Notas iniciais
Palavras em sublinhado vejam como se estas estivessem com um risco.

–Você não está morta, mas também não está viva. Você é uma garota gelada, Lia-Lia, presa entre dois mundos. Você é um fantasma com um coração que bate. Logo você vai cruzar a fronteira e ficar comigo.

Cassie.

Ela sorri, me estende a mão. Eu a seguro com força. Ou com o que restava dela.

Por um único instante eu consegui me enganar. Mas eu sabia que Cassie esperava por mim. Sempre soube.

Minha amiga-morta, minha morta-amiga, sorria em frente a mim.

Como se enfim me perdoasse por nunca ter atendido sua ligação.

–Dói? — Consegui dizer, quando de repente minha visão se encheu de pontinhos pretos e eu enfim fechei os olhos.

–Não se preocupe — A voz dela me guiava agora — Eu estou com você.

Estou num caixão de vidro. Faz frio e tudo que eu vejo é um azul; um azul-vidro, um azul-nevasca, um azul meia-noite. Aquilo era estranho. E o fim estava demorando demais.

–Lia...?!!

Bem ao longe... um sussurro que tentava alcançar meu caixão, uma voz me chamava.

–Cassie, ouviu isso? — perguntei, ainda de olhos fechados e segurando a mão dela.

–Ignore, estamos quase lá.

Havia fúria e desespero em sua voz.

–Tem alguém me chamando. — Não consegui ficar sem dizer.

–São coisas da sua cabeça.

Ela era coisa da minha cabeça.

Respirei fundo e tossi.

–Posso me sentar, me deitar? Estou cansada, Cassie... — Num sopro de voz minhas palavras sairam.

–Claro. Eu fiz isso também.

E, então, tudo começou a mudar. Pouco a pouco, o cansaço parava meu coração. Era uma sensação tão cálida, tão leve...

A leveza que tantou procurei...

Eu enfim a alcancei.

–Lia, Lia?! Onde você está?!

Era a voz de novo. Mas eu a ignorei.

–Não abra os olhos, não abra os olhos, Lia. — Cassie implora.

(...)

Quando meu coração parou, um minuto tarde demais a porta se abriu. O chão fez barulho e alguém tocou no meu caixão de vidro, tocou em mim.

Gritaram meu nome.

Mas já era tarde demais.



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