Awake
14 Bella
Notas iniciais
Atenção: POV BELLA
Tudo começara com um sonho.
Um sonho estéril e lânguido.
Por tantas vezes em meu inconsciente eu voava, meu corpo deleitando-se com a sensação fantasiosa do ar batendo contra meu rosto, a liberdade invadindo meu corpo infantil.
Fora meu sonho preferido por um longo tempo.
Apenas voar. Sobrevoar o telhado marrom da minha casa, as árvores cor de musgo da minha cidade.
Nos meus sonhos eu conhecera lugares inexistentes, explorava um mundo criado pelo meu cérebro para compensar o longo descanso do meu corpo.
Era uma realidade diferente, completamente alheia a tudo que eu havia vivido nos meus poucos anos de vida.
Tudo era tão colorido e irreal.
Eu era uma garota de oito anos – e meus sonhos constantes se resumiam a correr entre as árvores com Jacob, brincar com meu cachorro Seth, e tomar banhos de chuva com meus pais.
As gotas geladas faziam-me sentir viva – de alguma forma, me remetiam à sensação de existência. Eu acreditava que existia de alguma forma naquele instante. Que em algum lugar, de alguma maneira, eu ainda poderia coexistir.
Mas logo meu sonho tornou-se escuro. Uma escuridão dolorosa e sufocante; A solidão que me dragava para o fundo de minha mente, onde não existiam rostos nem cores; Onde não existiam sonhos e pesadelos.
Apenas a escuridão e o silêncio.
Vozes diferentes envolviam os meus ouvidos – vozes que aprenderia a conhecer e conviver durante tanto tempo. Vozes que poucas vezes me confortavam, e o invés disso, me faziam temer pelo meu estado confuso. Eram frias, ríspidas até.
“Levem essa garota daqui”
“Troque as roupas dela”
“Coloquem-na em outro leito”
“Ela é um peso inútil para nós”
“Pobre garotinha. Tão nova e tão condenada”.
Eu estava paralisada. Tentava reagir, mas era completamente inútil. Eu não tinha controle sobre meu corpo.
Ele estava congelado, submerso.
Apenas preso pelo um fio de consciência que me mantinha existente. Eu escutava as coisas com certa dificuldade, sentia os toques com certa demência e pouca sensibilidade. Mas ainda assim estava ali, em algum ponto entre a vida e a morte.
No mundo nefasto onde eu estava aprisionada, meu corpo era pesado, denso e completamente improdutivo.
Eu estava Escondida em algum lugar que não conseguia alcançar meus sentidos; Separada do meu corpo, uma metade infértil.
Um túnel escuro e doloroso me cercava, com um pequeno ponto claro ao fim do trajeto sombrio.
Eu estava tão assustada. Desejei tanto que os sonhos voltassem, e aquela segurança do conhecido me assolasse novamente.
Eu pensei em desistir por tantas vezes; Simplesmente fechar os olhos dentro da escuridão, e esperar que ela me consumisse aos poucos, apagando meus receios e medos; Me entregando ao abraço caloroso do sono eterno.
Mas então, eu ouvi uma voz.
Uma voz tão deslumbrante, que eu só poderia acreditar pertencer a um ser divino.
Um anjo. Um enviado dos céus para salvar-me da minha dor.
Um anjo que me falara todos os dias o quanto eu era bonita, uma voz desconhecida que chorava pela minha ausência, implorava para que eu tentasse; Alguém que me fazia continuar lutando em busca daquele pequeno feixe de luz no fim da escuridão.
Em meus passos lentos, eu o conheci.
Eu ria silenciosamente das suas confissões bobas, conseguia sentir o seu dedo suave em minhas mãos dormentes me acalentando.
E rápido, eu me tornei necessitada.
Dos toques leves em minhas mãos, das músicas doces que sua voz estonteante me presenteava, das suas descobertas diárias que ele narrava, do simples roçar das suas palmas em minha bochecha.
Era minha única força; O amparo de um anjo para que eu continuasse meu trajeto impossível.
Os passos eram tão dolorosos — Pesados, cansativos, longos. Eu desejava correr – encontrar a luz de onde a voz do meu doce salvador soava. Desvendar o rosto por trás da voz que tornou-se grave e rouca com o passar do tempo, incrivelmente mais bonita e arrebatadora.
Quando ele partia, eu apenas o esperava.
Confortava-me com a sua voz em minha mente, com a forma sublime que ele descrevia o mundo para mim.
Esperava para que sua fé e amor me trouxessem de volta a vida. Aguardar sua esperança incendiar a minha, para continuar batalhando pela minha sobrevivência questionável.
E cada dia que se passava, eu o observa velar meu trajeto turvo, estender as suas mãos carinhosas para afagar meus pavores de criança.
Eu ainda era uma garotinha, com os mesmos medos de escuro, com os mesmos sentimentos infantis.
Aprendi a amar cada uma das suas palavras, a segurança da sua presença confortante.
E mesmo sem jamais ver o rosto do meu anjo divino ou desvendar seu nome, eu o adorei.
Adorava cada segundo que passava ao seu lado; Forçava meu interior a continuar a busca incessante por liberdade.
O carinho, amor e adoração que sentia pelo meu anjo eram tão fraternais; Como um abraço paterno que eu tanto necessitava; Ou um beijo de boa noite que minha mãe me dava e que me era saudoso. Mas de alguma maneira, era diferente. Eu o amava como amara cada pessoa de minha vida, mas o sentimento era diferente.
Algo que eu não sabia explicar.
Eu não tinha noção de tempo naquele universo – mas aprendi a contar numericamente em minha mente o momento que ele viria me visitar.
Naquele dia especifico, eu estava desesperada pela minha dose da sua voz, dos seus toques, do seu cheiro... Eu necessitava ouvi-lo, ter o conhecimento da sua presença ao meu lado.
Em algum instante, eu senti sua presença ao meu redor. Eu o sentia acalentar minhas mãos, acariciar meus cabelos, suas lágrimas quentes caindo sobre meus braços e mãos. Soluços fortes saíam de sua garganta, enquanto seus dedos quentes acariciaram meus lábios, e cada pequena parte do meu íntimo se aquecia; Eu queria tanto abraça-lo – permitir que meu ser descansasse sob suas asas celestiais, apreciasse do seu conforto sobrenatural.
Poderia ser um daqueles dias que ele apenas chorava por horas a fio, acariciando meu pulso.
Eu o senti depositar algo contra meus braços, enquanto seus carinhos me presenteavam sem descanso. Eu queria tanto extrair aquela luminosidade que sua presença aludia.
As gotas quentes caíam contra meu estômago, seu hálito batendo contra minha bochecha.
“Me perdoe minha pequena Bella. Eu prometi que iria salva-la, mas eu não pude. Amarei você para sempre, minha menina”
Sua doce voz ecoou, e eu tentei com todas as forças que possuía protestar contra suas palavras. O desespero me consumindo, o sentimento de perdê-lo me causando uma dor infinita. Eu não queria morrer. Eu não poderia deixa-lo partir.
“NÃO! Volte anjo, não me abandone! Não desista de mim! Eu preciso de você!”
Eu temia por mim, aterrorizada com a possibilidade de perdê-lo. Eu precisava dele, precisava tanto do seu amor... Aquele sentimento era estranho, completamente irreconhecível. Eu ainda era uma menina. Uma menininha de oito anos, que estava completamente dependente daquele anjo piedoso.
Ele tocou seus lábios em minha bochecha, e eu sentia o queimar dos seus beijos contra cada pequena parte do meu rosto pálido; Eu rendi-me a sensação dos pequenos beijos que ele depositou contra mim, antes de tocar gentilmente seus lábios contra os meus; Meu corpo todo se incendiou quando ele pressionava seus lábios nos meus, implorando por uma passagem em minha boca; Eu usei cada partícula do meu corpo para tentar demonstrar que estava ali; Para que ele soubesse que eu o sentia, que eu não poderia viver sem tê-lo ao meu lado.
Eram tão raras as vezes que meu anjo me agraciava com seu beijo sobrenatural.
O beijo da vida, o beijo da morte.
Eu o queria de uma forma inexplicável – como uma garota de oito anos que necessita do conforto amável dos seus pais; Como uma menina que estava aprendendo o significado de amar.
Um amor por uma criatura que não pertencia ao meu mundo, um ser sublime que jamais eu iria conhecer.
Apenas no descanso eterno da minha alma ele me tomaria. Ele me transportaria para outra dimensão.
“Durma, doce menina...Um dia Eu irei ter encontrar, irei te abraçar e contar o quanto eu esperei”
Ele apertou minhas mãos, retomando seu caminho de beijos.
Eu chorei internamente, sentindo a aproximação do fim, sua desistência após minha completa inércia.
Implorei para um Deus que havia me abandonado; Implorei que aquele anjo jamais me abandonasse, implorei para que eu tivesse uma chance de viver novamente, e descobrir o significado do amor que invadira meu corpo sem pedir passagem; Fechei meus olhos com violência, rezando pela libertação da minha alma cativa.
Deus, eu não poderia ser consumida pela escuridão.
Eu precisava continuar, eu precisava acordar; Acordar por ele.
A garota de oito anos precisava recomeçar seu caminho, encontrar seu porto-seguro.
Em uma tentativa desesperada, eu usei cada partícula interior para impulsionar meu corpo para frente.
Eu não poderia perdê-lo, eu não poderia deixar que minha vida se esvaísse daquela forma.
Como um milagre, eu senti meu corpo ser tragado violentamente para a luz, enquanto meus dedos se agarravam fortemente nas mãos do meu anjo.
Meu cérebro gradualmente começara a funcionar – os sons ao meu redor completamente nítidos, o odor do meu anjo invadindo minhas narinas; Em um único movimento, eu abri meus olhos.
A luz forte caindo sobre minha visão.
Então eu o vi – a imagem mais bela que eu poderia ter encontrado.
Os olhos verdes acobreados, o cabelo espetado cor-de-bronze, sua pele pálida e levemente corada nas suas maçãs masculinas.
Eu pisquei novamente, deixando minha consciência retomar lentamente, tomar seu tempo para me possuir por completo. Meus lábios se separam suavemente, enquanto eu esboçava um discreto sorriso.
“Anjo...”
Ele parecia completamente confuso com minhas palavras, lutando entre a confusão e as lágrimas que escorriam dos seus olhos. Eu sorri, sentindo a vida correr pelas minhas veias, a sensação de ter seu toque em minhas mãos de forma completamente plena.
Eu precisava me assegurar que aquele homem era meu anjo.
Sua beleza única certamente era sobrenatural, obra de um Deus perfeccionista.
“Você é meu anjo?”
Eu perguntei timidamente, a imensidão de pensamentos e lembranças começando a surgir em minha mente. Onde eu estava? Eu senti uma necessidade repentina de ver meus pais, a vontade de encontrar minha casa, brincar com meus brinquedos.
As necessidades humanas e infantis começando a surgir novamente em mim.
Eu o vi enviar-me um sorriso torto, enquanto acariciava minhas mãos docemente. Seus dedos tremiam – e eu não saberia dizer o por que. Tudo estava tão confuso – eu queria a segurança da minha casa, queria me assegurar que tudo estava bem.
Uma mulher invadiu o ambiente, arrancando sua atenção de mim. Eu a ouvi gritar exasperadamente que eu havia acordado.
Quanto tempo eu havia dormido? O quanto eu havia perdido?
Logo minhas perguntas tornaram-se maiores, e mais inexplicáveis. Eu estava perdida – encontrando em meu anjo o meu único ponto de referência e conforto.
Eu o conhecia. Ele era meu anjo secreto.
Mesmo que não admitisse, eu poderia reconhecer sua voz, seu toque doce contra mim.
O seu nome era Edward – e eu não poderia encontrar um nome mais perfeito para ele. Quantas vezes eu havia imaginado como ele seria, e confesso que minha imaginação não fizera jus à sua beleza.
Ele não tinha asas – era um homem. Um homem que havia me salvado e me amado. Eu não saberia dizer se minhas lembranças foram sonhos, uma deturpação do meu consciente.
A única coisa que eu sabia era que aquele ser mítico que me acompanhava em meu interior, era Edward.
Eu não poderia contar a ele sobre o meu anjo, deixa-lo acreditar que eu estava delirando.
Um segredo. Um segredo que eu guardaria em meu coração até ter a plena certeza de que não havia perdido a sanidade.
Seus olhos verdes tinham tantos sentimentos, como se ele me adorasse por inteiro.
Eu me sentia amada. Protegida. Acolhida.
A garotinha que precisava de um abraço encontrou-o naquele rosto impecável.
A minha mente voltara ao ponto onde minha vida havia sido interrompida rapidamente – e logo eu descobrira que havia perdido meus pais; Perdido minha vida, e tudo que conhecia.
Minhas lembranças eram concisas e vívidas; Eu sentia falta dos meus pais, do meu quarto, da minha escola, dos meus amigos, do meu cão, e de tudo que eu havia conhecido durante toda a minha vida.
Meu coração se apertou com as descobertas.
Eu não era uma garotinha de oito anos – eu havia me tornado uma mulher.
Uma mulher que havia adormecido por longos dez anos.
Que havia tido sua vida completamente furtada por um capricho do destino.
Quando o precipício ameaçou me arrebatar, Edward me convidou a compartilhar sua vida comigo.
Eu só queria seu abraço, seu conforto, seus cuidados.
Eu o amava.
De uma forma inocente, pura e completamente intensa.
A confusão era constante em meu interior – a dor de ser uma garota aprisionada em um corpo que não me pertencia, a minha completa ignorância em relação ao mundo que me cercava, a minha falta de conhecimento de coisas tão básicas. Tudo era tão doloroso e confuso.
Os meus sentimentos eram mistos – ora de menina, ora de mulher.
Eu o amara como uma garota ama seu amigo, mas um sentimento apaixonante de posse sempre estivera presente, rondando-nos fatalmente.
Edward me ensinara tudo – tão paciente, cauteloso e protetor.
Ele me deixara dormir com ele, e mesmo quando eu tinha comportamentos inapropriados, ele me perdoava.
Eu sentia o quanto ele me amava.
Eu sabia que ele jamais seria capaz de me machucar.
Amava-me de uma maneira diferente de tudo que eu já havia vivido.
O seu amor, sua paciência, sua forma compreensiva de me fazer entender o mundo me faziam querer imensamente crescer; A mulher que existia em meu interior começava a subjugar a garota que habitava meu ser por longos anos.
E cada vez que seu corpo abraçava o meu, eu sentia que ia derreter.
Eu tinha essas sensações estranhas – desejos e um desespero incrível de toca-lo de uma maneira especial.
Ele me explicava coisas que envolviam meu corpo, minha sexualidade, meus desejos – mas sequer por um segundo, aproveitou-se da minha ingenuidade infantil.
Meu anjo era tão perfeito, eu jamais poderia viver sem ele.
Eu sentia falta dos seus toques, necessitava tanto do calor do seu corpo.
Eu estava me tornando mulher, o queria para mim como meu, por mais que não compreendesse aquele sentimento.
E logo, eu o quis como Homem; Exigir minha propriedade sobre ele.
Alice era meu segundo anjo – me apoiava, me contava sobres coisas que eu não havia tido oportunidade de aprender, entendia cada um dos meus sentimentos confusos.
Ela me explicou sobre a paixão. Sobre o calor e o desejo.
Eu entendi que era apaixonada por Edward, mesmo não podendo demonstrar de forma plena pela minha curta experiência de vida.
Queria me deixar levar pelos meus desejos íntimos, deixar-me levar pela mulher que ameaçava sucumbir a qualquer instante.
Eu queria explorar o desconhecido, provar de coisas que somente ele me fazia sentir; Eu duelava constantemente entre minhas duas facetas – ora infantil, ora madura.
O ciúme me destruía – eu sentia um horror de Victoria e agradeci imensamente por vê-la partir. Eu não seria capaz de vê-lo com outra, a possibilidade retorcia cada célula do meu corpo. A escola estava sendo uma experiência gratificante – apesar de saber que Edward não se agradava da idéia. Ele também sentia ciúmes – ciúmes da escola, de Jacob e de qualquer coisa que me cercava.
E eu adorava. Adorava vê-lo sentir-se da mesma maneira que eu me sentia. O simples conhecimento de que ele precisava de mim, era o bastante.
Eu gostava de Jacob – ele sempre fora meu melhor amigo do mundo. Ao lado dele, eu me sentia em casa. Como se sua presença, me remetesse à lembrança dos meus pais.
Eu o amava. Apenas de uma maneira diferente do que amava meu anjo.
Edward me dizia coisas sobre minha infantilidade – e eu deveria admitir que não estava pronta para tantas coisas...eram tantas dúvidas, tantos sentimentos confusos habitando em minha mente.
Eu me parecia muito com uma criança – mas eu tinha completa ciência de que meus sentimentos por ele não eram infantis; Eram como uma surpresa. Eu o amava de forma especial, e queria que ele me tocasse de maneira especial.
Nas partes especiais. Naquelas que faziam cada parte do meu corpo soluçar por ele...
Eu lembro que quando lhe pedi um beijo, já sentia meu corpo latejar por isso; Eu precisava beija-lo, necessitava provar dos meus sentimentos tão intensos e profundos.
E ele me beijou. Permitiu que eu tocasse sua boca perfeita com a minha simplória. Eu provei o seu gosto único, sentindo o seu próprio corpo duelar contra a razão e a paixão. Quando nos tocávamos, o mundo parava de girar. Cada faísca elétrica corroía meu ser, fazendo-me desejar seu corpo ainda mais. Era delirante, insano e completamente novo.
Suas mãos me tocavam com tanta fome – um desejo que meu ser implorava para ser saciado.
Eu queimava com seus toques em minhas nádegas, o roçar do seu polegar em meus seios.
Eu incendiava. A mulher estava em chamas.
Calor como o dia mais quente de um verão.
Mas a garotinha que vivia em mim, ainda não estava pronta.
Ela ainda habitava em mim, mesmo que em minoria. Ela estava em minhas atitudes, nas minhas dúvidas, nos meus questionamentos banais.
E então, ele a viu. E me recusou.
E a cada vez que ele rejeitava meus beijos, o roçar dos nossos corpos, eu me sentia miserável. A mulher sentia a dor da rejeição e da perda.
Quando Edward me pediu em namoro eu sabia que ele me amava da mesma maneira que o amava – como a Bela ama a Fera, ou como meus pais se amavam. Aquele sentimento era tão novo e intenso, que ameaçava rasgar meu corpo entre o desejo e a minha inocência.
Eu queria muito ficar pronta para ele; Tinha receio de perdê-lo, da sua espera ser cansativa demais... Eu apenas o queria comigo para sempre.
E então, novos sentimentos começaram a surgir.
A insegurança se acentuou – e os comentários de Jéssica começaram a surtir um efeito destruidor em meu interior.
Eu não era boa o bastante para ele?
Eu não era loira, rica ou modelo.
Era uma garota problemática, boba demais, e não tinha nenhuma experiência sexual.
Não era atraente, ou bonita.
Eu era infantil, sem nenhum sinal de sensualidade.
Como um homem como ele poderia olhar para uma garota sem graça como eu?
Era esse o real motivo pelo qual ele havia parado nossos beijos e toques?
Ele havia tido outras. Outras haviam o tocado, bebido do seu corpo escultural.
Talvez ele ainda as quisesse. Ainda as desejasse. Talvez ele percebera o quão gritante eram as nossas diferenças.
Ele era lindo. Rico. Tinha um futuro brilhante a sua frente.
Eu não era nada. Uma menina órfã e sem futuro. Magrela. Infantil. Perdida.
Eu entendia suas justificativas. Mas não compreendia sua total recusa dos meus toques e investidas.
Ele se considerava sujo, impuro ao me tocar; Via a garotinha que vivia em meu íntimo. Dizia que me protegeria, que não queria me magoar... E apesar das suas palavras me trazerem certo conforto, no fundo existia a mágoa da rejeição.
Eu tentei seduzi-lo, tentei ser uma mulher...
Mas ele me recusou novamente.
Eu o amava e o queria – mas sofria internamente pelo misto de sentimentos que se formava em meu cérebro.
Ele poderia ter qualquer mulher.
Edward dizia que me amava, que era louco por mim, mas suas atitudes eram opostas.
Ele não me tocava.
E eu já sentia a timidez das minhas tentavas falhas surgirem; O desespero da rejeição, a dor de não ser correspondida.
Eu estava crescendo. Eu precisava que ele me permitisse ama-lo.
Deixar com que eu derramasse sobre ele meus desejos impróprios, minha curiosidade de toca-lo, de conhecê-lo por inteiro.
Desde o dia em que o vira em sua plenitude divina – completamente nu, gemendo meu nome em preces entrecortadas eu desejei toca-lo; Mesmo que não soubesse o que aquele ato significava, eu queria toca-lo. Conhecer o meu cutucador, passear meus polegares pelo seu peito de mármore.
Eu não compreendia.
Mas a curiosidade logo tornou-se desejo, e o desejo transformou-se em uma paixão arrebatadora e doentia. Era uma necessidade dolorosa e completamente insaciável.
Eu não conseguia demonstrar o quanto pensava nele, o quanto almejava suas ações...eu não sabia tomar iniciativa. Era ridiculamente inexperiente.
Edward dizia que não queria abusar de mim. Não queria que eu me machucasse em suas mãos.
Mas ele jamais abusaria de mim, jamais poderia me molestar de alguma forma.
Ele era um anjo.
Jamais iria abusar ou violentar-me se cedesse aos meus instintos.
Eu poderia não conhecer tudo – mas tinha completa consciência do que era o certo e o errado.
Edward havia me ensinado os limites que eu tinha que cuidar, o que era aceitável, e o que era condenável. Havia me contado sobre cada pequeno detalhe do meu frágil corpo, detalhes que até então eram desconhecidos.
Embora eu fosse completamente inocente em certos aspectos, eu queria tanto que ele rompesse o controle... Queria que ele me deixasse experimentar do seu amor.
Eu queria explora-lo, provar minha paixão, faze-lo se render por um só instante àquele sentimento ardente que se instalava entre nós.
E os dias estranhos em minha dor silenciosa foram passando, tornando-se semanas.
Eu estava triste internamente, tentando conter minha insegurança para mim mesma.
Eu não queria ser rejeitada novamente – ou pior, perde-lo na minha confusão de sentimentos e completa ignorância sobre amor.
Somente de três coisas eu estava convicta.
Primeira, Edward era o meu anjo.
Segunda, havia uma parte nele e eu não sabia que poder esta parte teria que era completamente e dolorosamente resistente a mim.
E terceira, eu estava incondicional e irrevogavelmente apaixonada por ele.
Eu necessitava tanto dele, que o pulsar do meu coração batia frases invisíveis com seu nome. Eu era uma escrava – uma completamente dependente do seu amor e adoração; Um animal rendido ao seu dono, submissa ao seu amor por completo.
Insegura e tola como uma garota de oito anos, incapaz de reagir como a mulher que meu corpo estampava.
E naquela manhã tão inócua, eu havia sido consumida por toda a montanha russa de emoções que haviam me levado aquele dia.
Eu sabia que não estava completamente pronta.
Mas queria provar aos poucos, saber por qual motivo meu corpo gritava tanto pelo dele; Descobrir e explorar as novas sensações que meu corpo emanava.
Eu o vi partir com um doce beijo em meus lábios, seus olhos cheios de sentimentos nebulosos; Eu não conseguia ler seu olhar – entender o significado por trás dos olhos verdes.
E cada vez que eu o via partir, me sentia completamente impotente e sozinha diante do universo que me cercava. A escola era boa, mas ficar longe do meu anjo era doloroso; Eu estava tão carente. Precisava dele tão furtivamente.
Eu caminhei em direção à sala de aula, sentando-me timidamente no lugar que me era de costume. Meus pensamentos em Edward tomaram grande parte da minha atenção, sendo que em uma piscadela de olhos, o horário de almoço havia chegado.
Eu saí da sala, lado a lado com Jéssica e Angela. Ambas falavam sobre seus encontros e paqueras. Eu apenas estava com o pensamento fixo em Edward, o aperto no coração do abandono tomando conta do meu ser.
- Bella! Bella! – Eu ouvi a voz de Angela me acordar do transe, e dei um sorriso amarelo.
- Desculpe. Eu estava com o pensamento longe. – Eu corei – Algo errado?
Ela abriu um sorriso simpático, segurando meu braço entre o seu.
- Não sei o que você aprontou, Bella. A diretora acabou de chama-la em sua sala através dos megafones. Você está sonhando ou algo assim?
Jéssica deu uma risadinha pequena, cutucando meu ombro.
- Sonhando com aquele deus grego, não é? Ah, se eu pudesse...
Eu rosnei possessivamente.
- Chega, Jéssica. Vou até a diretoria. Até mais tarde.
Meu semblante tornou-se irritado, enquanto eu caminhava em passos pesados até a diretoria. Desde quando Jéssica descobrira sobre Edward e eu, eu percebia o quanto ela acreditava que poderia toma-lo de mim. Ela sabia o quão boba e infantil eu era, sabia que era inexperiente e desinteressante. Eu a ouvi dizer quantas mulheres sonhavam em ter um homem como Edward, e sobre o seu real desejo de conquista-lo.
Jéssica apenas me via como inferior. Sabia que se Edward era capaz de relacionar-se com alguém como eu, facilmente se renderia aos seus joguinhos de sedução.
Eu sentia o ciúme queimar como um ácido em minhas veias, maltratando-me com pensamentos lunáticos.
Ele não poderia mentir para mim. Ele prometeu que jamais tocaria outra mulher.
Eu morreria se ele tivesse outra. Se ele cansasse da espera, e resolvesse encontrar alguém à sua altura.
Ele te ama, Bella. Ele não iria engana-la. É seu anjo, seu protetor.
Eu repetia para mim mesma, enquanto abria a porta da diretoria.
Enviei um sorriso tímido para a diretora, que o retribuiu docemente.
- Oh Srta.Swan, que bom que ouviu o chamado.
Ela bateu as unhas contra a mesa, enquanto eu sentava-me na cadeira à sua frente.
- Sim, senhora. Eu fiz algo errado?
Eu mordi os lábios, e a diretora depositou seus óculos fundo de garrafa sobre o móvel de madeira.
- Não, Isabella. Apenas chamei-lhe para entregar-lhe um recado – Ela pausou, segurando um pequeno papel entre as mãos – O seu responsável, Senhor Cullen pediu para que você fosse encontra-lo em sua faculdade às 6:30. Requisitou para que o motorista a levasse até lá.
Eu assenti, corando completamente. Ele nunca havia me levado a sua faculdade; Meu coração se acelerou com o pensamento. Eu estava tão aflita, tão ansiosa para vê-lo. Agradeci alegremente, agarrando o papel com o endereço, antes de correr para a sala de aula. Eu queria que as horas voassem – e logo eu encontrasse meu Edward para apagar as gotas de dor que rompiam o meu peito.
Vê-lo sempre me deixava segura, me fazia sentir confortada e amada.
Felizmente, as aulas correram mais rápido do que eu imaginara. Logo eu estava terminando os exercícios das aulas de reforço, e correndo de encontro ao motorista. Dei um sorriso pequeno para ele, transmitindo o recado de Edward.
Eu lutei contra o impulso de ligar para ele durante todo o dia – tentei controlar minha ansiedade, buscar um pingo de maturidade e racionalidade para agregar a mim.
Eu queria que ele percebesse o quanto eu havia mudado – o quão importantes eram aquelas mudanças, e como elas influenciavam na minha maneira de enxergar o mundo.
Guardei meu aparelho celular no bolso, descendo alegremente do automóvel quando estacionamos em frente ao campus. O prédio era grande, e eu tateei meu bolso em busca do papel com as instruções para encontrar sua sala.
Corri eletricamente – ansiosa por encontra-lo, meu coração batendo a mil por hora pela expectativa de vê-lo.
A saudade era tão grande, os meus receios estavam tão fortes, eu me sentia tão fraca e incapaz; Precisava do seu calor, do seu carinho, do seu afeto.
Sorri em expectativa, atravessando o prédio até chegar a sala indicada no pequeno pedaço de papel.
Eu pisei lentamente, escutando a voz de Edward ao fundo. Um grande sorriso se espalmou em meu rosto, ansiosa por encontra-lo.
Aproximei-me do ambiente escuro, abrindo a porta lentamente.
Eu vi uma silhueta feminina encostada sob o corpo de Edward, seus cabelos loiros platinados caindo contra as costas. Eu gemi, perdendo o controle de meus pés.
As suas mãos estavam sobre ele – sobre seu peito, enquanto ela balançava-se provocadoramente seus quadris para ele.
Eu sentia as lágrimas invadirem meus olhos, enquanto buscava outra respiração.
“...você poderia começar a ser um homem normal como todos os outros. Ceder a uma mulher de verdade.”
As suas palavras soaram contra mim como mais cruel veneno, enquanto eu a via colar seus lábios sobre os dele.
Eu grunhi, lutando entre o desejo de invadir o ambiente, e correr o mais longe que pudesse; Meu corpo moveu-se sozinho, incapaz de observar meu coração ser destroçado inteiramente.
Eu havia acreditado nele.
Havia entregue todos meus sentimentos para ele.
Diante de mim estavam todos os meus pesadelos: Uma mulher de verdade – alta, loira, sensual e provavelmente rica, roubando o meu único motivo para acordar todas as manhãs.
Roubando o único motivo que me impulsionava a expulsar o corpo infantil que restava em minhas profundidades; O único homem que havia despertado cada parte completamente desconhecida para mim. Ele fora o único e sempre seria.
Eu não poderia existir em um lugar onde ele não existia.
Não havia competição, eu era um nada ao lado dela. Eu conseguia ver, mesmo de relance, o quão grande era a diferença entre nós. Eu me martirizei e amaldiçoei por um pesadelo que havia sugado minha vida.
Eu era tão inferior, tão apagada; Deveria ter me mantido nas profundezas da escuridão.
Eu o amava, e estava tão ferida que meus pulmões mal conseguiam respirar. O alívio da corrida me agarrou de forma consoladora, enquanto eu movia meus pés em direção a saída.
Lágrimas quentes caíam dos meus olhos, nublando minha visão entre as árvores escuras; O escuro da noite me fazia correr com mais velocidade, meus pensamentos completamente inundados pelas feridas. Eu senti o aparelho celular escapar do meu bolso e ignorei.
Era completamente e totalmente inútil. Eu queria me machucar fisicamente para aliviar a dor interna – estancar o sangramento violento do meu coração.
Seus beijos e promessas invadiam meu cérebro completamente consumido pela flagelação.
Mentiroso, mentiroso, mentiroso.
Eu desejei nunca ter acordado, jamais ter lutado para encontra-lo, e vê-lo despedaçar o restante da minha alma infantil que restava.
Eu desejei a simples ignorância e ingenuidade que um dia eu possuíra – implorei para que eu nunca tivesse experimentado aquele sentimento tão massacrante e doloso.
Eu queria morrer. Queria desaparecer e me entregar à escuridão.
Ele me traiu. Prometeu que jamais tocaria outra, e me traiu.
Mentiu para mim.
Mentiu para os meus sentimentos.
Eu gritava, soluços descontrolados saindo de minha garganta.
Então, por uma fração de segundo eu soube para onde ir.
Jacob.
O único que ainda me restava naquela vida desgraçada; O único que o destino maldito não havia arrancado de mim.
Eu não sentia sequer vontade para viver. Eu precisava aliviar aquela dor, aquelas facas que atravessavam meu corpo e rasgavam-me por completo.
A imagem de Edward com outra mulher rondava meus pensamentos, enquanto eu encontrava a rodovia principal desnorteada. Com lágrimas nos olhos, eu avistei um taxi que passava em meio à rua escura. Eu o chamei, indicando um dos poucos endereços que conhecia — La Push.
Durante todo o trajeto, eu chorei compulsivamente. Chorei por saber que eu jamais seria boa o suficiente para ele, chorei por ter ciência da minha perda e da traição.
O gosto tóxico da traição me arrebatava, enquanto eu tentava evitar meu corpo de desfalecer contra o banco do motorista; Agradeci intimamente pela a ausência de comentários do motorista – apenas acenando negativamente, enquanto eu gemia baixinho o nome dele. Eu joguei uma nota de 20 dólares contra o homem que me carregara, encontrando os pequenos casebres simples da região. Estreitei meus olhos à casa dos Black, tentando o recobrar o mínimo do controle sobre minhas ações. Caminhei em direção a casa, enquanto tentava inutilmente limpar as lágrimas do meu rosto. Inútil, porque no segundo seguinte elas encontravam espaço em meu rosto.
Eu não queria encarar Billy – e ouvir um longo sermão sobre não o ter escutado na última visita. Ele me avisara. Me avisou sobre homens como Edward.
Somente o pensamento do seu nome, causava desgraça em cada parte do meu corpo.
Eu busquei coragem para caminhar, enquanto arquitetava algo para inventar para Billy. Torci intimamente para que Jacob abrisse a porta. Eu apenas precisava do seu abraço – o abraço caloroso de um amigo, a lembrança confortável da nossa infância sem dores, sofrimento e perdas. A vida era malditamente injusta comigo.
Eu queria minha mãe, minha casa, minha infância novamente.
E pela primeira vez, desejei ser a garotinha de oito anos, alheia aos desejos, sofrimentos, dores e paixões.
Levantei meus punhos no ar para bater na porta gasta de madeira da residência de Jacob, quando o rugir alto de sua moto invadiu meus ouvidos. Eu me afastei da porta, procurando-o ao meu redor. Um sorriso fraco surgiu em meus lábios, quando o vi tirar o capacete e estacionar em frente a sua casa. Corri em sua direção, deixando todos os meus sentimentos que haviam sido contidos há cinco minutos me invadirem. Eu percebi o flash de animação ao me ver cruzar o seu rosto, sendo substituída pela a completa confusão ao perceber as lágrimas em meus olhos. Eu o abracei firmemente — apertando-o tão forte quando possível, tentando de alguma forma amenizar minha lástima.
Ele acariciou meus cabelos, enquanto eu chorava fervorosamente em seu peito. Seus dedos pesados — tão brutos e diferentes dos toques suaves de Edward — tocavam minha testa e costas em uma tentativa falha de me consolar. Eu ronronei contra seu peito, tropeçando nos soluços, lágrimas e barulhos indistintos que saíam de minha garganta.
Eu estava em frangalhos – destruída externa e internamente; Eu não fazia idéia como meu coração ainda batia contra meu peito, ou como eu ainda encontrava ar para respirar.
Minha vida havia acabado no instante em que ele destruiu todas as fundações que me prendiam à terra.
- Foi ele, não foi? – Jacob repetiu, beijando meus cabelos – Eu sei o que ele fez a você, Bella. Ele te machucou, não é?
Eu apenas assenti, deparando-me com a verdade em suas palavras. Jacob respirou profundamente, deixando seu hálito forte bater contra meu rosto. Seu cheiro era diferente – o ar que saía de sua boca tinha algo fora do comum. Eu nos afastei quando ouvi um barulho na porta da frente dos Black.
- Me tira daqui. Eu não quero ver Billy agora.
Jacob acenou, e eu o vi posicionar meu corpo sobre a moto, segurando minhas coxas possessivamente. Eu sentei como o indicado, colocando o capacete que ele usava em minha cabeça.
- Me agarre o máximo que conseguir.
Eu segurei ao redor da sua cintura, enquanto nós andávamos em meio à estrada. O vento batendo contra o meu rosto, lembrou-me do tempo que eu voava em meus sonhos condenados pelo coma, e eu senti um relance de alivio me assolar; Mas a ferida ainda estava ali – pulsante, viva, latejante. Eu jamais seria curada. Jamais poderia ser saudável ou inteira; Eu estava quebrada, partida, defeituosa. Jamais funcionaria corretamente outra vez.
Jacob parou a moto em frente ao que parecia ser um celeiro. Eu desci da sua moto, observando o movimento rápido de suas mãos em minha cintura, enquanto ele me guiava. Eu senti um desconforto rápido pelo seu toque, porém ignorei. As palavras de Edward soavam em minha mente “Não deixe ninguém te tocar”. Eu ri sozinha.
- Você deixou primeiro, você me enganou.
Jacob me questionou sobre meu comentário, porém a dor abstraia todos os detalhes ao meu redor, fazendo-me ficar em completo silêncio diante da sua pergunta.
Alguns poucos passos depois, nós entramos no celeiro antigo – o cheiro forte de mofo e algo mais que eu não soube identificar inicialmente invadiu minhas narinas. Ele sorriu, encostando a porta atrás de nós.
-Então...esse é meu esconderijo particular. Eu estava aqui antes de você chegar, bebendo e ouvindo música.
Eu vi as caixas de bebida, algumas latinhas espalhadas ao redor, e um flashback invadiu minha mente. O dia em que Edward me pediu em namoro, a mais doce e dolorosa lembrança da minha existência curta. Nós havíamos compartilhado uma pizza antes de voltarmos para casa – e eu lembro perfeitamente de cada pequeno detalhe daquela noite.
Flashback
“Edward esfregou minhas mãos entre as suas, enquanto fazia um pequeno movimento para a garçonete que passava ao nosso lado. Meu coração disparava freneticamente – tomado pela felicidade, alegria e completo êxtase. Ele era meu. Unicamente e completamente meu.
- Garçonete, você poderia trazer uma taça de vinho e uma cerveja, por favor?
Eu sorri, espalmando meus dedos contra os seus.
- Claro. Mas a garota aí parece ser de menor... Nós temos regras claras sobre-
Ele a interrompeu.
- Ela não irá beber, senhora. Somente para mim, obrigado.
A garçonete irritada bufou, enquanto retirava os pratos limpos da mesa. Eu mordi meu lábio inferior, vendo os olhos de Edward correrem para o meu movimento. Seu polegar acariciou o formato dos meus lábios, e eu senti minhas bochechas esquentarem.
- Você os morde tão forte, bonequinha. Gosta de castiga-los? Eles são tão suaves e frágeis.
Eu escondi meu rosto entre as mechas do meu cabelo, soltando o aperto forte dos meus dentes contra os lábios.
Eu queria que você os beijasse, pensei intimamente.
Para impedir meus pensamentos de soarem audíveis, eu sorri timidamente, acariciando seus dedos contra os meus.
- O que é cerveja? Vinho? – Eu sorri envergonha, ruborizando-me novamente. Aquela era a pior parte. Não saber o significado das coisas mais simples, e parecer uma tremenda idiota em quase todos os momentos. Mas eu sabia que ele estava disposto a me ensinar tudo – inclusive, a ama-lo. Seus lábios gloriosos se separaram para responder, porém a garçonete chegou, depositando as bebidas sob a mesa. Edward agradeceu, enquanto eu a via sumir.
- Cerveja e vinho são tipos de bebida, meu anjo – Eu senti meu corpo inteiro se esquentar com seu apelido doce. Eu amava cada segundo que passava ao lado dele, amava cada reação que ele despertava em mim. Eu nunca havia ousado chama-lo de algo além de Edward – e me sentia vitoriosa por saber que compartilhávamos o mesmo apelido. O encarei novamente, completamente deslumbrado com sua beleza sobrenatural.
- Bebidas? – Eu perguntei timidamente, segurando meus cabelos entre os dedos.
- Sim, bonequinha. Eu quero que você as prove – Ele empurrou a taça em minha direção – Apenas um pequeno gole. A bebida é algo perigoso, Bella. Se alguém, algum dia oferecer-lhe, recuse. É uma forma destruidora de fugir da realidade. As pessoas quando bebem, saem do seu “normal”. Elas podem fazer coisas terríveis.
Eu tremi, e minha língua aproximou-se do copo, bebericando o gosto forte que ela possuía. O vinho e a cerveja tinham apenas uma coisa em comum: o gosto característico do álcool, que marcou imediatamente o meu paladar.”
A Mão dura de Jacob em meu braço, acordou-me dos meus devaneios.
- Quer uma, Bella? Ajuda a relaxar. – Ele me empurrou uma garrafa, e eu recusei rapidamente. Não, eu não queria fugir da realidade. Eu era uma masoquista desgraçada – precisava sentir meu peito rasgando-se, certificar-me de que de alguma maneira, ele ainda estava dentro de mim. Maltratando-me e torturando-me com a dor que me causara.
Percebi que Jacob estava levemente alterado – sua pupila dilatada, suas bochechas coradas, seus olhos estreitos.
- Então...sente aqui. Me conte o que houve. – Eu o vi sentar-se contra um punhado de palha, enquanto batia no espaço entre suas pernas para que eu o acompanhasse. Existia algo diferente em seu semblante, que eu não pude identificar. Temi levemente pela minha integridade – mas rendi-me aos seus chamados, sentando entre suas pernas como ele havia requisitado. O seu corpo estava tão próximo ao meu, que eu conseguia sentir seus músculos duros contra minhas costas, o seu braço roçando contra o meu; A proximidade do seu corpo não era acolhedora, fraternal ou desejosa. Não era o meu Edward. E ao invés de sentir-me acolhida, eu tremia com o pânico que ameaçava me invadir.
Eu precisava me manter ali. Não tinha para onde ir.
Certamente não iria procurar Alice – ela era irmã de Edward, e o defenderia.
Lutei para espantar meus medos, e relaxar contra o toque dos seus dedos em meus cabelos; Eu já havia ficado desta maneira perto de Jacob. Eu havia o abraçado e relaxado contra seu corpo poucos meses atrás; Porém, algo naquela noite estava diferente.
Eu não sabia se eu havia mudado, ou se as circunstâncias estavam me afetando. Encostei meu corpo contra o seu, enquanto sentia suas palmas agarrarem minha cintura possessivamente.
- Comece a falar, Bells. Amigos são para isso, certo?
Eu respirei profundamente, sentindo o incomodo do seu toque contra mim. A imagem de Edward invadiu minha mente novamente, e eu senti novas lágrimas se formando em minha garganta. Eu precisava contar – deixar que minha dor fosse partilhada de alguma maneira.
- Eu...eu...eu...o... amo – Eu disse gaguejando, os soluços altos saindo de minha garganta – Ele prometeu que ficaria comigo para sempre...mas mentiu. Nunca me quis, não sou boa o suficiente para ele.
A respiração de Jake contra meus ouvidos enviou uma corrente de calafrios por todo meu corpo. Eu coloquei minhas mãos contra o rosto, limpando minhas lágrimas.
- Ele fez sexo com você, Bells? Tocou em você?
Eu assenti negativamente, contando uma meia-mentira. As duas vezes que ele tocara foram pequenos acidentes – e ele havia garantido que aquilo não iria acontecer novamente. Eu acreditei que fora por proteção, entretanto hoje posso ter certeza que eu nunca fui boa o bastante para ele. Nunca fora merecedora do seu desejo.
- Ele...nunca...me...quis...desse jeito. – Eu mergulhei nas lágrimas, enquanto os polegares de Jacob acariciavam meu pescoço perigosamente. – Ele...tem outra...e eu queria...que ele me amasse como eu o amo...Como homem...eu sou...tão idiota e infantil. Claro que ele jamais...iria...me querer.
Jacob suspirou, empurrando seu corpo contra o meu, enquanto depositava pequenos beijos contra meu pescoço. Eu tremi – medo, pânico, insegurança e horror me dominando. Eu estava completamente desgostosa – sentindo a invasão dos seus toques em mim. Um abuso de beijos brutos em minha pele branca. Eu tentei me desvencilhar, porém ele inverteu minha posição, colocando-me em sua frente.
- O...que...você está fazendo, Jake?
Minha voz saiu rouca e trêmula, enquanto ele lambia os lábios maliciosamente. Seu rosto estava cego de desejo e fome – como um caçador encarando sua presa indefesa. Eu senti seus braços fortes segurarem minha cabeça com possessão, enquanto ele puxava meu rosto em sua direção.
- Eu vou te mostrar como é ser uma mulher, Bella. Vou ser o homem que você quer.
Eu senti sua boca violentar pesadamente a minha, seus dentes rasgando meus lábios com brutalidade. Eu gemi, trincando meus dentes para impedir sua língua perniciosa de encontrar a minha. Lágrimas de desespero caíam em meu rosto, enquanto eu lutava inutilmente para desvencilhar do seu aperto. Eu queria vomitar, o asco do seu abuso subindo minha garganta.
O seu beijo Era tão diferente do de Edward – rude, invasor, violento, forçado. Não eram como o de meu anjo — cheio de amor, cautela, adoração e desejo. Aquele toque bruto de outro homem demonstrava o quanto eu desejava e amava Edward de forma única.
Eu não sentia curiosidade, desejo ou vontade ao lado de Jacob – apenas o constrangimento, a opressão e a dor que seus toques forçados me remetiam.
Eu estava tão ferida...tão quebrada e destruída. Eu chorei pelo meu estado – imaginando se acabaria consumida pela lascívia daquele homem que um dia eu considerei meu único amigo. Eu havia fugido para seus braços, e agora sentia sua língua violentar minha boca, enquanto ele puxava meus cabelos para tocar meu corpo com sua outra mão.
A ojeriza me dominou, quando sua mão pesada serpenteou minha barriga, ameaçando acariciar meus seios. Eu entrei em desespero; Por mais que Edward não me quisesse, eu pertencia a ele. Cada parte especial que meu corpo possuía era sua propriedade. Eu finalmente reagi, usando meus dentes para morder brutalmente os lábios de Jacob. Ele gemeu, quebrando nosso contato. Eu busquei forças na ira que eu sentia, o completo sentimento de solidão e mágoa.
Eu havia sido ferida por todas as pessoas que havia amado. Estava quebrada, destinada a me afogar na escuridão.
Chutei minhas pernas contra sua virilha, lembrando-me do exato dia em que Alice ensinou-me sobre esse ataque em particular. Jacob me amaldiçoou, soltando o aperto dos meus cabelos para agarrar sua virilha em dor, caindo contra o chão.
-Maldita seja! – Ele gritou – Você não vai embora assim.
Eu tentei buscar equilíbrio para libertar-me da prisão do seu corpo, enquanto via seus dedos fortes darem puxões fortes em minha blusa, marcando dolorosamente a pele do meu colo. Jacob deu um safanão em meu rosto, tentando impedir minha saída. Eu gemi em dor, ao sentir o machucado no canto de minha boca pelo seu tapa. Minha cabeça girou, e ele se agarrou ao pedaço de pano da minha blusa. Eu pisquei meus olhos, percebendo que ele estava quase recuperado. Em um movimento rápido, reuni todas as forças que meu pequeno corpo tinha, levantei-me com toda a força em direção a saída. Ouvi o som do tecido rasgando, enquanto corria apressadamente para fora do celeiro.
As lágrimas voltaram – mais dolorosas, mais perturbadoras, torturando meu frágil e arrebentado coração.
Eu havia perdido tudo que me restava naquela noite – o melhor amigo, o homem que amava.
Tudo. Desejei intensamente, entregar-me ao frio que me rodeava, deitar-me em algum canto da escuridão e deixar a morte encarregar-se do meu descanso eterno.
Mas meus pés corriam descontroladamente, deixando para trás as marcas do meu agressor. Todo meu corpo doía – não somente pela dor de perder meu único amor, mas pelas agressões do meu melhor amigo. Eu queria fugir dali – extirpar os toques sujos de suas mãos, cuspir o gosto de sangue que minha boca possuía. Corri com tanta velocidade, a adrenalina causada pelo meu senso de sobrevivência apoderando-se de mim; Eu perdi a noção do tempo, não saberia dizer por quanto tempo eu estava correndo, ou para onde o destino estava me levando.
A paisagem começou a mudar gradualmente – o começo das estradas surgindo, a pequena civilização de Forks reaparecendo; As lágrimas eram insistentes, e acompanhavam o ritmo acelerado do meu coração castigado.
Quando meus olhos encontraram a escola de Forks, eu sabia que estava perto de casa.
Da casa dele. Do meu amor, do meu traidor.
Sem conseguir raciocinar, minha mente completamente dominada pela sofreguidão, eu caminhei em direção ao meu desatino. Eu sofreria por vê-lo esmagar meu coração, sofreria por não conseguir encara-lo como uma mulher, sofreria por parecer tão malditamente infantil e indefesa daquela maneira destruída; Mas as mãos de Jacob ainda estavam em cada parte do meu corpo, revirando meu estomago ao contrário. Eu precisava limpar aqueles vestígios – me purificar dos seus atos abusivos.
Eu o odiava, odiava com todas as forças do meu ser.
Ele se aproveitou de mim, aproveitou-se da minha fragilidade e vulnerabilidade.
Eu havia procurado seu acalento, havia o buscado em meu momento mais doloroso; E ele enfiou uma faca em meu coração despedaçado, arrancando o fio de vida que ainda restava em mim.
Eu subi as escadarias do apartamento, parando em frente à porta. Tateei meus bolsos em busca das chaves, sem sucesso. Eu as perdi no caminho – entre o fugir da destruição do meu amor e correr da violação do meu amigo. O cheiro de Edward estava por todo lugar – assim como as lembranças de dias felizes que cercavam aquele apartamento. Então, eu me entreguei. Entreguei a dor latente, ao choro preso em minha garganta, a destruição de cada sentimento bom que existia em meu ser. Deslizei pela porta, sentando-me contra o chão. Abracei minhas pernas protetoramente, e chorei. Chorei ignorando a ardência incomoda dos meus olhos, o tremor incontrolável dos meus lábios.
Naquela noite, eu queria enterrar a garotinha. Enterrar o mais fundo possível em minha alma para que ela não me fizesse sofrer.
Pensei em Edward, e deixei o meu defeituoso coração se martirizar com as lembranças destruidoras das suas ações; Eu queria apagar da minha memória, voltar ao coma que eu jamais deveria ter sido acordada.
Eu fui condenada há dez anos, e o destino estava cobrando sua divida por ter-me permitido esses meses de vida.
Eu segurei meu rosto entre as mãos, enquanto deixava a dor me consumir por inteiro.
Passos leves invadiram meus ouvidos, o cheiro único se abatendo contra mim.
Meu coração disparou ao perceber sua presença.
Edward. Edward estava aproximando-se, começando a manipular cada célula do meu corpo ao seu favor; Eu me sentia tão afetada por ele – pelo simples cheiro da sua pele, pelas palavras doces de sua garganta.
Mentiras, Bella. São mentiras.
Eu solucei novamente.
Eu sabia que ele estava ao meu redor – sempre soube reconhecer seu espirito angelical, a forma fascinante que sua alma se encontrava com a minha de uma maneira transcendente.
Somente sua simples presença me dragava de volta à vida.
- Bella...
Suas palavras carregadas de emoção encontraram meus ouvidos, enquanto eu lutava para não me render ao vicio da sua voz. Eu travei uma batalha entre a necessidade física por ele, e a dor. E perdi.
Meu rosto levantou-se automaticamente, completamente manchado pelas chagas; Eu precisava vê-lo. Mesmo partida, eu necessitava dele para continuar minha existência medíocre.
Eu percebi seus olhos me analisando completamente – e repentinamente, uma dor intensa surgiu em seu rosto. Eu o vi se abaixar a minha frente, meus olhos completamente rendidos aos seus. As lágrimas caíam livremente – um misto de dor, alívio, vida e tormento. Eu o amava e odiava tanto; Amava cada parte dele – seus olhos, seus cílios, seu nariz, sua pele pálida, a maneira única que seu sorriso torto me presenteava, a vida que corria pelo seu corpo; Eu era oca sem ele, completamente e unicamente inexistente.
Mas ele havia quebrado suas promessas, mentido e dilacerado meu coração inexperiente.
Seu polegar correu na direção dos meus lábios – tocando a ferida aberta pelo tapa de Jacob. Eu vi tanta dor em seu semblante, que quase o abracei e espantei seu sofrimento; Fui impedida pelo pouco amor próprio que existia em mim. Segurei meus joelhos com mais intensidade, desviando meus olhos dos seus. Eu estava prestes a me render àquele homem – aquele que me destroçou, acabou e condenou. Eu queria o abraço do meu anjo, queria que ele apagasse os traços sujos da minha violação.
- Eu não tinha para onde ir – Eu choraminguei entre as lágrimas, sentindo o queimar de seus dedos em meu queixo. Edward tremeu, seu olhar absorto em arrependimento e culpa.
Você me feriu. Me enganou. Me partiu. Me quebrou.
Eu era como um brinquedo quebrado nas mãos do meu dono, esperando que ele me consertasse de alguma maneira; Eu o encarei com aflição, deixando minhas lágrimas molharem seu polegar.
- Quem fez isso com você, meu amor? Quem machucou você desta forma?
Eu rosnei, chorando com mais ferocidade. Ele havia feito isso comigo – havia partido meu coração, me tornado tão vulnerável quanto a garotinha que eu evitara; Eu estava doente, arruinada por dentro, minha alma devorada pela dor; Eu havia entregue minha vida a ele – e eu o vi despejar cada centímetro dos meus sentimentos em uma traição.
Eu havia confiado tanto nele.
Confiado cada parte do meu corpo, cada pedaço da minha alma, cada canto inexplorado do meu coração.
E ele pisoteou, fingiu, forjou, manipulou e moído meus sentimentos.
Eu estava quebrantada, inválida.
Pisquei novamente, encarando-o com completa ira e indignação; Estava cansada das mentiras, da enganação; Queria exigir meu coração de volta, queria ouvi-lo batendo por contra própria, não somente pelos caprichos do meu amor por ele.
-...Você, Edward. Você fez isso comigo. – Eu disse secamente, lágrimas caindo sob minha bochecha quente. Eu o vi resfolegar, seus dedos passearem exasperadamente pelos fios.
Uma expressão de completa confusão e agonia apoderou-se do seu semblante perfeito, me fazendo gemer; Eu vi o desespero dos seus olhos, o estranho medo que instalava-se em seu corpo.
Edward tocou minhas mãos delicadamente, enquanto eu sentia a impureza dos toques de Jacob ainda tão entranhados em mim. Seus dedos me purificavam, expulsando os demônios dolorosos da minha moléstia. Eu pequei por um segundo, me agarrando seu toque, entregando os pontos naquela disputa.
Deus, eu não era nada sem ele.
Não importava o quão fundo ele havia me ferido – eu vi amor em seu rosto angelical. Por um segundo, eu encontrei meu caminho de volta.
Meu anjo.
Eu precisava e necessitava do seu amor; Por mais doloroso que aquilo pudesse ser, e por mais covarde que eu parecesse, eu o queria novamente.
Pois somente ao lado dele, minha vida faria algum sentido.
A garotinha dentro de mim reapareceu. Com o dom de perdoar e amar ilimitadamente.
Eu estava disposta a deixa-lo tomar o resto de mim – e entregaria-me ao meu destino doloroso sem pestanejar.
Eu havia acordado por aquele homem ajoelhado à minha frente – e só poderia adormecer quando suas asas me consumissem; Eu era sua propriedade. Talvez sempre tivesse sido.
Era sua, esperando que ele acordasse do meu sono profundo, e roubasse meu coração.
Eu não era uma simples mulher apaixonada – eu era uma mulher vendida, sem vida e completamente dependente do meu anjo.
Ama-lo era minha única vida, minha única respiração.
Eu o amo.
A menina, a mulher, a adormecida, a quebrada – todas as minhas partes doentes o amavam.
Plena e unicamente, amavam incontrolavelmente, inegavelmente, dolosamente e existencialmente.
Para sempre.
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