Notas iniciais
Feliz Natal, gente. Trouxe um cap longo de presente. Nesse cap damos uns dois passos em direção ao futuro para explicar algumas coisas. :3 A história volta pra sequência temporal normal no próximo capítulo, não se preocupem. Espero que gostem. :3

– Rahan! Rahan! — gritava o avatar enquanto sacudia o espírito com força.

Mas Rahan não respondia. Seu corpo paralisado só tendia a decair na lama, foi então que Kay fez um rígido movimento com os braços e uma plataforma se ergueu desde o fundo do rio de barro.

– Eu posso sentir sua energia desaparecer aos poucos — Quen chegou aterrisando com o fogo, tinha o semblante baixo.

– Que tipo de avatar eu sou?! Rahan era o último espírito entre nós e não fui capaz de defendê-lo! Eu falhei, Quen! — dizia Kay chorando sobre o corpo de Rahan.

– Kay...

– Quero saber quem fez isso — disse o avatar. A ira tomava conta de sua face.

Ele tocou institivamente a testa de Rahan e o horizonte ficou branco. Seus olhos brilharam e depois ele viu um conjunto de homens que o encurralavam. Começou a correr entre as vinhas. Mexia os braços e as vinhas atacavam os homens, que as queimavam com tochas. Alguns outros afundavam o pântano com dominação de terra e lançavam rochas enormes derrubando as mais majestosas árvores do local.

– Essas árvores são minhas amigas! — disse Kay — Vocês vão pagar por isso!

Então ele estava sozinho com um homem de olhos trasparentes.

– Olá, espírito, eu sou Matt. Você mais do que ninguém deve saber onde está o avatar. Diga-me onde ele está e eu deixo o seu pântano em paz — disse o homem enquanto tudo ao seu redor queimava e desabava.

– O avatar é mais poderoso que todos vocês juntos, seu tolo, nunca vi tanto poder na minha vida! Um verme como você nunca iria ser capaz de capturá-lo — disse Kay rindo. Se encontrava bastante machucado.

– Estou disposto a matá-lo se for preciso — disse Matt com uma expressão intensa.

A paisagem mudou e já não se via muito verde restante. Só barro, lodo, fumaça e árvores derrubadas. Matt se encontrava a uma distância de 10 metros. Vários homens ao seu redor vigiavam enquanto lutavam. Matt fez acrobacias rasas erguendo vários espinhos de terra em sua direção. Kay movimentou as mãos e várias vinhas verdes surgiram como espinhos contra- atacando.

– Eu sou o Grande Espírito dos Charcos, Rahan. Esse pântano é meu reino! — gritou Kay — não vou permitir que você o destrua dessa forma, garoto...

Matt preparou uma posição de luta com os braços.

– Desculpe-me, Avatar Wan, vou ter que descumprir nosso antigo trato. Esse humano... Vou possuir seu corpo até consumí-lo completamente — sussurrou.

Kay então deu um grande salto em direção a Matt. Voava enquanto desviava das pedras que o outro lhe lançava. Imediatamente antes de alcançá-lo ele caiu. Se contorcia de dor no meio da lama. Algo havia lhe atingido.

– Você aqui!! Meu corpo...

Kay percebeu que uma energia voraz lhe consumia por dentro. Uma energia que lhe era familiar de alguma forma.

– "Preciso avisar Quen!"

Enquanto se dobrava no chão, Matt se aproximou de seus ouvidos.

– Se você não pode me dizer onde está o avatar, ao menos me diga onde posso encontrar uma pessoa... Se você me dá essa informação, lhe deixo em paz... — disse Matt murmurando para que seus homens ao redor não ouvissem — Quen, da Nação do Fogo e Kay, do Reino da Terra.

Kay apenas agonizava. Matt primeiro pensou que era um truque mas depois realmente viu que o espírito estava decaindo em sua forma. Ele se levantou e foi até o seus homens.

– Vamos, ele está morto.

De repente Kay estava outra vez ao lado de Quen tocando a testa de Rahan.

– Matt... — murmurou Kay. Lágrimas escorriam em sua bochecha.

– Matt fez isso? — perguntou Quen com um tom inalterado como se já soubesse desde o principio.

– Eu vi através de Rahan...Você tem razão. Não há como conversar com ele... Matt está irrazoável... — disse o avatar triste. Seus olhos então brilharam outra vez junto com suas lágrimas.

– O mínimo que eu posso fazer é preparar esse lugar para seu renascimento — disse Kay com a voz rouca acumulada de vários avatares — Não se preocupe Rahan, esse pântano renascerá um dia ainda mais grande e forte. Um santuário espiritual no centro do Reino da Terra onde todas as mentes nubladas venham buscar sabedoria. Um pântano cujas raízes tão profundas sejam capaz de integrar espiritualmente todo o continente!

Ele subiu ao céu com um jato de fogo e começou a fazer movimentos amplos com a mão formando rajadas de fogo cadentes. O fogo tomava contato com o pântano devastado desintegrando tudo em cinzas.

"Ele está purificando o pântano com o fogo do dragão. O fogo sagrado que exerce combustão completa sobre qualquer material sem produzir fumaça ou odor, apenas cinzas..."

– Eu posso te ajudar com isso Kay!

Quen tragou um pouco das chamas e deu um grande salto. Acompanhando Kay, lançou intensas labaredas laranjas contra o solo. As ondas de fogo consumiam tudo ao redor fazendo estalar o ossos de madeira do pântano. Se locomoviam em turbilhões, como seres com vida própria.

Quando eles acabaram, caíram no chão exaustos. Já não havia mais fogo algum. As cinzas formavam um deserto de dunas prateadas. O calor intenso havia criado uma zona de baixa pressão que atraiu nuvens das quatro direções do Reino. Chovia.

– Você preservou o corpo de Rahan... — dizia Quen segurando o que restava do espírito. Era a única coisa que não havia sido incinerada no lugar.

– Devemos enterrá-lo — disse Kay ainda um pouco tonto — Rahan merece renascer junto com o pântano.

– Isso é apenas uma casca, Kay. A aparência do primeiro avatar que o espírito usava para se apresentar aos humanos. É perigoso deixar parte de sua energia atada a essa âncora material. Ela deve ser dissipada completamente para que Rahan renasça outra vez do nada.

– Esqueça, eu não vou deixar você queimá-lo, Quen — disse Kay protegendo o espírito com suas mãos.

Cavou um buraco entre as cinzas e descansou o corpo de Rahan no fundo.

– Descanse em paz, amigo. Com sorte, um dia nos veremos denovo.

*4 meses depois*

Era solisticio de verão. Naquele mesmo lugar o chão ainda era adornado por algumas dunas de prata. Gramíneas cresciam entre elas fixando as primeiras formas de vida. Brotos trazidos por pássaros também começavam a desabrochar. O ar fresco atraía os mais diversos polonizadores. O pântano estava renascendo conforme Kay predicera.

Mas algo estranho acontecia no subsolo. Uma mão pálida irrompeu da terra com bastante força. Da casca enterrada de Rahan emergia um grande mal. Um velho impostor que vagava agora livremente pelo mundo espiritual. Mal era humano, tinha fisionomia amorfa. Das sombras do mundo dos espíritos conseguiu sintonizar com a energia do último espírito vivente no mundo humano. Rahan. Por algum tempo observava através dele sem ele perceber. Viu um jovem do Reino da Terra entrar confuso no pântano liberando fogo descontroladamente de suas mãos. Imediatamente tratou de avisar seus velhos aliados. "Ela está de volta!". Depois, viu alguém atacando o garoto. Entre os véus de chamas intensas pôde ver de forma inequívoca aquela mulher. Primeiro sentiu medo e logo ódio. Aquela princesa do fogo que andava entre dragões e tinha lhe causado tanto problema no passado estava viva!

Então viu um jovem militar com uma frieza terrível nos seus olhos verdes claros quase transparentes. Um recipiente perfeito para seus planos malignos. Enquanto Rahan definhava pela queda do pântano, mandou um grande pulso de energia para queimar sua alma por dentro. Necessitava de uma energia espiritual ligada ao mundo humano para renascer.

"Você aqui?!" "Meu espírito..." "Preciso avisar Quen!" "Kay corra! Fuja daqui..."

Enviou um pouco desse pulso ao jovem capitão com esperança de criar alguma conexão com ele no futuro. E agora, 4 meses depois, renascido das cinzas do pântano e da energia espiritual de Rahan, o homem pálido e nu cambaleava entre os morros de prata.

– Yani, para onde vamos hoje? — perguntou Kay muito longe dali. Estava em um jardim iluminado.

Um homem vestido com roupas vermelhas leves estava de frente pra ele. Ambos de olhos fechados na posição de lótus.

– Hoje é o solisticio de verão, Kay. Preciso te mostrar algo... — disse Yani com uma voz etérea.

Os espíritos dos dois ascenderam de seus corpos e se dissiparam no ar. Agora estavam cercados de estrelas.

– Como o Ennis te falou, há cinco mil anos atrás, houve um alinhamento espacial dos astros que fez a energia em trânsito do universo alcançar sua maior amplitude.

– A Convergência Harmônica...

– Sim. Foi essa convergência harmônica que ergueu a barreira que até hoje separa os humanos dos espíritos.

– E eu deveria ser a ponte entre eles — respondeu Kay institivamente.

– Exato. Em dias como o de hoje, quando há micro-alinhamentos entre corpos celestes. Um solisticio, um eclipse ou até mesmo um cometa passageiro. Há um escape de parte dessa energia. Poderíamos falar em micro convergências harmônicas. Isso abre uma brecha na sólida barreira entre os dois mundos. Por isso tivemos aquele evento desagradável com os espíritos mais cedo... — disse Yani franzindo os olhos.

– Uma brecha... Se os espíritos podem passar, isso quer dizer que eu também posso ir ao mundo espiritual?

Seus corpos se tornaram manchas sob o espaço estrelado e os dois estavam de volta ao jardim ensolarado na posição de lótus. Kay conteve sua excitação e se concentrou outra vez na esperança de entrar no mundo espiritual.

– Quero te alertar que você, como o avatar, deve ficar sempre atento para essas micro-convergências harmônicas. Elas podem significar uma ótima oportunidade para se comunicar com os espíritos, mas também a possibilidade de homens e espíritos mal intencionados transitarem entre os dois mundos. Eu preciso lembrá-lo que existem muitos espíritos vingativos. Certos lugares do mundo espiritual são habitados por entidades terríveis.

Os espíritos de Kay e Yani se materializaram em um campo amplo do mundo espiritual. O céu tinha matizes de rocho e uma grande nuvem negra nascia no horizonte.

– Isso é mau...

A cabeça de Kay então começou a latejar. A tontura atravessava todos os seus sentidos. Ele se ajoelhou no chão e uma luz branca brilhou na sua mente. Imagens começaram a aparecer. Kay viu uma mão branca despertar de um adubo molhado, se arrastava pela terra se esgueirando pelo barro, contraía os dedos de forma frenética. "Sarah" susssurava uma voz grave de dentro do barro. "Eu posso sentir você me olhando". Um grande clarão vermelho golpeou a mente do avatar.

– Kay! Kay! O que você viu?!

Kay acordou de supetão. Yani estava ao seu lado com um semblante preocupado. Ainda estavam no mundo espiritual.

– Eu não sei bem Yani, mas temos que voltar. Desconfio que um espírito muito cruel passou ao mundo humano.

Os dois então começaram a desaparecer como pinceladas de tinta borradora passassem por seus corpos. Yani deu uma última olhada para as trevas que nasciam no horizonte. "Eu espero que fiquemos bem".