Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema
21 CAPÍTULO 20 — O PRIMEIRO SINAL

O domingo começou antes do sol, como todos os outros dias desde que Raziel havia retornado. O relógio do celular ainda marcava 05:58 quando abriu os olhos, sem alarme, sem susto e sem demora. O quarto estava escuro, silencioso, e por alguns segundos permaneceu sentado na cama, sentindo o próprio corpo. A evolução dos últimos meses havia mudado tudo, mas não retirara a necessidade do básico. Pelo contrário, quanto mais alto subia, mais entendia que qualquer poder sem disciplina acabava desmoronando pelo próprio peso.
Vestiu as roupas de treino e saiu do alojamento enquanto os corredores ainda dormiam. A academia aos domingos tinha outro ritmo, quase gentil, como se até os prédios respirassem mais devagar. O ar frio da manhã tocava o rosto com leveza, e os postes ainda acesos espalhavam luz pálida sobre a pista vazia. Aquele silêncio combinava com ele. Não exigia respostas, não fazia perguntas e não tentava medir sua existência por boatos, rankings ou vídeos no fórum interno.
A corrida veio primeiro. Passos constantes, respiração controlada, ritmo firme. O corpo já não reclamava como antes, mas Raziel não confundia adaptação com facilidade. Depois vieram flexões, agachamentos, prancha e movimentos de mobilidade com a espada larga, cada repetição alinhada à circulação de mana. A aura azul-dourada não se manifestava por completo, porém pequenos fios de luz surgiam ao redor dos braços durante alguns movimentos, desaparecendo antes que pudessem chamar atenção.
Quando terminou, sentou-se sob a mesma árvore onde costumava meditar e fechou os olhos. O núcleo de mana estava mais estável do que semanas atrás, menos violento, mais obediente. A energia não parecia mais algo tentando escapar, mas uma lâmina guardada na bainha certa. Ainda assim, havia limites. O sistema surgira para empurrá-lo adiante, mas também vinha deixando claro que, a partir do Rank A, crescimento bruto não bastaria.
A janela translúcida apareceu diante de sua visão.
[Sistema — Treinamento Diário Concluído]
Sequência Mantida
Sincronização Corpo–Mana Estável
Recompensa Aplicada:
Força +0,20
Agilidade +0,20
Defesa +0,20
Poder Mágico +0,20
Mental +0,20
Observação:
Sincronização Aura–Corpo aumentando.
Ganho reduzido devido à classificação atual: Rank A.
Raziel leu a mensagem sem surpresa. Era pouco, mas era real. A diferença entre alguém comum e alguém que chegava ao topo estava justamente nisso: continuar aceitando ganhos pequenos quando o mundo só aplaudia grandes saltos. Fechou a janela e permaneceu mais alguns minutos em silêncio, ajustando a respiração. O treino com Azuki começaria logo, e, pela primeira vez em muito tempo, o foco daquela manhã não seria a própria evolução.
Quando chegou ao campo lateral, a encontrou antes do horário combinado. Azuki estava sentada no chão, tablet apoiado sobre os joelhos, cabelo levemente bagunçado e expressão concentrada demais para alguém em pleno domingo de folga. Ao redor dela, três círculos rúnicos incompletos estavam desenhados em linhas finas de mana, cada um com pequenas anotações flutuantes ao lado. A cena teria parecido impressionante se não fosse o detalhe óbvio: os olhos dela denunciavam poucas horas de sono.
— Bom dia — disse Raziel.
— Bom dia — respondeu, sem tirar os olhos do tablet.
Ele observou os círculos, depois o rosto dela.
— Você dormiu?
Azuki ergueu um dedo, como se estivesse apresentando uma defesa jurídica.
— Dormi.
— Quanto?
— O suficiente para não morrer.
— Isso não é uma medida confiável.
Ela finalmente olhou para ele, com uma expressão séria demais para a frase seguinte.
— Três horas.
Raziel permaneceu imóvel por um instante.
— Você pesquisou a noite inteira.
— Não a noite inteira. Teve uma pausa.
— Para dormir?
— Para comer biscoito.
O silêncio entre os dois durou poucos segundos, antes que Azuki desviasse o rosto com um meio sorriso culpado. Havia algo diferente nela desde a conversa no centro da cidade. A curiosidade sempre existira, mas agora estava acesa de outro jeito, como se uma porta tivesse sido aberta dentro da própria mente. Invocações Divinas não eram apenas uma técnica nova. Para alguém que passou tempo demais sendo tratada como um potencial estranho e desconfortável, aquela possibilidade tinha gosto de destino.
Raziel se aproximou dos círculos desenhados no chão e se agachou diante deles. As linhas estavam corretas para necromancia avançada, mas carregavam vícios estruturais que impediriam qualquer tentativa de transição. Eram círculos feitos para chamar, prender e sustentar sombras. Funcionavam bem para o que Azuki fazia agora, mas não serviriam para algo baseado em sintonia, criação e contato com entidades superiores. Era como tentar tocar música usando uma arma: possível fazer ruído, impossível alcançar harmonia.
— Você pesquisou o conceito errado — comentou.
Ela franziu o cenho na hora.
— Eu pesquisei divindades, entidades, avatares, contratos espirituais e até religião comparada. Minha aba de histórico parece de alguém tentando abrir uma seita.
— Esse é exatamente o problema.
— Que eu pareço suspeita?
— Também. Mas não é o principal.
Azuki apertou os olhos.
— Você tem um jeito muito irritante de começar explicações.
— Funciona.
— Infelizmente.
Raziel pegou um graveto caído próximo à árvore e começou a redesenhar uma das bordas do círculo no chão. Não apagou tudo. Apenas cortou três linhas, mudou dois símbolos de posição e retirou uma runa de contenção que, para necromancia, seria essencial. Azuki observou em silêncio, e a expressão brincalhona foi desaparecendo à medida que percebeu o que ele fazia. A estrutura não estava ficando mais complexa. Estava ficando mais limpa.
— Necromancia busca vínculo com algo que já existiu — explicou. — Você encontra um resíduo, uma sombra, uma memória ou uma âncora. Depois força estabilidade suficiente para aquilo obedecer. Quanto melhor a âncora, mais forte a manifestação.
Azuki assentiu devagar.
— Isso eu entendo.
— Invocação comum cria forma. Geralmente sem vontade própria real. É útil, flexível e mais limpa, mas tem limites claros. A criatura obedece porque nasce da sua mana, não porque escolheu estar ali.
Ele tocou o centro do círculo com o graveto.
— Invocação Divina não começa pela obediência. Começa pela sintonia.
Azuki ficou quieta.
Raziel continuou.
— Você não controla uma entidade divina como controla uma sombra. Se tentar fazer isso, o círculo quebra. No melhor caso, nada acontece. No pior, seu núcleo sofre rejeição.
— Rejeição parece uma palavra bonita para “vai dar ruim”.
— É uma palavra bonita para “vai dar muito ruim”.
Ela soltou um riso baixo, mas logo voltou ao foco.
— Então como funciona?
— Primeiro, você precisa criar espaço. Não para puxar algo, mas para ser percebida. O círculo não é uma jaula. É um convite.
Azuki olhou para os símbolos redesenhados.
— Isso parece relacionamento.
Raziel parou por um segundo.
— Não era a comparação que eu faria.
— Mas faz sentido.
— Faz. Só não gostei de você estar certa tão rápido.
Dessa vez, ela sorriu de verdade. A tensão inicial diminuiu, e isso era bom. Invocação Divina exigiria uma mente aberta, não uma postura engessada pelo medo de errar. Raziel levantou-se e indicou que ela ocupasse o centro do círculo ajustado. Azuki obedeceu, respirando fundo antes de posicionar as mãos diante do peito. A mana começou a se mover ao redor dela, ainda azul-escura, ainda familiar, mas procurando um caminho diferente.
A primeira tentativa não gerou nada.
Nem brilho, nem vibração, nem resposta.
Azuki abriu um olho.
— Isso foi constrangedor.
— Foi esperado.
— Você podia dizer “normal”.
— Normal seria se você não tivesse dormido três horas.
— Toque baixo.
Ela tentou novamente. Dessa vez, o círculo reagiu por uma fração de segundo, mas a mana se dispersou antes de formar qualquer estrutura. O erro estava na intenção. Azuki ainda tentava chamar, ainda procurava algo para puxar até si, como fazia com sombras. Raziel pediu que parasse, corrigiu a posição das mãos e mandou que respirasse sem prender o ar no início do fluxo. Parecia simples. Não era. Às vezes, uma técnica inteira falhava porque o corpo carregava hábitos antigos demais.
Na terceira tentativa, algo mudou.
O círculo não brilhou como uma invocação comum. Em vez disso, partículas douradas surgiram no ar, poucas, quase tímidas, dançando por um instante ao redor das mãos de Azuki antes de desaparecerem. A reação durou menos de dois segundos, mas foi suficiente para Raziel sentir a própria atenção se estreitar. Aquilo não deveria acontecer tão cedo. Nem mesmo no futuro, quando a classe fosse descoberta, os primeiros praticantes levariam semanas para gerar resposta visual.
Azuki percebeu o rosto dele.
— Isso foi bom?
Raziel demorou meio segundo a responder.
— Foi melhor do que deveria.
— Isso quer dizer bom ou assustador?
— Os dois.
Ela abriu um sorriso pequeno, cansado, mas cheio de energia.
— Então eu vou considerar elogio.
A janela do sistema surgiu diante dos olhos de Raziel antes que pudesse responder.
[Sistema — Condição Especial Detectada]
Fenômeno Externo Observado:
Compatibilidade com Sintonia Divina
Alvo Relacionado:
Azuki
Análise Inicial:
Compatibilidade: ???
Classificação: Incompleta
Observação:
A evolução observada excede parâmetros esperados para estágio atual.
Raziel fechou a janela imediatamente. Não queria que a expressão denunciasse mais do que já havia denunciado. Azuki era curiosa demais para ignorar qualquer mudança mínima no rosto dele, e explicar o sistema ainda estava fora de questão. Além disso, havia algo delicado ali. Dizer a alguém que ela talvez fosse compatível com uma classe que ainda nem existia poderia alimentar confiança ou esmagar a naturalidade do processo. Algumas verdades precisavam chegar como treino, não como profecia.
— De novo? — perguntou ela.
— Não.
— Como assim, não?
— Você dormiu três horas, gerou resposta dourada no primeiro dia e ainda quer continuar. Isso é exatamente o tipo de decisão que faz alguém desmaiar dramaticamente no meio do campo.
Azuki cruzou os braços.
— Eu não desmaio dramaticamente.
— Ainda não.
— Você tem muita fé na minha capacidade de passar vergonha.
— Tenho fé na sua capacidade de tentar demais.
Ela abriu a boca para responder, mas fechou logo depois. O pior era que ele estava certo. Guardou o tablet com certa relutância e começou a apagar os círculos no chão, embora os olhos ainda voltassem para onde as partículas douradas tinham surgido. Raziel conhecia aquele olhar. Não era vaidade. Era fome de descoberta. A mesma fome que separava os que treinavam por obrigação daqueles que avançavam porque simplesmente não conseguiam aceitar limites antigos.
Mais tarde, no campo principal, o AXION já estava reunido. Blaze foi o primeiro a notar a chegada dos dois e, como sempre, pareceu incapaz de deixar a oportunidade passar sem comentário. O mago de fogo apoiou o cajado no ombro e abriu um sorriso largo demais para ser inocente. Alya percebeu antes mesmo da frase vir e fechou os olhos por um instante, como quem já previa o desastre social.
— Então vocês sumiram cedo para um encontro secreto?
Azuki travou no mesmo lugar.
Raziel apenas olhou para ele.
Blaze ergueu as mãos.
— O quê? Eu só faço as perguntas que o povo quer saber.
Sakura passou ao lado dele e deu um tapa seco na parte de trás da cabeça do mago. Não foi forte o bastante para machucar, mas teve precisão suficiente para calar.
— Pergunta menos — disse ela.
Kael, sentado sobre uma mureta próxima, completou sem mudar a expressão:
— Merecido.
Eryndor soltou um suspiro discreto, enquanto Lyra tentava esconder um sorriso atrás da mão. Azuki ainda parecia decidir se explicava, negava ou invocava dez sombras para encerrar o assunto por pressão psicológica. Raziel poupou todos da cena e caminhou até o centro do campo, puxando a espada larga das costas como se nada tivesse acontecido.
— Treino.
Blaze esfregou a nuca.
— Frio. Muito frio. Alya, você perdeu seu título.
A Rainha do Gelo ergueu uma sobrancelha.
— Quer testar essa teoria?
— Retiro o comentário com respeito.
O treino começou mais leve do que o habitual, mas ainda acima do padrão da academia. Raziel percebeu que o grupo estava mais solto, mais humano. As brincadeiras não diminuíam a seriedade; ao contrário, tornavam a confiança mais natural. Blaze provocava, Sakura corrigia, Kael desaparecia sem avisar, Eryndor calculava rotas impossíveis, Lyra mantinha todos inteiros e Alya seguia no centro como uma lâmina de gelo: silenciosa, precisa, difícil de ignorar. Azuki, aos poucos, encontrava espaço naquele caos organizado.
No fim da tarde, quando o treino já se aproximava do encerramento, o celular de Raziel vibrou no bolso interno. Quase ao mesmo tempo, outros aparelhos pelo campo emitiram notificações parecidas. O som se repetiu em sequência, como se a própria academia tivesse decidido prender a respiração antes de falar. Blaze pegou o celular primeiro, leu a tela e soltou um “ah” que fez todos olharem.
Azuki abriu a notificação logo depois.
Alya também.
No aplicativo oficial da academia, um aviso novo havia sido registrado.
[Duelo Oficial Registrado]
Desafiante:
Raziel Akhium
Oponente:
Darius Vhal
Data:
3 dias restantes
Local:
Arena Sul
Horário:
12:00
Por alguns segundos, ninguém disse nada. O vento passou pelo campo, movendo as pontas dos cabelos de Azuki e fazendo as linhas rúnicas do chão brilharem em reflexos fracos. Sakura guardou a espada devagar. Eryndor leu a notificação duas vezes, como se buscasse algum detalhe escondido. Kael apenas ergueu o olhar para Raziel, enquanto Lyra soltava o ar com uma expressão preocupada, mas não surpresa.
Azuki foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Espera. Você já tinha marcado isso?
Raziel guardou o celular com calma.
— Sim.
— E ia contar quando?
— Agora pareceu um bom momento.
Blaze começou a rir.
— Eu retiro tudo. Ele não é frio. Ele é insuportável.
Alya manteve o olhar fixo em Raziel.
— Três dias.
— É tempo suficiente — respondeu.
A líder do AXION estudou o rosto dele por alguns instantes, talvez procurando ansiedade, raiva ou hesitação. Não encontrou nenhuma das três. O que havia ali era algo mais quieto e mais difícil de mover. Decisão. Uma decisão polida por meses de treino, memórias de uma vida inteira e a certeza de que alguns conflitos não desaparecem quando são ignorados. Eles apenas crescem na sombra.
Azuki aproximou-se um passo.
— Você está mesmo pronto?
Raziel olhou para a Arena Sul ao longe, visível entre os prédios da academia. O local parecia tranquilo naquele horário, quase comum, mas em três dias estaria lotado novamente. Dessa vez, porém, a luta não seria sobre provar que havia mudado. Isso já estava feito. O confronto contra Darius teria outro significado.
— Pronto não é o ponto — disse ele.
Azuki franziu levemente o cenho.
— Então qual é?
Raziel voltou o olhar para o grupo.
— Em três dias, eu encerro uma versão da minha vida que já durou tempo demais.
O silêncio retornou, mas não pesava como antes. Era o tipo de quietude que antecede uma lâmina sendo desembainhada. O aviso oficial já corria pelos fóruns, pelas salas, pelos corredores e pelos grupos de mensagem. Em poucos minutos, toda a academia saberia. Em poucas horas, o nome de Darius deixaria de ser ameaça distante e voltaria ao centro do tabuleiro.
Raziel fechou a mão devagar, sentindo a aura repousar sob a pele como fogo contido. Darius deixava de ser uma ideia. Agora tinha data.
E a contagem havia começado.
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