Avatar: A Lenda de Kay
15 Quen vs Matt
Quen e o Avatar caminhavam a beira de um rio deixando para trás as nuvens negras que se derramavam sobre o pântano. Ao lado deles começava a se formar uma floresta verde e densa. Kay ainda estava triste pela partida de Rahan. Quen conseguiu convencê-lo que o melhor a fazer era partir para a Nação do Fogo. "Lá você estará mais seguro e poderei ensiná-lo". Seguiam por esse rio que ia desaguar no mar oeste. Ali Quen providenciaria a viagem de fuga.
– O que foi? — perguntou Kay segurando as alças da mochila, Quen havia parado de marchar de repente — Você ouviu alguma coisa?
– Kay, vá buscar alguma lenha nesse bosque para nós — disse ignorando — Vamos acampar aqui.
– Não é perigoso? Quero dizer... Ainda não estamos tão distantes do pântano.
– Faça o que eu mando — disse irritada.
Kay entrou dentro da floresta desconfiado. Quen se sentou em uma pedra a beira do rio, sacou da mochila uma xícara e uma chaleira e começou a preparar seu costumeiro chá. Enquanto esquentava a bebida com o fogo tragava seu vapor cheio de aromas. Alguns minutos depois se escutou um barulho de botas de couro contra o chão. Matt marchava entre o rio e a floresta, encarava Quen com gravidade. Atrás dele havia 4 homens.
– Finalmente eu encontrei você...
"Matt?!" — Kay o viu por entre as árvores dentro do bosque, depois de alguns segundos paralisado decidiu se ocultar e observar.
– Olá, Matt — Quen bebia tranquilamente seu chá sentada com os pés cruzados.- A que lhe devo a honra?
– Não seja cínica. Eu sei o que você é, Quen, ou qualquer que seja seu verdadeiro nome.
Quen já havia calculado que aquele estardalhaço que fizera nos domínios do General Grand havia chamado atenção das autoridades. Muitos a testemunharam dominando fogo, não podia fazer nada, seu disfarce foi desmascarado. Por sorte Kay se desfez do seu uniforme a tempo e evitou ser reconhecido naquela oportunidade.
– Deixa eu adivinhar. Você veio até aqui depois do incêndio no pântano...
– Foi difícil ignorar seu fogo demoníaco manchando o horizonte. Sua presença aqui é um insulto à nossa Nação. Dominadores de Fogo só levam horror por onde passam e por isso devem ser eliminados.
– Você se atreve a me dizer isso? Não seja hipócrita, Matt. Eu sei o que fizestes ao pântano, eu vi com meus próprios olhos — disse Quen ainda calma — Eu pensava que você era mais inteligente. Rahan com seu reino pantanoso era um privilégio que o Reino da Terra tinha em relação às outras nações. Vocês carecem agora de qualquer proteção espiritual.
Matt se sentiu surpreso por um segundo. Lembrou-se do espírito do pântano se contorcendo na lama depois de tentar atacá-lo. Durante a luta e com a destruição do lugar o Capitão conseguiu enfraquecê-lo, mas o que realmente consumiu sua alma foi outra força espiritual misteriosa.
– Lutamos com o espírito por se aliar ao inimigo, o avatar, pois se recusou a nos dar informações sobre ele. Mas nem eu, nem meus homens somos responsáveis por sua morte. O espírito caiu sozinho — disse Matt naquele seu jeito frio — mas eu não lhe devo mais satisfações, dominadora de fogo. Você não é mais minha tenente. Você é apenas uma traidora.
Quen o observava desconfiada. Matt perscrutava os lados com os olhos, como se estivesse a procura de algo, seus homens se aproximavam aos poucos da mulher. Ela tomou um último gole de chá.
– Uma Dominadora do Fogo bem debaixo do seu nariz, Matt? Imagino que General Sun Li não gostou nada disso...
– Cale-se. Onde ele está? Você o prendeu em algum lugar não foi? — perguntou Matt sério.
Quen somente descansou a xícara no lado da pedra e se levantou.
– Vejo que você trouxe alguns idiotas para lhe dar suporte. Deixe que lhes poupe o constrangimento Matt, eles só ficarão no nosso caminho.
Os 4 homens que acompanhavam Matt avançaram se arrastando rapidamente com Dobra de Terra. Quen rodopiou e um grande globo de fogo em revolução defletiu a todos eles. Um dos homens raspou na árvore em que Kay estava escondido e desmaiou.
– Que vergonha de um dia tê-la chamado mestra. Você vai dizer para mim onde Kay está por bem ou por mal.
Matt avança correndo e a cada passo que dá várias pedras ascendem do chão, depois dá um salto a distância e fecha a mão em um aplauso. Todas as pedras vão em direção a
Quen, que desvia com estrelinhas e piruetas. Matt então começa a invocar ataques terrestres e vários espinhos e dedos de terra aparecem. Quen pula, se desequilibra um pouco e se estabiliza no ar lançando jatos de fogo com as mãos.
– Parece que você quer me fazer suar ent... — Quen é subitamente interrompida pela terra que afunda nos seus pés. Além disso nos seus lados prismas gigantes se erguem para estrangulá-la. Matt apenas se movimentava com seu olhar sério e sereno.
Antes de se afogar completamente na terra, Quen dá um longo suspiro. Invocando fogo de seus pés, consegue explodir a terra e sair dando piruetas no ar.
– Eu vejo que não posso subestimá-lo. Você realmente herdou o talento do seu pai.
– Meu pai? O que você está dizendo?
Por um instante Matt se desconcentrou e Quen aproveitou a falha na sua postura para lançar diversas bolas de fogo. Ele apenas pôde levantar barreiras no chão que eram sistematicamente consumidas pelo fogo intenso da tenente. Através de um mergulho rastejante, Quen se arrastou pela lateral da barreira e lançou um disparo de fogo na direção de Matt, que conseguiu esquivar com um movimento reflexo do corpo e aplicar um golpe rápido habilidoso com as mãos, fazendo 3 dedos de terra aparecerem e jogarem o corpo de Quen no rio.
Matt tinha todos os músculos do seu corpo contraídos. Um braço estava extendido e o outro flexionado e recuado para trás com os dois punhos fechados.
Um minuto se passou e Quen ainda não tinha voltado do fundo do rio. Matt olhava para as águas desconfiado, esperava que eventualmente o corpo de Quen aparecesse boiando.
Então uma cortina imensa de vapor se fez e bloqueou toda sua visão. Quen estava acumulando energia durante todo esse tempo. Produziu uma descarga de calor suficiente para evaporar boa parte da água do rio. A neblina era tão densa que Kay não conseguia sequer ver a palma das mãos.
– Não seja tola, tenente. Dominadores de Terra têm a vantagem em lutas às cegas... — Matt concentrou toda sua atenção nos seus ouvidos e em sua conexão com a terra. Virou o corpo velozmente, pisou forte no chão, uma pedra rapidamente ascendeu, ele a empurrou com toda sua força em uma determinada direção. Kay pôde escutar o estalo da sua colisão com o corpo de Quen. Matt então criou uma grande plataforma com todas as forças de seus braços, a qual se elevou vários metros de altura. Deu um salto e pisou poderosamente em cima da plataforma que voltou rapidamente a nivel do solo exercendo uma pressão gigantesca na atmosfera, dissipando assim toda aquela neblina junto com a poeira. Via-se que Quen ainda estava se recuperando do último golpe no chão. Não tinha agora seu típico semblante apático de sempre. Estava vermelha. Parecia estar furiosa.
– Como te atreves, moleque??! — deu um soco no ar e a rajada foi tão veloz que Matt não teve tempo de mexer o dedo. Foi atingido no ombro por uma chama e jogado com força pra trás rodopiando. Quen começou a criar várias paredes de fogo com chutes cortantes, alimentava as chamas com sua respiração. As paredes começavam a crescer vários metros e delimitar um espaço no campo ao redor dos dois. Uma das paredes de fogo tapou completamente a visão de Kay.
Matt com várias chaves de braço criou ondas mecanicas que propagavam na terra em sua direção. Quen desviava delas com estrelinhas. O fogo das paredes começava a convergir para o centro, onde estava Matt, ele teve como única opção levantar a área de terra onde estava para não ser atingido pelas chamas.
– Parece que essa plataforma é a única terra que lhe sobrou agora, Matt.
Quen tinha razão. Matt olhava para baixo desolado: tudo parecia estar consumido pelas chamas. E ao seu redor não havia nada mais que pedras escaldantes. Um míssel de fogo veio debaixo diretamente em sua direção, criou uma pequena barreira, mas o fogo atravessou e ricocheteou nele denovo que foi lançado de sua plataforma em direção às chamas de abaixo.
Antes que chegasse no solo, prestes a ser consumido por um mar de fogo, Matt abriu as mãos com todas as forças que pôde reunir e a terra se abriu em um grande buraco separando a zona inundada de fogo. Matt tentou abrir mais esse espaço apagando as chamas com ondas de dominação de terra.
Quen avançou entre as chamas, cercou as laterais do buraco, inspirou fortemente e lançou um jorro de fogo do diâmetro aproximado do buraco. Matt recuou na postura e uma barreira de terra se materializou. As chamas o encurralava pelos lados e ele mal podia manter a barreira. Segundos se passaram e o fogo parecia consumir todo o oxigênio ao redor, Matt estava sufocando e sua barreira prestes a desintegrar.
– NÃO!! PARE!!
Kay deu um salto enérgico e entrou no buraco. Aterrissou logo atrás de Matt e com o golpe no chão vários pilares se ergueram reforçando a barreira de terra que o Capitão havia criado. Ele estava cambaleando e o seu olhar se debilitava, quase caia no chão, Kay o segurou.
– Kay... você veio...
– Não se preocupe, eu estou aqui — disse acariciando sua cabeça.
A medida que o fogo se apagava, Matt perdia mais os sentidos. Com toda a força que lhe restava ele elevou o dedo e tocou o lábio inferior de Kay.
– Eu te amo, Kay...
– Matt... Eu também — disse o avatar chorando.
E Matt desfaleceu em seus braços.
– Você está louca??! — gritava o Avatar com sua professora. Que acabara de aterrissar com um salto.
– Kay. Vou ser muito direta. Você tem que deixá-lo ir. Matt e você tem destinos separados, você é o Avatar! Talvez no futuro Matt possa ajudá-lo a conduzir o Reino da Terra rumo a paz e estabilidade, talvez com o tempo ele aprenda a ver através da alienação do exército. Esse tempo não é agora e você sabe disso. Sei que são duras as despedidas, mas deixe-o aí! — Quen gritava com o jovem. Sua aparência havia mudado completamente, estava um pouco assanhada e mechas caíam de seus cabelos. A luta também foi dura para ela.
– Se afaste! — gritou Kay e com um movimento de um dos cotovelos pra baixo ergueu uma enorme pedra do chão. Ele apontava a pedra contra a mestra. As veias de sua testa estavam dilatadas, ele parecia estar com muita raiva.
– Kay... — disse ela com um semblante triste.
Kay então fechou bem os olhos. Abriu e encarou Quen francamente durante alguns segundos.
– Você tem razão — disse jogando a pedra para o lado. Então abraçou Matt desacordado nos seus braços. Chorava. Quen podia ouvir seus soluços.
– Não se preocupe, Kay. Ele ficará bem...
Mas Kay sofria. Acariciou os cabelos da testa de Matt e descansou seu corpo no chão. Agarrando agora suas duas mãos.
– Vamos. Seus homens já vão acordar, eles vão cuidar dele.
Quen insistia agarrando-o pelo braço. Kay se desprendia das mãos de Matt aos poucos. Virou os olhos e se levantou. Enquanto partia com Quen as últimas paredes de fogo terminavam de se apagar.
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