Avesso

3 Capítulo 3 - Cevada


Skamar olhava a refeição curiosa. Não havia a mais remota lembrança de ter visto algo parecido. Mas tudo parecia muito saboroso. O tamanho da fome que sentia era proporcional aos dois dias que estivera em jejum. Olhou para os pequenos bolinhos, quentes, cheiravam à madeira de pinheiro, o que lhe trazia uma sensação confortável de comida feita em fogo à lenha. Atacou sem maiores cerimônias os momos e a suan nai, uma refrescante bebida de leite fermentado de cabra.

— Puxa! Mas isso está uma delícia! — dizia com a boca cheia — O que é isso, hein?

— Isso são momos, bolinhos feitos de farinha de cevada. São uma verdadeira obsessão por aqui. — dizia satisfeito em ver a aceitação da moça — Fico contente que tenha gostado. Geralmente turistas estranham um pou...

Mu foi interrompido pelo longo ronco do estômago da garota, alto o suficiente para interromper a conversa.

— Ai minha nossa!! Mu, desculpe, eu... Aiaiai que vergonha!! — disse corada e com os olhos arregalados.

— Não se preocupe, não há do que se desculpar. — disse Mu sério, abaixando a cabeça para esconder o ar de riso que a situação lhe causara.

Conversaram pouco, mas já simpatizara profundamente com a garota. Ela possuía algo... Algo que não sabia explicar. Algo que o tirava de seu estado trivial, de sua realidade bucólica e lhe trazia a sensação de estar vivo. Havia algo naquele olhar que lhe trazia paz.

Fizeram o resto da refeição em silêncio. Skamar comeu até não poder mais. Ao terminar os seus momos, olhou para a tigela de Mu, curiosa.

— O que é isso, Mu?

— Tsampa. Uma pasta de farinha de cevada assada.

Percebeu os olhos compridos da garota.

— Venha, experimente.

— Huum, muito bom!!

— Então irá gostar das outras refeições da culinária tibetana também. Mais tarde podemos ir até a cidade, buscar mais algumas coisas, o que acha?

— Acho ótimo!

Mas alguns instantes de silêncio se fizeram.

— Estamos sozinhos aqui, Mu? — Skamar sorriu internamente ao perceber o duplo sentido da pergunta, embora não fosse essa sua intenção. Descontração que logo passou ao imaginar a resposta. "Será que Mu tem esposa? Filhos? Puxa, ela não vai gostar da idéia de ter uma desconh..."

— Não.

"Ah, pronto.", pensou.

— Kiki também mora aqui.

"Ufa!"

— Seu filho? — que soubesse a verdade de uma vez, então.

— Não. Kiki é órfão, seus pais faleceram há muito tempo. Digamos que eu sou o responsável pela sua educação e pela preparação de seu futuro. Kiki é o que mais se aproxima de uma família.

— Mas como você o...

— Japão.

— Como?

— O seu sotaque. Só agora pude diferenciar.

Skamar recostou-se na cama. Era uma informação preciosa, talvez conseguisse lembrar de algo. Fechou os olhos, tentando lembrar. Nada. A sensação de impotência era terrível.

Mu percebeu a desorientação da menina. Não queria pressioná-la. Não agora, ao menos. Faziam apenas pouco mais de três horas que havia despertado.

— Hoje é dia de descanso de Kiki. Ainda está dormindo. Logo o conhecerá. É um garoto muito especial, um pouco levado, o que é natural da idade, mas um bom menino. Você vai gostar dele.

Não demorou muito para que o garoto de cabelos de fogo aparecesse no quarto aos berros em um idioma desconhecido, mas Skamar associou o garoto chamando por Mu.

O garoto, assustado, parou ao ver Skamar acordada. E falou com Mu em um dialeto incompreensível à menina. Mu respondeu, no mesmo idioma, de maneira calma e amigável. Kiki sorriu contente ao mestre.

— Muito prazer, meu nome é Kiki! Você está bem?

— Ah, melhor agora em te ver, Kiki! Muito prazer, eu sou, hãn, Skamar.

O menino deleitava-se com a idéia de haver mais uma pessoa na casa. Passava a maior parte do tempo apenas com Mu, quando estava em Jamiel. Acostumado a passar as tardes, após o treinamento, na companhia dos outros cavaleiros de ouro, por vezes sentia-se entediado ao ter a permissão do mestre em descer à aldeia mais próxima para brincar com as outras crianças apenas em seus dias de folga. E, puxa, como seria conviver com uma mulher? Ela era tão bonita, gostaria de casar-se com alguém assim quando crescesse. Será que sua mãe era bonita assim? Será que Skamar irá às tardes brincar entre às ovelhas também? Será que veria seu treinamento para ver o quanto ele era forte? Tinha certeza de que ficaria impressionada..