Azul Na Escuridão
3 O tal segredo
Notas iniciais
–Quando eu tinha dois anos — Mariana disse já diretamente — meus pais se mudaram para um prédio, edifício Ilha Bella, conhece?
–Sim, aqui na cidade, próximo à uma academia, estou certa?
–Sim, Rebeca... O prédio é bem velho. Nele viviam um casal de amigos de meus pais e eles tinham uma filha, seu nome era Larissa. Ela era um ano mais nova que eu. Claro, não nos conhecemos nessa idade, mas quando eu fiz uns cinco, seis anos, começamos a brincar juntas e éramos melhores amigas. Sempre fomos.
–Sim.
–Amigas inseparáveis, irmãs, praticamente. Ela esteve comigo em todos os momentos de minha vida, até quando eu fiz dezessete anos e arranjei um namorado que me deixava frustrada. — Fitz parecia um pouco estressada.
–Como assim?
–Ele era ciumento demais, não me deixava sair e brigávamos toda hora. E claro, nisso ele já havia me traído várias vezes e tudo mais. Tive que abrir mão de tantas coisas de minha vida por ele...
–Traído?!
–É, tenho que te contar sobre isso. Bom, tive um namorado. Ele chamava Mason. Ele dizia que me amava, mas parecia mais era me odiar! Não me deixava sair, tinha ciúmes de tudo, eu não podia nem respirar perto de outra pessoa que ele implicava e etc. E além disso, ele havia ficado com outra garota, me traído. E isso várias vezes. Ele me mandava parar de fazer o que ele não gostava, até música, filmes e livros eu fui impedida de ouvir, ver e ler por causa dele. Quando descobri sobre a garota com quem ele havia transado, não disse nada a ele, pois não queria fazer brigas e eu o amava demais para fazer isso. No entanto, eu precisava de um tempo.
–O que fez? — Johnson parecia ansiosa.
–Bom... Então, se eu fosse resumir toda a história, Larissa, que estava do meu lado o tempo todo, sugeriu que, no meu aniversário de dezoito anos, que seria no mês seguinte ao que eu descobri sobre a traição, eu fizesse alguma viagem, só eu e ela, como amigas, pro exterior.
–Que legal... e fizeram? Para onde foram?
–Muito tempo levou, até que decidimos ir para Paris. Sim, uma viagem entre melhores amigas para o lugar mais requisitado do mundo. E fomos, fomos exatamente no dia do meu aniversário! Eu tive que escutar aquele meu namorado dizer mil xingamentos contra mim pois mais uma vez ele estava me impedindo de fazer o que eu quisesse. Mas naquele momento eu estava tão irritada pela traição que não o escutei. Afinal, eu tinha muito o que usar contra ele, principalmente a garotinha que foi dele por uma noite. Então eu preferi deixá-lo quieto. Se ele ousasse dizer algo, eu contava o que vi. bom, então fomos para Paris.
–Continue.
–Então nós... — nesse momento Fitz fora interrompida pelo garçom trazendo os pedidos. Assim que ele se afastou, ela continuou — Bem, tudo começou no avião, na realidade.
–Mas como...?
–Ora, está sendo impetulante, Johnson! Deixe-me falar!
–Perdoe-me. — Rebeca estava muito curiosa.
–Bom, sentamo-nos na última poltrona do avião, uma poltrona para especiais, bem maior do que as normais, já que o avião tinha pouca gente e as poltronas estavam vazias. Sentimos toda aquela liberdade: duas melhores amigas indo pra cidade mais amada do planeta, sem ninguém para nos impedir, apenas para se divertir e comprar e comprar e comprar!
–Que divertido...
–Enfim. A viagem durara algumas horinhas. Umas doze. Saíram do aeroporto às 19h e chegaram no outro dia às 08h da manhã. Bom. Nesse tempo nós rimos, conversamos, aprontamos. — Johnson sorria enquanto Fitz contava — Então quando deu umas 2h da manhã, Larissa dera o primeiro bocejo. Ela então levantou o braço do avião e se ajeitou, deitando-se no meu colo meio encolhida. Ela fechou seus olhos e adormeceu. Eu também já estava caindo de sono, mas até me dar conta de que dormi, pude observar o corpo dela, ali daquele jeito. Sua roupa amassada cobrindo aquela obra de arte. Pele bronzeada, olhos extremamente azuis. Cabelo claro, meio aloirado. Sorriso lindo. Lábios finos e rosinhas. Menina alta, corpo bem formado. Grandes seios, cintura fina. Coxas grossas, mas nada de gordura no corpo dela. Era magra, fisicamente perfeita. Seu traseiro era de um tamanho bom. Mas o que me admirava eram aquelas pernas. — Mariana revirara os olhos, como se tivesse sentido alguma coisa, e suspirou. — Enfim... Eu observei seu corpo todo e basicamente me senti humilhada por ser aquela 'branquela'. Eu era muito mais "fofa" do que "gostosa", como diria qualquer um. Mas eu sinto muita falta do meu corpo. — Mariana parecia triste.
–Por quê?
–Porque hoje eu sou anoréxica e bulímica, corpo cheio de cicatrizes pelos cortes, pálida como a neve, cara de morta, olheiras, ossos à mostra. Eu nunca fui de ter um corpo maravilhoso, mas antigamente eu costumava ter um pouco de bunda e pernas relativamente bonitas, não tinha muito peito, cintura ou quadril, mas era bonita daquele jeito. Com um pouquinho de gordura na barriga, mas e daí?! Hoje eu sou esse lixo. Esse esqueleto.
–Ei... -Rebeca tentou acalmar a paciente-amiga.
–Não tente mudar minha opinião. Enfim, eu me sentia inferior à ela, pois ela tinha um corpo maravilhoso e eu era aquela gordurinha branquinha. Então eu adormeci mesmo assim. Enfim, nós acordamos pela manhã com o chamado da aeromoça, meio enfurecida por estarmos sem cinto de segurança. Mas enfim... O avião pousara, encontramos nosso hotel, nos ajeitamos no apartamento, estávamos bem. Claro que já começávamos a nos divertir. Não estávamos juntas em uma excursão, nem em uma turma. Estávamos sozinhas. Éramos nós, o cartão de crédito e o telefone do taxista.
–Prossiga. — Rebeca disse após Mariana pausar a fala.
–Bom, nós estávamos nos divertindo para caramba, até que em um dia fomos em uma festinha francesa. — Mariana deu uma leve risada — Nós bebemos "um pouco" — ela fez aspas com os dedos.
–Um pouco?
–É... bom, muito. Eu só conseguia gritar por aí toda tonta e Larissa também. Nem lembro como o taxista foi chamado. Acho que o chamei por engano no telefone. Mas ele que teve que nos buscar dentro da festa. Bom, o problema todo começou dentro do hotel, quando chegamos. Estávamos completamente bêbadas, caindo. Até que eu, a idiota comecei a brincadeira...
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