Azul

6 Sobre adolescentes cheios de segredos


Notas iniciais
Oi! Acabei procrastinando de novo por várias coisas (uma delas foi a Copa do Mundo............................................ já sinto falta, RIP), mas eu volteeei! Não sei muito o que pensar desse capítulo, mas ele precisa existir para algumas outras coisas serem desenvolvidas futuramente. Enfim. Boa leitura ♥

Não importou muito o que quer que Freddie McLaggen tenha dito, porque Scorpius amanheceu de ressaca de qualquer forma.

Nada estava muito certo. O dia era claro demais, e as conversas matutinas, ensurdecedoras. A cabeleira loura dele parecia pesar um milhão de quilos. A vida era um arrastar seco e dolorido.

Scorpius se espreguiçou inteiro na cama e se revirou até os lençóis enroscarem. Ficou ali o máximo de tempo que conseguiu, evitando deliberadamente encontrar com Albus. Fingiu de morto até que o colega finalmente levantasse, se vestisse e saísse do dormitório. Ainda teve a ousadia de continuar o ato quando Zabini chutou o pé da cama dele (o mundo todo chacoalhou).

Ele não queria ser tão ridiculamente covarde o tempo todo, mas não fazia ideia de como mencionar o enorme desconforto entre os dois. Como poderia ele respeitar o espaço de Albus e ao mesmo tempo mostrar que estava disponível para uma possível conversa? Não tinha ideia, então fazia o que era de praxe:

Ignorava o problema e esperava que ele sumisse.

O que obviamente irritava Luke. Ele não era nenhum tapado para não entender o que estava acontecendo ali, mas tudo aquilo também era novidade. Scorpius e Albus nunca tinham ficado tanto tempo sem se falar, e nenhum dos amigos sabia realmente como prosseguir.

— Se você acha que precisa escolher entre um de nós dois, relaxa. Não vou te pedir isso, você pode ficar com ele.

Zabini franziu a testa e coçou o cabelo recém cortado. Ele gostava de raspar a cabeça e observar os fios espetarem para fora novamente. Era muito característico dele. Dizia que só deixaria os cabelos crespos finalmente crescerem quando fosse auror. Scorpius gostava de imaginá-lo enfrentando perigos de black power. Parecia uma imagem poderosa.

— Não preciso escolher entre ninguém. Somos amigos, e nada vai mudar só porque você e o Potter são dois idiotas orgulhosos. — E se dirigiu ao banheiro. Scorpius aproveitou a deixa para se vestir e sair do quarto o mais rápido possível.

Como dizia, ignorar o problema até sumir.

Ele cambaleou mais um pouco pelas próprias dúvidas nos corredores de Hogwarts até decidir de vez esquecer do amigo por ora. Afinal, ele não tinha tomado café — sacrilégio -, precisava urgentemente de uma poção para dor de cabeça, e já era hora da aula de Feitiços, o que significava presenciar Thomas Wilkins beijando os pés de Flitwick.

Argh. Era preciso muita coragem para ser puxa saco dessa forma do Flitwick. Scorpius nem sabia o que era isso. De forma alguma.

Pamela Boot já estava na mesa compartilhada quando ele chegou, o que fez Scorpius se perguntar se estava muito atrasado ou se ela realmente havia aparecido cedo pela primeira vez no ano. Pensou que não importava, então se jogou na cadeira ao lado sem nenhuma palavra a mais. Ela, porém, colocou as mãos na mesa e olhou para o colega.

Malfoy escolheu não olhar de volta. Fez cara de paisagem e remexeu em sua mochila até Flitwick finalmente fechar a porta para começar a aula, mas Pamela não estava disposta a desistir.

— Malfoy. — chamou. Não só Scorpius como também o professor olharam para a garota. Foi a vez dela fazer cara de paisagem enquanto Flitwick se virava para arrumar os materiais das aulas e Scorpius levantava as sobrancelhas em sua direção. Tentou de novo, dessa vez mais baixo: — Eu só queria agradecer.

O garoto pigarreou.

— Você deveria agradecer à Weasley, não a mim. — respondeu num fio de sussurro, quase nem ouvindo a própria voz. Pamela assentiu.

— Acho que ela vai ficar brava comigo. Parecia tão possessa quando eu disse que não era culpa de Steve que achei que ia me bater.

Ele engoliu a risada enquanto tentava manter os olhos focados na lousa, por mais que não tivesse ideia do que estava acontecendo naquela aula.

— E não era culpa do Steve?

Ela não respondeu, então Scorpius se viu obrigado a virar o rosto e olhá-la. Pamela encarava a própria varinha, rondando os entalhes na madeira com o dedo indicador. Os olhos baixos.

— Hein, Boot?

— Não era culpa dele.

Os dedos dele se fecharam na quina da mesa com força. Scorpius não conseguia entender. Cerrou os dentes e voltou a olhar para frente, tentando focar de alguma forma no que quer que Flitwick estava demonstrando ao lado da lousa. Viu Wilkins se levantar para demonstrar um Reducto e se esforçou ao máximo para não revirar os olhos.

— Se não era culpa dele, por que está me agradecendo?

Ela deixou a varinha cair. Quando se abaixou para pegar, o restante de seu material também caiu. A sala toda virou em direção a eles.

Corando levemente sob o olhar questionador do professor, Scorpius também se abaixou para ajudá-la a recolher a bagunça, mas, para sua surpresa, Pamela afastou a mão dele quando foi tentar alcançar o livro dela. Boot não parecia mais querer sua ajuda.

x x x

Na hora do almoço, Scorpius nem podia mais se considerar um ser humano. Ele estava certo de que tinha se transformado em alguma criatura maligna e irracional cujo único objetivo na vida era encontrar algo para alimentar-se. Não era mais questão da ligeira fome que batia na metade da manhã, e sim o desespero absoluto de não ter tomado café da manhã ou jantado na noite anterior. Ele provavelmente poderia almoçar toda a comida posta na mesa da Sonserina e ainda não seria suficiente.

Por isso, Scorpius não hesitou em se sentar em seu lugar usual e encher o prato com qualquer coisa que aparecesse à sua frente. Até chegou a pegar couve-flor, e odiava couve-flor. Comeu sem pensar em nada, totalmente focado na tarefa que tinha encarregado a si mesmo. Era mais simples assim. Quando terminou, sentiu-se mil vezes mais pesado — e mil vezes mais feliz também, diga-se de passagem.

Só percebeu o quão ogro estava sendo quando levantou a cabeça e acabou — acidentalmente, ele jurava — passando os olhos por Rose. E, pasmem, ela olhava de volta.

Scorpius poderia perfeitamente fingir demência e desviar o olhar para o outro lado do Salão, mas a Weasley não parecia ter a mesma ideia. Na verdade, ela estava sorrindo para ele.

Ele achou tudo tão bizarro que acabou engasgando no próprio suco.

E então percebeu que ela estava mais para rir da cara dele do que de fato sorrir para ele. Scorpius não podia ver com clareza daquela distância, mas tinha certeza de que os olhos dela estavam bem apertados entre as pálpebras enquanto ela tentava rir discretamente lá da mesa da Grifinória. Ele olhou feio, fazendo-a rir um pouco mais antes de apontar para a própria boca e passar o guardanapo por cima.

— Quê…? — fez Scorpius, por mais que ela não pudesse ouvi-lo. Ele passou o dedo indicador no queixo e entendeu o que ela quis dizer. Seu rosto estava todo cheio de molho de carne e ele não tinha percebido.

Riu enquanto limpava a boca e ela balançava a cabeça. Ele mostrou a língua, retribuído por um levantar de sobrancelhas e um dar de ombros. Incentivado pela conversa muda, Scorpius apontou com a cabeça para o resto de sua mesa e revirou os olhos, esperando que ela entendesse o quão pouco interessado ele estava na conversa alheia. Rose assentiu, apontando para um casal sentado ao lado dela e fingindo vomitar. Ele quase cuspiu suco de abóbora.

Agora ela estava gargalhando abertamente. Outras pessoas começaram a encarar. Rose até tentou disfarçar tossindo e batendo o garfo no próprio prato, mas Scorpius imaginava que seus colegas de Casa provavelmente não esperavam atitudes muito sãs de Rose Weasley. Ele quis continuar fazendo caretas para ela, mas alguém a chamou e a garota desviou a atenção para realmente conversar com alguém.

Malfoy não sabia dizer se era culpa da comida finalmente em seu estômago, mas o mundo parecia um pouco menos pior. Achava que podia enfrentar mais aulas. e, talvez, até Albus.

Aliados. Hum. Scorpius não fazia ideia de como ser aliado de alguém. Pensava que a ideia de Rose era de certo modo teatral, mas o que não era nesses últimos dias? Vindo dela, ele chegava a ficar grato por não ter que fazer algo absurdo para ajudá-la. Só não tinha certeza do quê a Weasley queria dele de qualquer maneira.

Ao fim do dia, o Malfoy estava quase pronto para sentar ao lado de Albus no jantar e puxar conversa como se nada tivesse acontecido. O Potter hesitaria a princípio, mas logo perceberia que aquela era a melhor opção para ambos. E, quando o amigo estivesse pronto, eles poderiam conversar de verdade.

Existiria um momento, Scorpius sabia, em que as coisas voltariam ao normal.

Mas não hoje.

Scorpius estava saindo da biblioteca quando ouviu o burburinho a alguns corredores de distância. Sendo Monitor Chefe (e completamente não relacionado ao fato de ser curioso), precisava reconhecer uma confusão quando ela estava bem diante de seus olhos. E, bem, ela estava. Ele não ouvia alunos fazendo barulho assim desde a última vez em que presenciara um duelo ilegal no 1º ano (em sua defesa, era uma criança. Não podia perder a oportunidade de ver uma coisa dessas, mesmo que tenha perdido alguns pontos para a sua Casa naquele dia).

Perambulou pelos corredores, tentando encontrar o lugar exato da loucura. Acabou por seguir a multidão, porque todos queriam saber de polêmicas. Confiava no poder de adolescentes desesperados por caos. E não estava errado, já que andou mais alguns metros até chegar no espaço abarrotado de pessoas. Scorpius não conseguia ver o que havia mais à frente, mas percebeu as câmeras nas mãos de alguns, risadinhas, olhares preocupados e muitas, muitas pessoas falando ao mesmo tempo.

Em resumo, nada bom.

Não seria fácil passar por aquela massa de pessoas em histeria geral. Ninguém prestou muita atenção nele, então teve de dar os cutucões usuais. No momento em que viam quem ele era, arregalavam os olhos e davam espaço livre para ele passar.

Ele se sentiu meio uma celebridade.

— É o Monitor Chefe!

— Epa, é o Malfoy.

— Deixem ele passar. Vai, sai da frente.

Agradecido, Scorpius foi adentrando a multidão até chegar na última fileira de pessoas, mas esta não parecia tão disposta a colaborar, tão entretida que estava com a confusão. Ele teve de empurrar com força um dos ombros para conseguir ver os dois garotos no chão. Rolando. E se socando.

Ah, ótimo. Socos. Em duelos aleatórios, era muito simples lançar um Expelliarmus e acabar com qualquer briguinha idiota que estivesse acontecendo. Por outro lado, brigas físicas eram mais complicadas, já que ele poderia muito bem lançar um Levicorpus em um dos garotos, mas nada garantia que os dois adolescentes emaranhados não fossem para os ares juntos e morressem de susto. Scorpius não era autorizado a fazer os alunos fazerem xixi nas calças.

O mais recomendado, pensou ele, era fazer da maneira intuitiva, que era agarrar um dos alunos e esperar que alguém daquela multidão de fofoqueiros viesse ajudar a separá-los.

Esse, porém, não era o maior dos problemas de Scorpius, porque ele sabia bem quem eram os garotos trocando socos.

O inigualável Michael Abbott.

E Albus Potter.

Por alguns segundos, Scorpius se manteve parado, sem reação alguma, até alguém atrás dele empurrá-lo, como se esperasse que ele fosse fazer algo. E deveria, porque as coisas estavam progredindo muito rápido e Albus parecia prestes a entrar em combustão. Michael deu um grito quando o outro acertou o punho em cheio em sua boca.

Scorpius prendeu a respiração. Abbott derrubou Albus. Albus olhou, do chão, para Scorpius. Scorpius se jogou em cima dele, agarrando-o pelos braços o mais forte possível, o que o fez gritar e debater, ensandecido.

Foi rápido o suficiente para Malfoy levar uma cotovelada no estômago e alguém lançar um Petrificus Totalus em Michael — como diabos Scorpius não tinha pensado nisso? Quando o corpo caiu, imóvel, Albus ficou quieto sob os dedos dele.

Viu Rose do outro lado, guardando a varinha no bolso da calça e se abaixando para olhar os machucados de Michael. Ela e Scorpius se entreolharam. Ela tinha as sobrancelhas franzidas e os lábios comprimidos. Ele entendeu que Rose também não fazia ideia de como aquilo tinha acontecido.

Desperto, ele soltou Albus e encarou o rosto ensanguentado e distorcido numa expressão raivosa.

— Qual a porra do seu problema?

Potter tinha a boca toda cheia de sangue e cada vez mais inchada. Tentou cuspir alguma coisa e responder, mas acabou por grunhir e contorcer o rosto todo, como se desaprovasse a presença de Scorpius. Isso só o deixou com mais raiva.

Antes que fizesse algo estúpido, Rose tinha as mãos nos ombros de Albus e o mandava ir para a Ala Hospitalar. Ele nem hesitou, por mais que as mãos de Scorpius ainda pinicassem com a expectativa de brigar para valer com o outro. Em vez de resolver as coisas, Albus andava por aí socando Lufanos. Era inacreditável.

Eles esperaram Albus sair para desfazer o feitiço em Michael e deixá-lo ir também para os cuidados da Madame Rotuney. Ele estava tão mal quanto Albus, e as juntas dos dedos já começavam a se arroxear por todo o impacto dos socos. A multidão também se dispersou, apesar dos comentários animados ou preocupados de cada um que passava.

Scorpius ficou parado. Sentia-se um balão murcho.

Rose também ficou, por mais que não estivesse chocada ou estressada como o Malfoy. Suspeitava de que ela só estava ali porque ele estava paralisado pela impotência. Eles trocaram um olhar. Ela apertou a mão dele.

Nada estava fazendo sentido.

Notas finais
Aqui nessa casa só gostamos de treta. É isso. Revisei esse capítulo algumas vezes, mas confesso que no momento tô super cansada, então tô meio fora do ar. Qualquer coisa, me avisem. Como eu disse, não sei exatamente o que pensar desse capítulo, mas ele é necessário. Fiz todo o planejamento da fanfic, e até agora oficialmente teremos 21 capítulos É isso! Vou começar minhas aulas na faculdade em setembro, então com sorte consigo postar pelo menos um capítulo antes de mergulhar no mundo das responsabilidades. Medo. Se quiser, vem me contar o que achou nos comentários! Adoro ler o que vocês têm a dizer. PS: Escrevi uma one shot curtinha e meio triste, não sei, de Teddy e Victoire, caso alguém tenha interesse ♥ Beijosssssssss