Azul
2 Capítulo 2
Notas iniciais
POV Cat
Entrei em casa tentando fazer o mínimo de barulho possível. Não queria ter que explicar onde eu estava até uma hora dessas. Não que alguém tenha percebido que eu tinha saído.
Subi as escadas em silêncio, cheguei ao meu quarto e joguei minha bolsa em qualquer lugar. Eu me sentia exausta, tanto fisicamente quanto emocionalmente, e por mais cansada que eu estivesse sabia que não iria conseguir dormir. Ela não me deixaria dormir. A noite seria a mesma coisa da ultima semana, é assim desde a última vez que eu a vi. Eu sei que deveria falar com ela, mas tenho tanto medo do que ela quer me dizer. Assim como tive medo da sua reação da quinta-feira passada. Quando eu a beijei e fui embora correndo. Eu era uma grande covarde. Com todo o meu silêncio eu acho que ela desistiu de mim, parou de me ligar e ser ignorada ontem. Não sei se fico aliviada, ou triste. Mas no fundo eu a entendo, não é todo dia que ela sua melhor amiga, quase irmã, manda você terminar com seu namorado e te agarra. Se bem que ela correspondeu ao beijo. Talvez por educação, ou respeito aos meus problemas, ela com certeza deve ter pensado neles, mas enfim, sei lá. Mas uma coisa eu tenho certeza: ela só me vê como uma amiga, agora uma amiga extremamente perturbada, se é que ela já não achava isso antes de mim.
Mas o que eu posso fazer se eu a quero tanto? Eu a amo mais do que a mim, amo tanto que chega a doer, falta o ar quando eu a vejo, e eu não sei o que falar, não sei nem como falar, eu simplesmente esqueço como fazer isso. E ao olhar nos seus olhos eu me perco o resto de noção que eu ainda tinha. Azul. Definitivamente a minha cor favorita. Ela é a minha favorita, minha garota favorita, minha única na verdade.
Às vezes me pergunto como eu não percebi isso antes, ela é tão perfeita. Como eu consegui passar nove anos com ela e não perceber que ela havia sido feita pra mim? Mas acho que eu não nasci pra ela.
De qualquer jeito continuar a evitando não vai nos levar a lugar nenhum, pensei em atender a sua próxima ligação, mas desde ontem ela não me liga. Talvez eu deva ligar.
Me assustei ao ouvir três batidas na porta. Me olhei rápido no grande espelho na parede do quarto. Tirei o sapato, a jaqueta, baguncei um pouco a roupa, o cabelo e a cama, para parecer que eu estava dormindo e falei forçando um rouco na voz:
— Entra.
— Eu sei que você não estava dormindo. – Falou à voz que eu menos queria ouvir no momento. – Vi você chegando. – Merda.
— Você vai contar pra mamãe? – Perguntei mesmo sabendo que ele iria.
— Claro que não irmãzinha, mas diz ai, onde você estava? – perguntou ele entrando no quarto e fechando a porta.
— Não é da sua conta.
— Mas é da conta da mamãe – seu tom brincalhão era visível.
— Você disse que não ia contar – falei irritada. Só olhar pra ele tirava a minha paciência.
— É, contanto que você se comporte bem. – Ele não ia me deixar em paz enquanto eu não contasse.
— Eu saí. – Ele revirou os olhos e se sentou na cadeira perto da mesa com o meu computador. – Depois da aula eu fui andar por ai.
— Até uma hora dessas? Tá, eu vou fingir que acredito.
— O que você veio fazer aqui afinal? – Perguntei extremamente irritada.
— Calma, calma... A sua amiguinha gostosa me ligou ontem. – Amiguinha gostosa? É bom que ele não esteja falando da Danny.
— Que amiguinha?
— A Inglesa. Que outra amiga gostosa você tem? – Joguei um travesseiro nele com toda força que eu podia. Mas era só um travesseiro.
— Não fale assim dela! – Gritei pra ele que me olhou assustado, porém um com um sorriso idiota no rosto.
— Meus Deus! Ela é gosto... – Se calou ao ver o meu olhar fuzilador em direção a ele. – Tá bom, calma ai. Você anda tomando os seus remédios, né? E indo ao psiquiatra?
— Sim David, eu tomei tudo, e fui falar com aquele inútil. – Odiava quando ele me fazia lembrar isso. Mas tinha que me concentrar no mais importante. – Ela te ligou? Pra quê?
— Parecia preocupada com alguma coisa que eu não me importo. E disse que você não a atendia. Ai eu disse pra ela parar de ligar. Ela me chamou de idiota e disse que eu era um péssimo irmão. Eu disse que não me importava. Ai vem a parte legal... Ela disse que não viu você na escola... A semana toda... – Seu olhar dizia que a mamãe iria ficar sabendo disso, e que eu estava imensamente ferrada. – Ai eu volto a perguntar: Onde você estava Cat?
— David, po-por favor, não conte nada disso a mamãe... E-eu juro que eu faço o que você quiser... – Eu implorava, se pudesse estaria de joelhos.
— Catharine, onde você esteve essa semana? – Seu tom de voz era firme. Que merda!
— Eu já disse! Eu só fico andando por ai. – Eu estava chorando – Eu precisava pensar, e também não queria vê-la.
— Olha, eu realmente não me interesso em saber o motivo dessa sua frescurinha com ela. Porém irmãzinha, eu não vou acreditar que você passou a semana toda “andando por ai”... E para de chorar! Garota estúpida! – ele praticamente gritava.
— David! – uma voz grossa assustou tanto a mim, quanto ao meu irmão. – Eu posso saber o que você esta fazendo aqui... Cat, minha filha, por que você está chorando? David!
— E-eu não fi-fiz nada pai. – Era bom vê-lo naquela situação. Meu pai sempre me defendeu do meu irmão e da minha mãe.
— Então ela está chorando por nada? Caramba seu moleque! Eu já não disse pra você deixar sua irmã em paz?! – Eu não conseguia parar de chorar, odiava quando as pessoas gritavam. Meu pai sabia disso, por isso levou meu irmão pra fora do meu quarto aos tapas, e eu fiquei na cama chorando. Sabia que amanhã eu estaria ferrada, depois disso meu irmão iria com o maior prazer do mundo contar a minha mãe das minhas fugas.
Depois de alguns minutos chorando eu peguei meu celular e disquei o número que já havia decorado. O número para qual eu ligava sempre que isso acontecia, e a pessoa do outro lado sempre me ouviu pacientemente, e me ajudou. Sempre ao meu lado, sempre com sua promessa intacta. Uma promessa idiota, e egoísta. Mas sem a qual eu não conseguiria viver. Depois de alguns segundos de espera a voz rouca atendeu. A minha demora a fez repetir a palavra comum ao atender um telefonema. Ela com certeza já estava dormindo uma hora dessas, e não olhou o número no visor, ela nunca olhava. Ela se irrita quando alguém a liga esse horário, mas eu já havia ligado tantas vezes antes, porque estava preocupada agora? Ah, sim. Por que eu estou ignorando ela a uma semana. Ela repetiu, agora visivelmente irritada.
— Cat? É você? Se for, por favor, fala comigo. – sem saber o que falar eu desliguei.
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