava e sorria, dançava e dormia. Quando ela viu, o sol já iluminava todo seu apartamento — apesar da chuva não ter parado nem um pouquinho, mas era assim que ela gostava, dias bem chuvosos.
Ela pegou uma pasta com elástico, e colocou o que tinha escrito dentro. Depois foi ao seu closet e, com uma escada, abriu a porta mais alta do guarda-roupa. Dela tirou uma mochila. De dentro da mochila tirou uma sacola. De dentro da sacola, uma bolsa importada — pelo visto, da França. De dentro da bolsa importada, um álbum de fotografias. Ela pegou o álbum e colocou-o dentro da pasta também. Por último, na mesma bolsa também havia uma pequeno estojo de botão, mais parecido com uma caixinha, com duas passagens dentro. Ela pegou as passagens e colocou dentro da pasta, mais uma vez.
Então ela colocou a pasta junto com a roupa que usaria na próxima sexta-feira e dormiu. Mas ela dormiu até a sexta-feira, dia que iria ver a psicóloga!
Quer dizer, ela estava acordada, mas apenas saíra para comer (uma vez por dia) e para ir ao banheiro. Não fora trabalhar, estudar, caminhar, passear. Não fizera nada. Apenas aguardou o dia esperado na cama. De vez em quando puxou um livro de debaixo da cama e deu algumas lidas.
Quando ela viu que eram três da tarde, na sexta-feira (sua consulta seria das 16h às 20h) ela tomou um banho e se vestiu.
Naquele dia ela estava com uma roupa diferente. Ao invés de seus amados suéteres, sobretudos, vestidos, chiques blusas de botão, calças formais de trabalho, blusas de seda, saltos altos, botas de marca e cintos grotescamente grandes ela estava apenas usando uma calça jeans preta, uma blusa de manga comprida cinza e um tênis Converse, primeira vez que ela saía tão informal de casa (em quatro anos). E saíra sem o guarda-chuva. E ah! Com seus cabelos soltos — ela nunca saía assim. Sempre saía de coque com vários enfeites de cabelo, ou chapéus chiquérrimos. Ela era magríssima, mas naquele dia não tinha medo de olharem como ela estava fina! Ela até passara maquiagem (um batom vermelho que realçava seus lábios que já eram daquela cor naturalmente, e lápis preto nos olhos). Ela estava realmente bonita — mesmo que muito magra.
Ela não tinha ido andando para a consulta como sempre e sim pegado um ônibus coletivo. Ela estava com uma mochila preta, que tinha aquela pasta com elástico dentro e mais "algumas coisas" que tinha pego antes de sair de casa.
Ela andou alegremente até o consultório, onde encontrou rebeca com uma roupa menos formal a esperando e já dizendo que havia cancelado suas consultas de sexta-feira para sair com ela. Rebeca a colocou dentro de seu carro e a levou para um bar da cidade.
Quando as duas ali chegaram e se ajeitaram, Rebeca pediu um suco natural, e já achando que Mariana não pediria nada, se surpreendeu ao ver a garota, com alegria, pedir um oportuno suco de abacaxi com melão.
Mariana introduzira a história assim que o garçom saíra:
–Bom... acho que podemos começar com o segredo, certo?
–Pois não, Fitz — disse Johnson — você pode me contar... o que tanto esconde?
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