Avantasia - A história
1 Prelúdio
Notas iniciais
Mainz, 1602 DC. Um jovem de cabelos loiros curtos, levemente enrolados e caídos sobre o rosto pálido que sustentava uma expressão de horror em conjunto de um certo orgulho em seus olhos, utilizava as vestes que a igreja lhe exigia, sendo um noviço dos monges Dominicanos de Mainz.
Seu nome era Gabriel Laymann, sua alma possuía uma chama de êxtase pelo seu grande empenho no último julgamento, quando prestou assistência à alma de Else Vogler, que estava sob o controle de um demônio antes de ser purificada pelas chamas.
No entanto, hesitava quanto aos pensamentos de seu mentor Jakob, temia que os grandes mestres do monastério houvessem reprovado sua postura enquanto estavam na prisão da bruxa.
Else Vogler havia sido denunciada por ler escrituras pagãs e precisava ter sua alma trazida de volta à sanidade. Gabriel conseguiu ouvir seu mentor o elogiar inúmeras vezes quanto a sua sensibilidade perante o demônio que falava através do corpo daquela mulher histérica. Manteve seu pensamento na ideia de que “Acima de tudo, aquela mulher havia sido um ser humano”. E agora descansava ao lado do Senhor.
“Jakob!” Exclamou em sua mente ao notar seu mentor ao longe admirando a paisagem da pequena cidade de Mainz. Gabriel se apressou para conversar com aquele que sempre fora como um pai para o jovem.
– Gabriel! Muito bom lhe ver novamente, rapaz. – Jakob possuía uma barba grisalha e rala, olhos cansados sempre com olheiras pesadas sob eles. Mas sempre que via o pequeno noviço, se enchia de alegria e euforia. – Sinto que lhe devo elogios quanto o caso Vogler, não?
– Só fiz o que me ensinaram, nada mais que isso. – Gabriel sempre tentava ser humilde quanto às suas conquistas, pois assim havia aprendido com seu mentor.
– Claro, claro. De qualquer forma, eu tenho uma recompensa para você! – O mestre apontou para uma torre negra gigantesca que ficava próxima à igreja, recebia o nome de “A torre das bruxas”, era o lugar onde as almas daqueles que se perderam no rumo da vida eram mandadas para aguardar o julgamento divino recebido em forma de uma grande fogueira. – Você poderá, pela primeira vez, ir até a torre sozinho, garoto. E lá, você encontrará a próxima alma à ser julgada.
O rapaz assentiu, se despediu de seu mestre para poder se adiantar até a torre. Esperava por aquele momento desde que havia chegado na cidade para estudar mais sobre aquilo que acreditava. Gabriel já havia visto muitas bruxas serem mortas diante de seus olhos, porém não conseguia ver nenhuma normalidade naquilo. “Será que estou mesmo preparado? ” Questionava enquanto forçava a porta de madeira para encarar qual seria a próxima alma a ser salva.
Ao abrir a porta, foi como se um raio o atingisse. Jogada no meio da palha e acorrentada à parede, havia uma criatura fraca de cabelos tão negros quanto seus olhos que já estavam secos de lágrimas, era Anna Held. Parecia cansada demais para reconhecê-lo, para reconhecer seu meio-irmão, que havia sido um verdadeiro irmão quando ambos eram crianças, quando teve que deixá-la para se juntar aos Dominicanos. Gabriel havia prometido que se encontrariam novamente. Mas deste modo?! Anna Held? Uma bruxa?! O rapaz jamais imaginaria que um demônio seria capaz de possuí-la, mas claro, ele não conhecia nada sobre bruxaria.
Algo deveria estar errado, sua meia-irmã não poderia ser uma bruxa, a inocência em seu olhar era gritante demais para isso. “Deve ser algum erro na lei! Preciso encontrar Jakob!” Fugiu da torre o mais rápido que pôde em busca de seu mentor, se algo estivesse errado, ele o ajudaria.
Jakob era um homem culto, passava horas e horas na biblioteca no mais profundo silêncio, Gabriel sabia que ele estaria ali. Abriu a porta do lugar lentamente, revelando aos poucos o brilho das velas que iluminaram o corredor do monastério através da fresta. Era o melhor momento para se falar com seu mentor, sempre que estava lendo mantinha a mente aberta para qualquer problema. O noviço entrou no aposento, e assim que seu mentor notou sua presença fechou o livro que lia e arremessou de volta na prateleira como se temesse que o rapaz visse algo que não deveria.
“Jakob escondendo alguma coisa? Não, ele não é esse tipo de homem” pensou consigo mesmo enquanto se aproximava devagar.
– Gabriel, o que faz aqui? Você nunca vem para a biblioteca. De qualquer forma, da próxima vez que decidir aparecer, bata na porta. – Sua voz tinha um tom autoritário e mais ranzinza do que o comum.
– Perdão, senhor, eu não pretendia assustá-lo ou interromper sua leitura, no entanto, creio ter um grande problema em mãos. – Gabriel buscava todas as forças que conseguia para não se acabar em lágrimas.
– Diga, rapaz. – Comandou Jakob, ao notar o estado do jovem noviço.
– A bruxa que está sendo mantida como prisioneira na Torre Das Bruxas, seu nome é Anna Held. Ela...ela é minha meia-irmã. – Neste momento Jakob se encostou em sua cadeira perplexo com o que escutava.
– Isto é muito comum, meu jovem. Demônios são criaturas cruéis e atacam onde dói. Claramente viram o seu grande desempenho no último julgamento e querem vingança. – Foi então que seu mentor se levantou e apoiou uma das mãos no ombro de Gabriel. – Mas é claro que se isto for algum tipo de erro eu irei concertá-lo. E até que a inocência – ou a culpa – de Anna seja comprovada, eu vou garantir para que ela seja muito bem tratada, tudo bem?
E com aquelas palavras reconfortantes o jovem noviço voltou ao seu quarto para conseguir descansar um pouco daquele dia estressante, porém o sono não conseguia chegar.
“Gabriel, o que há de errado com você? ” Pensava de forma severa. “ Jakob jamais te enganaria, claro que suas palavras eram honestas, ele é um monge! ” O rapaz se virava na cama tentando pensar em coisas mais agradáveis, porém nada lhe tirava aquilo da cabeça. “Mas então, por que agiu de forma tão estranha quando entrei na biblioteca? E por que havia se assustado tanto? Talvez houvesse algo estranho com aquele livro.... Sim, o livro! Talvez ele possa trazer alguma luz aos meus pensamentos! ” Gabriel se colocou de pé, pegando uma vela em mãos, porém um novo pensamento lhe veio à cabeça. “Mas e se não? E se aquele é mais um daqueles livros que eu não posso nem saber da existência? Talvez seja o livro pagão confiscado de Else Vogler, a bruxa. ” Apesar de estar envolvido em seu julgamento, não sabia nada a respeito do livro que Vogler havia lido. “Não importa, mesmo que minha chance seja mínima, eu preciso salvar Anna!”
Silenciosamente, se esgueirou até a biblioteca, e mesmo que o livro representasse um perigo exponencial para o seu leitor, a crença de Gabriel era ainda mais forte para aguentar qualquer força que surgisse.
Velho, era muito velho e possuía um cheiro podre entre suas páginas, rapidamente o jovem pode concluir, era um livro maligno! Fixada na parte de dentro de sua capa de couro, havia uma marca triangular do tamanho de uma mão, que parecia ser feita de algum tipo de metal. Ele não conseguia entender a maioria das coisas que estavam no livro, pois não estavam em um idioma que conhecesse. Apenas conseguiu entender poucas palavras que pareciam ter sido escritas muito depois que o livro foi criado, dizia:
“Muitos caminhos levam à Roma. Sete vezes um caminho para todos que leva para um mundo além da nossa imaginação. ”
Se havia alguém que conseguisse entender aquelas palavras, certamente não era Gabriel, que continuou folheando o livro em busca de algo que lhe fizesse sentido, e seus esforços foram compensados. Na parte de trás do livro, havia uma carta, escrita por um tal de Lugaid Vandroiy para Else Vogler. E agora sim, havia entendido o motivo do livro estar nas mãos daquela mulher.
Mesmo se sentindo desconfortável ao ler algo que não lhe pertencia, Gabriel abriu a carta. Vandroiy escrevera que ele ouvira de um mercante Gaulês que este havia vendido o livro para Else Volgler no passado. Mas o autor da carta dizia que era o legítimo dono do livro, que havia sido roubado dele há muito tempo atrás. E como ele queria o livro de volta, ele avisou que iria visitá-la em alguma noite durante o verão para comprá-lo novamente.
Gabriel se sentiu um tanto desapontado pois esperava mais de um livro de bruxaria, sendo assim, devolveu o livro para a prateleira e voltou ao seu quarto para voltar a dormir (apesar de não ter conseguido nem ao menos piscar). “Talvez eu descubra algo amanhã. ” pensou.
O jovem acordou sete horas da manhã para se preparar para mais um dia no monastério, foi então que reparou que as pontas de seus dedos estavam negras. “Deve ter sido aquele livro velho, nada que um pouco de água não resolva. ” Seguiu até a fonte quando já era quase oito horas da manhã para conseguir se limpar, porém não importava o quanto esfregasse, a tinta não saía. “Será esta a minha morte negra seguindo-me pelo monastério? ” Gabriel temia seus próprios pensamentos que foram afastados ao ouvir alguém o chamar pelas suas costas.
– Gabriel! – Era Jakob se aproximando de forma gentil com um sorriso no canto de seu rosto. – Meu jovem, eu lhe devo perdão pelo modo como lhe tratei na noite passada, eu não deveria ter me irritado apenas por você ter entrado na biblioteca.
O noviço suspirou aliviado, não lhe agradava nem um pouco a ideia de seu amigo paternal zangado com ele. No entanto, o rapaz não teve tempo de responder seu mentor que agora tinha a testa franzida e o tom de voz mais alto.
– Você esteve na biblioteca sem permissão?! – Gritou enquanto apontava os dedos sujos de Gabriel. – Fez o mau uso de minha confiança e leu o livro proibido! Vá para a capela e reze por perdão... Somente Deus terá misericórdia daquele que quebrou a lei sagrada do monastério.
Aquela foi a última vez que Gabriel pôde falar com seu mentor, pois quando os mercenários apareceram na capela para prendê-lo enquanto o rapaz implorava de joelhos por perdão, Jakob apenas mantinha seu olhar no chão.
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