Avalanches
6 O Fim II
Notas iniciais
Da última vez que estive no prédio onde Rivaille morava foi para devolver suas chaves. Lembro-me de ser atendido por um de seus alunos das aulas de reforço; não me lembro muito do garoto mas lembro que Rivaille estava gripado. Semanas depois daquele dia ele havia me ligado, perguntando se tinha deixado um de seus livros comigo, naquela tarde nos encontramos de novo. Nem parecia que havíamos dado um tempo.
Mas agora eu não estava aqui para devolver a cópia de suas chaves ou um livro, estava aqui para acabar de vez com tudo. Só de imaginar me doía.
Suspiro longa e profundamente quando o elevador para no andar em que Rivaille morava; ainda me lembro quando ele me trouxe pela primeira vez aqui. Lembro de como suas mãos tremiam quando ele abriu a porta, e da neura sobre a poeira nos móveis. Sorri com a lembrança, na mesma noite ele disse que me amava.
–Você estragou tudo, Erwin. – falei para o espelho na porta do elevador.
Olho com desgosto meu reflexo. O cara alto e loiro parecia extremamente bem, a barba por fazer, as roupas caras, olhos azuis, óculos de leitura, cabelo levemente despenteado. Céus, eu me odiava.
Saio do elevador e sigo pelo pequeno e estreito corredor, vendo a porta do apartamento 23 ao fundo, era pintada de verde limão e tinha uma pequena mancha vermelha da camada anterior. Enterro as mãos nos bolsos e sigo em frente, tentando afastar qualquer coisa naquele corredor que me lembrasse Rivaille. Se eu começasse agora a tentar esquece-lo, talvez fosse melhor. Para ambos.
Bato na porta três vezes, esperando por ele. Ouço seus passos curtos sobre o piso de madeira e, por um segundo, imagino seu rosto sorridente ao me receber na porta. O que vejo não é tão diferente disso, só não havia o sorriso.
Quando Rivaille abre a porta, sinto meu peito murchar. Seus olhos estavam inchados, como se tivesse passado a noite toda chorando ou acordado; os lábios estavam secos e o cabelo jogado para trás. Ele havia tomado banho, podia sentir o cheiro de seu shampoo de onde estava.
–Oi. – falou. O som de sua voz fez parecer que nada havia acontecido.
–Oi.
–Você... – ele limpou a garganta – Chegou cedo.
–Sei que não gosta de atrasos então, vim mais cedo.
–Sei.
Silêncio.
–Entre. – Rivaille me deu espaço para entrar, e o cheiro daquele lugar me fez querer morrer. Iria perder tudo isso em questão de minutos. Eu sentia isso, era um fato e eu já tinha aceitado, ou quase.
–Sente, eu já volto.
Rivaille some em direção a cozinha, ele usava minha velha camiseta do Rammsteins e calças curtas de pijamas. Olho ao redor enquanto ele não voltava, meus olhos param em uma foto nossa embaixo da Torre Eiffel, seguindo para uma onde estávamos nos beijando em uma cabine de fotografia. Caminho até onde essas e outras fotos estavam e pego o porta retrato, lembrando do guarda que nos expulsou da cabine por que estávamos quase transando lá dentro.
–Eu fiz chá, – disse ele atras de mim – trouxe um pouco pra você.
–Ah, obrigado.
Rivaille coloca a xícara sobre a mesinha de centro e se senta no sofá, juntando as pernas contra o peito e bebendo o chá lentamente. Eu me sento ao seu lado e apenas seguro a xícara quente em minhas mãos.
–Barba? – disse ele quebrando o silêncio.
–Não tive tempo de fazer. – E deixar do jeito que você gosta.
–Mas teve tempo para me ver. – falou.
–É.
–Erwin... Na última ligação, você disse que aconteceu algo. – ele pousou a xícara sobre a mesa e se ajoelhou no sofá, pegando meu rosto entre as mãos e me encarando. – O que houve?
Era agora.
Ou eu nunca poderia seguir em frente com aquela culpa me corroendo. Iria destruir tudo que construímos em sete maravilhosos anos, iria me afastar daquelas mãos, daqueles olhos, do seu abraço... Eu era um estupido.
Reuni todas as forças que me restavam e, depois de deixar a xícara sobre a mesa, seguro suas mãos por uma última vez.
–Rivaille, nos últimos dias eu... Eu me envolvi com uma pessoa. – Rivaille solta suas mãos das minhas, mesmo assim eu continuo. – Foi apenas uma vez mas, eu não quero de dar motivos para desconfiar de mim. Eu ainda te amo, e vim aqui lhe dizer isso. – busco por seus olhos, as sobrancelhas franzidas tentando controlar as primeiras lágrimas. – Rivaille eu quero que me perdoe pelo que fiz. Eu nunca parei de pensar em você, em nenhum momento. Eu te amo.
–Quem foi? – perguntou limpando as lágrimas.
–O quê?
–Com quem foi? Você me traio, eu tenho o direito de saber com quem foi.
–Rivaille, isso... Isso não importa.
–Importa pra mim, Erwin. Quem foi?
–Não importa.
–Foi a Mary não foi? – disse se levantando. – Você transou com aquela vadia!? – meu silêncio foi minha sentença de morte. – Como você pode!? Ela acabou com sua vida e você, depois de quase 20 anos você... – ele fez cara de nojo para mim. As lágrimas manchando seu rosto, Rivaille respirava alto e entre os soluços, ele me encarava.
–Rivaille por favor... – me levanto e vou até ele, que se afasta. – Rivaille, eu te amo. Foi um erro, eu sei. Mas, por favor Rivaille, me perdoe. Eu estava bêbado.
–Vai jogar a culpa na bebida agora? – pergunta irritado. O som de minha voz já o incomodava.
–Não. Rivaille, eu sentia sua falta! A bebida foi apenas um empurrão para eu fazer a maior merda da minha vida! Jamais me passou pela cabeça levar Mary pra casa e...
–Espera! – falou ele se afastando ainda mais de mim – Você a levou para dentro de casa? Você a deitou na nossa cama!? Você... –a voz dele morreu, dando lugar para um choro que nunca havia ouvido antes, um choro de raiva e dor. – Eu te odeio.
–Rivaille me escuta...
–Não! Se você realmente me amasse como está dizendo, não teria feito isso! Teria esperado, como eu fiz! Foi você que não nos deu o tempo certo, Erwin! Você foi fraco!
–Eu sou um ser humano Rivaille, eu tenho desejos!
–Desejos? Você ainda desejava a Mary? Dormia comigo pensando nela!?
–O quê!? Não! Você quer ao menos me ouvir?
–Eu já ouvi demais, Erwin. Você me traiu, pronto. Já chega.
Rivaille seguem em direção ao seu quarto, mas eu o seguro pelo braço, o impedindo. Quando o viro para ficar cara a cara comigo, vejo mais lágrimas em seus olhos, aquela visão faz minhas próprias lágrimas caiem.
–Me solta...
–Não até você me ouvir.
Rivaille fecha os olhos com força e desmorona no chão, caindo de joelhos e soluçando alto, encolhendo os ombros. Eu ainda segurava sua mão quando me ajoelhei ao nível de seus olhos.
–Rivaille, olhe para mim.
–Não...
–Por favor, Rivaille.
–Não...!
–Riva.
–Não me chame desse jeito. – ele finalmente me olha, seus olhos brilhando em raiva. – Você não tem mais esse direito!
–Eu só quero que me perdoe. – ele fecha os olhos com força, mordendo os lábios e fechando a mãos ao redor da minha. Apertando os dedos com força.
–Eu não posso... Erwin, você... Você fez algo imperdoável. Custava me ligar? Custava aparecer aqui e conversar comigo? É tão difícil assim abaixar a guarda?
–Não tem a ver com baixar a guarda. Eu não tinha coragem de olhar para você. – Rivaille me encara sério, a aperto afrouxando lentamente. – Eu não queria que olhasse para mim e se lembrasse das coisas ruins que já te fiz.
–Você nunca me fez nada de ruim, Erwin. Você nunca me deu motivos para que desconfiasse de você. Você... Você era perfeito. – Rivaille enxuga minhas lágrimas, pousando as mãos em meus ombros. – Até agora.
Engulo em seco, suas mãos deixam meus ombros e voltam para meu rosto, olhando fundo em meus olhos Rivaille tenta sorrir; seguro suas mãos junto das minhas. Os dedos frios que eu tanto amavam me tocavam por uma última vez.
–Rivaille...
–Não fale. Cale a boca por um minuto e me escuta. – Rivaille respira fundo, fungando. – Podia ser com qualquer pessoa Erwin, menos ela. Se não fosse a Mary... Eu até consideraria te perdoar. Mas... depois de tudo que você me contou sobre ela, e o que ela te fez... Eu não imaginava que... Eu nem ao menos maginava que pudesse fazer isso comigo!
–Por favor, Rivaille.
–Calado!
Ele se levanta, me deixando sozinho no corredor. Sigo seus movimentos com os olhos e o vejo segurando um pequeno embrulho. Rivaille volta até onde estávamos e se ajoelha a minha frente. Ainda enxugando as lágrimas, ele abre a pequena caixa, mas se irrita com o laço e desiste.
–Tome. – falou estendendo a mão para mim.
–O que é isso?
–Quanto te liguei, eu realmente queria voltar pra você, Erwin. Eu pensava “agora vai dar certo”, “não vai ter mais nada no nosso caminho. Nem trabalho nem as brigas estupidas”, então... eu comprei isso, como um pedido de desculpas. – pego a caixa de suas mãos e termino de abrir, era um colar, e seu pingente era uma pequena pedra azul turquesa.
Lembro-me dele falando que meus olhos tinham aquela cor.
–Isso aqui também. – volta a dizer.
Rivaille ainda usava o pequeno anel que havia lhe dado, ele o tirou com um pouco de violência do anelar esquerdo. As mãos tremiam.
–Rivaille, não... Por favor.
–Erwin, se vamos acabar com isso, então tem que ser do jeito certo. – chorou ele me forçando a segurar o anel. – Fique com o colar, é um presente.
Acabar?
–Rivaille, não precisa ser assim.
Não tem que acabar!
–Você disse, que dependia de mim. Que dependia de mim decidir como iriamos revolver isso, que dependia de mim decidir se voltaríamos ou não. Você a escolha errada, Erwin. Aquela noite... Você... Nós, deveríamos ter acabado ali. Teria sido melhor.
–Melhor? O que quer dizer?
–Como assim o que quero dizer? Se tivéssemos terminado ali, teríamos seguido nossas vidas ao invés de ficarmos nos corroendo por um culpa que não é de ninguém! Você teria feito o que fez e não se sentiria na obrigação de me contar!
–Acha que não me arrependo do que fiz!?
–Sinceramente? Não, não acho. Você brincou com meus sentimentos por sete anos, sete anos Erwin! Logo que conheci você...- seus ombros caíram, as lágrimas caiam cada vez mais fortes – eu só conseguia pensar “Hanji me arrumou um dos bons. Um casinho rápido e pronto”, mas eu me apaixonei por você. Eu amei você como nunca havia amado ninguém na minha vida. Eu passava dias chorando por você depois que me deixou naquela noite, e me perguntava se você também chorava por mim! – eu ainda choro – Eu fui fiel a você. Te amei até minha alma, e você vem aqui me pedir perdão por ter transado na nossa cama com aquela vadia e ainda acha que vou perdoa-lo!?
–Por favor...- em desespero eu o abraço pela cintura. Eu não queria mais ouvir. Era tudo verdade, e aquilo doía. Doía mais do que eu jamais pude imaginar. – Você foi, é, a melhor coisa que tenho na vida – chorava eu com a cabeça apoiada em sua cintura, segurando-o com força junto a mim, impedindo de fugir. –Eu não peço mais nada, eu só quero seu perdão. Eu não vou conseguir viver se não me dar uma resposta. Eu não vou conseguir viver sem você, Rivaille. Essa culpa... – soluço alto, sentindo seus dedos em meu cabelo – Por favor...!
–Eu não posso, Erwin. Entenda, eu até quero. Mas eu não consigo.
–Então... É o fim? – busco por seus olhos, me olhavam ternos, quase com culpa.
Ele concordou, alisando meu cabelo. Me olhando por uma última vez.
–Acho melhor... Você ir embora. – Rivaille soltou minhas mãos de seu corpo e limpou minhas lágrimas. – Erwin?
–Hum?
–Me promete uma coisa?
–O que quiser.
–Promete que vai se cuidar? – assenti. Mesmo depois de tudo, ele ainda se preocupava comigo. – Quer dizer, não se meta em confusão, ok. Você merece ser feliz. E eu prometo tentar ser também; superar tudo. Esquecer.
Que droga, Rivaille.
–Você... depois de tudo... – balbucio – Ainda quer meu bem?
–Erwin, tirando esse fato, você é uma pessoa boa.
Sorrio pela primeira vez entre as lágrimas, mesmo que ele não tivesse me perdoado, ele ainda queria que eu ficasse bem, que fosse feliz. Mas eu saba que nunca mais seria tão feliz sem ele ao meu lado. Ele não havia me perdoado, disse que me odiava e ele tem razão. Eu havia feito muitas coisas erradas para ele, mas essa com certeza foi a pior de todas elas.
–Rivaille, posso te pedir uma última coisa antes de te deixar? – pergunto, me aproximando dele.
–O quê?
–Me de um último abraço. – suas lágrimas voltam com força – Um último beijo. Diga que me ama pela última vez.
Rivaille segura minha mão e sorrindo fraco, une nossos dedos. Ele fazia isso quando estava carente, dizia que o fazia se sentir melhor. Seus olhos me avaliam curiosos, suspira varias vezes e, com a mão livre afasta minha franja; aqueles dedos frios seguem por minha bochecha, fecho os olhos para apreciar e prolongar a sensação que eles me proporcionavam. Seria a última vez. A mãos continua descendo, seguida pela que antes se agarrava em meus dedos, Rivaille pousa as mãos em meu peito, subindo pelos braços e segurando-se em meus ombros, apertando levente; ele enfia os dedos em meu cabelo, o gesto, por mais simples que tenha sido, tras várias lembranças, me fazendo chorar de novo.
Que droga, Rivaille.
–O último. – ouço-o surrurrar em meu ouvido.
Seus lábios tocam o meus com calma, pedindo espaço com a língua; os lábios dele tinham o mesmo sabor, a língua levemente áspera se chocava com a minha suave. Abraço sua cintura, sentindo seus braços me envolverem pelo pescoço. Os pulmões pediam por ar, mas negamos. Rivaille ainda chorava quando o beijo foi interrompido por ele, que me abraçou com força, passando as mãos por minhas costas, enterrando o rosto na curva de meu ombro, desabando mais uma vez me lágrimas.
Por favor, diga...
–Erwin... – chorou ele – Eu...
Diga que me ama.
–Eu sinto muito. – meu coração deve ter quebrado. – Eu não consigo...
Ele se prende a mim com um filho que finalmente encontra a mãe, chorando e soluçando alto. Deixo as lágrimas mancharem meu rosto mais uma vez enquanto o abraçava. Rivaille tremia em meus braços, dizia algo baixo. Mas não pude ouvir direito.
–Esta tudo bem. – falo. Minha garganta arranhava. – Não tem problema.
–Entenda, eu quero... mas não posso. – a voz sai abafada. Esfrego suas costas com carinho, pegando seu rosto entre as minhas mãos e o olhando nos olhos. Sorrio fraco e me levanto.
–Adeus, Rivaille.
Sigo em direção a porta, deixando todas as coisas boas que vivi ali para tras. Deixando-o para trás. Dessa vez não tinha mais volta.
Fecho a porta atras de mim, ouvindo um sussurro fraco.
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