Avalanches
5 Mary
Notas iniciais
3 Semanas Atras – Naquela sexta-feira
Mary ainda tinha o mesmo cheiro, gemia do mesmo jeito e movia os quadris como uma vadia. Ela tentava de todas as formas se segurar nos travesseiros de Rivaille, e, por esses e outros motivos, eu a mantive de quatro, segurando seus braços para não tocar naquilo que era dele. Para Mary, aquilo era apenas um jogo, para mim, algo que jamais me perdoaria por ter feito. Ela me pedia por mais e gemia meu nome alto de mais, mas antes de finalmente chegar ao seu máximo, Mary calou a boca. E do mesmo jeito que começou, terminou. Mary tremeu levemente quando sai dela e acabei gozando em suas costas, sujando as pontas dos longos fios loiros de seu cabelo. Respirando alto, Mary se senta de frente para mim enquanto fechava minhas calças. Ela tenta pousar as mãos em meu rosto, mas desvio. Já tive contato demais.
–Você tem que ir embora.
–Eu sei.
–Então por que ainda não foi? – eu a encaro. Há pouco mais de 20 anos era essa a pessoa que eu amava. Passava horas olhando seu corpo, beijando aqueles lábios. Jurando meu amor a ela. Mas agora eu via nela o oposto do que via há 20 anos. O que antes era firme estava flácido, usava quatro números à mais e a pele de pêssego já não era a mesma. Três filhos...
–Só estou olhando o que eu perdi. – respondeu depois de um tempo, arrumando os seios no sutiã, buscando por suas roupas ao se levantar – Você mudou. – a olho do outro lado do quarto, arrumava o cabelo e a camisa dentro da saia. – Está mais bonito, mais sério. Está do jeito que eu desejava na faculdade, Wini.
Wini? Nem mesmo Rivaille sabia desse apelido de infância.
–Já disse para não me chamar assim. Não estamos mais na faculdade.
–Velhos hábitos nunca morrem, querido. – e sorriu para mim.
–Assim como trair o ex-namorado com o melhor amigo dele? – zombei – É Mary, trair é mesmo um hábito para você.
–Como se você fosse um santo. – franzo as sobrancelhas enquanto ela se aproxima, rebolando. – Aquele garoto que anda com você; também o está traindo.
–Nos terminamos.
–Terminaram? – ela parecia tão surpresa quanto eu ao ouvir isso.
Nem mesmo eu sabia qual era minha situação com Rivaille. Eu não o via há tempos, o peso em minha consciência fez meus ombros caírem.
–Vocês não terminaram. – falou.
–Vá embora.
–Wini...
–Por favor, Mary. Me deixe sozinho.
–Você se arrepende do que fez? – quis saber.
Se eu me arrependia? Arrependimento não expressava o que eu sentia. Eu estava com saudades de Rivaille, tanto que chegava a doer, passava noites em claro pensando nele, no que estava fazendo, se ele estava se alimentando, se dormia direito, se havia ficado doente, se ligava o aquecedor em noites frias, se sentia minha falta, se pensava tanto em mim quando eu pensava nele... Se ele me amava quanto quando eu; se chorava nas noites de solidão, se tinha algo para se agarrar nas noites de tempestade, se olhava para o quarto e tinha lembranças minhas, se havia apagado aquela última mensagem em seu celular, se havia realizado seus sonhos... arrependimento? Eu me sentia um lixo. Só o queria de volta para meus braços, segura-lo com força e jamais permitir que se soltasse de mim novamente, queria Rivaille comigo pelo resto de minha vida, e depois dela. Sua presença e felicidade eram as únicas coisas que me importavam agora.
–Bom, eu já vou. – disse ela abrindo a porta – Nos vemos no trabalho.
Mary, sabendo onde era a saída seguiu sua vida criando uma mentira para Nile, enquanto deixava a dor de ter traído alguém que eu amava – que amo – me corroer.
Sonhei com Rivaille naquela noite.
Não era bem um sonhos, eram mais lembranças. Boas e ruins.
Sonhei com a primeira vez que ele disse que me amava, com o primeiro beijo, a vez que ele fez minha barba, quando viajamos para a França no seu aniversário; quando ele chorou na minha frente pela primeira vez, nosso primeiro Ano Novo, o primeiro dia dos namorados. A primeira briga. Quando lhe dei aquele anel, quando lhe disse que ganhei a promoção no trabalho, a segunda briga, quando nossos olhos se encontraram pela primeira vez naquela noite nevada, a primeira vez que cozinhei para ele, a nossa “primeira vez”, onde ele vomitou e dormiu em meus braços. A terceira briga. Quando ele tentou me ensinar francês, nossa música...
Acordar do sonho não foi o problema, parar de chorar é que foi.
Depois do banho, ligo para Hanji — afinal meu carro havia ficado no estacionamento do hospital – que ao chegar, me encara desconfiada.
–Óculos escuros? – pergunta destrancando a porta do passageiro.
–Está sol. – o dia havia amanhecido nublado.
–Ok.
Hanji mantinha uma conversa tranquila sobre qualquer coisa, reclamava dos novos estagiários e sei lá mais o que. Mas foi quando o sinal fechou que percebi que se sentir um lixo não adiantava. Eu tinha que me sentir pior.
–Rivaille me ligou ontem. – disse ela, limpando as lentes dos óculos rapidamente antes do sinal abrir.
–E? – uma velha sensação percorreu em meu corpo. A velha e boa esperança.
–Ele me disse que queria falar com você, mas seu celular estava sem sinal. Aconteceu alguma coisa?
Aconteceu de ter transado com uma mulher casada, aconteceu de Rivaille me ligar bem nessa hora, aconteceu de gemer por ele enquanto gozava em Mary,aconteceu de ter bebido muita vodka ontem, aconteceu de eu ter sido estupido o suficiente para ter feto isso ao invés de simplesmente ter ligado para ele.
–Mais ou menos. – respondo. – O que ele queria?
–Te ver.
Parabéns Erwin, ficou transando com a mulher dos outros enquanto a pessoa que você mais ama queria te ver. Mas que grande filho da puta eu era.
–Ele parecia preocupado, então quando der, ligue para ele, ok? Eu não sei como anda as coisas entre você mas... Rivaille é muito... como posso dizer?
–Sensível. – falo.
–Isso! Pode não parecer mas é. De qualquer forma, ligue.
–Eu vou.
Hanji volta a dirigir e eu só conseguia pensar que Rivaille queria me ver, não parava de pensar no por quê, e por que agora? Cinco meses depois daquela noite, seis meses depois da sombra de Mary. Merda, o que eu fui fazer? Ele ainda me amava, ele me queria de volta. O tempo havia acabo.
Pena não ter sido do jeito que ambos desejávamos há cinco meses.
–Está livre hoje? – pergunto, sem nem me importar no que ela dizia.
–Estou. Por quê?
Só esperava que ela não me odiasse.
–Sabe onde Mike trabalha? – ela assentiu. – Me encontre lá às 20h.
Quando seu pequeno carro para, desço rápido, e com as chaves do meu em mãos corri em busca do meu celular. E lá estava ele, piscando fraco e implorando por seu carregador. O conecto no carregador do carro e a tela reinicia.
–Porcaria.
Segundos de espera parecem eternos, depois de voltar a vida, busco pelas chamadas perdidas e me amaldiçoo ao ver que todas as 17 eram dele, e as mensagens... confiro todas elas.
19h50 erwin, precisamos conversar. Me ligue quando sair.
20h15 erwin, aconteceu alguma coisa? Você esta bem?
20h35 erwin, me responda.
20h50 onde você está? Por Deus, não me preocupe desse jeito!
21h50 erwin, retorne as ligações.
22h00 porra erwin! É sobre nosso futuro!
22h01 eu te amo.
Suspiro pesado. Ele nunca iria me perdoar, nem nessa vida nem na outra. Maldita hora em que fu beber, maldita hora em que Mary foi aparecer, maldita hora de carência!
–Erwin?
–O quê?
–Temos que entrar. – Hanji tocou meu ombro, suave.
–Ele me quer de volta.
–É, eu sei.
Naquela noite.
–Eu traí Rivaille.
Escolhi ser direto ao contar sobre ontem. Sobre Mary. Isso me rendeu olhos arregalados e queixos caídos. Ser direto não foi melhor do que eu esperava.
–Você fez o que? – pergunta Hanji, eu conhecia aquele olhar. Ela queria arrancar meu olhos – Repita isso.
Engulo em seco, Mike ainda processava o que eu havia dito, querendo não acreditar.
–Erwin, diga que é mentira. – disse Hanji – Diga que é só uma piadinha de mal gosto. – nego – Seu filho de uma...!
–Hey! – Mike segura Hanji em sua cadeira, se não fosse por ele eu teria perdido meus olhos.
–Foi por isso que nos chamou aqui?! – quis saber Hanji, tentando se soltar dos braços de Mike.
–Foi.
–Explique-se.
Suspiro, que venham as pedras.
Cotei desde o início, desde o tempo que dei com Rivaille, e Mary. Hanji fazia cara feia pra mim, mas continuei. Afinal, era eu quem precisava de ajuda. Disse que nem imaginava as reais intenções de Mary e que realmente me arrependia do que havia feito. Mas isso não bastou para que o ódio nos olhos de Hanji diminuíssem. Até que disse que, diretamente para Hanji, que a única coisa que queria era a felicidade de Rivaille, e que não me importava se ele passasse a me odiar; eu só queria esclarecer as coisas.
–Eu não sei como foi acabar assim. – confessei – De verdade.
–Cara, — disse Mike – você fez merda.
–Mike! – advertiu Hanji – viemos aqui ajuda-lo, não faze-lo se sentir mais culpado ainda.
–Mike tem razão Hanj, eu fiz merda. – falei.
Hanji suspirou e terminou a bebida.
–Quando vai contar pra ele? – perguntou.
–Como assim contar? – disse Mike.
–Se ele contar vai ser melhor do que Rivaille descobrir sozinho.
–Isso é verdade. – falei.
–Vai contar? – Mike quis saber.
–Que escolha eu tenho? Em nenhumas das alternativas vou ter chances mesmo. – ri nervoso.
Duas palavras me definiam agora : estava fudido.
Em muitos sentidos.
Quando voltei para casa a primeira coisa que fiz foi esfriar a cabeça em um banho frio. As mensagens de Rivaille pairavam em minha mente, uma em especial. Ele ainda me amava então talvez... Talvez depois de me ouvir ele pudesse me perdoar, pudesse entender meu lado, entender que... Entender o que? Que cai nos caprichos de uma mulher? Que fui pra cima dela sobre o efeito de muita vodka e que chamei por ele quando gozei? Entender que depois de 20 anos eu toquei, beijei , excitei e fiz coisas das quais nem sequer me lembro com Mary? Mary, a vadia que destruiu minha vida pela segunda vez. Minhas chances de ser perdoado por Rivaille baixaram de quase nada para nenhuma.
Eu era um grande filho da puta desumano e traidor.
Saio do banho com uma única coisa em mente: iria ligar para ele. Mas até tomar coragem fico apenas sentado no sofá que ele me ajudou a escolher, olhando o celular. Eu devia que ligar.
Devia?
Devia. Era minha obrigação responder as mensagens dele, dizer que não precisava se preocupar comigo. Eu devia me encontrar com ele, tomar coragem e olhar fundo naqueles olhos e dizer que o havia traído. Iria faze-lo chorar, e dessa vez suas lágrimas seriam a última coisa que veria. Controlei minhas próprias lágrimas e disquei seu número.
A linha toca uma vez. Ele não deve ter ouvido. Toca duas. Ele está longe do telefone.Toca três. Está no banho. Quatro. Está dormindo... Cinco. Ele não está.
–Alô? – ele estava. O simples tom de sua voz fez os pelos do meu braço se eriçarem, meu coração bateu rápido.
Aprecio cada misero segundo de sua respiração chiada pela linha, a sensação de ouvir sua voz agora era a melhor coisa que já havia me acontecido desde o nosso “termino”
–Alô?
–Rivaille? – falo.
–Erwin? – ele parecia surpreso e contente. O que que eu não daria para ver seu rosto agora? – O que foi? Aconteceu alguma coisa?
–Eu... Recebi suas mensagens. – respondo, tentando parecer distraído. A verdade é que minhas mãos suavam.
–Ah. Isso.
–O que queria conversar? – engulo em seco.
–Sobre... Sobre nós Erwin. – a voz sai baixa, podia vê-lo apoiado na parede da cozinha, brincando com o longo fio do telefone amarelo. Podia até mesmo vê-lo mudar o peso de uma perna para o outra. – Acho que já está na hora de... Você sabe. De voltarmos. – Rivaille riu nervoso. Santo Deus, ele estava sorrindo. Eu iria para o Inferno.
–Sei... – eu não sabia o que dizer.
–Erwin,– chamou – aconteceu alguma coisa?
Suspiro alto, apoiando a cabeça nas costas do sofá. A colcha ainda tinha o cheiro dele.
–Aconteceu.
–Devo me preocupar?
Deve me odiar.
–Rivaille... Olha, isso não é o tipo de conversa que eu gostaria de ter com você pelo telefone.
–Só me diga se sim, ou não.
–Vai depender de você. – ouço-o puxar o ar com dificuldade.
–De mim? Erwin, o que houve?
–Nós precisamos conversar , Rivaille.
–É por isso que não me atendeu ontem?
–Podemos dizer que sim.
–Erwin...
–Posso passar ai essa semana?
–Claro. Venha na quinta-feira.
–Certo, eu... Eu apareço no seu apartamento.
Era fim do expediente quando ela apareceu. Não Hanji, mas Mary.
A voluptuosa Mary com seus seios quase saltando do decote apertado. Ela caminhava rápido, bufando e apertando a alça da bolsa como se fosse o pescoço de alguém. Havia algo ali, Mary estava fugindo de alguém. E esse alguém era Hanji.
Observei tudo de longe quando os saltos de Mary não conseguiram chegar rápido o suficiente em seu carro; Hanji a segurou com força pelo braço, forçando-a se virar e encara-la.
–Ainda não acabamos.
–Já acabamos sim, Zoe. – falou Mary se soltando. – Quem você pensa que é para decidir o que Erwin faz da própria vida?
–Sou a melhor amiga dele!
–Isso não me importa! Ele fez o que fez por que quis Zoe. Não me venha com “você o seduziu”. Ela já é um homem e sabe como arcar com suas responsabilidades.
–Você não o conhece como eu...
–Tem razão. Eu não conheço. Mas sei que quem quer se seja Rivaille, devia ser muito importante para ele.
Ela me ouviu.
–O que quer dizer? – pergunta Hanji.
–Escuta. Sei que devo ter destruído algo entre eles, mas... – Mary suspira. Trocando diversas vezes o peso de uma perna para a outra, buscando algo para dizer – Isso não é problema meu.
Foi rápido demais. Hanji bateu forte no rosto de Mary, fazendo-a cambalear até ficar entre ela e o carro.
–Pode não ser problema seu, mas agora você faz parte dele. Você não tem nem noção do que esta havendo! Tirou proveito da dor de Erwin e supriu seus próprios desejos. Sua... Vaca desalmada! Tem noção do quanto está fazendo aqueles dois sofrerem?! Destruiu a única esperança de Erwin! A única oportunidade de Rivaille poder amar alguém novamente!
Mary ficou sem reação, apenas mantinha os olhos em Hanji e eu mantinha os meus nas duas. O que exatamente Rivaille disse para ela? Eu... Eu cheguei a ter alguma chance? E elas se foram...
–Nos últimos sete anos, Mary – disse Hanji – eu nunca vi Rivaille sorrir tanto com o simples mencionar do nome de Erwin. Você só ajudou as coisas entre eles ficarem piores.
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