Avesso

2 Capítulo 2 - Estrela


A maçaneta estava emperrada, devido a ferrugem. Puxa, mas como chegara a aquele estado? Aparentemente estava há muitos anos sem ser aberta. Mas por onde, então, havia entrado o rapaz que vira no dia anterior? "Ai ai ai, o que eu faço? ", pensou.

Sentiu um delicioso aroma vindo de fora do quarto. Foi então que percebeu a enorme janela de madeira sobre sua cama, talvez visse alguém do lado de fora. Ajoelhou-se sobre a cama e empurrou a janela com o máximo de força que lhe restava. Esta também resistia, mas por fim se abriu. Debruçou-se o máximo que pode sobre a imponente janela e logo pode sentir o doce cheiro dos pinheiros invadindo o quarto. Ficou então maravilhada com o que viu. Estava quase ao topo de uma torre localizada em um lugar muito alto, no cume de uma montanha, talvez. No horizonte, via-se uma deslumbrante cordilheira, montanhas e mais montanhas salpicadas pelo resquício de gelo que restara de um inverno próximo, talvez. Tinha a sensação de estar no topo do mundo. Olhou para baixo e viu um enorme gramado com arbustos de rododendros das mais variadas cores, à direita a entrada de uma grande floresta e... um rebanho de carneiros!

"Aquele homem... Um pastor de ovelhas?", pensou.

— Esse cheiro é muito agradável, não é? No verão, o sol aquece as folhas dos pinheiros e este aroma invade toda a casa.

A menina virou-se em um salto, assustada com o visitante inesperado. Mu sorriu com o susto da moça.

— Como está, senhorita?

— Err, bem... Bem, acredito...

— Posso dar uma olhada? — Apontou as ataduras.

Mu tirou as ataduras das mãos e dos braços da menina. Os ferimentos já estavam em processo de cicatrização, sem grandes sinais de inflamação.

— As ervas funcionaram bem. Está melhorando.

A menina abaixou a cabeça, olhando os ferimentos. Mu a observou em silêncio. "Como as mulheres são graciosas", pensou.

Olhar para ela lhe dava uma estranha sensação de felicidade.

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— Deve estar com fome. Dorme há dois dias, sem acordar um minuto sequer. Trarei algo, espere aqui.

"E como é que eu vou sair se não consigo abrir essa por... Ué, por onde ele saiu?", pensou.

Deu de ombros e debruçou-se sobre a janela novamente. A natureza que via era indescritível! A cordilheira à sua frente era um espetáculo de tirar o fôlego, o bosque abaixo em nada deixava a desejar aos cenários de contos de fadas.

— Teve sorte de chegar no verão. Nem sempre a vista é assim, bonita. O inverno tibetano é implacável.

Mu trazia consigo uma bandeja.

— Suas roupas estão no armário, na parte superior. Kanda trocou-a enquanto esteve desfalecida. Espero que não se importe.

A garota olhou para sua vestimenta. Vestia uma casaco de lã escuro, uma calça de tecido grosseiro de cor crú. Tentou se lembrar o que vestia anteriormente. E então, começou a perceber a proporção do problema.

Mu deixou a bandeja em uma mesa próxima. Sentou em uma cadeira em frente à cama, sério, inclinou-se à garota e olhou-a firmemente.

— Meu nome é Mu. Estamos no Tibete, na província de Jamiel. Como se chama? Como veio até aqui?

— Eu... Eu... Não sei.

— Tudo bem. -disse Mu, de maneira serena — Pode me dizer como se chama, ao menos?

— Céus!

A menina passava a mão no rosto desesperadamente, fechava os olhos tentando trazer algo a memória. A sensação de vazio, a memória branca, era desesperador! Então chorou copiosamente.

— Tudo bem... Tudo bem... Não se preocupe. Não é incomum a perda de memória após um trauma. Descanse, não se preocupe, você irá recuperar suas lembranças aos poucos.

Suas palavras em nada adiantaram. A menina chorava compulsivamente. Mu hesitou por um momento, mas acariciou os cabelos da garota. Quando acalmou-se, Mu levantou seu queixo carinhosamente.

— Então... Precisamos encontrar um nome provisório para você... Até que você se lembre de seu nome original.

A menina fitou Mu, o olhar vermelho e perdido.

— Que tal... — dizia Mu em um tom amigável, tentando acalmá-la — Skamar?

Olhou-o interrogativa.

Mu apontou o pingente de seu colar. Uma estrela do mar.

— Skamar... Estrela no idioma tibetano. .