Notas iniciais
O maior capítulo até então, cheio de acontecimentos e o ponto de partida para a fase final da fanfic, que irá até no máximo 45 capítulos, embora eu acredite que consiga terminar com 40.

Corri desorientada, seguindo por qualquer caminho que me parecesse bom o suficiente para fugir daquele lugar. No entanto, logo que a porta se fechou, eu a escutei abrir novamente. Alexander vinha atrás de mim com o máximo de sua rapidez, e isso só me fez correr para mais longe e com mais fúria.

Desmond estava morto. Minha mente não parava de pensar em Cameron. Thomas poderia estar por trás daquilo, eu não duvidava, ele esteve na Rússia quando rei Sergey “adoeceu”, e agora estava na Nova Inglaterra quando meu odioso pai havia morrido. Mesmo assim, meu gêmeo teria que ter dado o aval.

Eu estava queimando por dentro. Mais lágrimas caíam quando meus pensamentos divagavam entre minha mãe e Edwin. Ambos tinham uma personalidade tão doce, não conseguia nem imaginar o meu irmãozinho diante daquela situação, sabendo que Desmond havia morrido por um “infarto”.

O assassinato de um rei pelo seu sucessor. Isso era perigoso até demais. O que os Lordes pensariam?

Desci as escadas rapidamente, sentindo minha respiração ofegante começar a me sufocar. Ansiava pelo ar dos jardins, pela liberdade de estar fora daquelas paredes tão hostis. Era como se eu tivesse chegado ao ápice do caos, as perguntas flutuavam em minha mente como nuvens negras cobrindo a luz da razão.

Lembro de ver o rosto confuso dos guardas quando corri como um vulto para fora, nenhum deles rápido o suficiente para me deter às ordens do príncipe, que continuava tentando me alcançar.

Quando dei meus primeiros passos na grama verde, pude notar uma tensão estranha ao meu redor, o que me fez diminuir a velocidade. Entre os arbustos, consegui ver algumas criadas correndo amedrontadas para dentro do palácio, seus rostos eram de puro terror. Parei de me mover imediatamente, sem entender nada do que estava acontecendo ao meu redor.

No instante seguinte, um barulho alto irrompeu pelos meus ouvidos, como uma campainha estridente sem fim. Minha cabeça explodiu com aquilo, tirando o resto da sanidade de mim.

— Avery! – Alexander segurou meu braço com força, finalmente havia me alcançado. – Nós vamos entrar agora!

Como assim?

Ele me girou com brusquidão, fazendo nossos olhares se cruzarem quando me virei. Eu podia ver um medo de outro mundo em seus olhos, uma sensação tão única e horrível que me fez paralisar. Alexander estava fora de si, sem controlar a força de sua mão em meu braço, a qual me apertava o suficiente para me machucar.

— Me deixa em paz! – relutei confusa, mesmo nem escutando minha própria voz em meio ao som agudo da campainha, a qual ainda tocava pelo palácio inteiro.

Guardas corriam em nossa direção. Escutei mais gritos estridentes ao longe e também o barulho inconfundível de algo que não ouvia há anos. Tiros.

— Avery, por favor! Precisamos ir para um abrigo... – Alexander implorava, puxando-me para dentro com mais força ainda. Seus olhos pareciam embargados de pavor sob a luz do sol.

Deixei meu corpo se mover sozinho, minha mente não tinha condições nenhuma de tomar decisões. Meu sufocamento parecia ainda pior quando entramos de volta no palácio.

— Altezas! – um dos guardas guiou Alexander e eu para um corredor. – Vamos escolta-los até o abrigo real.

Escutei mais tiros ao longe, vendo um vulto preto cair há vários metros de mim, nos jardins. Mais silhuetas escuras corriam tentando acessar o palácio, alguns rápidos demais para serem detidos.

Assim como o príncipe, eu podia sentir um medo colossal misturar-se ao meu sangue. Mesmo que tivesse sido treinada por vários anos para aquilo, o trauma pela minha mãe era ainda maior.

Não queria ver ninguém morrer. E sabia o que aquilo significava, só não queria admitir.

Meu corpo paralisou.

— Isso é um ataque rebelde? – olhei diretamente no rosto do guarda, tentando manter o mínimo de controle.

— Sim, Alteza. A Sociedade do Sul está aqui.

Respirei fundo, lembrando dos anos de treinamento e de todas as vezes em que Edwin e Cameron diziam que eu era uma heroína. Por incrível que pareça, também me recordei de quando Thomas me disse que eu era forte após ter sobrevivido ao sequestro. Verdadeiramente forte. Jasper sempre dizia o mesmo também.

— Vamos logo... – sussurrei para Alexander, recobrando os movimentos de meu corpo.

Ele me encarou por um curto instante, seus olhos pareciam conter um fogo indomável. E então me puxou para corrermos adiante, seguindo dois guardas que nos protegeriam pelo caminho.

Desmond estava morto. Um ataque rebelde estava acontecendo. Era como ditar a independência e depois morrer como mártir. Nada fazia sentido na minha vida, e as coisas só pioravam, como uma avalanche de eventos irredutível.

Corri com a mão de Alexander em meu pulso, quase que me algemando a ele. Eu havia jurado a mim mesma que iria defender Illéa, e não poderia descumprir com minha promessa. Não entendia como os rebeldes haviam entrado no palácio, mas me lembrava de que a própria Yekaterina havia nos avisado sobre as estruturas serem antigas e cabíveis de brechas.

— Isso já aconteceu antes, não foi? – perguntei enquanto corríamos, agradecendo por estar de calças.

— Sim, mas eu nunca tinha estado em um... – Alexander ofegou, seu olhar desviava constantemente de mim para averiguar os nossos arredores.

Engoli em seco, continuando o percurso em meio a um turbilhão de indagações. Será que os monarcas estavam bem? O general? Até mesmo August e a senhorita Marlee?

Quando íamos virar à direita para alcançar um dos salões principais, dois homens fortes apareceram no corredor bem em nossa frente, rompendo com todas as preocupações que eu tinha em mente. Um dos rebeldes era franzino e de meia idade, portando um machado pesado consigo. No entanto, o outro parecia ser mais ofensivo ainda, o rosto angular apenas confirmava seu instinto mortal.

Meu corpo inteiro pareceu ter congelado assim que vi uma arma nas mãos daquele homem. Ele era um mercenário, não restavam dúvidas, contratado pela Sociedade do Sul para matar qualquer membro da realeza.

— É o príncipe e a inglesa! Mire nele! – gritou um deles, lançando um olhar sanguinário em nossa direção, que era mais para o loiro ao meu lado do que para mim.

Merda.

Alexander entrou em choque quando os rebeldes começaram a correr, segurando meu pulso com tanta força que não consegui me mover de primeira.

Os guardas ao nosso lado atiraram simultaneamente. Meus olhos tentavam acompanhar os movimentos, lembrando de cada parte do treinamento militar. Um dos tiros pegou no peito do rebelde que portava o machado, ele caiu ao chão enquanto gritava de dor com o ferimento. No entanto, mesmo o outro guarda mirando com proeza, o rebelde armado se esquivou do tiro letal ao jogar o corpo para o lado, fazendo a bala atingir seu ombro.

Meu olhar se concentrava apenas no revólver daquele homem, parecia até que eu já havia visto aquela arma antes. Pela forma como ele posicionava os dedos, tão firme e sem vacilar, eu sabia que atiraria de forma certeira, que seu alvo estava muito bem definido no peito do príncipe.

Não havia tempo a perder. E no fundo da minha mente era tão claro como sol o que deveria ser feito. Precisava protegê-lo nem que aquilo custasse a minha miserável vida.

— Alexander! – gritei. Meu timbre ecoando junto ao som dos vários tiros atrás de nós.

Desvencilhei-me da mão do príncipe em um piscar de olhos, jogando meu corpo em cima do dele como se estivesse caindo em um abismo. Minhas palmas pressionaram seu peito tão rapidamente que ele não teve tempo de se equilibrar, rompendo com todo o medo que o paralisava.

Ambos caímos no chão em uma pancada brusca, assim como um dos guardas que nos escoltava, morto por um segundo tiro do rebelde. Minha visão começou a ficar um pouco turva no instante seguinte, mas não antes de eu conseguir ver a camisa branca de Alexander em baixo de mim ficar com a manga ensopada em sangue vermelho vivo.

Girei meu corpo para sair de cima dele, e um gemido alto saiu pela minha garganta.

— Avery, por deus... – senti braços quentes me envolverem, enquanto uma dor aguda irrompia de alguma parte do meu corpo.

O suor frio me tomou. Era como se Desmond tivesse me chicoteado vinte vezes ao mesmo tempo. Entretanto, Desmond estava tão morto quanto aquele maldito rebelde mercenário. Pensar naquilo pelo menos tornou a dor mais suportável por um breve momento.

Suspirei com dificuldade, focando no rosto do príncipe. Alexander me segurava com cuidado, seus olhos detinham um olhar tão comovido e amargo que nunca mais gostaria de vê-lo daquela forma. Sua alma pacífica parecia se quebrar em mil pedaços, e ele sofria mais do que eu com suas lágrimas silenciosas.

— Vou ficar bem... – sussurrei, já constatando que todo aquele sangue era meu. Ainda bem.

O som de passos firmes tomou conta de meus ouvidos. Mesmo com a visão levemente embaçada, consegui enxergar que vários soldados de fardas verde-escura corriam em nossa direção. Eram os ingleses à minha procura.

Enquanto isso, o outro guarda de Illéa parecia estar em choque, seu olhar ia diretamente para o meu ombro como se ele fosse o culpado pelo incidente. Um corte não muito profundo em minha clavícula jorrava sangue para todos os lados. Apesar disso, dava para ver que era um ferimento limpo, um tiro de raspão. Havia sido por um tris, mas sabia que precisava estancar aquilo o mais rápido possível.

— Ela precisa de um médico! – Alexander gritou assim que os soldados ingleses chegaram mais perto.

Um deles tocou em meu ombro por um segundo. Era Dallas, o líder do batalhão. Mesmo que rápido, eu vi que o homem se condenava por dentro, como se tivesse falhado em sua missão. Ainda me lembrava vividamente de como aquele soldado me ajudara no dia da carta de Cameron.

Esforcei-me para pensar. Não podíamos ficar ali por muito tempo.

— Há algum... outro abrigo? – perguntei enquanto o ar me faltava. – Acho que... não vamos conseguir...

— Tem um abrigo secundário no fim do corredor, mas lá só tem os primeiros socorros. – Alexander respondeu rapidamente, olhando mais para meu sangue do que para mim. – Você precisa de um médico, Avery. Precisamos ir ao abrigo principal...

Não consegui mais conter as lágrimas. Além da dor, eu sabia que teria que lidar com as cicatrizes em minhas costas caso fosse a um médico.

Com o resto da minha coragem e o rosto começando a entrar em pânico, inclinei-me na direção de Dallas. Àquele ponto ele já devia saber que Desmond estava morto, e como um soldado filho de um Lorde, conhecia a família Schmidt tão bem quanto eu.

— Confie em mim... – toquei em sua mão, meus dedos tremiam. – Jasper Schmidt me ensinou a estacar sangramentos muito bem... Leve-nos até o abrigo secundário, Dallas.

As rugas do homem eram pura tensão. Eu sabia que alguns no palácio sempre haviam desconfiado do comportamento violento do meu pai, mesmo que ninguém dissesse nada. Aquela era uma escolha difícil que poderia levantar muitas questões caso alguém de Illéa visse as minhas costas.

— Princesa, confio na senhorita, mas isso não será possível. – O soldado balançou a cabeça, negando. – Jamais me perdoaria caso morresse...

Alexander suspirou, ajeitando-me em seu colo para poder me carregar. Era como se já tivessem tomado uma decisão.

— Confiem em mim! – gritei, o que fez meu ombro latejar. Meus olhos soltavam lágrimas por tantos motivos que agora o choro era silencioso e constante.

Dallas e o príncipe se entreolharam, ambos pareciam não saber o que fazer diante da minha reação. Eu não tinha escolha, meu ombro doía cada vez mais.

— Levem-me... ao abrigo secundário. É uma ordem!!! – gemi de dor entre as palavras, tentando soar autoritária e irredutível.

Alexander me encarou por um longo segundo, talvez finalmente entendendo o quão sério era o meu pedido. Se minha vida estava em jogo, eu não poderia escolher errado.

Com um movimento cuidadoso, ele se levantou comigo em seu colo. Meu ombro direito, o qual estava ileso, ficou de encontro ao peito do príncipe, que me aninhou com toda a delicadeza que conseguiu em poucos segundos.

— Abrigo secundário. Fim do corredor. – Escutei a voz de Dallas repassar as ordens aos outros soldados, que correram para assegurar nossa passagem.

A cada passo de Alexander, eu sentia o sangue quente escorrer em meu ombro. Ao longe, mais tiros soaram, e os ingleses gritavam uns aos outros que podíamos passar em segurança. Minha cabeça latejava forte o suficiente para minha visão ficar ainda mais turva, porém, consegui notar quando uma das paredes se moveu próxima a uma pequena saleta de funcionários, dando espaço para um cômodo secreto e escuro.

Dallas se aproximou de mim quando minha respiração ficou ainda mais irregular. Por detrás de Alexander, notei que um soldado já pegava os primeiros socorros a fim de ganhar tempo. Eles estavam todos desesperados, talvez não querendo perder a princesa e o rei no mesmo dia.

— Não vamos deixa-la até a senhorita ficar um pouco melhor, Alteza. – disse, enquanto um outro homem se aproximava de mim com uma gaze. – Esse é o soldado Davies. Ele se formou na Academia com Jasper e é médico. A senhorita pode confiar nele.

Vi Alexander me posicionar em uma maca estreita dentro do abrigo, a pedido do soldado. O homem possuía cabelos pretos e um semblante sob controle, menos por um pequeno brilho em seu olhar.

— Ele... quem te escolheu, não foi? – perguntei entre lágrimas, sabia que Jasper seria cuidadoso o suficiente para por alguém de confiança ao meu lado.

— Sim, Alteza. Sou um bom amigo da família dele. – disse baixinho, passando um líquido estranho nas gazes que segurava. Com o canto dos olhos, notei que o soldado parecia temeroso. – Posso voltar depois... para dar os pontos, caso queira.

Assenti enquanto tentava não berrar de raiva. Ele sabia sobre as cicatrizes. Jasper devia ter contado por precaução, a instabilidade de Illéa não era segredo e sempre havíamos estado na iminência de um ataque.

— Isso está muito ruim? – Alexander perguntou, sua empatia o fazia se sentir tão dolorido quanto eu.

— Apesar do sangue, não foi tão fundo. Nossa princesa é muito forte, não corre risco de morrer se o sangramento for contido. – respondeu o soldado, terminando de embebedar as gazes no líquido transparente. – Talvez isso doa um pouco...

Revirei os olhos. Vi o príncipe a minha frente estremecer. A casa dele havia sido invadida, a vida de todos que ele amava estavam em jogo e agora teria que me ver em um estado deplorável.

— Dallas! – Chamei, quase que implorando. – A família real está a salvo?

O soldado pareceu confuso por um instante. Alexander o encarou esperançoso, parecia tomado pela tensão do momento para sequer pensar em perguntar sobre seus pais.

— O rei e a rainha estão a salvo, mas não tivemos informações sobre o outro príncipe.

Por mais que há poucas horas Alexander estivesse de mau humor com o irmão, eu sentia o desespero crescer dentro dele. Sabia que o ataque havia sido bem premeditado, sem tempo suficiente para Illéa realocar as forças russas para a defesa do palácio. Era o momento perfeito.

Olhei para o soldado Davies, as gazes estavam prontas para serem colocadas sobre mim, mas o olhar do homem era de puro receio. Eu teria que despir uma parte de minha camisa.

Respirei fundo, apertando firme a mão de Alexander. Havia ainda uma última coisa a fazer.

— Vão atrás de Mason... Imediatamente! Todos vocês! – ordenei entre respirações desreguladas.

O príncipe ficou estupefato, e todos se entreolharam com relutância. Eu sabia que minha vida era importante, só que não podia menosprezar o fato de Mason ser o herdeiro de Illéa. Os guardas do castelo eram bons, mas os ingleses eram melhores.

— Façam o que estou pedindo. – Minha voz tremeu, não me sentia nem um pouco respeitável naquele estado. – Acabem com esse ataque...

Mesmo com alguns tremores, levei a mão de Alexander até as gazes que o soldado segurava. O príncipe estava atónito, sem fala e com os olhos embargados. Não sabia se ele seria capaz de me ajudar, mas precisava dele.

— É só pressionar, Alteza. Coloquei um líquido para ajudar no estancamento e desinfectar a ferida. Isso vai arder bastante no começo. – Davies deu as instruções.

Tomado por uma coragem repentina, Alexander pegou as gazes e soltou minha mão, colocando seus dedos gentis em meu rosto choroso enquanto o soldado médico se afastava.

— Vou fazer o impossível por você... – Sussurrou para mim ao respirar fundo.

Assenti. Sabia que cada palavra era como uma promessa inquebrável.

Em um último momento, lancei um olhar autoritário aos meus soldados, mesmo com as bochechas molhadas de choro. Dallas, entre eles, parecia destemido apesar da preocupação, e logo fechou as portas do abrigo, deixando eu e o príncipe sozinhos, envoltos em tensão e sangue.

Tentei me mover para ajeitar o ombro, mas acabei sentindo uma dor aguda na clavícula. Alexander ainda me encarava com medo, seus olhos tristes mostravam uma culpa que talvez nunca fosse sumir.

— Avery, você não pode morrer... – disse, enquanto aproximava nossas testas.

Sabia que o pior da dor ainda estava por vir, assim como a situação que teria que enfrentar. Desmond me ensinara muito bem como ser resistente, mesmo que a um preço bem alto.

— Precisa me escutar. – Arfei, tentando erguer meu corpo e finalmente me sentar escorada na parede fria do abrigo.

Alexander me ajudou e logo colocou seus dedos de forma cuidadosa em minha camisa. Precisaríamos rasga-la para poder desinfectar o corte, o que deixaria uma boa parte de minhas costas à mostra.

Chorei um pouco mais, sentindo a cabeça latejar enquanto os pensamentos me tomavam.

— Não fique olhando... – pedi, as lágrimas descendo pelas minhas bochechas sem controle algum. Mais uma vez, eu era uma garotinha indefesa.

Alexander deslisou os dedos pelo tecido encharcado em sangue, minhas costas estavam todas embebidas no líquido vermelho.

— Preciso apenas te limpar um pouco e estancar o sangue... – disse ele, nervoso e pronto para rasgar o que sobrava da manga de minha camisa.

— Só não olhe... – sussurrei em um tom quase inaudível.

Sabia que não teria como esconder. Sabia que era minha vida em jogo e também um segredo horrível.

Quando o tecido se partiu, eu pude nota-lo parar por um segundo. Cobri o choro com a boca. Nunca havia me sentido tão exposta. Nem quando confessei a Igor em voz alta que meu pai era um carrasco.

Alexander ficou boquiaberto, os olhos tentavam desviar das linhas brancas em minhas costas, mas eu sabia que as íris cor de mel do príncipe já pareciam ter ligado os pontos entre os fatos. Ele era inteligente demais por trás da máscara desinteressada que vestia.

No fundo, eu só queria desaparecer.

— Achei que eu estivesse bêbado demais quando te vi pela primeira vez... – sussurrou, enquanto cuidadosamente passava os dedos pela minha pele branca e ensanguentada a mostra.

Eu tremi com seu toque, sentindo o calor sobre as cicatrizes, algumas delas de poucas semanas atrás. Era como se relembrasse cada momento em que havia sido chicoteada, sempre por um ato rebelde ou um desvio de comportamento.

Fechei os olhos, com vergonha suficiente para querer morrer de verdade.

— Achei que você estivesse com dor de alguma forma... – continuou, torturando-me com seu timbre. – Quando Kaya te abraçou na despedida e você se encolheu...

— Pedi para não olhar... – grunhi, chorando em silêncio como havia feito quando minha mãe morreu. – Apenas me ajude...

Eu o olhei por um instante, o que o fez acariciar meu rosto e manter nossas íris em contato. Alexander parecia gentil mesmo que expressasse uma melancolia genuína.

— Foi o seu pai, não foi? – perguntou, seus dedos trêmulos em meu queixo ganhando uma firmeza que se assemelhava a raiva.

Era como levar outro tiro, dessa vez no coração.

— Não importa. Ele está morto. – Minha voz fraquejou, a mentira era óbvia.

Alexander suspirou, parecia tentar se controlar diante da descoberta. Pela primeira vez, alguém tinha todos os fatos sobre mim, desde as memórias de minha mãe até as cicatrizes hostis em minhas costas. Por mais que Jasper fosse meu fiel escudeiro desde sempre, era como se ele não tivesse adentrado todas as partes de mim, sempre fugindo em algum momento ao invés de seguir no caminho para o meu coração, como havia feito da última vez em que nos vimos.

Senti meu coração palpitar, vendo que Alexander aproximava as gazes de meu ombro com o máximo de cuidado. Eu o encarei com a visão turva de lágrimas, seu rosto parecia tomado por uma expressão mais calma, como se as coisas dentro dele tivessem se organizado um pouco.

— Não vou contar para ninguém. – Sussurrou por fim.

Rápido demais para que eu pudesse entender qualquer coisa, Alexander puxou meu rosto de encontro ao seu peito, ao mesmo tempo que pressionou as gazes no corte em minha clavícula. A ardência me tomou por inteira, tão agonizante que deixei os urros de dor saírem, agarrando um pedaço da camiseta do príncipe com uma das mãos para tentar aliviar aquilo tudo.

Sentia-me zonza e fraca, embebida em meu próprio sangue e também segura de que Alexander cuidaria de mim. No entanto, nada disso foi o suficiente para me impedir de desmaiar. A dor me consumia por dentro e por fora, receosa de que fosse chegar o momento em que eu não resistiria mais.

Notas finais
Um capítulo um tanto denso rsrsrs e muito difícil de escrever! Mais assim virão, no entanto, por ora, contemplem a aproximação final de Alex e Avery nesse cap e no cap seguinte, que será mais calmo que esses... ufa! Além do mais, Avery voltará para a Nova Inglaterra. Como se dará o reencontro com Jasper? Será que ela verá o famoso Thomas?