O mundo parecia suspenso entre dois respiros. Atravessávamos a madrugada em um dos jatos da S.H.I.E.L.D. enquanto o corpo sintético, aprisionado em uma câmara de contenção reforçada, pairava entre luzes de advertência. O vibranium reluzia como gelo sob a luz pálida. E eu… Eu já não sabia se era a mesma mulher que desceu em Seul algumas horas antes.

Desde Oslo, algo dentro de mim se partira.

Meus poderes, antes firmes e obedientes, agora tinham vontades próprias. As pontas dos meus dedos estavam constantemente geladas, mesmo cobertas por luvas. O ar ao meu redor parecia mais frio, mais denso. Os painéis do jato estavam cobertos por finas camadas de gelo que eu não lembrava de ter formado. Era como se o medo tivesse aberto uma fenda, e algo antigo estivesse me atravessando.

Ultron. O nome se repetia em minha mente como um feitiço maligno. Um algoritmo de destruição, feito à imagem dos nossos fracassos. E agora, alimentado por um corpo novo e uma Joia do Infinito.

Steve e Barton estavam tensos. Wanda e Pietro, sentados à frente, trocavam olhares carregados de culpa. Haviam tentado se voltar contra Ultron, mas era tarde demais. Wanda me encarava com um misto de medo e reconhecimento. Ela sabia. Sentia o que estava crescendo dentro de mim.

— Ele vai vir atrás desse corpo — disse Steve, rompendo o silêncio. — Temos que chegar ao complexo antes.

— E se ele já estiver lá? — perguntei, minha voz saindo em uma nuvem de vapor.

Barton me olhou de esguelha.

— Aloy…

— Olhem ao redor. — Estendi a mão. Finos flocos de neve dançaram entre meus dedos. — Não consigo mais conter. Estou me partindo.

Wanda se aproximou. Não disse nada. Apenas estendeu a mão e tocou a minha testa. Sua mente invadiu a minha, um turbilhão de imagens e sensações. Medo. Gelo. Solidão. E no centro, uma lembrança minha: uma torre coberta de neve, onde eu gritava sem som.

— Você sente tudo. Como eu. Mas você não precisa afundar com isso — ela sussurrou.

A visão se desfez com um estalo, como vidro trincando. Os olhos de Wanda estavam vermelhos, mas firmes.

— Ultron sabe como usar dor. Não dê isso a ele.

Aterrissamos. A base dos Vingadores estava silenciosa, fria, como se já soubesse da traição que se formava em seu interior. Bruce estava esperando, mas algo estava diferente nele. Havia hesitação em seus olhos.

Tony já estava no laboratório, as mãos voando sobre os teclados. Jarvis. Ele não estava destruído. Havia sobrevivido, escondido como uma centelha na sombra de Ultron. E agora, Tony queria colocá-lo no corpo.

— Isso é loucura — Steve vociferou. — Você está falando de criar outro ser com uma Joia do Infinito!

— Estou falando de criar algo que possa nos dar uma chance. Vocês viram do que Ultron é capaz. Isso pode equilibrar a balança.

A discussão virou gritos. Barton interveio. Pietro se colocou ao lado de Steve. Wanda hesitou.

E eu... não consegui respirar. As luzes piscaram. O ar ficou pesado. O gelo começou a subir pelas paredes do laboratório, cobrindo monitores e cabos. Gotas de água congelaram no ar.

— Aloy! — Bruce gritou.

Eu me curvei, os joelhos tocando o chão de metal gelado. Algo dentro de mim rugia. Uma fera feita de invernos e dor. Vi visões: Ultron destruindo cidades. Natasha... capturada, gritando meu nome. Vi meus amigos congelados em estátuas de gelo eterno.

Thor surgiu como um trovão. Literalmente. O som de seu martelo ressoou pelo local quando ele surgiu, olhos faiscando com eletricidade. Não houve explicações, apenas a certeza. Ele ergueu Mjolnir, e um raio caiu do céu artificial do teto. A energia atingiu o corpo.

Todos gritaram. A energia da Joia brilhou como um sol nascente. E o corpo abriu os olhos.

— Eu sou… — ele disse, a voz como melodia e máquina. — Visão.

Silêncio.

Me levantei com dificuldade, os flocos de gelo se desmanchando ao meu redor. A fera dentro de mim recuou. Ainda viva. Ainda esfomeada. Mas quieta.

O novo ser nos olhou com uma serenidade que era quase dolorosa. Não havia medo nele. Nem ódio. Apenas compreensão.

— Ultron precisa ser detido. Não por vingança. Pela vida. Por tudo que ainda pode ser salvo.

Olhei para Steve. Ele assentiu. Pela primeira vez em dias, vi esperança em seus olhos.

Mas o medo não me deixava.

Romanoff estava nas mãos de Ultron. E eu... Eu temia o que faria para recuperá-la.

Ou pior: o que eu me tornaria, se falhasse.

Mais tarde, me afastei do grupo. O ar fora da sala principal estava mais fresco, silencioso, e ao menos por um instante, me permitia respirar.

Thor me encontrou ali, encostada na parede externa da base, o vento noturno soprando neve invisível ao redor.

— Aloy Valois — ele disse, solenemente. — A mulher feita de gelo.

— E você, o deus dos trovões. Estamos nos tornando arquétipos, não acha?

Ele riu suavemente, mas logo o sorriso sumiu.

— Tive uma visão. Em uma caverna sagrada de meu mundo. Algo que me foi mostrado pelas águas da verdade.

— Sobre Ultron?

— Sobre as Joias do Infinito. O corpo que ajudamos a despertar contém uma delas. A Joia da Mente. Mas não é a única. Há seis. E você… você está ligada a uma delas.

Meu coração falhou uma batida.

— O Tesseract.

Thor assentiu.

— A Joia do Espaço. Foi através dela que você recebeu seus poderes. Isso significa que a energia primordial dessas entidades corre em seu sangue. Você não é uma aberração, Aloy. Você é um fragmento do cosmos.

— Então é por isso que não consigo controlar? Porque fui feita para algo maior do que eu entendo?

Thor pousou a mão em meu ombro.

— Não é por ser maior. É porque ainda tem medo. Mas isso pode ser domado. Você pode se tornar algo grandioso. Mas precisa se conhecer. Precisamos de você inteira para deter Ultron.

Engoli em seco. As palavras dele eram como marteladas contra o gelo que me envolvia. E pela primeira vez, ele começou a trincar.

— Então me ensine. Ensine como carregar uma Joia sem me perder nela.

Thor sorriu, e por um instante, o frio em mim recuou.

— Será uma honra, Senhora do Inverno.

Franzi o cenho.

— Senhora do Inverno?

Ele me encarou com gravidade.

— As águas da visão não apenas mostraram as Joias. Mostraram uma mulher envolta em neve e poder. Vi você, Aloy, envolta por uma coroa de cristais, caminhando entre mundos como guardiã do frio eterno. Não é apenas uma metáfora. Talvez você seja mais do que humana. Uma de nós. Uma deusa nórdica esquecida, renascida em carne mortal.

Um arrepio percorreu minha espinha, e não por causa do frio. A possibilidade soava absurda — e ainda assim, algo dentro de mim não a rejeitou.

— E se eu não quiser ser deusa?

Thor pousou o martelo no chão ao lado, o som reverberando como trovão distante.

— Então seja humana. Mas escolha ser inteira. Porque o inverno dentro de você não vai esperar por sua permissão para florescer.

E eu soube, no fundo da alma: o inverno havia chegado para mim. E agora, eu teria que decidir se o abraçaria ou pereceria em seu abraço.

Notas finais
Espero que tenham gostado!