Avalon

14 Capitulo 14


Anne ouviu varios tiros vindos de cima, e não sabia bem o que fazer. Miles estava exausto, quase desmaiando, e ela estava escondida junto dele atrás da grande mesa. Após ouvir um barulho alto vindo de algum andar inferior, ela decidiu que ali já não era mais seguro.

— Ok, a Tommy mandou eu levar você pra outro lugar caso as coisas ficassem feias, e acho que essa é a hora. — Disse Anne, tentando apoiar Miles em seus ombros.

— Como.....como é que é? — Disse Miles, sonolento, sem entender o que ela estava dizendo.

— Séria ótimo você me ajudar a te carregar, sabia? Não temos a noite inteira! Levanta da droga do chão logo! — Gritou Anne, perdendo a paciência.

— Hehe.....essa raiva não combina com essa sua cara de boazinha. — Zombou Miles.

Anne teria reclamado, mas ouviu varios tiros vindos do heliponto, e resolveu ignorar e correr. Ela arrastou Miles até o elevador, rezando para que ele estivesse funcionando. Por sorte, estava, e os dois entraram. Apertou o botão do primeiro andar, e as portas se fecharam. Ela iria aguardar por todos lá.

Masumi, Kai e Mitsuru estavam no primeiro andar, no saguão principal, ao lado dos milhares de guardas robóticos da Stigma, que Ryoko havia destruído. Apesar de estarem longe de Kentaro e Tomoyo, conseguiam ouvir alguns barulhos vindos de cima, e presumiram que eles tinham algo a ver com isso.

— Acha que eles vão ficar bem? — Perguntou Masumi.

— Tenho certeza. — Respondeu Kai. — Você conhece o Kentaro, e sabe como ele é duro na queda. Quanto a Tomoyo, bem, não preciso dizer, né? A garota é uma máquina de guerra viva.

— É, mas o pai dela também era, e você sabe o que aconteceu. Ainda fico um pouco preocupado.

— Ok, eu entendo. — Kai olhou para a porta da frente, pensando em que momento eles iriam finalmente embora. — Bom, recapitulando. Em apenas uma noite, nós conhecemos a maluca que solta raios, nos tornamos criminosos procurados pela cidade inteira, invadimos o prédio da Stigma e descobrimos que nosso "grande vilão", Akira, era só um cara procurando pela Tomoyo. Isso tudo antes das 6 da manhã. É como o Mitsuru diz, né?

— Desse mundo, você tem que esperar qualquer coisa. — Respondeu Mitsuru, com um leve sorriso no rosto. — Descobri algumas coisas sobre esse óculos. Eu posso acessar toda uma rede de dados, e conectar um objeto eletrônico a outro.

— Como assim? Isso nem faz sentido, droga! — Disse Kai.

— Eu consigo conectar a luz dessa sala com os computadores da recepção, por exemplo. Ainda não consegui entender qual utilidade isso pode ter, mas, já dei o primeiro passo. Acho que isso pode ser bem útil, se eu aprender como fazer do jeito certo. Espero ter a chance de conversar com esse tal Miles, acho que vamos nos dar bem.

— É, ele parece ser um belo de um nerd, assim como você. — Disse Masumi.

— Bom, pelo menos eu não reprovei o mesmo ano 3 vezes. — Respondeu Mitsuru.

— Ei, não fala disso, ok? Foi só um erro de cálculo.

— É, erro de cálculo, gramática, o que mais? — Zombou Kai. Ele e Mitsuru riram.

— Vocês são horríveis mesmo.

Os três ouviram passos, e imaginaram que pudesse ser Kentaro, Tomoyo, ou Anne. Porém, viram uma pessoa descer das escadas do segundo andar. Uma mulher alta, com olhos amarelos, cabelos brancos, vestindo um sobretudo preto, e com um grande sorriso no rosto. Eles demoraram a reconhecer ela, pois nunca haviam a visto assim.

— É..... — Masumi estava sem palavras.

— Satsuki Stigma. — Disse Mitsuru.

— Surpresos em me verem? — Perguntou Satsuki(Mikasa). — Acho que são as primeiras pessoas que não fazem parte do meu "grupo" que já me viram dessa forma, deveriam se sentir privilegiados.

— Então até mesmo aquela sua postura de uma mulher bela e formal era falsa? — Perguntou Masumi.

— Quer dizer que não acha que eu sou bela? — Ela perguntou. — Que falta de educação, rapazinho. Não é assim que se fala com uma dama. — Ela riu, e sua risada os deixaram acanhados. — Infelizmente, a Tomoyo vai demorar a chegar. Então, enquanto a atração principal não chega, o que acham de se divertirem um pouco?

Ela apertou um botão em seu celular, e varios guardas desceram pelas escadas. Os três se armaram, e avançaram contra os guardas, enquanto Satsuki observava de longe.

Kentaro saiu da sala, e correu para o andar de baixo, se esquecendo completamente do elevador. Após descer um pouco, a porta de um dos andares se abriu, e ele foi puxado para o corredor daquele andar. Haviam aproximadamente 4 guardas ali, que dessa vez não eram robotizados.

— Olha, eu adoraria ficar e brincar com vocês, de verdade, mas eu meio que preciso descer agora, tão me entendendo?! — Gritou Kentaro.

— A presidente nos disse exatamente pra impedir que você fizesse isso. — Disse o guarda, apontando sua arma para Kentaro.

— Não to afim de matar vocês. — Kentaro usou a função que comprimia sua arma, a deixando do tamanho de uma pequena pistola, e a colocou em seu bolso. — Vamos fazer isso da moda antiga?

Ele entrou em posição de combate, e avançou contra o guarda. O desarmou, e atirou na perna do guarda ao lado. Acertou um soco no queixo do guarda desarmado e bateu sua cabeça na parede. Kentaro se jogou em cima do terceiro guarda, com os dois caindo no chão, e deu varios socos nele. O último ficou assustado, e mal conseguiu levantar sua arma. Kentaro o agarrou pelo pescoço e acertou 4 socos em seu rosto, finalizando com uma cabeçada. Então, correu para o elevador, e apertou o botão do primeiro andar. Porém, o elevador parou no andar 30, e ele foi puxado para fora por mais 3 guardas. Não vendo opção, trocou socos com eles, até conseguir uma abertura para finaliza-los, agarrando um pelo pescoço e usando toda sua força para jogá-lo na direção dos outros dois guardas, derrubando os 3 de uma vez. Finalizou todos com um pisão no rosto, e seguiu para o elevador. Um quarto guarda surgiu, e começou a atirar do final do corredor. Kentaro logo puxou sua arma, que ainda estava em forma de pistola, e atingiu o peito do guarda. Percebeu que ela ainda atirava lasers naquela forma, porém pareciam ser menos potentes. Antes que outro guarda surgisse, ele entrou no elevador novamente, e continuou descendo. Dessa vez, parou novamente no andar 15, e 3 guardas entraram no elevador com ele, que logo continuou descendo.

— Belo dia, né? — Disse Kentaro, com um sorriso no rosto, tentando irritá-los.

Sua provocação funcionou, já que um dele se irritou e tentou acertar um soco. Kentaro segurou seu braço e o virou ao contrário, o quebrando, e finalizou com um soco em seu nariz. Os outros dois atacaram ao mesmo tempo, mas Kentaro desviou, e os dois guardas acabaram socando a cara um do outro. Aproveitou que ambos estavam próximos, agarrou as cabeças dos dois e as bateram com força, desmaiando eles. Enfim, Kentaro chegou ao primeiro andar. Ele correu para as escadas que levavam ao primeiro andar, e encontrou Masumi, Mitsuru e Kai finalizando um último guarda, enquanto uma mulher de cabelos brancos e olhos amarelos os observava de longe.

— Não eram quem eu esperava, mas vai servir por enquanto. — Disse ela.

— Você é? — Perguntou Kentaro, mesmo que já estivesse reconhecendo o rosto.

— Stigma. Satsuki Stigma. — Disse ela. — É um prazer conhecê-lo, Kenshiro.

— É Kentaro, droga!

— Ah, que seja. Quem liga? Seus amiguinhos se viraram bem sem você, sabia? Eles são bons, mas não tanto.

— Kentaro! E a Tomoyo? — Perguntou Kai.

— Não sei. Eu encontrei o Takumi, e ele disse que vocês estavam em perigo, então eu vim correndo!

— Espera, o Takumi tá aqui?! — Perguntou Masumi, surpreso.

— É uma longa história. Eu explico quando tudo isso acabar.

— Recomendo explicar agora, Ken....Kentaro? Acho que acertei dessa vez. Enfim, recomendo explicar agora mesmo.

— Ah, é? E por qual motivo?

— Bom, você não vai ter mais outra oportunidade pra contar, quando meu presentinho chegar. — Todos ouviram um som estrondoso. — Ah, ele já está chegando. Cuidado com a cabeça, meninos!

Eles olharam para cima, e o teto estava literalmente caindo. Kentaro empurrou os três para longe do monte de escombros que caía, e se jogou junto com eles para desviar. Quando os 4 se levantaram, viram que era um robô familiar. AllBuster, que ainda funcionava, mesmo que com seu peito exposto e varias faíscas saindo de seu corpo metálico. A máquina se movia com dificuldade, como uma pessoa ferida.

— Mas que diabos....achei que a Ryoko tivesse explodido essa coisa! — Exclamou Kai, segurando o machado com força.

— É, ela explodiu. — Respondeu Satsuki, checando se suas unhas estavam bem polidas. — Mas nosso amigo Becker é uma pessoa, no mínimo, esperta. É só colocar as peças de volta, e o brinquedo volta a funcionar sozinho! Claro, ele parece um recém-nascido aleijado andando, mas é o que temos pra hoje, né?

— O que a gente faz? — Perguntou Masumi, não escondendo seu medo.

— A Tomoyo não vai chegar tão cedo. — Respondeu Kentaro. — Vamos ter que segurar as pontas enquanto isso.

— Eu ainda acho que a opção de correr pra porta da frente é viável nessa situação. — Disse Mitsuru, olhando praz portas giratórias da entrada do edifício.

— É, mas a Tomoyo faria isso? — Perguntou Kentaro.

— Não acho que ela seja um bom exemplo a ser seguido, Kentaro. — Disse Kai. — Quer dizer, ela é meio.....sei lá, estressada.

— Estressada, caótica, sarcástica, possivelmente autodestrutiva, tem em suas mãos o poder de quebrar o coração do pobre Kentaro, e com certeza vai usá-lo em breve. O que mais? — Listou Mitsuru.

— Olha, ela é o melhor exemplo pra gente no momento, ok? — Respondeu Kentaro. — Que tal a gente parar de conversar antes que o robô manco decida atirar um laser e fritar a gente?

— Tá, vamos seguir o exemplo da Tomoyo por enquanto. — Masumi falou, enquanto carregava suas pistolas. — E isso não é uma boa ideia, diga-se de passagem.

O robô levantou sua mão e a mirou na direção do grupo. Eles correram, e a lerdeza do processamento da máquina fez com que ela não conseguisse mudar sua mira, e acabou atirando sua rajada de energia ali mesmo. Kai lançou um golpe com seu machado, sendo impulsionado pelo foguete em sua parte inferior, e o cravou fundo nas costas do robô. Masumi atirou algumas balas de choque nele, enquanto Kentaro usava os lasers de sua arma pra cortar um grande círculo em suas costas, que talvez expusesse uma parte mais sensível dos mecanismos. Subitamente, o robô se virou. Kai continuava segurando o machado preso em suas costas, e acabou girando junto. Não conseguiu se segurar com muita força, e acabou voando longe. Kentaro atirou no rosto do robô, e fez um rombo em seu olho esquerdo. Antes que a máquina pudesse contra-atacar, Mitsuru entrou em seus sistemas e conseguiu enfim desativar um dos mecanismos de defesa. O robô simplesmente travou no meio do golpe que preparava, que com certeza jogaria Kentaro pro outro lado da cidade caso acertasse. Masumi trocou para balas de gelo, e acertou uma em cada junta do robô. Kai voltou para pegar seu machado, e o arrancou das costas metálicas em que estava preso. Kentaro continuou atirando em seu peito exposto, que lentamente começava a pegar fogo. Então, Kai usou seu machado para cortar os membros comprometidos pelo congelamento, e enfim o robô caiu no chão, sem braços e pernas. Kai o finalizou com um golpe um tanto misericordioso na testa.

— Agora ele já era. — Disse Mitsuru, examinando-o. — Dessa vez, acho que o Becker vai ter que construir outro.

— Ah, mas isso foi um espetáculo digno de aplausos! — Gritou Satsuki, aplaudindo como um telespectador no final de uma grande peça. Ela observava do topo da escada, pois não quis ser pega no meio dos tiros e lasers. — Os favelados motoqueiros que desafiaram o governo! Isso vai entrar pra história, com certeza.

— Bem, quebramos o brinquedinho de vocês mais uma vez, e agora não tem nenhuma fada madrinha da mecânica capaz de reconstruir ele. O que vai fazer agora?

— O que eu vou fazer? — Questionou Satsuki, alcançando seu bolso. — Quer saber, melhor não. Não seria justo. — Desistiu de pegar sua faca.

— Não temos medo de você, Stigma. — Disse Kentaro, em posição de combate.

— Não quero que tenham medo de mim, apenas um pouco de respeito. — Respondeu Satsuki(Motoko), em um tom frio. — E vocês vão me respeitar em breve, disso eu tenho certeza.

Satsuki desceu as escadas. Kentaro avançou contra ela, e seu soco foi facilmente desviado e revidado. Satsuki apenas deu um passo para o lado, segurou seu braço, e em um pequeno impulso, jogou Kentaro com força no chão, quase quebrando o porcelanato do piso. Kai tentou acerta-la com seu machado, mas ela segurou o golpe sem muito esforço.

— Nunca traga um machado pra uma luta mano a mano, rapaz. — Disse Satsuki, seus olhos amarelos quase reptilianos fizeram sua espinha gelar.

Ela tirou o machado das mãos de Kai, e o acertou no rosto usando o cabo de madeira. Decidiu poupa-lo, e não cortou sua cabeça fora. Masumi tentou atirar varias vezes em Satsuki, mas ela desviou de todos os tiros. Sua forma de desviar não era como a de a Tomoyo, que conseguia ver em velocidade reduzida o trajeto das balas, e sair do caminho delas. Satsuki parecia saber exatamente para onde ele atiraria, e simplesmente dava um passo para o outro lado. Ela enfim ficou cara a cara com ele, e tirou as armas carinhosamente de suas mãos, e o segurou pelo pescoço. Então, o jogou no chão com força, ao lado de seus companheiros caídos.

— Agora, só falta você. — Disse Satsuki, encarando Mitsuru com um sorriso no rosto.

— E-Eu? — Gaguejou Mitsuru, em posição de combate.

— O queridinho dele, aqui na minha frente. — Murmurou Satsuki, andando lentamente em sua direção. — Será que eu deveria te machucar como fiz com os outros? Talvez a chefia fique brava comigo.

— Do que....do que você tá falando? — Questionou Mitsuru, que pela primeira vez havia deixado de agir como o cara sério e focado de sempre.

— Ah, não posso estragar a surpresa. Seria como dar um spoiler, e ninguém gosta disso. — Satsuki o agarrou pelo pescoço, e o deixou sem ar. — Uma asfixia leve não vai te fazer mal, assim espero.

Satsuki jogou Mitsuru, que estava roxo pela falta de ar, para perto de seus amigos, e observou os quatro caídos ali, no chão, feridos. Sentiu um misto de vergonha alheia, decepção, frustração, e um pouco de culpa. Ficou ali, no meio do saguão, com as mãos na cintura, batendo impacientemente os pés no chão e olhando com frequência para um relógio de pulso inexistente.

— Merda, se o Becker matou a Tomoyo sem nem me dar a chance de ver ela eu juro que — Ela ouviu o elevador chegando, e se animou, porém, se decepcionou com o que viu saindo dali.

Era Anne. Ela carregava Miles em seus ombros, com uma grande dificuldade. Estava tão focada em carregar aquele homem que mal percebeu Satsuki, os garotos desmaiados no chão, e o grande robô destruído no meio da sala. Ela arrastou Miles até a pequena cafeteria, e o sentou em uma das cadeiras. Parou um pouco para recuperar o fôlego, e percebeu enfim o que estava acontecendo ali.

— O quê.....o que você fez com eles? — Questionou Anne, tentando não esboçar que estava morrendo de medo.

— Dei uma de mãe e eduquei eles, apenas isso. — Satsuki caminhava até Anne.

— Você..... — Ela mal conseguia completar uma frase. A mulher alta a deixava intimidada, mas tentava manter a calma.

— Vá embora. — Murmurou Satsuki.

— O-O q-quê?

— Eu falei pra ir embora. Estou te dando essa chance, e é melhor usá-la com sabedoria.

— Mas e quanto a ele? — Perguntou Anne, apontando para Miles.

— Ele vai ficar aqui, como deveria ficar. Tem sorte de eu não ter decidido simplesmente cortar sua garganta, igual planejo fazer com aqueles meninos ali em breve. Vá embora, agora!

— Eu não posso! Eu prometi pra Tomoyo que ajudaria o Miles, e é isso que eu vou fazer! — Anne tentou empurrar Satsuki, mas mal conseguiu movê-la.

Ao tocar em Satsuki, Anne teve acesso a sua mente. O tanto de informações conflitantes eram ensurdecedoras. Anne só conseguia ouvir risadas, gritos, barulhos altos, varias vozes diferentes, e seus sentimentos predominantes eram de angústia, raiva, e.....medo. O medo mais puro possível, do tipo que crianças tem antes de dormir, imaginando um monstro debaixo de suas camas. No fundo, isso é o que Satsuki era: uma criança com medo. Ao deixar de toca-la, Anne voltou ao normal, e olhou nos olhos de Satsuki. Levou um tapa forte no rosto, que a jogou no chão.

— O que você tava fazendo?! — Questionou Satsuki(Yuko).

— Nada, eu só — Disse Anne, se levantando, sendo interrompida no meio de sua fala.

— Eu senti algo diferente, não tente me enganar. O que você fez?! — Satsuki segurou Anne pela gola de sua blusa.

Anne deu um soco em seu rosto, que surpreendentemente doeu mais do que ela imaginava. Pronta para espancar Anne até obter sua resposta, Satsuki ouviu novamente aquele barulho. O som do elevador, enfim, chegando ao segundo andar, e a porta se abrindo.