Avalon

13 Capitulo 13


– A quanto tempo, Ken.

As suspeitas de Kentaro se confirmaram ao olhar para o rosto do homem que perseguia. Aquele era Takumi, seu amigo de infância, e um dos antigos membros da gangue Coyote. Após se levantarem, Kentaro não se conteve, e socou Takumi no rosto.

— Isso foi bem rude. — Disse Takumi. — E bem sem classe. Mas você é assim mesmo, não é?

— Era isso que você queria então? Foi isso que você quis dizer com "achar meu próprio caminho", Tak?! Se juntar aos vilões?!

— Vilões? Como sua visão do mundo pode continuar sendo tão infantil, Ken? Não existem heróis ou vilões. As pessoas só seguem seus próprios caminhos, e foi isso que eu fiz. — A personalidade calma de Takumi contrastava com o jeito esquentado de Kentaro.

— Você sabe que não é assim. Pelo menos, o Tak que eu conhecia a 3 anos atrás sabia que a Stigma não se importa com os pobres, e só olham pro próprio nariz.

— Será mesmo? — Respondeu Takumi. — Bom, desde que eu me tornei o secretário do desenvolvimento urbano, eu aprendi muito sobre esse lugar. Nós sempre tentamos ajudar os pobres, por incrível que pareça, mas eles não aceitaram nossa ajuda.

— Como assim?

— É simples, Ken. Tão simples que até um idiota como você entenderia. Eles são orgulhosos, assim como você, assim como Masumi, Kai e Mitsuru. Assim como eu era também, antes de abrir meus olhos.

— Orgulhosos? O que diabos você tá falando?

— Pense comigo. Você iria preferir receber a ajuda de uma pessoa poderosa, ou subir na vida sozinho? Não precisa responder, pois eu já sei a resposta. Pessoas orgulhosas nunca aceitariam ajuda assim, nem mesmo que precisassem muito. Era isso que fazíamos, não é? Quantas oportunidades de ajuda nós tivemos durante nossa vida como delinquentes? Varias, né? E sempre recusávamos, pois não queríamos dar o braço a torcer para o povo acima de nós.

— Agora faz sentido. Você sempre teve essa mania de grandeza, e achava que continuar na gangue não ia te levar a lugar algum.

— Eu estava errado? Foi só eu sair dela, e me tornei uma das cabeças da Stigma. Foi tudo questão de saber aproveitar as oportunidades.

— Ah, é? E quem te deu essa oportunidade na Stigma?

— Fremont Becker. Aposto que conhece ele. — Takumi virou de costas, e olhou pela janela — Uma vez fui em um bar bem prestigiado da cidade principal, querendo sentir um sabor de uma vida mais luxuosa, e sentei ao lado dele. Então, o senhor Becker puxou conversa comigo, e, segundo ele, notou algo diferente dos outros em mim. Me disse para ligar pra ele, e me deu seu número. Então, após nossa briga, eu o fiz, e o resto você já imagina.

— Aquela foi a briga mais idiota que eu já tive. — Kentaro se lembrou daquele dia. — Eu te critiquei por ter ido para a cidade principal, e disse que seu lugar era junto com a gente nas favelas.

— E eu me lembro bem de ter tentado argumentar de maneira civilizada, mas você partiu para a agressividade, e disse que se eu estivesse insatisfeito, deveria ir embora. Eu só fiz o que você pediu, Ken.

— Eu me arrependo de ter dito aquilo, ok?! Eu achei que você voltaria algum dia, e nós resolveríamos isso como amigos. Mas você nunca mais voltou. Achei que estivesse morto, mas não, você se juntou às cobras!

— Você é teimoso ou o quê? Eu acabei de te explicar que não somos os vilões, droga! Você não entende? Eu encontrei meu lugar de direito, Ken. Ao lado de Satsuki Stigma e Fremont Becker. Tenho agora a chance de mostrar ao mundo do que sou capaz, algo que eu nunca poderia demonstrar naquela nossa ganguezinha de merda. Você sempre teve um cérebro pequeno e limitado, eu poderia ficar a vida inteira te explicando isso, mas você não entenderia. — Takumi abriu seu casaco. — Sorte a minha que o senhor Becker me avisou da sua visita com antecedência. Assim, pude me preparar. — Takumi vestia seu antigo uniforme dos Coyotes. Ele era branco, com detalhes dourados nos ombros e na gola, e o símbolo nas costas tinha um delineado dourado.

— Então você guardou. Por um segundo achei que você teria tacado fogo nisso ai.

— Eu teria, sim, mas nunca descartei a chance de me encontrar com você novamente. Até tive medo que morresse no caminho até aqui, e eu não pudesse socar a sua cara mais uma vez.

— Não precisa se preocupar com isso então. — Kentaro jogou sua arma para longe, para que tivessem uma luta justa. — Eu não vou conseguir te fazer mudar de ideia na conversa, nunca consegui. Vamos ter que resolver isso na marra.

— Não sabe como eu esperei por esse momento. — Takumi entrou em posição de combate. — Vamos logo com isso, Ken.

— Eu não sou mais o mesmo homem de anos atrás. — Disse Kentaro, em posição de combate.

— Engraçado, eu ia dizer a mesma coisa.

Os dois se encararam por alguns segundos, esperando que alguém desse o primeiro passo. Takumi atacou primeiro, com um golpe que Kentaro conhecia bem. Um gancho que, caso acertasse, poderia o nocautear na hora. Kentaro bloqueou, e tentou acertar uma cotovelada. Takumi desviou e acertou um chute em sua barriga. Kentaro avançou, e lançou varios socos, que foram bloqueados por pouco. Takumi tentou acertar um chute giratório, mas Kentaro desviou. Ele aproveitou a chance e deu uma rasteira em Takumi. Antes que ele caísse no chão, Kentaro agarrou-o pela gola de sua jaqueta e o jogou para o outro lado da sala. Takumi parecia mais pesado do que era alguns anos atrás, e Kentaro deduziu que ele devia estar mais forte. Ele levantou rapidamente, e chutou uma cadeira na direção de Kentaro, que desviou, mas foi pego de surpresa por um soco no rosto. Ele contra-atacou com um soco e chute seguidos no rosto e na barriga.

— Você melhorou, Tak.

— Eu diria o mesmo pra você.

Os dois lançaram varios golpes um contra o outro, alguns acertaram e outros erraram. Kentaro decidiu colocar um fim naquilo, e agarrou Takumi pelo pescoço. Iria derruba-lo com força na mesa mais próxima, mas Takumi preveu seu golpe, e derrubou Kentaro com uma pequena rasteira antes que ele o fizesse. Acertou um pisão no rosto de Kentaro, e acertaria outro, mas ele rolou para o lado antes que o acertasse. Takumi jogou seu peso contra Kentaro e o prensou contra a parede, e acertou dois socos. Quando iria acertar o terceiro, Kentaro desviou, e Takumi acertou um soco na parede. Enquanto segurava seu punho por causa da dor, Kentaro o agarrou e bateu sua cara na parede, seguido de um chute em sua cabeça. Takumi se levantou, apesar de tonto, e desviou do golpe final de Kentaro, que com certeza o desmaiaria, e acertou um forte chute em suas costas, que quase o derrubou. Os dois pararam um pouco, e se encararam novamente.

— Foi bom me divertir com você de novo, Ken. — Disse Takumi.

— Foi bom? Como assim "foi"? Isso só acaba quando um de nós estiver desmaiado no chão, droga!

— Em circunstâncias comuns, sim, mas caso você não saiba, a madame Stigma está nesse exato momento no saguão do andar 45 se divertindo com nossos amigos.

— Espera, você quer dizer — Ele foi interrompido.

— Masumi, Kai e Mitsuru. Recomendo correr, antes que ela se canse de espanca-los e decida acabar com o sofrimento deles. Mande lembranças por mim.

— Droga! — Kentaro pensou se deveria ir atrás deles, ou finalizar Takumi, mas resolveu ir ajudar seus amigos, e correu para a porta.

— Não se esqueça disso! — Takumi pegou a arma de Kentaro e jogou para ele.

— Nós vamos resolver isso outro dia, você não perde por esperar.

Takumi sorriu ao ver Kentaro correr da sala, e se sentou. Contemplou a vista da cidade, que estava lentamente amanhecendo.