Azul Asiático
1 Os japoneses
Notas iniciais
Naquele lugar tinha algo estranho. E esse algo eram os irmãos Take – Yue e Hoshi. Eles estavam brigando mais uma vez na frente do corredor dos signos, na escola de magia Nossa Senhora do Korkovado – localizada em baixo do morro do Corcovado no Rio de Janeiro.
Yue era um menino alto, branco demais para alguém que nasceu em uma cidade cheia de praias, cabelos pretos e lisos na altura dos ombros – quase sempre repartido ao meio, cobrindo as orelhas – e tem olhos puxados em um tom verde-azulado que faz todas as meninas caírem aos seus pés.
Hoshi é uma menina um pouco mais baixa que Yue. Tem a pele muito clara para quem sempre morou próxima de praias, seus cabelos são de um tom meio avermelhado – brilhoso quando a luz bate nele – que cobrem até o meio de suas costas. Seus olhos também são puxados e possuem a mesma tonalidade que o azul mais límpido que já se viu.
Bem... Deixe-me falar a história desses dois, antes de dizer algo sobre essa briga...
Yue é filho de japoneses que vieram para o Brasil à procura de sossego e paz. Eles visitam o Japão – porque ainda têm parentes lá –, mas não desejam voltar a morar no seu país de origem. O menino nasceu no Rio de Janeiro e vive sob os costumes cariocas.
Em uma das visitas ao Japão, quando Yue ainda era bem pequeno, a melhor amiga de sua mãe estava prestes a dar à luz, mas se encontrava à beira da morte. Como que com uma força maior, a senhora Take foi visitá-la naquele momento muito difícil – queria ajudar a amiga de alguma forma. E com a confiança que poucos possuem, aquela amiga pediu – com suas últimas forças – que a mãe de Yue tomasse aquela vida nos braços e cuidasse como se fosse sua filha. Após Sra. Take prometer que o faria, a mãe daquela recém-nascida faleceu.
A afeição foi imediata, tanto do Sr. Take quanto do pequeno Yue. Mas aquela criança precisava de um nome. Yue recebera esse nome porque nascera em uma noite de lua cheia. Nada mais justo, pensou aquela mãe, que essa recém-nascida se chame Hoshi já que ela é a estrela de nossa família.
E assim, aquela família, que agora tinha quatro membros, voltou para sua casa no Rio de Janeiro. As crianças cresceram e, para total não surpresa dos pais, fizeram suas primeiras magias aos 11 e 12 anos – respectivamente Hoshi e Yue. Estavam juntos, mais especificamente discutindo acaloradamente. Eram comuns aquelas discussões entre os irmãos, ainda mais porque eles disputavam por tudo. Mas aquela fora tão intensa que os fez soltar a magia que neles continham.
Seus pais os explicaram o que era aquilo. Falou-lhes que suas famílias eram renomadas naquele mundo que eles, a partir daquele momento, se encontravam. A menina sabia que fora a dotada. Seus pais adotivos nunca lhes escondera nada.
Duas ou três semanas depois, apareceu uma carta endereçada ao “Take Yue” na caixa de correio. Estava escrita em japonês e, antes que o menino pudesse vê-la, a mãe fez questão de respondê-la. A carta-resposta estava escrita formalmente e endereçada ao superior da Escola de Magia de Tóquio, a qual os pais de Yue e a mãe de Hoshi estudaram quando jovens. Na carta, entre outras coisas, dizia que agradecia pelo filho ter a vaga lá, mas que por motivos maiores preferia ensiná-lo em casa.
Dicionário Japonês
Yue: lua Hoshi: estrela
Todos esses anos que estavam morando no Brasil seriam muito pior se não conseguissem fazer magia. Por sorte do destino, enquanto estavam no Japão, fizeram um curso básico de feitiços internacionais — que é pronunciado em Esperanto, o idioma internacional dos bruxos. Só tinham um problema: no Japão, todos os bruxos – com raríssimas exceções – usam cajados ao invés de varinhas e para esconder um cajado é bastante complicado (mesmo usando feitiço). Outra vez, por sorte do destino, a Sra. Take possuía o dom de canalizar seu poder em sua própria mão – o que significa que ela não precisa de varinha ou cajado para fazer magia e por isso as crianças nunca a tinha visto com seu cajado. Já no caso do pai das crianças, sempre que o usava, conseguia enrolá-las dizendo que era coisa de adulto ou algo do gênero. Mas depois de contarem sobre eles serem magos (como são chamados no Japão), contaram também sobre tudo o que tinha naquela casa de mágico.
A partir daí, as crianças começaram a ter aulas de magia em casa, com seus pais. Eles aprendiam mais a parte teórica conforme era ensinado na escola de Tóquio. O que significa que naquele ano as crianças começaram a aprender sobre cajados e como construí-los. Porque, por incrível que pareça, cada bruxo tinha de fazer seu próprio cajado na escola – caso não conseguisse teria de ser feito uma varinha, o que acarretaria algo parecido com o bullying que os não bruxos conhecem (porque usar uma varinha para eles significa que você não é um mago forte).
Próximo ao aniversário de 13 anos de Yue, uma pomba toda branca surgiu pela janela da sala, enquanto a família aproveitava a linda manhã de sábado jogando Superukādo (um jogo muito comum entre os jovens bruxos japoneses que se assemelha muito com o jogo UNO que os não bruxos jogam, a diferença está em que as cartas além de ficarem tagarelando, ficam dando palpites aos jogadores enquanto estão na mão deste). A pomba deixou cair uma caixa de tamanho considerável no colo de Yue. Na carta que estava junto, dizia que ele tinha uma vaga na escola de magia Nossa Senhora do Korkovado, que fica a menos de 10 quilômetros de onde moravam – pelo menos era o que indicava o endereço da escola.
A mãe de Yue gostou daquela ideia; do filho estudar em uma escola de magia. Seria realmente apropriado para o ensino do filho. Mas logo quando leram a lista de materiais necessários viram que pedia uma varinha e as crianças já estavam construindo seus cajados canalizadores. Isso não desanimou as crianças, apesar de ter tirado um pouco da confiança dos pais (os costumes, apesar do tempo que saíram do Japão, ainda estavam presentes).
No final daquele ano, Hoshi também recebeu uma carta-convite para estudar na Escola de Magia de Tóquio. Como com Yue, a mãe respondeu formalmente que não iria mandar a menina estudar lá. No primeiro dia de fevereiro (bem mais cedo que seu irmão) recebeu a carta-pacote da Korkovado. Mas tinha um papel a menos que o pacote de seu irmão, não fora enviado a lista de materiais que seriam precisos para aquele ano. Na carta (que é enviada todo ano aos alunos contendo a lista de todos os materiais necessários) de Yue também não viera essa lista. Deve ser algum problema interno, pensou o pai das crianças. Apesar disso, não tiveram problemas porque no Sub-SAARA tinha as listas que não haviam sido enviadas.
Acho que já posso voltar àquela briga do início...
Três anos depois de Hoshi começar a estudar na Nossa Senhora do Korkovado, naquela manhã de sábado, os irmãos estavam discutindo mais uma vez na frente daquele corredor que carinhosamente fora apelidado pelos alunos de inferno astral – ou corredor dos signos – que é um corredor muito comprido que liga um lado a outro da escola e que tem as figuras de cada um dos 12 signos nas paredes (que ficam dando palpite todo àquele que passa por ali). A discussão era comum entre eles dentro da escola – e em casa também, mas era bem menos. O motivo? Nenhum aparente. Só a rixa normal entre eles, desta vez causada pelos dois terem se esbarrado na entrada do corredor.
Talvez o motivo inicial seja porque eles são de grupos rivais dentro daquela escola. Ela é uma Pixie, o grupo é uma espécie de rebeldes com causa que querem abrasileirar mais a escola, porque o Conselho Administrativo da Korkovado copia à risca os padrões europeus – que em quase nada se adequada à realidade brasileira. Ele faz parte dos Anjos, os queridinhos do Conselho, os que saem ilesos de qualquer encrenca que arrumam, os que copiam tudo que venha da Europa e ignoram quase tudo o que tenha a ver com o Brasil. Grupos rivais desde sempre.
– Vê se olha por onde anda, Anjo!
– Eu olho, já não posso dizer o mesmo sobre você...
Aquela seria uma manhã nada calma. Graças a Merlin, e todos agradeciam plenamente por isso, era uma manhã de sábado e os alunos não precisariam ouvir mais uma discussão daquelas. Os irmãos só falavam, nunca atacaram com suas varinhas um ao outro. E nunca quiseram. Aquelas discussões só eram para mostrar que no fundo eles se amavam.
– Vou te mostrar quem é o mais velho aqui! Você tem que me respeitar!
– Eu? Te respeitar? Você que tem que ME respeitar. Sou muito melhor do que você em tudo. Pode admitir!
Os irmãos estavam chegando à entrada do Sub-SAARA, no décimo primeiro arco da primeira fileira dos Arcos da Lapa. Yue só acompanhara Hoshi até ali porque seus pais os encontrariam naquele ponto. Ao se aproximarem mais daquela parede mal cheirosa, dois corpos surgiram repentinamente por ela.
– Bem que eu tinha ouvido a voz deles.
O pai deles falou rindo para a mulher. Parecia que estavam fazendo alguma travessura que os filhos não podiam saber, como por exemplo, estarem se beijando um pouco mais acaloradamente atrás daquela passagem para o SAARA.
– Será que pelo menos uma vez vocês vão parar de discutir?
Questionou a mãe deles, também rindo. Os pais tinham uma aparecia jovial de uns 20 anos, mas na verdade eram quase quarentões.
A mãe tinha um corpo não muito magro, mas também não muito gordo. Os cabelos eram pretos e compridos para além do meio das costas, os olhos muito puxados e castanhos bem escuros e a pele clara. Vestia-se com roupas japonesas adaptadas ao calor do Rio, em geral vestidos de tecidos finos – mas não eram transparentes – e na maior parte do tempo usava chinelo de dedo.
O pai deles tinha o corpo comprido e um pouco musculoso – enquanto estudava, entrou para um grupo que treinava com seus cajados como se fossem espadas e eram chamados de Kontorōrasutaffu, ou só Kontorōra –, os cabelos lisos ficavam espetados para cima porque ele gostava do cabelo bem curtinho. A cor de seus cabelos? Até hoje ninguém entrou em acordo se era preto-chocolate ou se era marrom. Os olhos eram iguais aos do filho, verde-azulado. A pele alva se constatava bastante com as roupas escuras que usava, apesar do calor natural do litoral fluminense.
O Sr. e a Sra. Take estavam esperando os filhos para irem visitar alguns parentes no Japão. Iriam de pó de viagem instantâneo. Dessa vez eles levariam dois amigos consigo. Não ia dar muito certo, mas mesmo assim os pais concordaram em levá-los – claro que com a autorização dos pais, afinal os senhores Take não queriam arrumar problemas. Hoshi estava levando seu amigo Pedro Silvestre e Yue estava com seu inseparável companheiro Gabriel Alfrendic.
Na verdade os amigos iriam encontrar com a família depois das últimas compras que eles fariam. A mãe iria ao Sub SAARA com Hoshi e o pai iria com Yue até o Arco Center. Precisavam comprar algumas coisas e se dividiriam para ser mais rápido.
Depois das compras, a família Take se juntou novamente. Os filhos tinham encontrados seus amigos no meio das compras então, assim que se juntaram, foram logo para a casa dos Take para viajarem.
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