Avalon

3 Capítulo 3


Delegacia de Policia

Kentaro, Masumi, Mitsuru e Kai foram levados para a delegacia. Um por um, eles foram interrogados. Mitsuru manteve a calma o tempo todo, e respondia as perguntas com toda a calma do mundo, sem se exaltar. Ele acabou sendo liberado, e Masumi foi chamado em seguida. Masumi estava um pouco aflito, mas respondeu as perguntas de forma calma também, ao menos na medida do possível. Kai foi logo em seguida, e apesar de sua personalidade esquentada, ele respondeu as perguntas sem nenhuma reclamação. Enfim, foi a vez de Kentaro ser interrogado.

— Então, garoto. — Disse o policial, se preparando para fazer as perguntas.

— Quem você ta chamando de garoto?! — Ele se irritou

— Olha aqui seu merdinha, nenhum deles me deu trabalho até agora, então espero que não seja você que vá acabar com a minha paz, ta me ouvindo?! — Disse o policial, irritado. — O que vocês estavam fazendo brigando com aquela gangue?

— Pensei que já tivesse perguntado isso pros outros. — Ele falou, se acomodando na cadeira.

— É, mas eu quero ouvir da sua voz. Agora me responda.

— Eles estavam atrapalhando nossa vizinhança fazia tempo, importunando os cidadãos e roubando deles. Nós só decidimos que já era hora de acabar com essa palhaçada de uma vez.

— Sei, e esses machucados foram dessa briga? — O policial notou os hematomas em seu braço e rosto.

— Não, e o que isso te interessa?

— Não me interessa muito não, pra falar a verdade. Eu já to vendo que você vai me dar trabalho, e não to com saco pra isso agora. — O policial então puxa seu celular e abre uma foto — Por acaso você conhece essa garota? — Ele mostra uma foto de Tomoyo pra ele.

— Não, não, acho que não. Eu lembraria se tivesse visto uma garota bonita assim. — Ele falou, tentando disfarçar que já tinha sim visto ela.

— Ok, vou acreditar. Bom, é isso. Assim como seus amigos, você vai pra prisão em breve, então é bom já ir se preparando.

— O quê?! Prisão?!

— Tem noção das merdas que vocês tem causado? Muita gente inocente morreu por causa dessa sua briga de gangues! Hora de aceitar seus erros como um adulto, rapaz. — Disse o policial, se alterando.

— Ei, isso não é justo! Eu to protegendo essa cidade! — Disse Kentaro, sendo arrastado por um guarda.

— Vigilantismo e participar de gangues é um crime, já deveria saber disso.

— Droga, vocês vão se arrepender disso!

Os 4 foram levados para celas, e no dia seguinte seriam transferidos para a prisão. Kentaro se deitou na cama, e ficou pensando em como as coisas chegaram até aquele ponto. Seus pensamentos foram interrompidos por uma voz familiar, que vinha da cela ao lado. Ele se aproximou, e conseguiu ouvir o que ela falava. "Merda, o Miles vai me matar quando descobrir isso", ela falou. Kentaro nunca confundiria aquela voz, era Tomoyo, a garota que salvou sua vida dos Roche.

— Ei, Ryoko? — Disse Kentaro.

— Você... — Ela tentou lembrar de quem era aquela voz — Kenshiro?

— Que? É Kentaro, droga, Kentaro!

— Ta, foi mal. O que aconteceu com você? — Ela perguntou.

— Eu que te pergunto, o que aconteceu? Como você veio parar aqui? — Kentaro perguntou.

— Eu meio que bati em uns policiais, e aparentemente isso agora é crime, então eles querem me deixar presa por sei lá quanto tempo. — Disse Tomoyo.

— É, não da pra ganhar todas as lutas. — Kentaro se lembrou dela derrubando todos os Roche com facilidade. — Eu nunca vi alguém lutar como você antes, foi bem....incrivel, eu acho.

— Ta falando com quem, Kentaro? — Perguntou Kai.

— N-Ninguém, eu to só pensando alto. — Respondeu Kentaro. — Enfim, agora você não tem desculpa pra não me contar as coisas, né? Onde aprendeu a lutar assim?

— Eu não sou obrigada a te falar. — Ela deu de ombros.

— Qual é, é só uma curiosidade! Vamos ser parceiros de prisão mesmo, o que custa contar? Sabe que as prisões de hoje em dia não separam homens e mulheres, né? Vai ter que olhar pra minha cara todo dia.

— Ah, que pesadelo. — Ela zombou. — Escuta aqui. Eu tenho um plano pra fugir, mas você tem que ficar calado e me deixar trabalhar, ok?

— Sério? Que plano?

— Como eu já disse, fica calado e me deixa trabalhar. Tá me entendendo?

— Claro, claro. Eu não retrucaria alguém que conseguiria me espancar até a morte se quisesse. Então, é só eu ficar deitado aqui e esperar?

— Basicamente, sim.

Kentaro se deitou, e ficou esperando. Tomoyo tinha ouvido de algum guarda que ela iria ser levada direto para o escritório da presidente Stigma, e isso a fez acreditar que seu segredo já tinha sido descoberto. Sem muito o que fazer, sua única opção era fugir. Ela aguardou por alguns minutos, e um guarda veio inspecionar como os detentos estavam. Ele passou por cada cela sem falar nada, até enfim chegar na dela.

— Como achou que bater nos policiais seria uma boa ideia, menina? — Perguntou o guarda, com uma prancheta nas mãos.

— Por favor, me deixa sair! — Ela se jogou na porta da cela, tentando distrair o guarda e deixá-lo com pena dela. — Eu não fiz nada por mal, eu juro!

— O que é isso? Antes você tava quase matando o delegado, e agora ta se fazendo de coitada? Se for pra enganar alguém, pelo menos faça direito!

— Bom, se é assim. — Tomoyo concentrou uma pequena descarga elétrica em suas mãos e acertou o guarda, o deixando inconsciente.

Kentaro acabou vendo tudo, e ficou sem entender o que tinha acabado de acontecer. Primeiro, aquela garota derrubou um grupo de 8 dando piruetas e chutes no ar, e agora ela estava soltando eletricidade das mãos. A jovem pegou a chave do guarda e abriu sua porta, e em seguida abriu as celas de todo mundo.

— Que merda é essa? — Perguntou Kai.

— Uma missão de resgate, não percebeu? — Ela respondeu.

—. E você é nosso anjo da guarda, por acaso? — Perguntou Masumi.

— Basicamente.

Após todos saírem de suas celas, se prepararam para fugir, mas logo em seguida um grupo de guardas chegou na sala. Os guardas avançaram contra eles, e Kai recebeu um com uma cabeçada, e Kentaro recebeu outro com um soco no rosto. Tomoyo acertou um chute no peito de um dos guardas, e notou que mais estavam vindo. Sabendo que o plano não daria certo daquele jeito, procurou outra forma de resolver aquele conflito. Viu de longe o painel de energia do local, e lançou uma rajada elétrica pequena contra ele. Ninguém chegou a ver esse raio, e por isso ficaram todos confusos quando as luzes se apagaram. Com uma pequena dificuldade, eles conseguiram achar as portas dos fundos e fugiram. Os garotos mal conseguiram pular o muro, e Tomoyo o pulou com um grande salto. Após esperar eles saírem, os 5 foram para um local isolado, para pensar no que fariam em seguida.

— E as nossas motos? — Perguntou Masumi.

— Provavelmente estão em alguma garagem da polícia na cidade. Não vale a pena tentar achá-las agora. Precisamos nos esconder, e logo. — Disse Mitsuru.

Mitsuru, Kai e Masumi então andaram para a rua da direita, em direção a sua base, e Tomoyo andou para a rua da esquerda.

— Ei, onde você vai? — Perguntou Kentaro.

— Pra casa. O Miles deve estar me esperando. — Respondeu ela.

— Miles? Eu ouvi um guarda falar sobre um tal de Miles. Ele disse que esse cara ta sendo interrogado agora mesmo na delegacia do outro lado da cidade.

— Sério? — A jovem parecia confusa, sem saber o que fazer a seguir.

— Se quiser, pode ficar na nossa base por um tempo, né galera?

— Por mim tudo bem. — Respondeu Mitsuru.

— Claro, por mim também! — Respondeu Masumi.

— Tanto faz. — Respondeu Kai.

— Ou, se quiser, pode ir pra casa mesmo. Você que escolhe. — Disse Kentaro.

— Eu não tenho o menor motivo pra ir pra casa agora, então, que seja. To logo atrás de vocês. — Disse Tomoyo, seguindo o grupo.

Eles andaram um pouco até chegar na base. Ao entrar, Tomoyo se deparou com uma casa relativamente simples, com algumas caixas de pizza na cozinha, um sofa levemente rasgado, algumas latas de bebida na mesa da sala de estar, e um chão até que bem cuidado. Kai chegou logo se jogando no sofá, e Mitsuru foi para a cozinha. Masumi ligou a TV, e fez Kai abrir espaço no sofá para que ele sentasse.

— Então, o que achou? — Perguntou Kentaro.

— Bom, é mil vezes mais arrumado do que eu imaginei que seria. Gostei. — Disse Tomoyo.

— Ouviu isso, Mitsuru? Ela disse que o lugar é bem organizado! — Gritou Kentaro, orgulhoso.

— Seus padrões de arrumação são um pouco deturpados, moça. — Disse Mitsuru, da cozinha.

— Da pra vocês terem o mínimo de educação e deixar a hóspede sentar no sofá? — Disse Kentaro, fazendo Kai e Masumi sentarem direito. Tomoyo sentou logo ao lado deles. Kentaro se sentou na poltrona da esquerda, e Mitsuru sentou na poltrona da direita, trazendo alguns salgadinhos da cozinha.

— Servidos? — Perguntou Mitsuru. Todos aceitaram, menos Tomoyo. — E você, Tomoyo?

— Não, valeu. Eu to bem. — Ela respondeu.

— Cara, é impressionante como eles nos tratam como lixo, né? — Disse Masumi. — Viu o jeito que aquele policial olhava pra gente? E as merdas que ele dizia? "Ah, vocês acham que estão fazendo o bem, mas só atrapalham nossa cidade de prosperar". Fala sério! A gente tá fazendo exatamente o que eles não fazem, que é se livrar de gangues e criminosos! Eles mal fazem nada contra os Roche, ou os outros, só ficam pegando na merda do nosso pé! Porra, como é possível que a gente faz o trabalho da policia melhor que a droga da polícia?

— O que deu em você, Masumi? — Perguntou Kai. — Normalmente sou eu que dou esses chiliques.

— Eu só cansei disso. A Stigma não liga pra gente, cara. Somos como insetos pra eles. Aposto que, se pudessem, já teriam destruído toda essa parte da cidade e construído mais daqueles prédios grandes e luxuosos. Não é possível que a humanidade era assim quando viviam na antiga Terra.

— Claro que era. Foi por isso que mudaram de planeta, né? Por terem fudido com o próprio planeta deles.

— Sabe, nem sempre foi assim. — Disse Tomoyo. — Vocês viveram na Big Square?

— Não. — Disse Kentaro. — Nós éramos do interior, e viemos pra cidade pra tentar mudar nossa vida. Mas eu lembro de ter passado pela Big Square uma vez, bem na época da guerra.

— Bom, antes da guerra, Big Square era uma cidade boa. Não era perfeita, claro, tinham pessoas sofrendo por lá também. Mas, elas não eram ignoradas, e o governo tentava ajudar ao máximo aquelas pessoas. Os moradores também tentavam ajudar com o que podiam, faziam doações, esse tipo de coisa. Avalon parece até o inferno se comparar com Big Square.

— Isso até uma droga de um portal pra outra dimensão abrir no céu, e trazer todo tipo de criatura pra cá. — Disse Mitsuru.

— Qual é, Mitsuru, isso ai é lenda. Todo mundo sabe que não foi assim que aconteceu. A Tomoyo viveu na cidade e pode confirmar, né? Você viu pelo menos uma parte da grande guerra, não viu?

— Eu... — Aquelas palavras fizeram a jovem travar. Ela mal conseguia respirar, enquanto uma chuva de lembranças atingia sua mente. — Eu..eu...

— Tomoyo? — Diz Kentaro, preocupado.

Ela continuou sem responder, como se estivesse paralisada.

— Eu já volto. — Ela se levantou, e foi para o lado de fora da casa.

Kentaro a seguiu, e o resto ficou sem entender o que havia acontecido. Ao chegar lá, viu Tomoyo acender um cigarro. Ela parecia aflita, e aquilo estava a tranquilizando. Automaticamente, ele correu e deu um tapa em sua mão, fazendo ela derruba-lo.

— Qual é o seu problema?! — Ela reclamou, acertando um soco em seu rosto, que o derrubou no chão.

— Acha que fumar vai te fazer bem? Ainda mais morando em um lugar poluído como esse? — Ele falou, se levantando, com a mão no rosto.

— Não é da sua conta o que eu faço comigo mesma, ok? — Alcançou seu bolso, e pegou o maço de cigarros. Para sua surpresa, ele estava vazio. Aquele tinha sido o último que ela tinha. Ela se irritou, e jogou a caixa longe.

— Você...... — Kentaro notou algo em seu olhar. — O que você ia contar sobre Big Square?

— Esquece, eu nunca deveria ter mencionado aquilo.

— Anda logo, você ia contar pra gente!

Tomoyo se irritou, e teria batido em Kentaro novamente, porém algo a impediu. Um barulho de janela quebrando. Os dois entraram na casa logo em seguida. Alguém jogou uma pedra na janela da cozinha. Mitsuru foi correndo para ver, e encontrou uma carta enrolada na pedra. A carta era de Akira, o líder dos Roche, e dizia para que "os 5 me encontrem nesse endereço antes da meia noite".

— Mas que merda. — Disse Masumi. — Como ele sabe que a gente já voltou pra casa?

— Isso importa? — Perguntou Kai. — É nossa chance de revanche!

— E espera um pouco. 5? Ele não sabe do Kazuma ainda, né? Sendo assim, a quinta pessoa só pode ser....

— Eu? — Perguntou Tomoyo.

— Ele deve ter visto você andando com a gente. Talvez ache que está dentro da gangue, afinal você tá com uma jaqueta de couro também. — Disse Masumi.

— Bom, por mim tudo bem. Ainda não bati em gente o suficiente pra me sentir satisfeita.

— Tudo bem? Esse cara é perigoso, caso você não saiba. Você pode ser a mestre em escapar de prisões, mas acho que — Falou Mitsuru, sendo cortado por Kentaro.

— Não se preocupe com ela. Confie em mim. — Respondeu Kentaro. O olhar que lançava para Mitsuru dizia tudo.

— Que seja então. Qualquer coisa, não diga que eu não avisei. — Disse Mitsuru.

— Ainda estamos sem nossas motos. — Disse Masumi.

— Bom, da pra usar as nossas antigas, né? — Respondeu Kai. — Eles tão meio enferrujadas, mas ainda devem funcionar. Sabe pilotar, Tomoyo? Pode usar a do Kazuma.

— Sei o básico. — Ela respondeu.

— Então, não vamos deixar o Akira esperando por muito tempo! — Disse Kentaro, se levantando.

— Espera! — Gritou Kai.

— O que é agora? — Tomoyo estava sem paciência, queria apenas resolver aquilo o mais rápido possível.

— Se vai nos ajudar, acho que no mínimo teria que entrar na gangue, não? — Disse Kai.

— Olha, eu realmente não to afim, serio. — Ela falou. — Eu só to aqui porque não tenho pra onde ir agora, sabe? Por mim eu tava em casa dormindo agora mesmo.

— Qual é, não é nada demais, sério. Só precisa fazer um ritual simples.

— Você não vai pedir pra ela fazer isso, né? — Questionou Masumi. — Ela com certeza não vai saber dar uma manobra dessas.

— E nem precisa. — Disse Kentaro. — Essa garota luta melhor do que nós 4 juntos, serio. Ela fazer um salto de moto não vai mudar nada.

— E eu sei dar um salto de moto, pra informação de vocês. — Ela falou, visivelmente irritada.

— Ok, então agora só falta uma coisa. — Disse Kai, estendendo a mao pra ela. — Empresta sua jaqueta.

— Minha.....jaqueta? — Ela parecia confusa.

— Ta vendo esse simbolo nas nossas costas? Se quiser entrar na gangue, precisa de um desses.

— Olha, eu nao "quero" entrar na sua gangue, e vocês sabem disso. Será que tem como a gente simplesmente acabar com isso de uma vez, sem mais nenhum ritual idiota?

— Claro.....assim que voce passar a jaqueta.

Tomoyo suspirou, e enfim tirou a jaqueta e a entregou para Kai. Kentaro notou que ela era mais magra do que parecia, e isso só o fazia questionar ainda mais como ela conseguiu derrubar tantos homens sozinha. Mas a maior duvida era: "De onde aqueles poderes vieram?". Kai voltou após 5 minutos, com o símbolo dos Coyotes bordado em suas costas. A coloração predominante era vermelha, que iria reluzir com a cor escura da jaqueta.

— Prontinho. — ele entregou, e Tomoyo pegou a jaqueta com raiva, quase puxando Kai junto.

Ela a vestiu, e a gangue parecia feliz por ter mais um membro na gangue. Tomoyo não estava se importando muito, e pretendia arrancar aquele bordado assim que pudesse.

— Então, vamos? — Perguntou Masumi.

— Ainda estamos sem nossas motos. — Disse Mitsuru.

— Podemos usar as nossas antigas, né? Enquanto não pegamos as novas, claro. — Disse Kentaro. — Então, você sabe pilotar, né?

— Melhor do que vocês, com certeza. — Ela zombou.

— Ah, convencida! Vai combinar bem com a gangue, pode apostar. Talvez até tome o lugar do Kentaro. — Riu Kai.

— O que nao vai ser muito difícil. — Riu Mitsuru.

— Ei, vocês tao do meu lado ou do dela?

— Quer saber a verdade?

— Uh.....nao, nao quero! Vamos logo então, ok?! — Kentaro parecia desconcertado.

Os 5 foram até o galpão velho que ficava atrás da casa, e o abriram. Encontraram 5 motos ali, um pouco enferrujadas, mas ainda pareciam boas. Todos lembravam qual eram suas respectivas motos, mesmo elas sendo basicamente iguais. Tomoyo ficou com a moto de Kazuma, e a ligou. Após todos saírem dali, seguiram até as coordenadas passadas.