Notas iniciais
Oi oi, quanto tempo! Como vocês estão? Sim, eu demorei uma década para postar e a desculpa dessa vez é que eu estava meio desanimada para continuar postando a fanfic aqui. Não queria admitir isso e nem sentir isso, porque eu sei que não devo exigir nada de vocês, mas chega uma hora que bate as paranoias e é complicado ignorá-las. Mas o fato é que eu reli minha estória e cheguei a conclusão de que eu realmente gosto dela e que já que comecei, agora eu vou até o fim. Então, not today, satan. Vou continuar com essa bagaça sim e é isso aí. E se você está lendo isso agora, quer dizer que algo nessa estória te cativou e te fez chegar até aqui, então obrigada por estar acompanhando a fanfic e espero de coração que esteja gostando de lê-la tanto quanto eu gosto de escrevê-la. Bom, chega de enrolações e drama por hoje, vamos logo ao que interessa. Tenham uma boa leitura!

Estava jantando sozinha no refeitório naquele mesmo dia, pois Charles havia desaparecido durante o começo da noite, quando eu estava trancada em meu quarto, lendo. Eu tinha que admitir que era estranho fazer minhas refeições sozinha depois de tantos dias. Apesar de Charles não ser a melhor companhia do mundo, o silêncio agora parecia mais incômodo e irritante do que suas próprias provocações.

Eu bebericava meu suco, quando uma sombra apareceu a minha frente. Olhei para cima, já imaginando ser White, e entreabri a boca para perguntá-lo onde estava, mas a fechei rapidamente ao avistar um rapaz de cabelos cor de caramelo no lugar.

— O que quer, Bennett? – Perguntei, arqueando a sobrancelha.

— Oi para você também, Autumn – resmungou ele, um pouco cabisbaixo. Quando notou que eu não estava disposta a quebrar o silêncio que se formou depois, respirou fundo e continuou a dizer: – Olha, eu só vim pedir desculpa pelo mal entendido daquele dia.

— Ah, aquele que aconteceu há quase três décadas?

— Não exagere, foi há alguns dias ape-

— Uma semana, Bennett – interrompi, corrigindo-o.

Ele suspirou, ainda evitando olhar-me, e sentou no banco a minha frente, onde White costumava sentar.

— Bom, não importa, Autumn. O que importa é que eu vim me desculpar pelo meu comportamento naquele dia e dizer que aceito a sua amizade com o White se é o que realmente quer – disse Bennett, desviando seus olhos castanhos da toalha de mesa para os meus por alguns segundos.

Arfei, achando graça e desacreditando no que estava ouvindo.

— Vou apenas ignorar tudo o que você falou a partir do “naquele dia” e dizer que aceito seu pedido de desculpas – fiz uma pausa e o olhei, enquanto ele encarava-me um pouco confuso, obrigando-me a explicar o que eu quis dizer. – Bennett, você não tem que aceitar ou não minha amizade com Charles, afinal, você não tem nada a ver com a minha vida.

— É, você já deixou isso bem claro várias vezes. O fato é que eu me importo com você, Autumn, você querendo ou não. E eu não posso deixar de me preocupar quando você começa a andar com alguém como o White e depois aparece com hematomas no braço e na outra semana com as mãos e os joelhos machucados – ele suspirou e estendeu sua mão, pegando a minha sobre a mesa. – Sabe-se lá o que aquele sujeito, bizarro do jeito que é, pode fazer com você.

Suspirei, tentando controlar minha irritação e ignorar o adjetivo dado ao White. Por mais que fosse totalmente desnecessária e sem sentido, já que eu não era a melhor pessoa do mundo com ele, eu sempre ficava surpresa com sua preocupação em relação a mim e até um pouco tocada para falar a verdade. Era óbvio que Bennett era um bom garoto, sempre foi e era quase um milagre inexplicável ele não ter sido adotado ainda. Talvez fosse porque ele havia chegado já um pouco velho para o padrão de idade que os casais preferiam ao adotar uma criança.

O fato era que sua bondade extrema irritava-me quase tanto quanto suas brincadeiras infantis quando ele estava junto aos seus dois amigos, Emmeline Bones e Stefan Jones. Apesar de ele parecer ser uma pessoa totalmente diferente quando estava sozinho, isso não o tornava parecido comigo ou faria com que eu quisesse ser sua amiga. Nós éramos quase o oposto um do outro. Sua habilidade em socializar e sua facilidade em expressar-se eram uma das coisas em que eu invejava nele internamente, apesar de sua inocência e falta de senso comum serem alguns de seus defeitos mais gritantes.

— Bennett, presta atenção no que eu vou dizer, porque nunca vai me ouvir falando algo do tipo novamente – disse, olhando-o nos olhos, enquanto escorregava minha mão para longe da sua o mais delicadamente que conseguia. – Eu aprecio sua preocupação, de verdade, apesar dela ser totalmente exagerada e desnecessária. Eu só não entendo, e acho que nunca vou entender, o que te faz sentir isso por mim, quando você sabe que nunca fiz questão de sua amizade e mal o trato devidamente para ser sincera. Talvez seja só sua inocência excessiva, mas o fato é que você tem que parar com isso ou só vai se machucar mais ainda.

Seus olhos escuros, que brilharam ao ouvir-me dizer que apreciava a preocupação que sentia por mim, perderam seu brilho ao ouvirem o resto de minha sentença. Não era muito diferente do que sempre acontecia quando tínhamos tal tipo de conversa, que era quase todas as vezes que trocávamos palavras, então aquilo mal me afetou para ser sincera.

— Não tenho esperanças que sejamos amigos mais – Edward disse logo depois de suspirar, visivelmente decepcionado. Era óbvio que aquilo era uma mentira, Bennett era uma das pessoas mais esperançosas que eu conhecia e eu sabia, infelizmente, que ele não esqueceria aquilo tão fácil assim. Apesar disso, apenas fiquei em silêncio. – Eu só não consigo entender porque você prefere ser amiga de Charles White. Ele quase não parece humano, para falar a verdade tenho quase certeza de que seja um sociopata, o que só aumenta minha apreensão por você. Se ele te machucou alguma vez, Autumn, você tem que me contar para que eu possa fazê-lo pagar por isso.

Não consegui evitar rir daquilo.

— Desde quando eu preciso de um garoto para me proteger? Estamos em algum romance do século XVIII por um acaso? Eu sei com quem estou lidando e sei quem Charles realmente é. A decisão de ser amiga dele é minha e apenas minha. Você não é obrigado a entender ou a aceitar, só a respeitar no mínimo, porque o resto cabe somente a mim.

— Como vou fazer isso, Autumn?! Pelo amor de Deus, estamos falando do Charles Anormal White! O esquisitão do orfanato que ninguém sabe nada sobre. Sabe-se lá o que ele fez antes de chegar aqui, não me surpreenderia se ele tivesse matado os próprios pais. Para falar a verdade, é o que eu, Em e Stef achamos.

Um pigarro chamou nossa atenção e quando olhamos na direção do som, encontramos White em pé, atrás de Edward, com uma cara não muito boa. O rapaz de cabelos claros rapidamente levantou-se do banco, visivelmente assustado e com medo. Eu teria rido novamente da situação, se eu não estivesse com medo por ele também.

— W-White – gaguejou vergonhosamente.

Charles o encarou sem expressão alguma e com os braços cruzados, enquanto seus olhos estavam visivelmente frios, como se estivessem testando se podiam congelar o garoto mais novo até a sua morte.

— O que faz aqui, Bennett? Inventando mais estórias sobre mim para a Auttie? – Disse com sua voz grave de modo cortante.

— “Auttie”? Então já estão no nível de terem apelidos um para o outro? – Perguntou ele, encarando-me pasmo. O tom de Bennett indicava indignação e de repente ele não aparentava estar mais com medo e, sim, com raiva. – Eu não acredito nisso!

Revirei meus olhos para sua atitude e voltei a comer minha refeição, sem vontade alguma de continuar dando atenção para aquele garoto e esperando que ele notasse minha falta de interesse, o que no fundo eu achava difícil devido a sua ignorância natural.

— Já terminou, Bennett? Agora pode nos dar licença? Preciso conversar com a Auttie a sós fez questão de dar ênfase em meu apelido, obviamente só para irritar ainda mais Edward.

O mais novo olhou-me incrédulo e eu apenas o encarei de volta, enquanto bebericava meu suco, indicando que eu não estava disposta a fazer nenhuma objeção ao que White havia dito. Ele respirou fundo outra vez, como se estivesse controlando a raiva dentro de si, e disse, antes de sair as pressas do refeitório:

— Espero que saiba o que está fazendo ou perceba o quanto isso é idiota antes que seja tarde demais.

Acompanhei sua figura durante o percurso, sentindo um pouco de pena dele e refletindo sobre o que dissera. Durante aqueles dias, eu até havia me esquecido do que me fizera entrar naquela situação, da razão da minha repentina “amizade” com Charles White. Observando o jovem rapaz pálido sentar-se no seu costumeiro lugar a minha frente e apoiar o livro que segurando sobre a mesa, eu notei a falta de um sentimento que sempre costumava acompanhar-me em sua presença: o medo.

— Sério, quando você vai tomar alguma providência sobre aquele moleque? – Ele disse já acomodado e visivelmente nervoso, roubando da bandeja minha maçã que até aquele momento encontrava-se intocada.

— Estava esperando que você fosse tomar alguma providência – respondi-lhe sinceramente.

— Eu deveria? – Perguntou ele com a sobrancelha arqueada.

Dei de ombros e voltei minha atenção ao meu prato, brincando com a comida, enquanto tentava lembrar-me do momento em que havia parado de sentir medo dele. Claro que eu sabia que White poderia ser perigoso, a imagem eternamente gravada do Ethan na minha cabeça não me deixava mentir, mas, mesmo assim, eu não conseguia sentir medo dele mais, não quando ele nunca mais havia me tocado de forma brusca ou me ameaçado seriamente.

— De qualquer forma, não vim aqui falar disso. Lembra do seu pequeno ataque hoje de manhã? Pois é, Sra. Stevens resolveu me interrogar sobre isso e só me liberou agora.

O olhei surpresa e já sentindo-me um pouco culpada por causar-lhe problema, quando dessa vez nem era culpa dele de fato.

— O que ela disse?

— Fez umas perguntas sobre o motivo do seu show no café da manhã e sobre o nosso “relacionamento” – respondeu depois de terminar de mastigar a maçã, a minha maçã. – Se éramos mesmo só amigos ou algo mais.

Engasguei-me com o suco na mesma hora em que meu cérebro processou sua frase. Ele olhou-me provavelmente achando graça da minha reação e deu mais uma mordida na fruta na sua mão, enquanto eu tentava recuperar-me.

— E o que você respondeu? – Perguntei um pouco apreensiva.

Charles lançou-me um sorriso sarcástico.

— Que na verdade estávamos em um relacionamento amoroso e que o motivo da sua gritaria hoje era só um ataque de ciúmes.

Se eu estivesse com algum alimento ou líquido na boca tinha certeza que teria engasgado outra vez. Entretanto, como esse não era o caso, apenas o encarei sem palavras, totalmente pasma. Mas quando vislumbrei um sinal de brincadeira em sua expressão e lembrei-me de quem estávamos falando, permiti-me relaxar. Era óbvio que Charles nunca faria aquilo, fingir amizade já era demais para ele lidar.

— Certo, e quando vai me dizer a verdade?

— Estou dizendo – respondeu ele com um tom de falsa indignação, que eu não comprei e ele logo percebeu que não.

— White – o repreendi, cruzando os braços e arqueando levemente as sobrancelhas.

O rapaz dos olhos claros suspirou, desistindo de insistir na mentira ao ver que não daria em nada.

— É uma droga isso. Fica mais difícil te enganar, quando você passa tempo demais comigo– reclamou, remexendo-se desconfortável no banco. – Enfim, eu disse que não passávamos de amigos, inventei que você estava de TPM ontem e que a nossa discussão não era nada que ela devesse se preocupar.

Eu revirei meus olhos ao escutar sua desculpa da “TPM”, que era tão clichê e óbvia que chegava a doer, apesar de estar grata por ele não ter dito a verdade para a senhora. Depois de um tempo em silêncio, lembrei que ele havia citado anteriormente algo que dava a entender que a Sra. Stevens havia o segurado lá por um bom tempo, mais tempo do que apenas umas duas perguntas daquelas levariam.

— E o que mais?

— Como assim “o que mais”?

— Acha mesmo que eu acreditaria que só essas perguntas e respostas levariam tanto tempo quanto você insinuou ter levado? – Perguntei-lhe com um tom de sarcasmo, não conseguindo evitar uma sensação de superioridade ao ter notado tal coisa, já que não era algo que acontecia frequentemente.

Charles desviou os olhos para o resto de maçã na sua mão direita e parecia refletir sobre algo por alguns segundos, antes de voltar sua atenção para mim e dizer com o mesmo tom sarcástico:

— Olha só, você até que é esperta, Pierce. Sim, ela me questionou e disse mais algumas coisas, mas nada importante – desviou os olhos novamente para longe de mim.

Não consegui acreditar muito naquilo e estava prestes a questioná-lo, mas ele levantou-se de seu lugar antes que eu pudesse fazê-lo.

— Enfim, era só isso mesmo. Vamos apenas evitar ter crises existenciais no meio do refeitório de agora em diante, ok? – Disse ele, preparando-se para partir.

— Não vai jantar? – Indaguei antes que Charles estivesse longe demais para escutar-me.

— Perdi a fome. Depois que você escuta aquela velha falar sem parar por incontáveis minutos, tudo o que você quer fazer é deitar e dormir – e então se retirou do ambiente, andando calmamente em sua famosa postura, que dava a impressão a todos a sua volta que ele era dono de tudo ali.

Quando sua figura saiu do meu campo de visão, voltei meus olhos para o meu prato, logo desistindo de continuar a comer. Ao levantar-me com minha bandeja, pronta para levá-las para lavar, notei a presença de um objeto a mais sobre a mesa, não demorando muito para reconhecê-lo como o livro de Charles.

—––

Enquanto subia as escadas, punha-me a analisar o livro em minhas mãos. Não estava surpresa ao descobrir seu conteúdo. Era um dos livros de Arthur Conan Doyle, mais especificamente “O Vale do Terror”, protagonizada por seu personagem mais famoso, Sherlock Holmes. Mistério, suspense e morte fazia totalmente o estilo de Charles White, então surpresa estava longe de ser o que eu senti ao ler sua capa, tinha sido mais como uma confirmação.

Ia folheando as páginas do livro, no qual estava um tanto deteriorado por conta de sua idade, quando percebi que já estava na porta de seu quarto. Deixando o objeto de lado e voltando ao objetivo principal, levantei minha mão livre e bati na porta, chamando seu nome no processo.

Quando segundos se passaram e nenhuma resposta me foi dada, repeti o ato com um pouco mais de força e chamando-o um pouco mais alto, pensando que talvez ele não tivesse ouvido. Esperei por mais um tempo e nada outra vez.

Suspirei, pensando no que deveria fazer a seguir. Imaginando que ele deveria estar em seu sétimo sono já, resolvi entrar em seu quarto e deixar o livro em sua cômoda tentando fazer o mínimo de barulho possível. Assim que abri a porta e escorreguei uma parte de meu corpo para dentro do local, surpreendi-me ao notar sua cama vazia. Olhando rapidamente ao redor do quarto, que assim como o meu era um tanto minúsculo, logo vi que não havia sinal do rapaz de cabelos negros.

Entrei finalmente no cômodo e fechei a porta atrás de mim, pondo-me a caminhar pelo ambiente, olhando em volta e analisando seu interior. Não foi uma surpresa ver que se parecia quase que inteiramente com o meu, possuía uma cama de solteiro, uma escrivaninha e um guarda-roupa. A única coisa diferente era que estava perfeitamente arrumado, sem roupas jogadas pelo ambiente ou sapatos e com a cama completamente feita. Porém, ao aproximar-me mais da escrivaninha logo abaixo da janela, notei uma exceção. Sua mesa estava lotada de papéis dos mais diferentes tamanhos além de alguns livros jogados e um bloco de notas.

Cheguei ainda mais perto para colocar o livro que ele havia esquecido no refeitório. Logo após colocar o objeto na pequena pilha de outros livros, notei que no meio de um deles saía um pedaço de papel, que não demorou muito para que eu percebesse que se tratava de uma foto. Sem conter minha curiosidade, entreabri o livro para visualizar a fotografia e notei que no final era mais de uma, eram aproximadamente dez em seu total.

Analisando-as melhor, notei que, em sua maioria, eram fotos da mesma casa no bairro de classe alta da noite em que o segui pela primeira vez. Ao passar as fotografias, notei que também o foco principal era um homem por volta dos 40-50 anos, mas muito bem cuidado, que provavelmente era o dono da casa e aparentemente o homem que chegara de carro e o guardara na garagem naquele mesmo dia.

A partir da sexta fotografia, o cenário havia mudado. Não era mais a casa branca o seu fundo e sim um hospital. Eu sabia que eu havia visto aquele edifício antes, mas nunca entrado nele, o que não era surpresa, pois era um hospital particular e localizado também em um bairro de classe mais alta. Sra. Stevens nunca me levaria em tal lugar caso precisasse de assistência médica.

Antes que eu pudesse deduzir algo mais ou analisar o bloco de notas logo ao lado, que parecia familiar, ouço a porta abrir atrás de mim e ao mesmo tempo meu coração quase saltar pela minha boca. Joguei o bloquinho dentro do bolso do meu casaco em um ato totalmente impensado, coloquei as fotos de volta em seu lugar e o livro de White em cima da pilha um segundo antes de uma mão agarrar meu braço e virar meu corpo com força em sua direção.

— O que está fazendo aqui, Pierce?!

Notas finais
Bom, é isso por hoje! As coisas estão começando a se desdobrar de verdade agora, eu ouvi um "aleluia"? Como sempre, sintam-se livres para deixar comentários, críticas, sugestões e avisar-me se acharem algum erro. Muito obrigada a você que leu até aqui, espero ver você no próximo capítulo! Tati.