Avesso

1 Capítulo 1 - Renascimento


Existem histórias que jamais foram contadas no Santuário.

Algumas porque pertencem aos mortos. Outras porque pertencem aos deuses. E existem aquelas que são simplesmente apagadas... não por terem sido esquecidas, mas porque certas exceções são perigosas demais para serem lembradas. Há acontecimentos que não cabem nas leis escritas nas pedras, sentimentos que não deveriam nascer sob o olhar dos deuses e escolhas que, uma vez feitas, não podem ser desfeitas. Por isso, algumas histórias desaparecem. Seus nomes deixam de ser pronunciados. Seus feitos deixam de ser registrados. Suas lembranças são arrancadas daqueles que as carregam, como páginas queimadas antes que alguém possa lê-las.

Mas o esquecimento nunca é perfeito.

Algumas coisas permanecem.

Um olhar. Uma canção. Um pedaço de tecido guardado durante anos. O som de uma voz que alguém jurou ter esquecido. Uma criança que cresce sem saber de onde veio, carregando no peito uma saudade que não consegue explicar.

E, às vezes, alguém retorna.

Naquela tarde, uma mulher atravessou os portões do Santuário envolta em um manto escuro, o capuz escondendo-lhe o rosto. Caminhava sozinha, sem pressa, como se conhecesse cada pedra daquele caminho, como se tivesse percorrido aquelas escadarias em outra vida.

Era impossível não olhar para ela.

Havia força em seu corpo, elegância em seus movimentos e uma beleza que o tempo não havia diminuído. Pelo contrário. Havia nela algo perigosamente sedutor, quase sobrenatural. Mas seus olhos contradiziam tudo isso. Quando erguiam-se para alguém, traziam uma alegria luminosa, travessa, quase infantil.

Como se, apesar de tudo, alguma parte daquela mulher ainda se recusasse a crescer.

Ela não disse quem era.

Não precisava.

Na Casa de Áries, o Cavaleiro ergueu os olhos no instante em que ela surgiu diante dele.

E ficou imóvel.

Não havia surpresa em seu rosto.

Apenas aquela dor silenciosa de quem reencontra alguém que jamais conseguiu esquecer.

Ao lado dele estava sua aprendiz.

A menina olhou para a desconhecida com curiosidade.

Não a reconheceu.

E a mulher não pareceu esperar que reconhecesse.

Por alguns segundos, limitou-se a contemplá-la.

Então levou a mão para dentro do próprio manto e retirou um tecido cuidadosamente dobrado.

Vermelho-bordô.

O Cavaleiro de Áries perdeu o fôlego.

Ele conhecia aquele manto.

Conhecia cada dobra, cada marca, cada lembrança costurada naquele tecido.

Estendeu a mão, mas hesitou antes de tocá-lo.

— Eu não posso aceitar.

A mulher permaneceu em silêncio.

— Isso foi dado a você.

Ela finalmente sorriu.

Um sorriso triste, embora ainda houvesse naquela expressão o mesmo brilho infantil de seus olhos.

— Não me pertence mais do que pertence a você.

Ele fechou os dedos sobre o tecido.

E naquele instante compreendeu que ela não estava devolvendo apenas um manto.

Estava devolvendo uma parte de alguém.

Uma parte de uma história que o Santuário havia tentado apagar.

O olhar dela voltou-se para a menina.

A expressão mudou.

Havia amor ali.

Um amor tão imenso e tão doloroso que, por um breve instante, pareceu iluminar tudo ao redor.

Mas a menina não sabia.

Não sabia por que aquela mulher a olhava daquela maneira.

Não sabia por que sentia vontade de se aproximar.

Não sabia por que, ao encontrá-la, alguma coisa esquecida dentro de si parecia querer despertar.

A mulher estendeu a mão e tocou suavemente seus cabelos.

Depois voltou-se para o Cavaleiro.

— Nem ela me pertence mais do que pertence a você.

Kiki fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, havia lágrimas em seu rosto.

Ela continuou:

— Cuide dela como ele cuidaria.

E foi tudo.

Kiki respirou fundo.

Olhou para a menina.

Depois para o manto.

E compreendeu tudo o que aquelas poucas palavras carregavam.

Não perguntou por que ela estava ali.

Não perguntou para onde iria.

Talvez algumas perguntas fossem cruéis demais para serem feitas quando as respostas já eram conhecidas.

A mulher recuou um passo.

Por um instante, seus olhos encontraram os de Kiki.

Havia despedida naquele olhar.

Mas também havia promessa.

E então ela se virou.

Nenhuma explicação.

Nenhum nome.

Nenhuma despedida que pudesse ser chamada de despedida.

Apenas aquelas palavras.

E o velho manto vermelho entre as mãos de um homem que sabia exatamente o que elas significavam.

A mulher então se afastou.

Caminhou de volta pelas escadarias do Santuário sem olhar para trás.

A menina continuou observando até que ela desaparecesse.

E, naquele dia, sem saber por quê, sentiu que acabara de perder alguma coisa que nunca soubera possuir.

Talvez fosse assim que algumas histórias terminassem.

Sem testemunhas.

Sem registros.

Sem que ninguém soubesse seus verdadeiros nomes.

Mas aquela não era uma história sobre o fim.

Era uma história sobre tudo o que precisou ser esquecido para que pudesse existir.

E, para contá-la, era preciso voltar ao começo.

Muito antes daquela mulher retornar ao Santuário.

Muito antes daquela menina aprender a lutar.

Muito antes de qualquer lembrança ser apagada.

Era preciso voltar ao dia em que uma jovem desconhecida abriu os olhos nas montanhas de Jamiel...

...e encontrou Mu de Áries.


Xxxxxxxx


Acordou com feixes do sol queimando seu rosto. Não sentia mais dor. A dor tão intensa que a fizera desfalecer havia passado. Mesmo imóvel, tentou perceber cada parte de seu corpo, de início tudo lhe pareceu bem. Sentiu um profundo medo de abrir os olhos. Sabia que havia morrido, por um momento sentiu pavor em pensar onde poderia estar.

O silêncio seria total se não fosse o som de pequenos pássaros ao redor. Concentrou-se um pouco mais e pode ouvir também um som característico de mata, grilos e folhas ao vento e algo como um riacho correndo ao fundo. O lugar em que estava deitada lhe pareceu extremamente confortável. Mexeu levemente as mãos e pode perceber estar envolta em macias cobertas de pele animal ou talvez lã de carneiro. Um cheiro agradável prevalecia no lugar. O lugar não lhe pareceu ameaçador, ao contrário. Abriu os olhos, devagar. A cabeça rodava muito e lutava para manter a consciência sóbria. A claridade lhe doía os olhos e pode avistar um vulto que pouco a pouco tomava a forma humana.

Foi quando o viu, o semblante de um anjo. Com a visão embaçada, esfregou os olhos delicadamente e o fitou com calma. Sabia que as criaturas celestiais deveriam ser belíssimas, encantadoras, mas o belo anjo havia de superar suas expectativas. Era de uma beleza ímpar, inegavelmente belíssimo e de um exotismo jamais visto por ela. Um jovem homem, em torno dos seus vinte e poucos anos, tinha traços delicados porém másculos, a feição serena, o olhar bondoso e um sorriso tão belo, jamais visto antes. Vestia uma longa túnica branca que ia até os joelhos e uma calça bege clara. Tinha no pescoço um tecido rubro como uma espécie de cachecol, os pés descalços. Os cabelos longos, presos por uma fita de cetim, tinham um estranho cor de louro, semelhante à cor do trigo, mas reluziam em um tom lilás ao bater do sol. Os olhos amendoados como os de um asiático, mas estranhamente de coloração verde água. E dois pontos vermelhos no lugar de sobrancelhas.

Tentou formular alguma frase, mas percebeu-se em um estranho torpor. Sua mente estava confusa, era difícil controlar seus pensamentos. Aturdida, sussurrou sem tirar os olhos do rapaz:

— Abençoada sou. Como são belos os anjos do paraíso.

Mu sorriu divertido com o elogio não intencional.

— Você está viva, senhorita. Descanse mais um pouco, vai lhe fazer bem.

Não foi necessário pedir novamente. Dormiu um sono profundo e reparador. Acordou na manhã do dia seguinte, o corpo dolorido, mas nada insuportável. Espreguiçou-se demoradamente e olhou o quarto. Teve a impressão de estar em vários séculos atrás, em uma época distante. O ambiente era muito bonito, lembrava um cenário oriental rústico e pitoresco. O quarto tinha um pé direito muito alto, o que lhe dava uma certa sensação de fragilidade. As paredes de pedra eram ricamente ornamentadas com tecidos vermelhos e enormes painéis com delicadas pinturas cujas ilustrações retratavam épocas antigas, pareciam contar alguma lenda regional. O chão de rústicas tábuas de madeira em tom mogno já desgastado pelo tempo combinava de certa maneira com os móveis antigos, como a cômoda vermelha com detalhes verdes e dourados. Acima desta, objetos dourados, pode identificar algo como um animal mitológico. Um grande e largo espelho, com uma moldura de metal dourada muito bem trabalhada, parecia ser muito antigo. O grosso e confortável tapete de pele animal, uma espécie de divã coberto por tecidos bordados. No chão, algumas lamparinas, olhou ao redor e não viu quaisquer sinais de energia elétrica. Havia também uma pequena mesa próximo a cama, onde haviam uma jarra com água, uma tigela de barro com alguns unguentos e faixas para curativos. E uma cadeira de madeira ao lado da cama, onde estava sentado o rapaz com quem conversou no dia anterior. Rapaz... teria sonhado? Deveria procurá-lo, agradecer, dizer que estava bem. Levantou-se e foi até a enorme porta de madeira. O velho chão de madeira rangia ao pisar. Para sua surpresa a porta não estava trancada, mas....