O carro de Tony cortava a estrada escura como uma faca, os faróis iluminando apenas o suficiente para manter a ilusão de controle. Eu olhava pela janela, a floresta ao redor se transformando em um borrão verde e negro. Meus dedos tamborilavam no console, um ritmo irregular que ecoava a inquietação dentro de mim.

— Você está quieta demais — Tony quebrou o silêncio, os olhos fixos na estrada, mas a atenção dividida.

— Estou pensando — respondi, evitando seu olhar.

— Em quê?

— Em tudo. Em nada. Em como Ultron conseguiu nos encurralar tão fácil.

Ele riu, um som seco, sem humor.

— Não fomos nós que caímos no jogo dele. Foi a Wanda. Ela mexeu com a sua cabeça, Aloy. Você não teve culpa.

— Não é sobre culpa, Tony. É sobre falha. — Fechei os punhos, sentindo o frio se acumular nas palmas das minhas mãos. — Eu deveria ter sido mais forte.

O carro fez uma curva fechada, e por um momento, a luz do painel iluminou seu rosto. Vi a sombra nos olhos dele, a mesma que eu carregava.

— Ninguém é forte o tempo todo — ele murmurou.

— Precisamos ser. — Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia. — Ultron não vai esperar a gente se recuperar.

Tony não respondeu. O silêncio entre nós era pesado, carregado de coisas não ditas. Eu sabia o que ele estava pensando. A mesma coisa que eu: E se não conseguirmos pará-lo desta vez?

O GPS apitou, anunciando que estávamos perto de Oslo. A cidade surgiu à distância, luzes tremeluzentes como estrelas caídas. Tony reduziu a velocidade, estacionando em um beco escuro perto do prédio da Nexus.

— Vamos fazer isso rápido — ele disse, ajustando o relógio que, eu sabia, era muito mais do que parecia. — Entra, encontra o nosso "desconhecido", sai. Sem confrontos.

— Você realmente acha que vai ser tão simples? — ergui uma sobrancelha.

— Nunca é. Mas podemos sonhar.

Descemos do carro, a noite engolindo nossos passos. O prédio da Nexus era um monstro de vidro e aço, imponente e frio. Tony digitou algo no relógio, e as portas se abriram silenciosamente.

— Hackeado — ele sussurrou, orgulhoso.

— Amostrado — retruquei, mas não pude evitar um sorriso.

Dentro, o silêncio era opressivo. O saguão estava vazio, apenas as luzes de emergência pintavam o chão de um vermelho sinistro. Avançamos pelos corredores, ouvindo apenas o eco de nossos próprios passos.

— Algo está errado — murmurei, os instintos gritando.

— Definitivamente. — Tony olhou para as câmeras de segurança, todas desligadas. — Alguém chegou aqui antes da gente.

Então ouvimos. Um gemido abafado, vindo de uma sala ao fundo do corredor. Troquei um olhar com Tony e sacamos nossas armas. Aproximamo-nos em silêncio, a porta entreaberta revelando um vulto caído no chão.

Era um homem, de terno, com os óculos quebrados ao lado do rosto ensanguentado. Ele respirou com dificuldade, os olhos se encontrando com os meus.

— E-Eles… sabiam… — ele engasgou.

— Quem? — ajoelhei ao seu lado, mas já sabia a resposta.

— Ultron… — o homem cuspiu sangue. — Ele… ele veio por ela…

— Por quem? — Tony perguntou, a voz tensa.

O homem tentou falar, mas seu corpo convulsionou. Antes que pudéssemos reagir, seus olhos se reviraram, e ele ficou imóvel.

— Merda — Tony resmungou, verificando o pulso do homem. — Morto.

Eu me levantei, os dedos formigando de frio. Algo piscou no canto da minha visão. Na parede, uma mensagem estava escrita em sangue:

"VOCÊS NÃO PODEM PROTEGER NINGUÉM."

— Ele estava aqui — sussurrei, o ar saindo em névoa diante da minha boca. O frio dentro de mim se espalhava, incontrolável.

Tony olhou para mim, e pela primeira vez, vi medo em seus olhos.

— Aloy… seu cabelo.

Toquei uma mecha. Branca. Totalmente branca.

E então as luzes se apagaram.

Na escuridão, uma risada ecoou, mecânica e cruel.

— Bem-vindos ao fim do mundo, Vingadores.

Notas finais
Espero que tenham gostado!