Autumn Leaves In a Snowstorm

7 What motivates you to live?


Notas iniciais
Oi oi! Como vocês estão? Olha só quem voltou na hora certa dessa vez! Bom, alguns comentários sobre o capítulo antes de qualquer coisa: esse também vai focar no desenvolvimento do relacionamento da Autumn e do Charles, então não me batam se tiver um pouco dramático, eu adoro um drama. Como eu criei os meus personagens para serem personagens redondos, ou seja, personagens complexos e conflituosos seja interiormente ou em relação ao mundo ao seu redor, eu acredito que capítulos assim sejam necessários. O fato é que eu quero que vocês conheçam os personagens mais profundamente também, que se sintam íntimos deles assim como eu me sinto. Então é por isso que haverão vários momentos assim nessa história. Mas enfim, é só isso mesmo, chega de enrolação nas notas. Tenham uma boa leitura e espero que gostem!

— Então, eu estava pensando...

— Ah, agora você pensa? – Indagou White ao meu lado como se estivesse surpreso, desviando os olhos de seu livro para olhar para mim.

O encarei com uma expressão de tédio e soquei seu ombro levemente, mais como uma brincadeira do que um ato de violência propriamente dito. Em um breve momento de pânico, comecei a pensar se ele não havia entendido errado a minha ação repentina, mas para o meu alívio, seus lábios estavam levemente curvados, indicando um vislumbre de um sorriso. Ele mal podia ser visto, mas foi o suficiente para que eu relaxasse. Relaxasse na medida do possível, pois eu sabia que o assunto prestes a ser abordado poderia mudar seu humor facilmente também.

Olhei ao nosso redor, observando os outros órfãos se divertirem de jeitos diferentes no jardim dos fundos do orfanato. Estávamos debaixo da árvore em que eu costumava ficar e que agora era a que White também costumava ficar por conta de nosso teatrinho. Não havia lugar apenas meu mais, agora eu era obrigada a dividir quase todos com o garoto ao meu lado e ainda parecer estar gostando daquilo. O que assustava-me mesmo é que às vezes eu nem precisava fingir.

Deixando os devaneios de lado e voltando ao que realmente importava, fechei o meu livro e voltei minha total atenção a ele.

— Incrivelmente sim, White. Mas continuando o que eu estava falando antes de você me cortar, eu estava pensando sobre a matéria que você está ou estava cobrindo – respondi, sentindo-me um tanto insegura em abordar aquele assunto, já que White havia dado a impressão de ser deveras importante.

— Que matéria? – Perguntou-me, visivelmente confuso, ainda olhando para as páginas amareladas de seu livro.

— Aquela que você teve até que tirar algumas fotos naquele dia.

Naquele momento eu encarava uma folha de bordo que havia encontrado no chão ao nosso redor, observando todos seus detalhes, mais como uma desculpa – que eu esperava não ser tão óbvia – para não ter que olhá-lo. Pelo canto do olho, o vi remexer-se em seu lugar e fechar o livro. Logo eu senti seu olhar praticamente queimando a minha pele ao fitar-me tão intensamente.

— O que tem? – Charles indagou em um tom de voz evidentemente mais seco.

— Ahn, não é nada demais, na verdade. É só que eu andei pensando esses dias sobre o motivo daquilo, sabe, o motivo das fotos daquela família em questão, o que eles poderiam ter feito para merecê-las – respondi ainda mais tensa e sem conseguir encará-lo, tomando cuidado ao proferir cada palavra.

— Você sabe que é assunto confidencial, Pierce. Eu não posso ficar compartilhando coisas do meu trabalho com pessoas de fora. Na verdade, mesmo se pudesse, eu não lhe contaria. Ainda não esqueci o que você fez – Ele disse aparentemente mais relaxado, voltando ao seu tom normal e desviando seus olhos para seu livro outra vez.

— Pelo amor de Deus, será que você nunca vai esquecer isso? – Reclamei, revirando os olhos e jogando a folha alaranjada no gramado a nossa frente. Em retorno, o rapaz apenas lançou-me um olhar que já respondia minha pergunta. – Não, é claro que você não vai. De qualquer forma, quando sai a matéria no jornal então?

— Por quê? Pretende gastar seu precioso dinheiro com isso? – Soltou um pequeno riso descrente, claramente desaprovando a ideia.

— Por que não? Você não vai me contar mesmo, é a única forma que eu vou ter para saber o motivo de tudo aquilo.

— Tinha quase esquecido o quanto você é curiosa, tanto que chega até ser estupidez, se quer saber minha opinião. Acho que já está na hora, Pierce, de você seguir o conselho que sempre dá ao Bennett e cuidar apenas da sua vida, mesmo ela não sendo de grande valia e totalmente entediante. Afinal, você só é uma órfã que tem um trabalho de meio período em uma cafeteria e não tem amigos – disse ele sem emoção alguma em sua voz, lançando-me um sorriso um tanto perverso depois.

Não podia negar que aquilo havia me atingido de alguma forma. É claro que eu sabia de tudo aquilo no fundo, mas quando os fatos eram jogados daquela forma na sua cara, com aquele tom de voz vazio, com aquelas palavras e por aquela pessoa, tudo tomava uma dimensão maior e, por consequência, tudo ficava dez vezes mais doloroso.

Eu estava sem palavras, talvez pela primeira vez na vida. Eu sempre tinha algo a responder para a pessoa nessas situações, entretanto, dessa vez, eu encontrava-me paralisada. Formular uma simples oração era uma tarefa quase impossível. Não sabia se deveria xingá-lo, batê-lo, simplesmente concordar com suas palavras ou apenas ignorar tudo aquilo – ou fingir ignorar – e ir embora dali o mais rápido possível.

Segundos depois, quando vi, eu já estava partindo para a defensiva e as palavras já saiam de minha boca em um tom baixo, apesar de estar tremendo de raiva:

— Você diz como se estivesse em uma situação diferente.

White arfou de um modo desdenhoso, enquanto parecia observar cada reação minha atentamente.

— Eu não disse isso, não disse que a minha vida era melhor ou que tinha mais valor que a sua. Porém eu, pelo menos, tenho um objetivo para ela, Pierce, uma motivação. E quanto a você? Hm? O que te motiva a viver? – Perguntou-me, agora virando seu corpo em minha direção e desencostando-se da árvore.

Após alguns longos segundos de silêncio, enquanto nossos olhos pareciam travar uma batalha em que eu obviamente estava perdendo, ele de repente fechou seu livro e levantou-se, logo tirando algumas folhas de bordo presas em suas vestes de cores neutras. Olhou-me pela última vez com o seu rosto livre de qualquer emoção e disse, antes de entrar no orfanato:

— Bom, preciso fazer algo agora, não sei quando eu volto, então não me espere para o jantar. Ah, e, caso a Sra. Stevens pergunte algo, invente uma desculpa pra mim. Alguma coisa coerente, por favor, Pierce. Eu sei que você não é tão inútil quanto faz parecer.

Quando o rapaz finalmente partiu, deixando-me sozinha, peguei-me pensando no que ele havia dito. De fato, eu não tinha um objetivo de vida, mas isso nunca tinha me incomodado antes. Eu apenas tinha um plano até aquele momento, que era simplesmente trabalhar, juntar dinheiro e, quando fosse a hora, sair daquele orfanato e mudar-me para algum kitnet barato. Era isso, mais nada. Não tinha ideia do que faria depois, mas tinha uma hipótese de que acabaria fazendo exatamente o que eu já estava fazendo naquele tempo e que sempre fiz: apenas sobreviver.

Era isso então? Essa era a forma que eu aproveitaria a vida que me foi dada mesmo que eu não tivesse a pedido? Se fosse para viver assim, como uma pessoa vazia e sem propósito de vida, não seria mais fácil apenas não viver?

Respirei fundo, encostando a cabeça no tronco atrás de mim e tentando espantar aqueles pensamentos da minha cabeça. Não era como se eu frequentemente tivesse pensamentos suicidas, eu nunca os tinha na verdade, pois sabia que mesmo que eu chegasse ao ponto de querer tal coisa, não teria coragem o suficiente para realizá-la.

Então se essa não era uma opção, o que eu faria a partir daquele momento? Apenas “viveria” como sempre fiz ou seguiria o conselho de White, que não havia sido proferido como um de fato, mas que acabou se tornando? Pensando melhor, quem eu era em relação ao mundo em que eu vivia? O que eu realmente gostava de fazer? Do que eu era capaz? Quais eram minhas habilidades e quais eram as minhas fraquezas?

Depois de horas sentada ali, agora já envolta pela escuridão da noite e na companhia da lua e algumas poucos estrelas, cheguei a uma terrível conclusão, que surpreendentemente amedrontava-me mais do que o próprio Charles White: eu não me conhecia o suficiente para ser capaz de decidir alguma coisa sobre o meu futuro.

—––

— ‘Tá legal, o que aconteceu?

Desviei meus olhos de súbito da minha tigela de cereais para o capaz a minha frente, do qual eu havia esquecido a presença por alguns minutos. O olhei com uma evidente interrogação na testa e ele revirou seus olhos claros antes de esclarecer-me:

— Você está mais quieta do que o normal e não tira os olhos dessa sua tigela, Pierce. E nem tente me enganar, você sabe que é uma péssima atriz.

Soltei um longo suspiro, voltando minha atenção para a louça a minha frente, enquanto pensava seriamente se devia confidenciar-lhe algo tão pessoal, quando obviamente não éramos nem se quer amigos. Algo em meu interior insistia para que eu lhe contasse, pois ansiava por uma oportunidade de desabafo. Eu acreditava que era por conta de todos aqueles anos nos quais eu havia guardado tudo o que eu sentia somente para mim. O que tinha funcionado bem até aquele momento, quando um algo problemático demais para manter-se guardado surgiu.

— Pierce, eu não sei o que você está escondendo, mas se for algo sobre o nosso pequeno segredo, saiba que eu vou descobrir mais cedo ou mais tarde e acredite em mim quando eu digo que é melhor que eu saiba por você do que-

— Não tem nada a ver com isso, Charles, não se preocupe – o interrompi rapidamente, antes que a raiva em seus olhos começasse a tomar conta do seu rosto e de seus atos também.

Minha preocupação dissipou-se ao observar, para o meu alívio, o indício daquele sentimento desaparecendo aos poucos do jovem a minha frente depois do que eu havia dito. Ele ajeitou-se em seu assento e encarou-me com uma nova expressão de confusão e uma leve pitada de surpresa, na qual eu não tinha certeza se era apenas pela minha resposta ou por eu ter me referido a ele por seu primeiro nome sem querer também.

— Não? – Perguntou-me e eu apenas neguei com a cabeça, enquanto levava uma colherada de cereal a minha boca, tentando ganhar tempo para pensar no que fazer caso ele perguntasse o motivo outra vez. O que, infelizmente, foi o que ele fez em seguida: – Então qual é o problema?

Mastigando um pouco mais do que o necessário, eu tentei aproveitar cada milésimo de segundo para pensar em uma resposta. E enquanto pensava na nossa conversa do dia anterior, mais conhecida como a razão para o meu silêncio nada comum, acabei lembrando-me de tudo o que ele havia dito e, quando notei, já estava deixando a raiva tomar conta de mim.

— Por que você quer tanto saber? Diz para eu cuidar da minha própria vida inútil e sem futuro algum, mas está aqui cuidando dela por mim. Por que não vai cuidar da sua então? Já que é tão melhor que a minha com todos os “objetivos” aí, que você tanto se gaba ter!

Quando terminei já estava sem fôlego e meu rosto encontrava-se bem mais próximo do dele por cima da mesa, enquanto segurava a colher entre a minha palma e meus dedos com tanta força, que os nós da minha mão chegavam a estar brancos. Não demorou muito para que eu notasse também um estranho silêncio no refeitório. Olhei ao redor para saber o motivo e encontrei quase todos os órfãos encarando-me e alguns cochichando coisas inaudíveis para os amigos aos seus lados.

A ficha não tardou a cair e eu logo percebi que, assim como não havia controlado minhas palavras enquanto elas fluíam, não havia controlado o volume delas também.

Sentindo minhas bochechas arderem de leve devido à atenção recebida e totalmente indesejada, voltei meus olhos para Charles ao tempo de vê-lo levantar-se de seu lugar e pegar-me pelo braço, logo depois me levando para fora do refeitório.

Ele só soltou-me quando estávamos na biblioteca. Mesmo que os outros estivessem no andar de baixo, o rapaz fechou as portas e eu não pude evitar sentir um déjà-vu sobre aquela situação, no qual eu preferia esquecer. Estar sozinha naquele lugar com ele outra vez, causava-me uma apreensão quase que palpável e eu podia sentir meu coração bater rápido em meu peito, fazendo com que eu esquecesse momentaneamente do que havia acontecido há minutos atrás.

— Então era isso? – Charles olhava-me sério e com os braços cruzados.

— “Isso” o quê? – Perguntei em uma legítima confusão.

— Esse era o motivo de todo o seu silêncio, o que eu disse ontem no jardim sobre você não ter um objetivo para sua vida – disse mais como uma afirmação do que uma pergunta.

Surpresa por ele ter acertado em cheio, apesar de meu pequeno escândalo ter me denunciado, e querendo bater-me por não ter controle sobre mim mesma, eu desviei meus olhos para os lados tentando não fazer contato visual, enquanto remexia-me desconfortável em meu próprio lugar.

— É isso, não é? – Indagou novamente quando notou meu desconforto e que eu não responderia. Charles, então, suspirou e passou a mão entre os fios negros de seu cabelo. – Escuta, Autumn, por incrível que isso possa parecer, dessa vez eu não disse aquilo para te ofender ou algo assim. Só estava incrivelmente irritado pela sua curiosidade, na qual eu já devia estar acostumado a esse ponto.

Não tive como evitar que meus olhos encontrassem os seus depois do que havia dito. Aquilo era algum tipo de pedido de desculpas indireto ou era impressão minha? De qualquer forma, ao encontrar seus olhos azuis acinzentados, respirei fundo e decidi que não seria tão ruim se eu contasse-lhe algo sobre o que o real motivo depois de ouvir suas palavras.

— Não, Charles, você estava certo em dizer aquilo e esse é um dos problemas.

O jovem rapaz a minha frente franziu o cenho e encarou-me, como se esperasse que eu justificasse o que tinha acabado de dizer. Tive que esforçar-me para fazer exatamente aquilo que ele queria, mesmo sem vontade nenhuma de mostrar-lhe minhas fraquezas.

— Eu pensei muito sobre isso ontem quando você foi embora e durante o jantar, no qual você não pareceu. Depois de algumas horas, eu cheguei à conclusão de que eu não era capaz de ter algum objetivo de vida, porque eu não me conheço o suficiente para tal.

— Como assim? – Perguntou-me parecendo ainda mais confuso.

— Eu não sei o que eu realmente gosto de fazer, não sei no que eu sou boa, não sei do que sou capaz, não conheço minhas próprias habilidades, pois nunca me dei uma chance para descobrir tais coisas, já que estava todo esse tempo ocupada demais fazendo o que as pessoas diziam que eu devia fazer – disse quase não fazendo pausas e finalmente botando tudo o que estava corroendo-me por dentro para fora.

White encarava-me com os olhos um pouco arregalados diante da avalanche de palavras que eu havia soltado de repente em cima dele. Olhei para baixo, fechando os olhos e mordendo o lábio inferior, já me arrependendo do que tinha feito. Não tinha motivos para ter-lhe contado algo do tipo, não era como se ele fosse meu amigo ou realmente se importasse com o que eu sentia, mas tinha sido mais forte que eu e novamente eu acabei agindo por impulso.

Rapidamente tratei de dizer aquilo a ele, sentindo necessidade de explicar-me.

— Olha, eu sei que você não tem nada a ver com isso e não está nem aí para o que eu sinto ou deixo de sentir. Não devia ter contado essas coisas para você. Vamos só esquecer que isso aconteceu, está bem? Eu prometo que vou apenas engolir tudo isso e voltar a agir como eu mesma de novo.

Quando levantei minha cabeça para ver sua reação, Charles estava sério, mas balançava a cabeça, concordando com o que eu havia proposto. Respirei fundo de novo, um pouco aliviada por não termos continuado com o assunto e por ele não ter me insultado ou algo do tipo. Não sabia se seria capaz de aguentar tal coisa naquele momento. Então apenas assenti uma única vez de volta e tratei de dirigir-me a porta.

— Ei – White chamou minha atenção e eu virei minha cabeça em sua direção – não que eu me importe, tenha algo a ver com a sua vida ou seja algum especialista no assunto, porém eu não acho que deva se preocupar tanto com isso agora. Você ainda vai ter muito tempo para descobrir quem você realmente é e achar um objetivo para sua vida, ter pressa pode só atrasar o processo. Então faça o que tem que fazer por agora, enquanto ainda está presa nesse inferno, e quando finalmente se livrar daqui e começar a viver uma vida de verdade, for independente e ter controle sobre sua própria vida, vai ver que será bem mais fácil do que pensa.

Eu estava deveras surpresa com suas palavras, mas incrivelmente feliz por ele ter dito todas elas, apesar de que nunca admitiria isso para ele. Senti uma parte do aperto que eu sentia em meu peito desvair-se, assim como o peso em meus ombros. Eu quis agradecê-lo, mesmo sabendo que eu nunca daria esse gostinho a ele. Então apenas dispus-me a lhe lançar um sorriso em resposta, não tão aberto quanto eu realmente queria, mas um discreto que não o assustasse, fazendo-o correr para fora da biblioteca e para longe de mim, ou o fizesse trazer o Charles White frio de volta.

Antes que a situação ficasse constrangedora demais, eu disse em um tom brincalhão:

— Vem, vamos logo antes que os outros pensem que você me trouxe pra cá para me torturar ou algo assim e a Sra. Stevens tenha chamado a polícia.

Não demorou muito para que ele revirasse olhos para mim e seguisse-me para fora do cômodo, esboçando um quase imperceptível sorriso que eu não deixei passar despercebido.

Notas finais
Bom, é isso por hoje! Como sempre, opiniões, críticas e sugestões são sempre bem-vindas. Lembrem-se também de me avisar caso encontrem algum erro, porque é incrível como eu sempre deixo passar alguma coisa. Enfim, muito obrigada por terem lido e espero que tenham gostado! Até o próximo ♥ Tati.