Faltavam três dias para o duelo, e a academia parecia ter esquecido qualquer outro assunto. O aplicativo interno, que normalmente alternava entre avisos de aula, rankings, memes ruins e vídeos de treinos, havia se transformado em um campo de guerra digital. Tópicos sobre Raziel e Darius ocupavam as primeiras posições desde a noite anterior, com comentários surgindo tão rápido que era impossível acompanhar tudo. Alguns diziam que Darius colocaria o “novato arrogante” de volta no lugar. Outros lembravam que Henrique também havia rido antes de cair sem sequer ser tocado.

Raziel viu parte daquilo ainda no quarto, sentado na beira da cama, o celular iluminando o rosto na penumbra do amanhecer. Não abriu os vídeos, não leu os comentários até o fim e não respondeu nada. Bastava uma passada rápida para entender o clima. A academia não queria apenas assistir a uma luta; queria decidir qual versão dele era verdadeira. O fracote que existia antes, ou o Rank A que havia surgido rápido demais para ser explicado.

Guardou o celular no bolso e saiu antes das seis. Os corredores do alojamento estavam vazios, com luzes automáticas acendendo em sequência conforme passava. Lá fora, a manhã ainda carregava um frio fino, e a pista de corrida permanecia deserta. Aquilo lhe agradava. Antes dos olhares, antes dos boatos e antes dos nomes gritados na arena, existia apenas o corpo, a respiração e o chão sob os pés. Tudo o que não podia ser fingido.

Começou pela corrida, mantendo um ritmo que parecia leve para quem observasse de fora, mas que trabalhava cada detalhe da postura. Ombros soltos, passada econômica, respiração em ciclos curtos. Depois vieram as flexões, agachamentos, avanços com peso corporal e exercícios de mobilidade usando a espada larga apenas como referência de equilíbrio. Não buscava explosão. Não naquele dia. O objetivo era outro: reduzir desperdício até que cada movimento parecesse inevitável.

No Rank A, força bruta começava a perder autoridade. A diferença entre vencer e ser surpreendido podia morar em um centímetro, em meio segundo de respiração ou na escolha errada de tensionar o músculo antes da hora. Raziel sabia disso melhor do que qualquer aluno ao seu redor. Na vida passada, havia sobrevivido a dungeons onde o menor erro custava sangue. Contra Darius, não precisava apenas ganhar. Precisava demonstrar que o garoto que apanhava nos corredores havia morrido muito antes de cair naquela dungeon.

Quando terminou a sequência física, sentou-se sob a árvore de sempre e deixou a mana circular. A aura azul-dourada permaneceu recolhida, mas seus traços respondiam sob a pele como brasas cobertas por cinzas. O sistema surgiu diante de seus olhos com a clareza habitual, organizado como uma lâmina repousando sobre a mesa.

[Sistema — Status Atual]


Força: 42,6

Agilidade: 41,8

Defesa: 39,2

Poder Mágico: 38,5

Mental: 43,1



Classificação Atual: Rank A

Aura: Intermediária — 43%

Progresso para Rank S: 31%



Observação:

Sincronização Corpo–Aura estável.

Ganho de atributos reduzido devido ao estágio atual.


Raziel analisou os números sem pressa. A evolução havia desacelerado, como previsto. Antes, cada treino parecia abrir uma porta nova; agora, cada avanço exigia escavar pedra com as mãos. Ainda assim, aquilo não o frustrava. Se o Rank S fosse alcançado com facilidade, não teria valor algum. Fechou a interface e permaneceu sentado, olhos semicerrados, até o som do vento ser substituído por algo mais profundo: a arena dentro de sua mente.

A Batalha Mental começou sem aviso. O campo surgiu em detalhes, completo demais para parecer imaginação. Arquibancadas lotadas, runas no chão, o domo transparente refletindo luz, Darius no centro com aquele sorriso de quem sempre confundiu crueldade com superioridade. Raziel não simulou uma vitória perfeita. Isso seria inútil. Em vez disso, permitiu que a mente construísse falhas. Um atraso na esquiva. Um golpe entrando pela lateral. Um erro de distância. Uma provocação dita na hora errada.

A cada derrota simulada, ajustava algo. O ângulo do pé, o tempo de entrada, a forma de usar o peso do adversário contra ele. Em algumas versões, Darius conseguia acertá-lo. Em outras, o passado tentava entrar antes do combate começar. Lembranças surgiam como rachaduras na parede: a mochila chutada no corredor, a bandeja derrubada no refeitório, a risada de outros alunos que não tinham coragem de começar a humilhação, mas adoravam assistir. Darius sempre foi bom nisso. Transformava covardia coletiva em espetáculo.

Uma memória se fixou por mais tempo. Campo de treino, fim de tarde, cheiro de terra molhada e suor. Raziel no chão, o braço latejando depois de um golpe que o professor fingira não ver. Darius se aproximando, agachando-se apenas o suficiente para ser ouvido. “Seu irmão devia ter vergonha de você.” A frase não havia deixado marca na pele, mas certas feridas não precisam de sangue para continuar respirando. Na primeira vida, ele engoliu aquilo em silêncio. Agora, a memória não doía da mesma forma. Servia como mapa.

A janela do sistema apareceu outra vez, menor, como se reconhecesse o esforço silencioso.

[Sistema — Batalha Mental Aprimorada]

Simulação de Cenários Adversos Concluída.


Aprimoramentos Temporários:

Precisão de Leitura +3%

Tempo de Reação +2%

Eficiência de Movimento +2%



Observação:

Treinar a derrota aumentou a capacidade de resposta em cenários imprevisíveis.


Raziel abriu os olhos quando ouviu passos se aproximando. Blaze foi o primeiro a aparecer, cabelo vermelho levemente bagunçado e expressão de quem havia acordado mais cedo do que gostaria apenas para não admitir preocupação. Kael vinha alguns metros atrás, silencioso como sempre, enquanto Sakura caminhava ao lado de Azuki. Alya chegou por último, sem pressa, mas com aquele olhar que parecia entender metade das coisas antes de alguém falar.

— Cara, você sentado sozinho no escuro mental da manhã é uma imagem péssima — disse Blaze, cruzando os braços. — Parece que vai assassinar alguém ou escrever poesia triste.

Kael olhou para Raziel, depois para Blaze.

— Eu apostaria no assassinato.

Azuki lançou um olhar para os dois.

— Vocês têm um jeito muito especial de demonstrar apoio.

— Obrigado — respondeu Blaze. — Eu treino bastante.

Sakura passou por ele e deu um tapa leve na nuca do mago de fogo.

— Treina menos.

Blaze levou a mão à cabeça, ofendido.

— Violência entre colegas de equipe. Vou denunciar.

Alya parou diante de Raziel e ignorou completamente a encenação. Por alguns segundos, apenas observou seu rosto. Não buscava cansaço físico, mas sinais de algo mais difícil de esconder.

— Tá pensando demais — disse ela.

— Tô ajustando.

— Ajusta sem deixar o passado escolher por você.

A frase chegou limpa, precisa, irritantemente correta. Raziel sustentou o olhar por um instante e depois desviou para o campo vazio. Alya não sabia de tudo, mas enxergava o suficiente para ser perigosa. Talvez fosse por isso que, no futuro, teria se tornado alguém tão respeitada. Poder congelar um campo inteiro era impressionante. Saber onde tocar sem usar magia era pior.

— Entendi — respondeu.

Azuki se aproximou um pouco mais, segurando o tablet contra o peito.

— E só pra deixar registrado: se você inventar de entrar em colapso antes da luta, eu vou ficar muito irritada.

— Irritada?

— Sim. Já investi tempo demais nesse projeto.

Blaze abriu um sorriso.

— Projeto Raziel. Gostei. Tem camiseta?

— Se tiver, eu queimo — disse o espadachim.

Kael inclinou a cabeça.

— Eu compraria.

O grupo riu baixo, e o peso da manhã diminuiu um pouco. Não porque o duelo tivesse perdido importância, mas porque aquela presença ao redor dele já não era só estratégia. Havia algo ali que não existira na primeira vida. Pessoas que observavam, cobravam, provocavam e, de alguma forma, permaneciam. Raziel não disse isso em voz alta. Algumas coisas perdiam força quando eram explicadas cedo demais.

Os dois dias seguintes passaram com a academia afundando cada vez mais na expectativa. O fórum interno transformou o duelo em evento principal, com análises exageradas e teorias absurdas. Alguns juravam que Darius revelaria uma técnica escondida. Outros diziam que Raziel venceria sem usar aura. Um tópico específico viralizou com o título: “Ele vai levar espada ou vai aparecer com alguma loucura nova?”. Blaze enviou o link para o grupo e escreveu apenas: “Eu voto na loucura.” Kael respondeu: “Seguro.” Azuki mandou: “Infelizmente, também.”

Darius, por outro lado, parecia alimentar o próprio palco. Aparecia nos corredores cercado por alunos que ainda o tratavam como referência, falava alto o suficiente para ser ouvido e ria sempre que alguém mencionava o nome de Raziel. Não era apenas arrogância. Era necessidade. O tipo de pessoa que só existe quando há plateia não sabe ficar em silêncio sem se sentir menor. E quanto mais o duelo se aproximava, mais o cão de guarda de Richard tentava convencer todos ao redor — talvez a si mesmo — de que nada havia mudado.

Quando finalmente chegou o dia marcado, a Arena Sul estava lotada antes do horário. Havia mais alunos do que no confronto contra Henrique, mais professores nas laterais e até funcionários administrativos tentando assistir discretamente. O domo de mana já estava ativo, fino e transparente, cobrindo o perímetro como vidro líquido. Telões exibiam os nomes dos participantes, e o ruído da arquibancada criava uma vibração constante, quase física, como se o prédio inteiro estivesse esperando uma faísca.

O AXION VI ocupava uma área lateral elevada. Alya permanecia de braços cruzados, serena, mas atenta. Blaze não parava de mexer os dedos, criando pequenas chamas que Sakura apagava com olhares cada vez mais ameaçadores. Eryndor observava a arena como se calculasse rotas de fuga inexistentes. Lyra mantinha expressão tranquila, embora os olhos denunciassem preocupação. Kael parecia relaxado demais, o que provavelmente significava que prestava atenção em tudo. Azuki, ao lado deles, apertava a manga da própria blusa sem perceber.

— Você tá destruindo a manga — comentou Blaze.

Ela olhou para baixo e soltou o tecido na hora.

— Não estou nervosa.

Kael respondeu sem mudar o tom:

— Está sim.

— Você não ajuda.

— Eu raramente tento.

Sakura soltou um riso discreto, e até Alya deixou escapar um leve movimento no canto dos lábios. A tensão ainda existia, mas o grupo já havia aprendido a respirar dentro dela.

O primeiro portão se abriu, e Darius entrou como se a arena fosse dele. Caminhava devagar, braços afastados, sorriso largo. A plateia reagiu com gritos de seus apoiadores, e o rapaz aproveitou cada segundo. Usava uma armadura leve de treino e carregava uma arma de madeira reforçada, escolhida para parecer imponente. Parou no centro do campo, girou o pescoço e abriu os braços, buscando risadas antes mesmo de começar.

— Nossa… trouxeram a academia inteira pra assistir isso? — disse, projetando a voz. — Espero que tenham avisado que não devolvo ingresso quando o show acaba rápido.

Alguns alunos riram. Darius olhou para o setor onde o AXION estava e depois para a entrada oposta.

— E alguém avisa o mascote do mês que ainda dá tempo de pedir desculpa. Eu deixo sair andando.

A risada desta vez foi menor. Não porque a piada fosse pior, mas porque todos sabiam que o alvo já não era o mesmo de antes. Darius percebeu a diferença e seu sorriso endureceu por uma fração mínima. Ainda assim, manteve o teatro. Gente como ele precisava rir primeiro para não ouvir o próprio medo chegando.

Então o segundo portão se abriu. Raziel entrou sem pressa, sem espada nas costas. Nenhuma arma nas mãos ou qualquer equipamento além do uniforme de treino.

A arena levou alguns segundos para entender o que estava vendo. O som caiu de forma irregular, como uma onda perdendo força contra pedra. Murmúrios começaram nas fileiras inferiores e subiram até os telões. O professor responsável olhou para a prancheta, depois para o aluno que se aproximava do centro, como se esperasse encontrar uma explicação escrita em algum lugar.

— Sua arma? — perguntou.

Raziel parou diante de Darius, mãos relaxadas ao lado do corpo.

— Não vou precisar.

O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi uma pausa coletiva, uma respiração presa em centenas de gargantas ao mesmo tempo. Darius piscou uma vez, depois soltou uma risada alta, exagerada, daquelas feitas para puxar a plateia junto.

— Espera… você tá falando sério?

Raziel não respondeu.

Blaze levou a mão ao rosto na arquibancada.

— Ah, não. Ele vai fazer mesmo.

Kael inclinou levemente a cabeça.

— Eu disse. Loucura segura.

Azuki olhou para Alya.

— Ele avisou alguém?

— Não — respondeu a Rainha do Gelo.

— Ótimo. Muito saudável.

Sakura observou Raziel com atenção afiada.

— Ele não veio lutar do jeito esperado.

Alya manteve os olhos no centro.

— Esse é o ponto.

Darius parou de rir aos poucos, incomodado com a falta de reação. Aproximou-se um passo, segurando a arma com firmeza, o sorriso agora mais estreito.

— Você acha que consegue me vencer sem espada?

Raziel ergueu o olhar. Não havia raiva em sua expressão, nem pressa. Apenas aquela calma que parecia irritar mais do que qualquer provocação.

— Não.

A resposta atravessou a arena com simplicidade absurda. Darius franziu o cenho, confuso por meio segundo, e foi exatamente nesse espaço que Raziel completou:

— Eu acho que consigo te humilhar.

O domo de mana brilhou levemente quando o professor ergueu a mão para iniciar a contagem. Nas arquibancadas, ninguém ria mais. Até os apoiadores de Darius pareciam ter esquecido o próprio papel. Azuki soltou a manga da blusa. Alya endireitou a postura. Blaze parou de sorrir.

Raziel ficou imóvel no centro da arena, desarmado diante do homem que havia feito de sua juventude um inferno.

Desta vez, não haveria chão para onde empurrá-lo.

A contagem começou.