Avesso

4 Capítulo 4 - Purificação


— Creio que queira se banhar, senhorita. — disse Mu, interrompendo os pensamentos do garoto.

Mu forçou a porta até abrir. Desceram a escadaria até o quarto de banhos. Skamar olhou maravilhada. Sentiu-se no Tibete antigo, em tempos mitológicos. As paredes de pedra contrastavam com as nuances vinho e escarlate do lugar. A enorme banheira circular também feita em pedra, estava ornamentada em alguns pontos com flores semelhante a lótus ao redor e ficava a beira de uma grande janela, onde era possível banhar-se olhando a bela vista do lugar. Haviam também duas pequenas mesas onde haviam toalhas e utensílios para banho. Em uma delas, havia uma troca de roupas, uma bonita chuba feminina.

— Ali estão roupas limpas, que poderá usar, Skamar. Kanda escolheu uma chuba muito bonita. Ela me ajudou nos seus cuidados iniciais, cuidou de você com muita atenção. Não esqueça de agradecê-la depois. — disse Mu descontraído, despejando água quente de um balde na banheira. — Me chame quando terminar. — E saiu.

"Mas quem raios é Kanda?", pensou. "Será sua namorada? Noiva? Ora, mas porque não fala de uma vez??"

Tirou sua roupa e olhou-se no espelho. Tinha cortes profundos por todo o corpo, grandes hematomas. Realmente a agressão sofrida fora intensa. "Mas que ferimentos estranhos! Não parecem ter sido feitos por humanos. Algum animal, talvez. "Minha nossa, o que terá acontecido?" Se tivesse sido ferida por alguém, o que teria feito para despertar tal fúria? "Será... Será que sou uma pessoa má?" Sentiu sua pernas bambearem. Estremeceu ao pensar se havia alguém esperando por ela, alguém desesperado por sua ausência. Teria pais, irmãos? Desesperou-se por um momento. Seria casada? Procurou marcas de aliança em sua mão esquerda. Nada.

Entrou na água, com a mente perturbada. Resolveu distrair-se com o banho e com a bela paisagem à sua frente. Precisava manter a mente sob controle para que tudo se resolvesse da melhor maneira.

Lavou-se com um sabão aparentemente artesanal, rústico mas muito cheiroso. A temperatura da água estava perfeita. Jogou as pequenas flores secas na banheira para se perfumar. Olhando o horizonte, riu do próprio infortúnio. "Sem memória, num lugar pitoresco, com um homem misterioso. O que mais lhe aguarda, Skamar?" Não sabia de muita coisa, mas se de algo tinha certeza é que não estaria viva se não fosse Mu. Olhou ao redor, aos pequenos cuidados com as flores, com a exata temperatura da água, percebeu que tudo tinha sido preparado com muito esmero. "Meu bom Mu. Obrigada por tudo o que fez por mim", pensou. Passaria muito tempo ali, mas não queria deixar Mu esperando. Penteou os cabelos e trocou-se. Era uma longa chuba rosa pastel, ia até os pés, a saia levemente rodada. Amarrou na cintura uma faixa branca com detalhes dourados e enfeitou os cabelos com uma flor.

Não precisou chamar Mu. Este estava próximo ao banheiro com Kiki. Estava em muito bonito em seu traje, vestiu-se para ir a cidade.

Mu olhou-a. "Céus, mas que bela mulher!" Ao resgatá-la, no auge da situação e no estado calamitoso que estava, não pôde reparar. Skamar era uma belíssima moça. Tinha características orientais com seus longos cabelos lisos e negros que fariam inveja à mais bela noite do Tibete que emolduravam o delicado rosto. Ramos de flores de rododendro enfeitavam os úmidos cabelos. Os olhos amendoados contrastavam com os lábios volumosos rosados, como se mesmo imóveis, implorassem para ser tocados. O corpo, diferentemente do padrão oriental, era muito voluptoso. Tinha estatura mediana, quadris largos, cintura fina e seios grandes. Skamar parecia ser a personificação do amor e de toda beleza que uma mulher conseguiria ter. Mas era aquele sorriso. Aquele sorriso mais doce do que a mais fina iguaria do Olimpo. Era aquele sorriso capaz de iluminar a fresta mais obscura da sua alma.

Mu olhava encantado para a bela moça, sem dizer uma palavra.

— Mestre? Vamos? — disse Kiki estranhando a reação do mestre.

— Ah... Sim... Claro! Vamos sim, Kiki! Pronta, Skamar?