Já deveria ser noite nas ruas de Mainz, pois a luz já não entrava na cela fria e rochosa em que Gabriel estava preso. O rapaz tinha testa apoiada nas fortes grades que o prendiam, e durante horas perguntava a si mesmo o que havia acontecido com sua mente. Por que tomou tantas decisões erradas uma atrás da outra?

Não pôde deixar de prestar atenção em seu companheiro de cela, que estava andando em círculos, falando sozinho sem conter o fôlego, ambos já estavam aprisionados na mesma cela há algumas horas, e não haviam trocado uma só palavra. Decidiu, então, tomar alguma iniciativa.

– Olá. – Cumprimentou Gabriel de forma hesitante. – Algum problema?

O homem se voltou para o jovem monge, e de forma um tanto lunática se jogou de joelhos ao lado do rapaz.

– É quase irônico perguntar isso a um prisioneiro. – O homem possuía uma longa barba prateada combinando com seus cabelos grisalhos compridos, apesar de se mover de forma rápida e ágil aparentava ter o triplo da idade de Gabriel. – Mas diga-me, garoto, qual o seu nome?

– Gabriel Laymann, muito prazer, e quem é o senhor? – O rapaz tentou permanecer calmo ao escutar a seguinte resposta.

– Vandroiy, Lugaid Vandroiy. – Era o homem que havia escrito a carta que estava no fim do livro proibido. – E por que está aqui, Gabriel? Você não me parece com alguém que merecia estar preso.

O noviço entendia o que aquele homem queria dizer, o rapaz estava vestido como um monge e sendo tratado como um pecador. Sendo assim, explicou os motivos de ter sido preso, foi então que o homem se ergueu entusiasmado ao notar os dedos sujos do jovem.

– Você leu o meu livro, ou pelo menos colocou as mãos nele! Esplêndido! – Exclamou o velho eufórico.

– Não é nada esplêndido. – Retrucou o jovem monge. – O que eu fiz foi um pecado sem tamanho e é o motivo de eu estar aqui preso com você! É vergonhoso! Estou sendo mantido preso na mesma cela de um homem que faz acordos com bruxas.

Vandroiy pousou seu olhar de reprovação em Gabriel.

– É impressionante o que fazem com vocês hoje em dia. Acha que eu sou só mais um mendigo que é preso por roubar um pedaço de pão? – Indagou num tom irônico. – Por favor, eu sou um dos últimos druidas do mundo todo, sabia? Sou um membro de um antigo e secreto Clã de Celtas da Irlanda. Alguém armou uma cilada para mim e por isso estou preso com você, e esse é o menor dos meus problemas.

Gabriel não sabia se era capaz de acreditar naquilo que o homem lhe dizia, porém aquelas palavras pareciam tão sinceras e verdadeiras que se via obrigado a concordar.

– Um druida? – Indagou o monge, e o velho concordou.

– E tem mais, garoto, não acredite em tudo lhe contam aqui, o que vão fazer com a sua irmã é nojento e asqueroso, isso não tem ligação nenhuma com demônios ou Deus. Não existem essas tais “bruxas”, apenas meninas e mulheres injustiçadas pela ignorância daqueles que estão tão perdidos quanto você e eu.

Foi então que Gabriel se pôs de pé em um surto.

– Eu não posso acreditar em nada disso, se eu o fizer será como jogar no fogo tudo que eu acreditei desde que vim para Mainz. Como você quer que faça isso? – Foi então a vez de Vandroiy se levantar.

– Gabriel, você leu os versos mágicos do livro! Eles irão te guiar para a luz, você precisa acreditar e abrir os olhos. Por que no fundo você já sabe, não é? – O druida se aproximou do monge ficando há uma distância de poucos centímetros de seu rosto. – Afinal, como você se sentiu vendo Else Vloger queimar?

O garoto deixou seu corpo ir para trás e encostar nas grades da cela, a bruxa que ele havia dado assistência no julgamento, era apenas uma mulher inocente. A pior parte daquela sensação era uma dor forte em seu peito que gritava de forma ensurdecedora “Eu já sabia disso”.

– O que é certo e o que é errado agora? – Vandroiy não conseguia dizer se o rapaz falava com ele ou consigo mesmo. – Será o paraíso me desafiando? O que é o livro e o que ele esconde? — O garoto voltou a andar pela cela passando reto pelo druida e se deixando cair de joelhos novamente para erguer o olhar para cima com os olhos transbordando lágrimas. – Eu sou um clérigo ou um pecador? Infiel? Renegado? – Gradativamente aquelas palavras se tornavam um grito de indignação. – Será que já é tarde para mim? — O rapaz se encolheu onde estava e transformou sua dor em lágrimas de raiva. – O que eu fiz? Eu me deixei levar pelo demônio, não é? – O rapaz se pôs de pé, com os olhos esbugalhados e se voltou para Vandroiy que até agora apenas observava a epifania do jovem monge.

– Gabriel... – Tentou acalmá-lo.

– Me diga! O que eu fiz? O que está acontecendo?! – O garoto agarrou o druida pela gola de sua veste e o sacudiu em desespero. Vandroiy rapidamente separou-se do jovem e começou a dizer em um tom mais alto para que o garoto o escutasse.

– Alcance a luz, Gabriel! Vá além do que está acostumado! Você leu os versos mágicos que irão te guiar para luz em sua mente. Se permita chegar lá.

Foi então que o rapaz voltou a normalizar sua respiração eufórica e foi recuperando sua sanidade de forma gradativa, apesar do jovem noviço não entender muito bem o que o velho de barba cinza dizia, o que ele conseguiu entender lhe mostrou um jeito novo de ver a vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.