Avec mortem

4 Santorini, A Terra Do {des}amor


21 de janeiro. Santorini, Grécia. Pouco antes do meio-dia.

Devrim fechou o notebook com um pouco menos de cuidado do que o normal. Já passava de meio-dia e sua esposa Veronika, Vyka para os íntimos, ainda estava para chegar do trabalho; trabalho esse que tinha acabado por volta das oito da manhã, mais ou menos quatro horas atrás.

O rapaz suspirou e ponderou sobre suas possibilidades. Olhar pela janela da frente procurando algum sinal dela significaria dor instantânea por causa do sol, e seu telefone estaria desligado, como sempre. Talvez devesse tirar um cochilo, afinal, já estava bem tarde para seu relógio biológico, mas sabia que não conseguiria dormir sem saber onde Vyka tinha se metido dessa vez. Mesmo que sua intuição, e a incômoda dor oca no peito que vinha com isso, fossem pistas suficientes para que soubesse muito bem onde ela estava.

Sem mais opções, resolveu esperar pela sua chegada.

Devrim não conseguia se lembrar de quando tinha sido a última vez em que ele e sua esposa tinham tido uma conversa civilizada. O relacionamento estava, há literais séculos, indo de mal a pior, mesmo que existissem breves momentos de felicidade em meio a um mar de frustrações. Veronika, nos últimos tempos, evitava-o tal como se ele fosse o diabo — o que não era uma tarefa difícil: se, com todo o sol de Santorini e uma sede gigantesca, as possibilidades de deslocamento de Devrim para outro lugar que não um dos cômodos da casa já não fossem escassas, havia o "algo mais": os arredores da casa estavam infestados de símbolos de proteção; era essa condição imposta pelas autoridades imortais sobre Devrim, para que pudesse morar em um cidade turística como Santorini. Algo que tornava a entrada de humanos na casa desconfortável e a saída de criaturas não humanas uma verdadeira tortura.

Não que Vyka se afetasse com isso. Graças a seu status como híbrida, os selos não faziam efeito: no máximo, sentia um leve desconforto em dias ruins, o que a deixava livre para fazer o que bem entendesse.

Nada de novo no front.

Com outro suspiro, e mais desconcertado do que antes, o rapaz levantou-se da pequena escrivaninha e foi em direção à cozinha. As cortinas corta-luz garantiam a pouca luminosidade natural do local, mas Devrim não sentiu necessidade de acender as luzes artificiais. Abriu a geladeira. Lá de dentro, várias garrafinhas o encaravam, chamativas. Engoliu em seco, sentindo a sede subir pela garganta e queimar sua boca.

Na pirâmide de poder entre os Imortais, também conhecidos como Vampiros, Caminhantes, Monstros e muitos outros nomes, Devrim se encontrava em uma posição perigosamente baixa — e sua sede era um efeito contrário a isso.

Existiam os Protum, originalmente amaldiçoados; os Deftrum nascidos do relacionamento entre criaturas de meios diferentes, ou seja, híbridos, e os Koinum, que formavam a base da pirâmide. Os Koinum eram divididos em duas categorias. Aplotum eram comuns, porém, completos. Já os Vitium, não tinham tido essa mesma sorte e, graças a isso, tornavam-se máquinas descontroladas de extermínio em massa. Existia toda uma estrutura social e política na sociedade imortal, assim como uma força de executores que caçavam Vitium a todo custo, a fim de manter a ordem e a discrição para todos os Imortais. E caso algo contrário a isso acontecesse, as punições, garantidas pelo Tribunal dos Imortais, eram severas.

Devrim caminhava pela linha tênue entre ser um Vitium e um Aplotum.

Quando foi transformado, há mais de 450 anos, por um Imortal decadente — Aplotum ou mais, que não soube controlar sua sede e acabou como Vitium—, o rapaz não teve a oportunidade de absorver mais do que alguns respingos do sangue de seu criador. A então criatura, um Protum chamado Klaus Voykyov, virou poeira antes mesmo de seu corpo tocar o chão.

Suas duas opções, naquele momento, eram claras: ser um Vitium ou morrer. Devrim optou pela segunda, que foi, de pronto, concedida por Vyka; mesmo representando grande dor para ambas as partes.

Mas algo deu errado no processo. E cerca de 7 dias depois, no meio da noite mais fria de que se recordava, o rapaz emergiu da terra onde tinha sido sepultado, como se nada — ou quase nada — tivesse acontecido. Desde aquele dia, com um autocontrole impressionante e uma dieta restritiva à base de sangue Deftrum provido por sua esposa, Devrim contornava seus impulsos destrutivos, mesmo que isso limitasse seu convívio com humanos de maneira drástica.

Com o tempo, a sua sede também entrou sob uma espécie de controle: Sem que Vyka soubesse (se percebeu, não tinha comentado), o escritor se treinou para consumir cada vez menos sangue, numa tentativa de distanciar-se o máximo possível de um futuro sanguinolento; e, ironicamente, de sua esposa.

Mas isso não significava que não sentia sede.

O rapaz sacudiu a cabeça, tentando afastar a queimação em sua garganta e os pensamentos inoportunos de carnificina. Então, retirou alguns ingredientes e fechou a geladeira, fazendo o mesmo com o armário de canto, de onde selecionou três pequenas panelas. Seu plano era simples: esperar que sua esposa voltasse para casa, e enquanto isso, fazer algo que pudesse ser entendido como um almoço, comestível o suficiente para que Vyka se alimentasse sem fazer muita cara feia. Com sorte, estaria bastante cansado para dormir por algumas dezenas de horas após tudo estar pronto. C om a alimentação reduzida, também se reduzia sua energia, e não seria sua primeira pseudo-hibernação do ano. Se tivesse mais sorte ainda, Vyka iria entender aquilo como um sinal de paz, e não gritaria tanto na próxima vez que se irritasse com algo que seu esposo tivesse feito, ou deixado de fazer.

Era realmente um plano perfeito, não fossem a queimação incômoda em sua garganta e a obstinação de seu cérebro em projetar imagens sangrentas em sua mente, que faziam com que se sentisse uma criança observando um buffet de sorvetes. Mesmo assim, Devrim resistiu bravamente, sacudindo a cabeça com força novamente para afastar ideias indesejadas. Sua esposa deveria chegar a qualquer momento, e sua parte humana precisaria de comida. E naquele instante, acima de tudo, ele tinha uma necessidade urgente de distração.

Mesmo depois de terminar o cozimento, dispor os pratos na mesa e lavar a louça, Devrim ainda não se sentia bem. Pensou em voltar para o computador, e terminar de revisar o último capítulo que tinha escrito, mas achou por melhor distrair-se de outra forma: resolveu ligar a TV e assistir algo para acalmar os nervos. Zappeou por um tempo até encontrar um canal qualquer, que exibia um documentário sobre a vida na Grécia clássica, no qual focou sua atenção. E assim, um longo tempo se passou.

O escritor estava muito próximo do sono quando, de repente, um som alto de vidro estilhaçado veio do segundo andar. O rapaz levantou-se de súbito. Porém, nada pôde fazer, já que algo pesado o atingiu na parte de trás da cabeça quase que instantaneamente.

Devrim sentiu uma dor aguda na nuca, suficiente para atordoá-lo de tal forma que todo seu corpo atingiu o assoalho. Em uma última tentativa de resistência, procurou focar o olhar nas silhuetas de roupas escuras que pareciam surgir do chão sob si, mas não foi possível. Em questão de segundos, recebeu mais um golpe. Sua visão escureceu, e tudo deixou de ser.