Avec mortem
3 Vampiros NÃO Existem?
Passados alguns minutos de silêncio e solidão compartilhada, os oficiais presentes se amontoaram em um pequeno círculo, há alguns passos do corpo, prontos para discutir as informações que haviam descoberto. Ao juntar-se ao diminuto grupo, até então composto por três colegas de trabalho, café ainda em mãos e luvas descartadas, Radu voltou a cumprimentar os presentes.
O policial Klinsmann foi o primeiro a devolver a cortesia, com um sorriso breve e um leve aceno. Logo em seguida, Mircea Zamfir, perito criminal do distrito de Timis e antigo parceiro na Poliţia das épocas de academia, adentrou a pequena reunião, lhe devolvendo o cumprimento com um leve aceno de cabeça, ajoelhando-se e descobrindo o cadáver para examinar melhor
Os outros dois policiais, Zanfreu Schaffer e Tobias Hamleu, estavam envolvidos em um debate animado sobre alguma espécie de jogo a que assistiriam mais tarde, e não tardaram a desertar do pequeno círculo em direção a uma das viaturas oficiais estacionadas sobre um ponto da calçada, sem nem mesmo se despedirem.
Klinsmann, ao assistir a cena, deu de ombros, retirando uma pequena caderneta de seu bolso. Minutos se passaram com Mircea e suas ferramentas de coleta trabalhando diligentemente, enquanto Ionescu acompanhava tudo, em silêncio. Algum tempo depois, ao ver que o outro guardava seus materiais de trabalho novamente na maleta de transporte, Radu concluiu que já poderia interrompê-lo.
— Então, o que temos? — Uma pergunta simples, abafada por um gole do café que, agora, já se encontrava gelado.
— Mulher. Deve ter uns cinquenta e tantos, mas disso você já sabia, acho. Perfuração dupla sem ferimento de saída, o que condiz com execu-- Isso é café?! — Mircea Zamfir, perito do distrito de Timis, disparou em um estalo, enquanto fazia uma espécie de escudo com as mãos, disposto a proteger o corpo de possíveis gotas microscópicas de café.
— Vai contaminar a cena!
Radu limitou-se a revirar os olhos, bebendo de uma só vez o café que lhe gelava a garganta e o cérebro, enquanto fazia uma nota mental para, da próxima vez, beber todo o café quando ainda estivesse quente e antes dos peritos criminais chegarem e começarem a encher o saco. O detetive fez uma careta. — Já terminei, sem perigo de contaminação. Mais alguma coisa?
Mircea suspirou e continuou, sua atenção voltada para o cadáver. — Na verdade, sim. Não tem tanto sangue aqui quanto deveria ter. Meu palpite é que ela foi drenada. Soa familiar?
Radu estalou a língua em reprovação.
Confirmado. Mais um corpo.
— Sim. O caso dos corpos sem sangue?
— Exatamente.
Aquilo não era bom. Há duas semanas, corpos que pareciam ter sido drenados e sem relação aparente entre si, começaram a aparecer por Timișoara. E, em pouco tempo, a situação saiu do controle de tal forma que até mesmo investigadores particulares tinham sido contratados pela prefeitura para ajudar a Poliţia a resolver o mistério do "Vampiro de Timișoara", assim apelidado pelas autoridades locais, antes que as informações vazassem para a mídia e o caos se instalasse na cidade.
Mas Radu não parecia feliz com nada daquilo.
—Tá. Hora da morte?
Dessa vez, foi Klinsmann quem respondeu, folheando sua pequena caderneta de bolso.
— Certinho mesmo só a legista pode falar, mas... algumas testemunhas do café da esquina viram um rapaz e uma mulher, que condiz com a descrição da vítima, sentados na beirada do chafariz há umas... duas horas, acho. Mas nenhum deles sabe dizer como a vítima e o suspeito chegaram lá. Somando isso à neve acumulada por aqui,, eu diria que a morte foi há uma hora e meia, mas é um chute.
— Certo. — Radu suspirou, enquanto guardava o copo de café usado em um dos bolsos de seu casaco Mackintosh azul escuro. — Temos uma descrição do rapaz?
— A maioria das testemunhas disse que estava escuro e que não era possível distinguir muita coisa, mas o garçom disse ter dado uma boa olhada no cara. O que sabemos até agora é que o suspeito é alto, tem pele clara, sem barba, cabelos claros longos e usava roupas escuras. A descrição bate com a que o pessoal que achou o outro corpo deu, uma semana atrás.
— Hmm... — O detetive fixou o olhar em direção ao chão, para examinar uma última vez o cadáver, não detectando nada além do que já sabia. Mesmo assim, era hora de agir.
— Okay. Klinsmann, leve o garçom para fazer um retrato falado. E usa o celular para anotar as coisas, cara. A caderneta tá fora de moda e dificulta o trabalho. — Klinnsmann ignorou a bronca de Radu, ocupado em tentar decifrar o que tinha escrito em sua caligrafia muito mais do que infantil. O detetive continuou:
— Vou ajudar Zamfir a checar as digitais no sistema e procurar mais evidências na praça. E, por favor, peça para um dos policiais entrar em contato com o escritório e informar que temos mais um corpo para a dupla de investigadores particulares. Eles já devem estar chegando, mesmo.
— Como quiserem, vossas altezas! — O policial respondeu em tom de deboche, guardando a famigerada caderneta no bolso e fazendo uma leve reverência. Mas antes que Ionescu pudesse responder, Klinsmann já tinha ido cumprir o que lhe fora ordenado.
— Esse cara não cresce nunca? — Radu indagou carrancudo, mais para si mesmo do que para Zamfir, que apenas sorriu e balançou a cabeça. — Radu é um nome bem comum, oras. Assim como Mircea. Não é culpa nossa que metade dos governantes antigos se chamavam Radu ou Mircea. Já não bastam os turistas perguntando sobre isso toda hora? Os territórios deles não fazem parte nem do nosso território estadual!
— Andou pesquisando, foi? — O perito reagiu, e Ionescu apenas fez uma careta de desaprovação. — Não são só governantes, ou melhor, Voivodas, Radu. Mas sim, Voivodas relacionados ao Vlad Țepeș. Sabe como o Klinsmann gosta dessa lenda velha.
Zamfir tinha razão. Andreas Klinsmann tinha um fascínio por vampiros e Strigois. Fato que o levou a se mudar, ainda jovem, da cidade gelada de Frankfurt, na Alemanha, para Timișoara, com a intenção de estudar Folclore e Mitologia na Universitatea de Vest, e construir sua vida ali.
Como ele tinha acabado na Poliţia ainda era um mistério.
— Além do mais — Mircea continuou — essa lenda velha sustenta uma boa parte da economia da nossa querida pátria, desde que, bem, você sabe.
Radu sorriu de canto, sem esconder o sarcasmo. Aquele era um tópico sensível para Zamfir, mas não significava muito para Ionescu.
— Não estamos mais na década de oitenta, Mircea. Não precisa ter medo de falar as coisas, não podem mais te prender.
— Eu sei — respondeu o perito, em um tom derrotado, quase como se tivesse que fazer um esforço físico para não se encolher — mas hábitos velhos custam a morrer. Sei que já se passaram alguns anos, mas sou um homem velho, Radu. E a maior parte da minha vida, eu passei sob o governo deles.
— Velho? Você tem quarenta e tantos anos, cara! Além de quê, o governo "deles"— o detetive fez aspas com as mãos, ainda sem entender o porquê de seu amigo relutar tanto em usar a palavra— não existe mais. E nunca mais vai existir outro igual. Ou você acha mesmo que depois de tudo que o povo aguentou, ainda existe alguma chance de um novo regime desses se instalar na Romênia?
Zamfir respirou fundo. Não era do feitio dos mais novos, o que incluía Radu, entender o que foi o regime de Nicolae Ceausescu em seus longos vinte e quatro anos de duração. Memórias eram coisas inexplicáveis, e que nunca eram transmitidas da maneira certa — até porque, quem poderia dizer qual maneira é a certa? — o que tornava os conflitos de geração ainda mais...conflituosos.
Ao estalar de dedos de seu colega, que se encontrava ajoelhado, em sua frente, com uma expressão de preocupação em suas feições, voltou à realidade, questionando a si mesmo sobre quanto tempo tinha se passado desde que respondera Radu da última vez, a ponto do mesmo se ajoelhar em sua frente sem que ao menos tivesse percebido.
— Tá’ tudo bem? Você parecia longe... — Radu interrogou, levantando-se e limpando os joelhos das calças, que teimavam em se sujar de neve.
— Estava — afirmou Mircea, sorrindo de leve. — Mas não tão longe quanto você imagina. Nada de vampiros, sabe. Ao menos, não vampiros mitológicos.
— Qual tipo, então? — Radu perguntou, curioso. Seus olhos refletiam alguns dos flashes de luz artificial dos cavaletes de luz da polícia e, mais uma vez, Mircea se deu conta de que quem estava na sua frente era só um garoto. Curioso, ranzinza e cabeça dura, na maioria das vezes, mas um garoto, com um bom coração, e que não merecia ouvir suas lamúrias de tempos remotos. E aquele não era o momento para uma aula de História; existia trabalho a ser feito. O perito retribuiu com outra pergunta, preferindo deixar o assunto para lá:
— E faz diferença? Para os turistas, nós todos somos vampiros.
Ionescu revirou os olhos e respondeu, seu humor mudando drasticamente, mesmo que existisse um tom divertido em sua voz:
— É. E como isso me irrita.
Já Zamfir apenas sorriu, mais uma vez, e balançou a cabeça. Muitos sorrisos tinham sido distribuídos para uma noite tão fria e triste como aquela.
— Entendo, meu amigo. Mas quer um conselho? Acostume-se. Porque vai piorar, e muito.
Radu sentiu um arrepio percorrer sua espinha, sem entender direito o porquê daquela reação.
— Como assim "piorar, e muito"? Não vai me dizer que você é o serial killer, Mircea, e planeja matar mais gente. Ou pior, que é um vampiro— O rapaz fez uma expressão involuntária de infortúnio, complementada por um bico que o fazia parecer uma criança birrenta, e que de imediato fez Mircea rir novamente.
Na maioria das vezes em que as lendas antigas vinham à tona, Radu apenas revirava os olhos — sua reação mais típica — e continuava. Mas, dessa vez, e todas as vezes em que esse caso, em especial, estava envolvido, algo em sua intuição lhe gritava "problemas! problemas!", com uma voz aguda e grudenta, e Radu não pôde deixar de se espantar. E de corar de leve, depois das risadas de Mircea.
— Me refiro aos investigadores que chegam amanhã para consultar no caso dos assassinatos bizarros, caso que, creio eu, envolve essa mulher aqui... — respondeu, enquanto se levantava e retirava o gelo de seus joelhos com leves tapinhas.
— Achei que fossem dois agentes que viriam — retrucou Radu, ainda sem entender a situação.
— Parece que não. Recrutaram mais um detetive além dos dois, pelo que soube. Um cara grego. — Mircea respondeu, factualmente.
— Okay, mas... o que isso tem a ver? Nada muda o fato de que esse caso é uma farsa, Mirc. — Radu replicou desapontado, enquanto apalpava os bolsos do casaco em busca de um cigarro, ação que cancelou ao perceber a cara de desaprovação do perito criminal em sua frente; uma simples sobrancelha erguida, mas que passou muito bem o recado.
— Quer dizer, eu até entendo um pouco. Tem gente morta caindo pelo centro histórico, sem sangue, faz duas semanas, e tudo o que a gente conseguiu como suspeitos foi uma seita de garotos riquinhos que se consideram neo-pagãos— Radu fez uma careta, e Mircea balançou a cabeça mais uma vez, de pronto responde o amigo:
— Sim, e os garotos foram inocentad--
— Que seja. Aposto que isso — Radu interrompeu, apontando para o corpo da senhora no chão — é tudo culpa de um bando de turistas desocupados que leram Drácula mais vezes do que é saudável. Ou de alguma conspiração para atrair mais turistas. Vampiros não existem!
— É sempre culpa dos turistas pra você, não é? Isso é praticamente xenofobia, mas enfim...
Radu franziu o cenho. — Não é xenofobia, é turistofobia mesmo. Tem ideia de quantas vezes turistas já me perguntaram se eu conheço ou sou algum vampiro?! seis!! E eu trabalho só no turno da noite desde que eu entrei!
O detetive Zamfir suspirou, verificando o relógio por baixo da luva de plástico: 4:05 da manhã.
— A gente fala dos turistas, mas sempre acaba falando dos vampiros também, não é? Enfim. Só queria te alertar que o sobrenome do detetive grego é Drăculești, como da casa de Drăculești. A Casa Real do verdadeiro Vlad Țepeș. Klinsmann não tem falado de outra coisa no batalhão desde que descobriu.
Zamfir divertiu-se ao lembrar da animação do colega policial que, no momento, parecia conversar com um garçom muito irritado há algumas dezenas de passos dali.
Ionescu respirou fundo.
Precisava de uma aspirina com urgência.
E de mais café.
E de férias!
E de um maço novo de cigarros, porque os seus estavam praticamente congelados, e não acenderiam tão facilmente.
Pensando bem, talvez precisasse de algo mais forte que café.
O rapaz suspirou.
Esse caso ainda vai acabar comigo.
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