Azul Meia-noite
2 Despair
Notas iniciais
O cheiro de gengibre, cravo e açúcar queimado não demorou a inundar o ar.
Era ela. De novo.
–Cassie... — minha voz para, presa por fios invisíveis de vidro.
–Você demorou. — Ela disse, sentando-se no criado-mudo e balançando as pernas no ar. Diante do meu silêncio, Cassie me encara. — Mas eu te esperei mesmo assim.
–D-do que você está falando? — eu digo num múrmurio, mais um passo cego adrentando para dentro do quarto.
–Ora — ela quase riu, diante da minha inocência — Chegou sua hora de passar pela fronteira e se juntar até mim.
–Mas eu não posso... A Emma está me esperando, meus pais, Jeniffer...
–Eu estou com saudades, Lia — ela me cortou, brusca. Cassie levantou o queixo, seus olhos, semicerrados, estavam escuros como as trevas. Mas mesmo assim alguma coisa sorria ali dentro. E chamava por mim. — Vamos?
Eu quero ir, me leve com você depressa.
–Não vou. — Minha voz sai firme e me assusta. Ela eu que havia falado aquilo?
–Você jogou a chave fora. — Cassie continua, sem uma grama de perdão. Ela se levanta, caminha até mim. — Sem comida... e engolindo esses comprimidos brancos como se fosse água... — Seus lábios ganham um sorriso macabro — Você está pior do que mim.
Nãoconsigomemexer. Nãoconsigomemexer. Nãoconsigomemexer.
–Lia... — Cassie sussurra, seus olhos presos em mim — Lia-Lia... Vamos?
Eu posso sentir as sombras saindo da escuridão vindo atrás de mim.
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