Awakening - O Despertar
8 Flesh and Blood - VII
Notas iniciais
“Você não está pronta Anouk, você ainda é uma criança descuidada!”
A voz dele era ríspida e alta como um trovão, que ecoou por toda a escuridão, vergonha fez meu rosto arder, como eu pude ser tão tola e não reconhecer meu próprio pai? Ele usou uma simples camuflagem, qualquer caído sabia usar, e eu, sendo uma híbrida e bem treinada, deveria facilmente perceber o truque e principalmente como quebra-lo. Lágrimas ardiam em meus olhos, mas não podia deixar que ele percebesse.
Meu pai era um Celestial da alta Hierarquia. As cicatrizes em seu corpo mostravam isso. Ele era muito alto e tinha os olhos de um violeta muito bonito, estar ali por mim significava que ele estava em extremo perigo, por não ser um caído e sim um anjo, ele estava vulnerável.
Os cabelos muito escuros dele caiam pesados até os ombros. Naquele dia ele usava simples calças de couro desbotadas, uma bonita bota brilhante e sua armadura estavam desmontadas ao lado da fogueira. Era de um prateado brilhante que deixaria até mesmo a lua envergonhada. Os símbolos angelicais marcados em sua extensão diziam que ele já havia participado de várias batalhas e nunca havia perdido.
Agora ele se sentava em frente a fogueira, sujo com o sangue de Guerra, e eu assustada demais para emitir algum som. Eu continuava a encarar aquele estranho que eu só conhecia em meus sonhos. O nosso contato era mais que perigoso, era proibido, mas ali estava ele, eu sabia, ele se importava, ele se importava, mas ele se importava com o que? Esse encontro não era como nos sonhos, nos sonhos não ele não era ríspido, ele não era um guerreiro, ele era... Meu pai, e estava ali para mim, por mim. Eu não conseguiria esconder o tamanho da minha decepção. A apatia me machucava. E novamente meu corpo pesava mais do que eu conseguia suportar. Toda aquela situação pesava mais do que eu conseguia suportar, e eu estava sozinha. Porque eu me sentia tão sozinha? Porque todos estavam fazendo aquilo? Porque eu não poderia morrer? O que eu era?
“Você é a minha filha”
A voz dele me pegou de surpresa, ele não levantou os olhos da fogueira, mas vi seus lábios se mexerem. Ele não me encarou. Continuou a encarar a fogueira como se algo precioso estivesse ali. O brilho violeta dos seus olhos se tornaram ainda mais bonitos quando ele então me encarou, mas não conseguia ver nada ali, nem amor, nem decepção, nem ódio, nada... Ele me encarou como se estivesse vendo uma estranha. Ele então se levantou devagar, eu podia ver a ar saindo de sua boca enquanto ele chegava mais perto, e eu não conseguia desviar os olhos dele, naquele momento senti algo quente e reconfortante, um sentimento novo, mas parecia que já o tinha vivido por toda a minha existência. Meus olhos vacilaram, abaixei o rosto enquanto as lágrimas queimavam novamente. Ele podia ser meu pai, mas aquilo não me fazia sua filha. Eu não conhecia e não podia gostar daquele ser. Mas meu medo era tão grande, que finalmente eu cedi. Era pesado demais, e eu não podia suportar sozinha. Meus joelhos então bateram no chão, minhas mãos fechadas bateram com força no chão de folhas velhas e amarronzadas, o cheiro do outono preencheu meu cérebro. As lágrimas caiam sem parar, eu mal conseguia sugar o ar para dentro do meu corpo, minha garganta doía, e eu estava com medo de começar a gritar e não conseguir parar. Talvez eu devesse...
Meu pai não me pegou no colo, não me abraçou, não disse palavras confortantes, ele ficou parado ao meu lado, ele sabia e podia ver tudo que eu pensava naquele momento, e ele sabia que eu precisava dele, mas acima de tudo, eu precisava de ajuda.
As lágrimas não paravam, e o ar se tornava mais denso, respirar se tornava mais difícil. Como um anjo podia ser tão frio, sem coração? Porque ele não podia simplesmente dizer que me amava? Como eu poderia me salvar? Ele deveria me matar. Eu me sentei no chão, abraçando os joelhos com a cabeça encostada neles e não conseguia parar de chorar.
“Você precisa ser minha filha Anouk, precisa ter coragem e confiança agora, nós amamos você e estamos tentando apenas te proteger...”
Foi mais forte que eu, as palavras saiam sem que eu pudesse para-las, não que eu quisesse.“Eu não quero ser forte, eu não quero ser sua filha, eu não sei quem é você, eu não sei por que tudo isso está acontecendo... Porque eu preciso me esconder?”
“Você é especial Anouk, tem algo especial no seu sangue, e isso tem um grande significado. Você é diferente, e todos tem medo do que é diferente. Mas acima de tudo, você é minha filha, e precisa ser corajosa agora. Você consegue?”
Meu pai se ajoelhou na minha frente, com muita delicadeza, aquelas mãos enormes e cheias de cicatrizes tocaram meu braço, desentrelaçando os meus dedos, ele tocou meu joelho e levantou o meu rosto. Seus olhos de um violeta que eu nunca havia visto na vida, seus lábios se abriram como se ele fosse dizer algo, mas antes que pudesse continuar, seus olhos se desviaram do meu rosto, e encaram um ponto na floresta, suas mão me apertaram um pouco mais forte, e ele se levantou subitamente. Foi então que eu ouvi um barulho vindo da mesma direção que ele. Mas não havia cheiro, não havia nada. Só a escuridão e as árvores.
Melek se materializou do nosso lado, meu pai não se assustou, e continuou a encarar o mesmo ponto onde o barulho tinha vindo.
“É Alyliah tentando despistar os outros, ela está perto"
Melek era alto, com cabelos pretos que desciam até a cintura, a pele era tão branca quanto a de minha mãe. Quando me viu sentada ali, ele sorriu, seus lábios eram finos, quase um pequeno risco no rosto. Seus olhos, um azul e um negro, me encararam com curiosidade. Então novamente deu um sorriso triste parecendo entender o que havia acontecido. Naquela noite usava uma túnica muito branca, de seda, com detalhes dourados e um broche de ouro no ombro direito, com um estranho formato. Ao seu lado, lá estava ela, uma velha estranha, possuía os olhos violeta, de um tom opaco e sem vida, e uma pequena mancha azul neles. Ela trajava vestes simples de algodão pesado e tingido de preto. Seus cabelos eram muito brancos e longos se arrastavam no chão em uma longa trança. Ela sorriu para mim, seus dentes eram perfeitos e muito brancos, seus lábios finos e enrugados, sua pele era de um tom esverdeado estranho, com várias manchas que mostravam o quão velha era. A pele parecia pegajosa e brilhava como se estivesse transpirando por todos os poros.
Foi tão rápido que nem percebi acontecer, mas de repente minha mãe estava ali. Linda, com os longos cabelos loiros presos no alto da cabeça, alta e esguia, os olhos muito azuis encarando meu pai, e um sorriso que eu nunca havia visto em seu rosto antes. Seu rosto estava corado, ela tinha acabado de se alimentar. Usava uma manta escura, com capuz idêntico a minha, escura como a noite.
Meu pai e ela se encaram por vários segundos, até que relutante desviou os olhos para mim. Ela não sorriu, ela não veio ao meu encontro, ela se manteve em pé, como uma estátua de uma deusa qualquer, e seus olhos não mais eram calorosos e acolhedores. Eles se pareciam com os olhos do meu pai.
Nenhum deles trocou uma palavra se quer, ficaram em volta da fogueira por vários minutos, um encarando o outro, e eu sentada no chão, observando tudo aqui, meu coração parecia uma bomba relógio prestes a explodir, mas ninguém prestava atenção em mim, era como se eu não estivesse ali. Foi então que Melek se aproximou sorrindo, pegou a minha mão e me levantou. A velha que estava ao seu lado havia desaparecido, no lugar dela havia uma bela jovem nua de longos cabelos negros e grandes olhos violeta, magra, com a pele muito branca e lábios finos. Naquele momento ela poderia ser minha irmã.
Melek então me disse que eu deveria cobrir o rosto com o capuz, minha mãe então se desfez da capa negra que vestia, e então a enrolou na velha, que piscou vagarosamente como se estivesse em transe e sorriu, de uma forma amigável mas estranha para ela, seus dentes eram muito brancos. Nenhuma voltou a olhar para mim, apenas seguiram em frente, lado a lado caminhando até desaparecerem entre as centenárias árvores da floresta que nos cercava.
Melek então segurando minhas mãos me levou até onde minha mãe e a velha haviam desaparecido. E meu pai, veio logo atrás.
Caminhamos por alguns minutos até chegar em uma caverna escura. Sem dificuldades para enxergar bem no escuro, soltei a mão de Melek e segui ao seu lado. A caverna era maior do que parecia. Depois de longos minutos, chegamos a uma câmara escura e úmida, com um pequeno lago escondido perto de onde já havia uma fogueira acessa, e minha mãe estava em pé, ao lado da jovem-velha, que novamente estava sem a capa. O lugar possuía grandes buracos na parede, provavelmente passagens que levavam a outras câmaras da caverna.
Foi então que a minha mãe me encarou, seus olhos possuíam aquela frieza que eu havia visto em pai anteriormente. Ela não sorriu para mim.
“Anouk, é aqui que você vai ficar. Essa caverna é um lugar sagrado, um cemitério muito antigo que é protegido de todos os seres imortais.” Sua voz era fria e firme. Eu acenei a cabeça enquanto as lágrimas teimavam em retornar.
“No entanto, para proteger você, precisamos do seu sangue. Precisamos que você transforme Eris em sua progênie. Assim, ela vai carregar o seu sangue, e talvez possamos esconder dos outros sua localização"
Minha primeira reação foi dizer “não”, eu não estava pronta para matar, mas eles não estavam ali para discutir, era algo que eu tinha que fazer, e sem objeções se eu quisesse sobreviver.
Eu sabia que ao criar um novo vampiro, você se torna responsável por ele, pois ele passa a compartilhar do seu sangue. Segredos, suas caçadas, seu cheiro, suas memórias, absolutamente tudo sobre você, ele também vai saber. Você se torna parte dele, assim como ele passa a ser parte de você. Mas se a sua progênie cria um novo vampiro, o seu sangue não será assim tão forte e a ligação sobrenatural entre ambos também não será. A cada novo vampiro feito por uma progênie, sua, a ligação sanguínea que você tem diminui, pois o seu sangue dentro daquele vampiro não é tão forte, mas ela na verdade nunca deixa de existir, você sempre saberá quando encontrar um vampiro que divide a sua origem.
Sugar um humano é mais difícil do que se imagina. Não matar um humano é uma tarefa difícil, porque quando o coração dele começa a bater mais devagar a sua ânsia pela morte e o sangue do mesmo é enorme. Sugar um imortal é ainda mais difícil. Porque se você não fizer certo, ele não vai morrer. Mas é proibido sugar de outros imortais. Seja anjos, vampiros, demônios ou seus descendentes. Mas essa regra não é respeitada.
O sangue imortal é viciante, e o vampiro que o toma se torna uma besta que matará qualquer outro imortal em busca do prazer que o sangue lhe proporciona. Eu hesitei por conta do medo, eu nunca havia matado ninguém antes. Matar estava em meu sangue, mas deixar vivo, não.
O sangue de um nephilim é ainda melhor que o sangue humano, o êxtase e prazer proporcionado são indescritíveis. A jovem se deitou nua ao lado da fogueira com os olhos fechados, eu me aproximei devagar, como se eu a estivesse caçando. Meus dedos deslizaram até a parte interior de sua coxa esquerda, era meu lugar favorito, o sangue fluía muito bem ali. Seu corpo estremeceu com meu toque, aquilo era excitante.
Afastei as pernas dela com as duas mãos, e beijei levemente antes de rasgar a sua pele, o sangue era quente e delicioso. Eu conseguia ver, sentir, viver toda a vida daquela mulher, conseguia sentir a dor, viver os amores e ver seus segredos. E tinha algo a mais naquele sangue, um segredo sobre mim, algo que o sangue dela guardava. Mas eu não conseguia entender, meus dedos apertaram forte sua coxa, puxando-a para mim, sugando mais forte, tentando adquirir aquele segredo, sobre mim, mas ele parecia tão longe, e seu coração já batia tão fraco, se eu continuasse naquele ritmo, ela morreria logo.
Meu pai, Melek e minha mãe conversavam algo que eu não conseguia entender. Podia ouvir alguém chorando e o medo na voz deles.
“Algo pode dar errado”
A voz trovejou e ecoou por todos os lados no escuro.
“É a minha filha!”
“É o único jeito!”
“Se ela morrer, é o fim!”
Eu não podia parar, eu não queria parar, eu não conseguia parar, o sangue ainda fluía para dentro de mim, e o segredo agora estava tão perto. O coração tão fraco. E o meu medo dispersado. As vozes mais e mais indistinguíveis, as formas, sons, brilhos, nada fazia sentido. As vozes se misturavam a batida do coração que diminuía.
“Amor”
“Salvação”
“Minha filha”
“Eu não vou me arrepender, eu não posso”
"O laço está no sangue"
“Ela precisa de respostas”
“Ela está sozinha”
“Ela nunca vai estar sozinha”
“Ele vai esperar por ela aqui!”
“Asas”
“Anjos”
“Demônios”
“Guerra”
“Salvação”
“Tem que ser agora, eles estão perto demais!”
“Eu amo você...”
Ouvi o arrastar do metal no chão da câmara. O fogo se apagou subitamente, meus instintos me diziam para sair dali naquele instante, mas eu não conseguia largar a mulher. Sugava mais forte e ela começou a chorar baixo.
O coração mais fraco...
“Ela é minha...”
“Ela é minha...”
Até que ele parou, e eu soltei um urro de dor que ecoou por toda a câmara, era como se algo explodisse no meu peito. A caverna se tornou mais escura e assustadora, e a dor intensa, algo parecia esmagar meu peito. Eu podia sentir o coração batendo tão devagar...
A escuridão tomou conta, e eu não conseguia mais sentir nada, eu não conseguia entender o que havia acontecido, implorando por respostas pude ver ao longe quando o fogo tentou voltar a vida. Aquele coração que ainda batia nas mãos do meu pai, era o meu ou o dela?
“Você é minha carne e o meu sangue” foram as ultimas palavras que eu ouvi.
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