Azul

5 Sobre brigas


Notas iniciais
Oi! Voltei meio atrasada. Eu sempre me dou um mês para escrever o capítulo, mas procrastinar é viver. [edit: acabei de mudar a capa da fic. talvez esteja fofinha demais pro andamento da fanfic até agora, mas quando vi esse desenho pensei no Scorpius e na Rose na hora. se vocês souberem quem é o autor do desenho, me falem ♥] Boa leitura ♥

Se Scorpius pensava que algo mudaria de um dia para o outro, nunca estivera mais errado.

Uma parte dele — até maior do que deveria — tinha a esperança de que Hogwarts amanheceria de volta aos eixos. Ele já podia se imaginar andando pelos corredores e encontrando Rose, imponente, o nariz costumeiramente empinado. Ela checaria o uniforme dos garotos do sexto ano, guiaria alguma primeiranista até a aula de Poções e ainda teria tempo de passar na biblioteca para terminar algum pergaminho para a próxima aula. Scorpius suspiraria em alívio pela garantia de ter feito a escolha certa e voltaria ao seu posto de observador à distância.

Ele quase conseguia se conformar com o cabelo azul. Tanto fazia se a maldita da Weasley quisesse se rebelar contra a família e o nome e toda a lenga lenga usual, Scorpius dormiria em paz contanto que ela estivesse fazendo o próprio trabalho.

Isso. Não sentiria falta alguma de ter Rose cutucando-o e balançando o mundo dele o tempo todo. Nem um pouquinho.

Rose Weasley, porém, não estava nos corredores corrigindo alunos. Nem no café da manhã lendo o Profeta Diário. Muito menos na aula de Poções (Scorpius realmente tinha ficado abalado com essa). A falta foi tanta que o Malfoy finalmente deu o braço a torcer no intervalo entre aulas e questionou Albus sobre o paradeiro da garota. Foi retribuído com um “ah, cara” receoso. Não foi a resposta favorita de Scorpius.

— Cara o quê? Onde ela tá, Albus?

— Eu achei que você tinha visto, Scorp, se não te diria antes. — Quando confrontado pelo olhar confuso do amigo, Albus suspirou e apontou para a janela mais próxima dos dois. A vista dava para o lago. — Por que você não olha lá fora?

Ele olhou pela janela e não viu nem um traço de Rose. Teve de sair do castelo e descer até os jardins para finalmente encontrá-la.

Deitada numa cadeira de praia. De maiô amarelo e óculos de sol laranjas. Como se ela estivesse na droga das Bahamas.

Scorpius se distraiu brevemente com a curva que os quadris dela faziam quando encontravam a cintura, silêncio que deu a ela espaço para iniciar a conversa. É, ótimo. Ele deveria estar bravo, mas agora estava sem palavras só porque Rose Weasley estava esticada ali. Que incrível momento para aparecer, Scorpius de 15 anos.

— Você tá bloqueando meu sol.

Ele levou segundos para processar o que quer que tivesse saído da boca da garota. Franziu a testa, desviou o olhar das pernas dela, pigarreou, beliscou a própria palma da mão. Respirou fundo, enfim, para voltar a olhar e encontrá-la na mesma posição. Agradeceu aos céus que ela estivesse de olhos fechados para não presenciar o vexame.

— Você percebe que estamos em setembro, certo, Weasley?

Ela baixou os óculos e abriu um dos olhos.

— Malfoy! Como posso te ajudar?

Scorpius estreitou o olhar. Não era possível que ela fosse continuar com essa brincadeira. Não depois de todo o progresso que fizeram. Depois de ela tirar 30 pontos do Steve Vane com toda a fúria Weasley. Depois de Scorpius escrever aquela carta à McGonagall.

— É… o que você tá fazendo?

— Literalmente? Tomando sol. Você deveria tentar. — Rose endireitou-se na cadeira para colocar os óculos apoiados no topo da cabeça e encarar Scorpius. Ao ver o cenho franzido do colega, o olhar dela se suavizou, mesmo que sutilmente. — Em teoria? Só fazendo um pronunciamento.

— Pronunc- ah, não. Você nunca vai parar?

— Como assim, Malfoy? Você me tornou Monitora Chefe oficialmente. Agora posso fazer o que bem entender. Preciso de um bronzeado.

O sangue dele ferveu.

— Weasley, você tem noção do risco que eu corri para depositar essa confiança em você? Qualquer merda que você fizer vai me atingir diretamente.

Rose levantou-se muito rápido, fechando os passos entre eles até conseguir alcançar o olhos de Scorpius. Ela, dissimulada. Ele, furioso.

Aquela porra de nariz arrebitado.

— E de quem é a culpa disso, hein, Malfoy? Você podia muito bem ter me avisado antes de conspirar com a McGonagall pra me dar um posto que eu deixei claro que não queria.

— Conspirar? Você é louca, acha que o mundo está conspirando contra você. Ninguém realmente liga. Supera, Weasley. — Scorpius notou quanto o tom de sua voz havia aumentado. Ela rebateu na mesma voz:

— Não me chame de louca. Ouviu? Não quero saber da sua opinião sobre nada da minha vida. Se você ficou emocionadinho porque eu coloquei um moleque na linha, talvez você devesse melhorar seu trabalho como monitor, porque não foi nada além de julgamento básico. Supera, Malfoy. — Antes que ela pudesse se virar para ir embora, Scorpius agarrou o braço dela.

Os dois se encararam por alguns momentos, bravos. Rose estava praticamente fumegando por debaixo do cabelo azul e Scorpius sentia que os batimentos de seu coração podiam ser ouvidos a metros de distância. Ele só queria que desse certo. Queria, mais do que tudo, que Rose estivesse ali por ele assim como ele queria estar por ela. Queria que eles funcionassem juntos.

— Você não pode continuar fazendo isso agora.

— É? — Ela levantou as sobrancelhas enquanto o peito de Scorpius ficava cada vez mais turbulento. — Observe. — E se desvencilhou do garoto para dar meia volta e jogar os óculos laranjas na cadeira de praia. Ele observou o amarelo do maiô se afastando do suéter cinza dele. Sem hesitar nem um segundo, Rose pulou no lago com todo o glamour de uma adolescente exibicionista. Foi o estrondo do corpo mergulhado e água para todo lugar.

Se Hogwarts inteira já não estava com os olhos nela, Rose Weasley com certeza conseguira agora chamar a atenção da escola.

Os olhos de Scorpius ainda se demoraram mais um pouco na garota antes de virar o rosto e voltar para a aula.

x x x

Ele estava se escondendo.

Bem, não exatamente. Qualquer um poderia encontrá-lo jogado no dormitório masculino da Sonserina; não era, porém, como se alguém realmente estivesse procurando. Era hora do almoço, o que significava que nenhum de seus amigos glutões tiraria os olhos da comida para se perguntar onde diabos estava o Malfoy.

Tanto fazia. Ele não queria ver ninguém. Scorpius estava ocupado demais remoendo as doces sensações do arrependimento profundo. Ele não acreditava que passara semanas pensando em possíveis novas monitoras para se render à lábia — mesmo que involuntária — de Rose Weasley na primeira oportunidade que teve. A carta que enviara para McGonagall era patética, assim como todas as motivações que o levaram a escrevê-la em primeiro lugar.

O pior de tudo era que ela tinha razão. Ele só estava nessa situação porque tinha metido a si próprio nela. Ninguém precisou ajudá-lo a fazer merda, Scorpius conseguia realizar perfeitamente o trabalho sozinho.

Ah, o humor baseado na dor dele. Há há.

Scorpius só queria deixar aquilo ir. Esquecer de vez de todo o cabelo azul.

Por isso, deixou os pensamentos flutuarem ao seu redor sem realmente se focar em algo, encarando o teto acima de sua cama até os olhos ficarem pesados. As pedras desgastadas ao lado da janela do dormitório o fizeram se dar conta da construção centenária que o carregava naquele exato segundo. Notou, num suspiro preguiçoso, que o ar entrava em seus pulmões e o sangue corria pelos seus dedos do jeito que tinha que ser.

Baixando o olhar, porém, finalmente focou a visão de novo para encarar o pé da cama de Albus. Algo despontava por debaixo do colchão, e Scorpius quase não perceberia se não fosse uma embalagem tão característica.

Antes que pudesse processar o que acabara de ver, a porta do dormitório foi aberta abruptamente. Scorpius levantou a cabeça e viu um Albus muito irritado arremessar a mochila para um lado e os livros para o outro. Sem nem olhar para o amigo, o Potter se jogou em sua cama num bufar agressivo e cobriu os olhos com os braços. Scorpius esperou a respiração do garoto se regularizar para se apoiar em seus cotovelos e encarar o cabelo negro e agora ligeiramente comprido de Albus Potter.

— Albus. — chamou.

Sem resposta. Tentou de novo, agora mais alto:

— Albus? Tá tudo bem?

— Tá, Scorpius. Só estou cansado.

— Ah.

E mais silêncio. Scorpius queria estender as mãos e chacoalhar os ombros do outro, mas não o fez. Em vez disso, rolou na cama e suspirou.

— É sobre alguma garota?

Isso chamou a atenção de Albus.

— O quê? — Ele estava com a cabeça levantada agora, estranhamente atento. — Por que você diz isso?

— Bom… você anda estranho desde o começo das aulas. — Scorpius pigarreou, tentando evitar ao máximo a pergunta que estava coçando desesperadamente em sua garganta. — E parecia ridiculamente feliz nas últimas semanas. Sumindo em momentos aleatórios. E tal.

Albus não respondeu, o que só fez com que Scorpius quisesse falar ainda mais sobre o pacote embaixo da cama do amigo. Até minutos atrás, o Malfoy não tinha ideia do que poderia estar acontecendo com o garoto, mas agora tinha uma evidência sólida bem ali à sua direita. Era só questão de se esticar um pouquinho e teria a embalagem em mãos.

Se ele queria esconder algo de Scorpius, Potter realmente não estava dando crédito às capacidades de percepção do amigo escondendo coisas em lugares tão visíveis. Verdade seja dita.

Scorpius não era tão obtuso assim. Certo? Certo.

Bom, honestamente…

Foda-se.

— E também tem o fato de que você tem um pacote de camisinhas debaixo da sua cama. É, acho que esse foi um grande ponto na minha investigação.

Albus se levantou tão abruptamente que Scorpius levou um susto.

— Você tá bisbilhotando minhas coisas agora, é isso?

Hã.

Isso não era o que Malfoy tinha em mente.

— Claro que não, Albus, não seja ridícul-

— Eu nunca mexi em nada seu. Por que você tá fazendo isso agora? O que você quer?

— O que eu quero? — Scorpius franziu as sobrancelhas. — Quero que você pare de me esconder as coisas. Não precisamos compartilhar tudo sobre a vida um do outro, mas seria muito legal se você parasse de agir estranho e me contasse sobre as coisas importantes na sua vida. Como essa garota. Por quem você claramente tá apaixonado.

— Cala a boca, Scorpius. Você não sabe do que tá falando.

Os dois estavam de pé agora. Scorpius, ainda ao lado da cama. Albus, muito perto da porta, quase como se quisesse fugir dali o mais rápido possível.

— Então me explica.

Os olhos do Potter estavam baixos quando ele respondeu, por fim:

— Não consigo lidar com isso agora.

E saiu do quarto sem olhar para trás.

x x x

Digamos que Scorpius terminou a semana com alguns pequenos sentimentos.

Como, por exemplo, muita raiva. Raiva o suficiente para evitar jantares ao lado de Albus, e reorganizar as monitorias para não ter que encarar Rose naquela sexta feira. Raiva bem descontada no quadribol, mas não o suficiente para livrá-lo da vontade de socar alguma coisa.

E também tinha o ressentimento. Com Albus, consigo mesmo. Scorpius não conseguia se lembrar da última vez que brigara com o melhor amigo.

Por isso, Malfoy não hesitou em tirar uma folga quando sábado finalmente chegou. Não se importou em deixar uma grifinória auxiliando os alunos do 3º ano na primeira visita à Hogsmeade para que ele pudesse fazer sua visita ao Três Vassouras. E não se incomodou nem um pouco em sentar-se sozinho no balcão e virar qualquer coisa que o garçom lhe passasse.

E o mundo girou tanto que Scorpius quase não estranhou o fato de que Freddie McLaggen estava sentado a duas cadeiras de distância de seu lugar no balcão. E puxava conversa.

— Eu nunca adivinharia que você era um desses que bebem, Malfoy. — McLaggen sorriu por trás de sua cerveja amanteigada. Scorpius não conseguia concluir muito bem se o outro estava sóbrio ou não.

A esse ponto, Scorpius não conseguia concluir muito bem nada.

— É porque eu não sou.

— Ocasião especial?

— Digamos que sim.

— Semana difícil?

O cérebro enevoado dele realmente não entendia que diabos McLaggen estava fazendo conversando com ele.

— Digamos que sim.

— Você é monitor, certo? Deve ser uma merda.

— Já foi melhor.

— O que quer dizer?

Scorpius levantou os olhos e viu que Freddie tinha repousado a cerveja no balcão e estava virado completamente para o Malfoy. O bar parecia mais vazio do que deveria. Ele nem conseguia imaginar que horas deveriam ser.

— Sua ex namorada não me ajuda muito.

— Ah, sim. Rose. — Riu, mas Scorpius não viu graça. — Você acredita que isso era praticamente a vida dela quando estávamos juntos? Era relatório pra cá, detenção pra lá. Eu andava na corda bamba o tempo todo com ela. É irônico que tenha jogado tudo isso pro alto agora.

— Hum.

— E o que você acha?

— Acho o quê?

— Dessa transformação. O cabelo, a atitude. Essas coisas.

Scorpius desviou o olhar e tomou um longo gole de seu firewhisky. Não entendia aquela conversa.

— Acho pretensioso. Ela tem esse discurso alternativo sobre o mundo, mas pra mim é tudo besteira. Não precisa pintar o cabelo pra mudar de vida. Ela só criou um novo padrão. Grande coisa.

O outro riu. O Malfoy não gostou.

— Rose gosta de chamar atenção. Sempre gostou, mas só agora tá mostrando de verdade pra todo mundo quem ela é. Achei uma piada McGonagall chamá-la para a monitoria quando claramente ela não tem nenhum equilíbrio emocional pra isso.

E, repentinamente, algo clicou na cabeça confusa de Scorpius.

— Vem cá, McLaggen, você só tá aqui pra falar mal da sua ex?

A expressão de McLaggen escureceu.

— Não, Malfoy. Eu só queria confirmar que ninguém está caindo nas histórias dela. — Levantou-se e deixou alguns sicles ao lado do copo ainda cheio. — Obrigado, você me ajudou bastante. Se cuida, cara. O único jeito de não ter ressaca é não parar de beber.

Hum.

Nada bom. Nada bom mesmo podia vir desse cara. Nada. Nada.

Hum.

O que foi que aquele otário tinha dito mesmo?

— Ressaca… — murmurou para seu copo de bebida. — Ele se acha hilário… realmente bom pra rir… daquela cara de fuinha.

— Passou a falar sozinho, Malfoy?

Scorpius sobressaltou-se, quase espirrando bebida para todo o lado. Virou-se muito rápido (rápido demais. O bar todo rodou.) para encontrar a inigualável Rose Weasley encarando-o daquela forma enlouquecedora. Ele franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça brevemente para ter certeza de que ela era real mesmo.

— Roo-o-ose Weasssley. A garota que mais me odeia em Hogwarts. Você realmente é uma visão, hein?

Ela o olhou, séria.

— Eu não odeio você. — Empurrou o copo da mão dele quando Scorpius foi tentar tomar mais um gole. Ele fez uma careta para ela. Rose continuou, agora com a voz mais baixa: — Você falou com o Freddie?

— Ah, não. — Scorpius queria o copo de volta. Mas que diabos acontecia com essas pessoas que não o deixavam curtir a fossa em paz? Não era tão difícil. Era só ver o loiro debruçado no balcão e graciosamente fingir que ele nunca esteve ali. Fala sério. — Tenho cara da sessão de fofoca do Profeta Diário? Não vou ficar sendo um meio termo pra você o McLaggen ficarem trocando promessas de amor… ou insultos. Hm, acho que ele tá mais pra insultos mesmo.

— Típico. Mas tanto faz. Eu nunca te pediria uma coisa dessas. Só… não acredite nas idiotices dele. — Dirigiu-se ao garçom: — Será que você poderia trazer uma água para o meu amigo aqui?

— Eu não qu-

— Honestamente, Malfoy, não posso te deixar aqui bebendo sozinho. É meio decadente. Como sua reputação vai ficar desse jeito?

— Que reputação?

Os dois se olharam, e a palma da mão de Scorpius começou a pinicar. Ela prendeu o riso por mais alguns segundos antes de gargalhar. Foi uma cena meio magnífica, e o cérebro lento de Scorpius deixou que ele risse junto.

Resolveu beber a água deixada pelo bartender. O gelo deslizou pela boca dele, despertando pequenas partes dele, mas não exatamente. Era uma sensação engraçada.

— Você não deveria estar brava?

— Fiquei muito brava, sim. — Rose ajeitou o cabelo. Batucou o dedo nos joelhos. Olhou para o lado e soprou a franja (que não se moveu, diga-se de passagem). Tudo para não olhá-lo nos olhos. — Você não tinha o direito de tomar essa decisão sozinho, mas ainda assim tomou. Eu sei que você não aprova as coisas que eu faço, mas isso não te diz respeito, sabe? Se eu quiser deixar tudo pra trás, por que você só não me deixa?

A visão flutuou um pouco quando Scorpius tentou respirar fundo. Sua consciência dizia que era hora de falar sério, mas seus lábios eram enrolados e Rose estava bem ali para ele olhar. Não furtivamente do jeito que fazia milhões de anos atrás quando ela ainda estava com o McLaggen. Agora ele podia olhá-la nos olhos, e Scorpius descobriu que isso mudava muitas coisas.

Porque os olhos dela não eram como o nariz arrebitado ou os punhos fechados que fazia quando estava irritada. Os olhos eram Rose. E somente Rose.

— Por que você não me deixa beber agora, Weasley? Nesse momento, se eu quisesse beber até esquecer meu nome, o que te faz querer arrancar o copo da minha mão? — Ela o olhou de volta. Os dois respiraram por um segundo.

— É diferente. Eu só acho que você vai se envergonhar. Só quero ajudar.

— Como isso é diferen-te da monitoria? — Ele suspirou, tentando organizar os pensamentos na cabeça confusa. Esperava não soluçar ou… bem, vomitar nos sapatos dela ou qualquer coisa do tipo. As palavras não saíram do jeito que ele queria, mas continuou. — Escuta, eu não sei o que aconteceu com você. Mas eu te vi. — Inspirou. — Eu te vi defendendo elfos domésticos e virando noites para ajudar o Albus com Trans-figuração. E não acho que você queira jogar tudo isso fora. Eu não quero te sabot… — Expirou. — Rose, por incrível que pareça, eu me importo essa sua ca-beça cheia de quí-mi-ca.

E todas as palavras se embaralharam, mas ele soube que Rose tinha entendido pelo sorriso gigantesco que ela lhe ofereceu. E, por fim, completou suavemente:

— Eu sei.

— Hum?

— Eu sei, Malfoy.

— Você sabe?

— Sei. — Ela puxou a bolsa aos seus pés e tirou de lá um pergaminho. Scorpius teve que semicerrar os olhos para conseguir focar a visão, mas não foi difícil reconhecer a própria letra apressada de dias atrás.

Era a carta dele para McGonagall.

Nas mãos de Rose Weasley.

Mas… hã?

— Não fique tão chocado. Fui tirar satisfações com a McGonagall, é óbvio. E ela me mostrou sua carta. Por isso vim te procurar. Para… — Pigarreou, como se as palavras fossem difíceis de sair. — ...me desculpar.

Bem, se ele já estava chocado antes, agora Scorpius estava completamente fora de si. Nada naquela conversa, não, naquela semana, fazia sentido.

Ela deslizou o papel pelo balcão e apontou para as partes em que ele escrevera sobre apostar todas as fichas nela. Ele murmurou qualquer coisa para se explicar, mas percebeu que Rose não estava brava ou debochada. Ela parecia genuinamente feliz. Foi desse jeito que os ombros de Scorpius se desprenderam para deixá-lo respirar novamente.

Deixou-se levar, então, para fora do bar, porque Rose queria ver a noite. E continuou ao seu lado mesmo tendo passos confusos e aqueles pensamentos flutuantes. Mal se importou quando os dois pararam logo em frente às portas do Salão Principal mesmo o toque de recolher estando muito próximo.

As coisas estavam mais no lugar agora.

— Desculpa por ser tão eu de vez em quando. Por te deixar nervoso desse jeito. Fico querendo me proteger, mas… acho que você não é o inimigo.

— Você se engana, Weasley. Sou maléfico. — respondeu, engrossando a voz em tom de zombaria.

Ela riu e levantou as sobrancelhas, balançando a cabeça.

— Já te disse para não usar essa voz grossa desse jeito.

— Porque toda a população feminina vai cair aos meus pés? Sim, sempre funciona. Ontem a Melanie terminou com a namorada dela só porque eu respondi a uma pergunta na aula de Poções. Foi bem incrível.

— Uau — Ela revirou os olhos, mas ainda sorria de lado. — Funciona mesmo. Com certeza foi assim que você comprou seu distintivo de Monitor Chefe.

— Bom, você sabe como é a McGonagall, né? Sempre procurando coisas novas.

— Ah, não! — Rose tampou os olhos com as mãos enquanto Scorpius gargalhava. — Credo, Scorpius, não, não. Preciso tirar essa imagem da minha cabeça.

Eles riram por mais um tempo até aquele silêncio tão característico dos dois aparecer finalmente. Uma coruja piou ao longe. Ele percebeu como estava tarde. Percebeu como aquela era uma noite inédita na história do universo e ele estava ali em frente ao castelo mais importante de sua vida. Percebeu uma pedrinha ao lado de seu sapato e a chutou.

— O que quero dizer é… — Rose recomeçou com o tom solene. — tenho mais inimigos que amigos agora. E eu sempre poderia ter um aliado.

Scorpius não disse nada por um segundo antes de responder:

— Por que você está falando como se estivéssemos em guerra?

Não era uma pergunta séria, mas Rose pareceu realmente considerá-la por alguns momentos para voltar a olhá-lo nos olhos. (Olhar nos olhos de Rose Weasley era bizarro. De uma forma boa.)

— Eu não sei que outra palavra usar. Pareceu apropriado, porque acho que não somos amigos, mas poderíamos fazer muito mais se estivéssemos do mesmo lado e não um contra o outro.

— Acho que não somos amigos também.

— Certo. Então aliados?

Scorpius queria perguntar sobre os inimigos. Queria ouvir a história sobre o McLaggen, entender por que as coisas pareciam tão agressivas entre os dois. As dúvidas sobre Rose ter sofrido alguma violência estavam na ponta da língua, assim como a questão infinita sobre a droga do cabelo azul.

Porém, Scorpius não pensou nela exatamente. Pensou em Albus, nervoso, depois de questionado sobre seus segredos. Na fragilidade que parecia ter se instaurado entre os dois, e como ele não queria fazer isso de novo. A névoa de álcool não o impedia de ver o quão cansada Rose parecia. E as coisas pareceram muito irrelevantes perto do respeito que ele tinha por ela e por seu espaço.

Se algum dia soubesse alguma dessas histórias, seria porque Weasley quis contar, e não porque ele estava demandando. Merlin sabia que ela já parecia exausta do jeito que estava.

Por isso, Scorpius fez uma mesura exagerada e piscou por detrás dos fios de cabelo que caíram no rosto dele:

— Será uma honra, Rose Weasley.

Notas finais
Comentários aleatórios sobre esse capítulo: 1- Resolvi não colocar a Rose de biquíni na primeira cena porque acho que seria demais fazer isso em Hogwarts até pra ela. Mas sei lá, pode ser bobeira minha e dar no mesmo HAHAH. 2- Eu particularmente acho essa frase de continuar bebendo pra não ter ressaca muito nada a ver, então achei perfeito pra ser uma coisa que o McLaggen falaria. Parte disso é porque um menino me falou isso uma vez de um jeito muito debochado e fiquei brava eternamente. #rancor 3- Jogar Hogwarts Mistery me mostrou que qualquer pontinho faz falta, então achei que tirar 30 pontos do Vane era justo. Fui muito generosa? 4- É difícil imaginar a voz dos personagens, mas se eu pudesse arranjar um ator pro Scorpius, ia querer que ele tivesse aquelas vozes de locutor de rádio. Só porque eu acho legal HAHAHA 5- Odeio revisar capítulos porque eu quero apagar tudo e escrever de novo. Enfim! É isso, acho. Minha cabeça tá meio bugada então vou deixar por isso mesmo. Me contem o que acharam nos comentários ♥ Beijosssss