Notas iniciais
- A fogueira era inicialmente um capítulo que não ia entrar nessa versão da história, mas como no capítulo seguinte é apontado a morte da Guerra (A égua), sem a explicação de como exatamente ela é morta, resolvi dar uma chance a ele.

A queda só durou um segundo, agradeci mentalmente pelos reflexos rápidos que a genética me proporcionou, girei o corpo rapidamente ainda no ar, e consegui aterrissar com os dois pés firmes no chão. A mão esquerda segurava a corda feita de ouro que servia como cinto, e a mão direita já estava segurando as rédeas de Guerra muito firmemente. Incrédula, levantei o braço até a altura do olho, e lá estava ela, aparentemente normal, uma flecha de madeira com a ponta de algo que parecia e cheirava a ferro, com um estranho símbolo gravado nela. Meu cérebro ainda confuso se recusava a acreditar. Arranquei a flecha do braço com rispidez, e a joguei no chão, soltei um som parecido com rosnado. O buraco no bracelete estava lá, mas o da pele já havia fechado. E só uma cicatriz arredondada, de um tom rosado muito claro, era a única prova da perfuração daquela estranha flecha.

Soltei as rédeas de Guerra e lhe dei um tapa um pouco mais forte do que deveria, com a pretensão de espanta-la para dentro da floresta e longe do perigo. A égua, mais teimosa do que eu gostaria apenas relinchou e foi de encontro a fogueira que naquele momento estava vazia. Nenhum cheiro, nenhum rastro, nenhum som, eu estava no meio da floresta que provavelmente era assombrada, em uma clareira desconhecida com uma égua que ia acabar nos matando. Peguei novamente as rédeas e lhe lancei um olhar repreensivo que ela ignorou.

“Você não está pronta”. A voz era grave, um sussurro monótono que vinha de alguma parte não identificada da clareira, e o pior, eu não a reconheci. Não conseguia captar cheiro algum, e a sensação de estar presa em uma armadilha me deixava desconfortável.

Girei o corpo em todas as direções, tentando captar o cheiro de ou do que estava ali comigo. Nenhum cheiro, nenhum rastro, nenhum som. Segurei mais firme a corda de ouro, inicialmente balançando-a de um lado para o outro, em pequenos círculos, que gradativamente aumentavam. Sussurei para Guerra se afastar, enquanto o movimento se tornava mais rápido e perigoso. O único som que eu conseguia ouvir era o da corda criando um grande circulo dourado onde o meu corpo se encontrava no meio e Guerra, fielmente ao meu lado.

A ponta de ouro do cinto, batia nas cascas daquelas enormes e centenárias arvores e abriam profundas fendas validando a afirmação sobre o quanto essa arma era afiada . Uma risada sinistra ecoou pelas folhas, ainda sem cheiro, ainda sem rastro. Sem motivo aparente, a corda parou, como se houvesse batido em algo que não estava ali, a ponta afiada, enrolada em algo invisível, bem na minha frente, e começava a me puxar em direção ao nada. Neste momento guerra relinchou, empinou alto e seu pescoço se abriu em um profundo corte, o sangue espirrava para todos os lados, não consegui gritar, eu não podia gritar, nenhuma arma mortal mataria guerra, ela tinha sangue imortal. Só vampiros tinham o poder de mata-la e vampiros não podiam esconder seu cheiro de outros vampiros, podiam mascara-lo com outro sangue, mas nunca esconder, não podia ser um vampiro. O que matou Guerra, me tinha em suas mãos, e pelo visto, não havia nada que eu pudesse fazer.

Os olhos dourados de Astarte me encararam por um segundo antes de desaparecer, apesar do brilho dourado, eram frios e mortais.

Ela se movia rápido, um humano nunca conseguiria vê-la, um vampiro, mesmo um bem treinado, teria dificuldade em pega-la. Do alto da torre, eu assistia ela treinar. Era assustador, ela se movia como vento, e seus golpes ressoavam como trovão. Scarlet, sua filha, não tinha chance. E mais uma vez Astarte lhe feriu. Ela era implacável.

Scarlet naqueles dias tinha menos de 7 anos, seus cabelos eram longos, da cor de palha e não dourados como o da mãe. O rosto estava vermelho, ensanguentado, com tantos cortes quanto poderiam ter, feito pelas mãos da própria mãe. Seus olhos se moviam rápido, mas não o suficiente para prever os golpes de Astarte e a vampira rasgava-lhe a pele sem piedade. Quando vinha para o ultimo golpe, o golpe que mataria Scarlet, a pequena a viu, talvez não quisesse realmente mata-la, ou talvez o credito fosse da pequena, mas ela pulou na hora certa, evaporando no ar, fazendo com que os punhos da mãe, batessem diretamente na parede de pedra. Quando voltou a aparecer, agora no chão, o vestido branco de seda, estava vermelho e a pequena, quase não conseguia se manter em pé. Ela girou o corpo no momento exato e se esgueirou pela sombra da própria mãe, rápida, apanhou uma pequena adaga negra do chão, perto de onde estava uma fogueira, Scarlet encheu uma das mãos com cinzas, e se apressou para atacar a mãe. Astarte assim como Scarlet havia feito anteriormente, sumiu no ar. A pequena soprou a cinza em volta de si, foi ai que a percebi a silhueta de Astarte escondida nas cinzas. Scarlet se apressou no golpe. Seu erro. Ataques frontais não funcionavam em Astarte, Scarlet caiu, pequena e inofensiva, com a adaga presa no pescoço e os olhos cheios de lágrimas. Astarte retirou a adaga de seu pescoço, e deixou a pequena lá, sem ajuda do sangue imortal da mãe, sangraria até morrer...
Ela morreu poucas horas depois.

Era só o que eu podia tentar, não havia mais nada a se fazer, quem quer que estivesse me puxando era obviamente mais forte que eu, e eu não conseguia me livrar do cinto. Me apressei para frente, e o cinto afrouxou, enrolei parte dele em ambas as mãos, com pouco esforço me joguei para o alto, em um salto perfeito, meus pés tocaram o chão ao lado da fogueira, me ajoelhei e apanhei um punhado de cinzas, o cinto se soltou. Quem estava me puxando finalmente soltou, naquele momento eu consegui escutar, a respiração vinda da minha direita, rápida, ele estava correndo, me levantei e dei outro salto para frente, soltando no ar toda a cinza que havia pego na fogueira.

Foi quando eu o vi, reluzente e sorrindo em meio as cinzas que caiam lentamente até o chão. Ao lado da fogueira em pé estava o meu pai.