— Eu me lembro do plano — Rose sussurrou quando Dimitri começou a falar tudo outra vez. Ela estava com frio, mais do que o normal para aquela manhã. Dimitri ainda era contra tudo aquilo, mas decidiu que ajudaria na formação do plano. O 'ataque' de manhã seria melhor e mais fácil para eles.

Gisela estava à esquerda de Rose, a espreita, observando tudo com olhos astutos.

–Vamos esperar o caminhão chegar e então eu vou à frente e-

— Nada disso! — Dimitri a interrompeu — Já decidimos quanto a isso, Gisela, e não tente mudar. Você sabe que você e Rose vão atrás.

— Estava apenas repassando — ela disse desgostosa.

Pedras e árvores os escondiam dos olhos dos guardas que estavam de vigia. Ali era um ponto de observação. Caminhões com alimentos passavam durante todo o dia, transportando para dentro e fora da cidade. Havia quatro guardas ao todo. Um estava armado, do lado de fora, com a postura rígida e parecendo atento a tudo. Dois estavam dentro da guarita, parecendo com sono o suficiente para não notarem o que se passava do lado de fora. Talvez pensassem que àquela altura da guerra, nenhum inimigo ousaria passar por ali. A última guarda era uma mulher. Era nela que os olhos de Rose estavam presos. Ela parecia pesar o triplo de seu peso e era tão alta quanto Dimitri. Definitivamente, teria que tomar cuidado.

— Acho melhor esquecermos isso — Dimitri falou, quando notou o olhar de preocupação no rosto de Rose.

— Não! — ela sussurrou agarrando sua mão — Este é o momento perfeito! Não há tantos soldados agora.

— O suficiente para nos fuzilar, apenas isso. — Dimitri rebateu.

— Não há como errarmos, pequeno defensor — Gisela disse e Dimitri a olhou. Cada vez que ela falava algo a favor daquilo, mais a vontade de Dimitri em amordaçá-la aumentava. Era Rose quem ela queria colocar em perigo. Sua Rose! — Ouça, você mesmo disse. Esperaremos que o motorista entre na guarita. Assim ficará apenas o descarregador no caminhão e-

— Que por acaso não temos certeza se está armado ou não — Dimitri comentou, esperando que aquilo fizesse Rose mudar de ideia. Não faria. Ambos sabiam que se voltassem sem alimento, seria pior quando tentassem conseguir novamente.

— Quando ele ficar sozinho restará apenas a mulher gorda e o guarda do lado de fora. Os outros três lá dentro nem vão perceber se formos rápidos.

— Olhe só, um deles temos certeza que está armado — ele frisou, apontando para o guarda.

— Dimitri! — Rose disse e ele a olhou — Você montou isso — falou calmamente, tentando mostrar uma despreocupação que não sentia — E você nunca me colocaria em perigo, certo?

Ele respirou fundo. Aquela foi a melhor forma que ele encontrou de colocar Rose em menor perigo. Invadirem um armazém seria cem vezes mais perigoso. Dimitri a encarou por um tempo. Queria convencê-la a irem embora, mas sabia que de nada adiantaria. E então, deu um abraço apertado nela. Gostaria de ter se despedido de forma mais apropriada, mas não achou que aquele fosse o momento certo para dizer o quanto Rose era importante para ele.

— Tome cuidado, Roza — lhe segredou ao ouvido, em russo, a frase que Rose ouvia desde que se conheceram. Era a única frase que ela entendia idioma materno de Dimitri, afinal.

— Eu vou.

Dimitri suspirou.

— Você vai com ou sem meu consentimento, não é mesmo?

Ela sorriu marota e se soltou de seu abraço apertado.

— Com certeza, mas seria melhor que eu tivesse sua benção, Camarada. — piscou para ele.

Ele balançou a cabeça para os lados. O que quer que ele fosse dizer a ela foi interrompido quando o barulho surgiu. As rodas pesadas do caminhão passando sobre o cascalho fez com que os três prendessem a respiração.

Rose repassou o plano mentalmente, tentando controlar as batidas do seu coração, com medo de que elas pudessem ser ouvidas pelos outros. Os segundos pareceram se arrastar até que o caminhão parasse e um homem magro e louro descesse dele. Rose prendeu a respiração. Ela viu o sinal de Dimitri quando a porta da guarita se fechou atrás do homem. Era aquele o sinal. Se aproximar não seria um problema. O problema seria sair.

Mais rápido do que Rose, Dimitri e Gisela esperavam aconteceu. Dimitri foi quem saiu primeiro, ignorando as ordens em alemão do guarda armado, pedindo para que ele se identificasse. Gisela mais rápido do que todos esperavam estava abrindo a porta do caminhão tão ardilosa quanto uma cobra, apertando contra a garganta do descarregador uma fina faca afiada. Rose estava logo atrás dela, mas não olhou muito. Não observou quando o guarda foi para cima de Dimitri tentando imobilizá-lo. Aparentemente, apenas um guarda estava armado.

Não respirou aliviada quando viu a arma na mão de Dimitri, mas não teve tempo para isso quando Gisela jogou para ela uma chave.

"Não pegue nada do que não consegue carregar". — as palavras de Dimitri ecoaram "Seja a mais rápida que puder, Rose!", "Não preste atenção no que eu e Gisela estamos fazendo, apenas aja!"

E ela realmente agiu. Tirou do bolso a sacola feita de pano que carregava. Não colocou muito, apenas o máximo que conseguia carregar. Tinha que ser rápida. Encheu os bolsos do casaco marrom e surrado que usava, com alimentos enlatados. Um pedaço de papel no chão preso entre os sacos de arroz lhe chamou a atenção e ela se abaixou, pegando o pedaço de papel amarelado e o enrolando em suas mãos.

E então, um grito alto foi ouvido. O grito de Rose. Dois segundos depois ela viu Gisela aparecer com as mãos sujas de sangue e os olhos arregalados. O rosto de Rose foi batido contra uma das laterais do caminhão de entrega e sua visão ficou turva. Quase gritou para Gisela correr, mas a voz não saia.

A tal guarda gorda a segurava com força, puxando tanto seu cabelo para trás que não restaram dúvidas para Rose que ela estava arrancando um punhado de seu cabelo com as próprias mãos.

E então, quando a mulher bateu sua cabeça novamente contra a lataria do caminhão, gritando alguma coisa que Rose não conseguiu entender, ela sentiu o liquido quente e vermelho escorrer por sua testa. Ela ouviu um barulho alto, seguido por outro, mas não teve certeza do que era. Seus ouvidos zuniam.

E de repente não sentia mais as mãos da mulher gorda sobre o seu pescoço, a prensando contra a lataria fria.

Piscou os olhos, tentando ver o que se passava.

— Rose! — Gisela gritou, olhando para os lados, preocupada — Temos que ir! — Ela pegou a sacola que estava caída no chão, já não mais tão cheia quanto antes e segurou a mão de Rose, a puxando para saírem dali. Ela tropeçou em seus próprios pés, ainda um pouco zonza. Gisela não a esperou se recuperar — Eles estão vindo! Temos que sair daqui!

Ela assentiu brevemente os pensamentos já voltavam com mais clareza. Gisela puxou seu braço com mais força para dentro da floresta, tentando refazer o caminho que haviam feito antes. Mal haviam dado alguns passos para dentro da floresta fechada quando ouviram passos atrás delas.

— Espera! — Rose falou, lembrando se de algo que parecia ter sido esquecido com a dor — Onde está Dimitri?

Gisela balançou a cabeça, ouvindo os passos cada vez mais perto. Rose entendeu o que ela quis dizer com aquele gesto. Ele quem havia tirado a mulher de cima dela. Ele quem a havia ajudado.

— Temos que correr, Rose! Vamos! — gritou, sabendo que seria ainda mais difícil se não corressem naquele instante. E então a puxou, praticamente arrastando Rose pelo caminho. Os olhos da morena agora estavam tampados por lágrimas. Olhou para trás uma última vez, quase cedendo à vontade de se soltar e correr até ele.

Fez o possível para acompanhar Gisela e dispararam pela floresta. Ao longe latidos eram ouvidos, se não alcançassem logo o córrego sabiam que seria o fim. No entanto, antes que alcançasse a sua salvação, algo agarrou a cintura de Rose e a girou no ar. Gisela, que segurava seu pulso fortemente, parou com olhos arregalados, até ver quem era.

— Não! — Dimitri disse ofegante. Tinha os dois braços ao redor da cintura de Rose, a mantendo no lugar — Eles mandaram reforços para o outro lado. Temos que ficar dentro da floresta! — ele retirou a camisa, a enrolando e fazendo pressão na testa de Rose.

Ambas assentiram para ele. Dimitri pegou o saco de mantimentos da mão de Gisela e foi atrás, observando o caminho. Rose se manteve no caminho, mas vez ou outra olhava para trás, checando se Dimitri continuava ali e lembrando que chegou a pensar que havia o perdido.

Evitaram falar sobre qualquer coisa e até mesmo controlavam o barulho que seus pés provocavam na terra. Concentraram-se em chegar o mais rápido possível ao refúgio, onde estariam mais seguros. Aos poucos, os latidos dos cães ficavam mais longe assim com os passos sobre os galhos das árvores caídos no chão. Dimitri sabia que eles poderiam usar os automóveis se quisessem e atirar livremente pela floresta, afinal, como soldados, eles deviam saber que estavam perto deles, mas não perdeu tempo pensando naquilo. Tinham que ficar seguros.

Horas depois, quando o sol já estava baixando e o céu tingia-se de um tom laranja claro chegaram a casa. Eddie os recebeu na porta, parecendo mais do que aliviado.

— Eu disse que conseguiríamos — Gisela disse, o abraçando e parecendo contente — Venha, temos que pegar lenha e então prepararmos um delicioso jantar. — ela agarrou o braço de Eddie e o puxou para irem até as bordas da floresta, onde o barulho do machado era disfarçado pelo do rio que corria ali próximo.

Qualquer chance que Dimitri pudesse ter em ficar de bom-humor naquele dia se foi.

— Vou tomar um banho — falou passando por Rose sem olhar em sua direção.

Rose suspirou. Conhecia o amigo bem há tanto tempo que já havia se acostumado com seu gênio difícil, mas ainda assim, ela resolveu ir atrás dele.

Encontrou-o no pequeno banheiro improvisado que ficava nos fundos da casa, como se fosse uma cabaninha tampada, no entanto, a porta estava semiaberta. Ainda estava sem camisa, com o casaco aberto mostrando o peito desnudo.

Rose sempre o achara lindo. Desde que o viu a primeira vez, com quase nove anos, e vez ou outra se pegava o admirando quando pensava que ele estava distraído o suficiente para não notar.

Observou, do ponto onde estava, quando Dimitri passou o casaco pelos braços, livrando o peito completamente. Ele ainda estava de costas, de modo que Rose pode ver com perfeição todos os músculos de suas costas se contraírem quando ele ergueu os braços para prender os cabelos que lhe batiam quase nos ombros. Viu algumas marcas em seus ombros e tronco. Rose sabia perfeitamente a história de cada uma delas.

Ela também sabia que não devia espiar, mas não conseguiu fazer com que seus pés a levassem para longe. Sabia que o sentimento que nutria por Dimitri era mais do que uma amizade, mas nunca ousaria contar a ele e o forçar a se afastar. Ela sabia como as coisas eram. Dimitri era sempre o certinho que a chamava de irmãzinha. Ele era gentil e educado e forte e inteligente... E tantas outras coisas que ela nunca lhe diria. Ainda assim, Rose levou a mão ao peito quando viu Dimitri levar às mãos para as calças, sentindo-se aquecer e o coração acelerar, no entanto, ela simplesmente virou as costas, sabendo que já havia visto mais do que deveria.

Rose voltou para a casa, pegando um balde que estava próximo a porta e molhando a camisa manchada pelo seu sangue que pertencia a Dimitri, começando a esfrega-la para limpar qualquer sinal do que havia acontecido horas antes. Os pensamentos a traíram, levando sua mente para o corpo de um certo russo que havia apreciado há alguns instantes.

Quando Dimitri apareceu na cozinha vários minutos depois, tinha o cabelo molhado e usava uma roupa limpa. Rose se forçou a não olhar em sua direção. Sabia que seus olhos a entregariam.

Manteve a cabeça baixa, de forma que não viu quando ele a abraçou por trás, encostando seu queixo no topo da cabeça dela.

Rose deteve o movimento de separação dos grãos, fechando os olhos e sentindo o cheiro de Dimitri que ela tanto amava.

— Desculpe por ter sido ríspido com você — ele começou, aproveitando um dos poucos momentos em que estavam sozinhos. Lissa dormia, moribunda, em um canto improvisado da sala. Não escutaria a conversa — Eu apenas sinto como se não estivesse fazendo meu trabalho direito. Você é como se fosse uma irmã mais nova que eu devo proteger.

— Eu não sou sua responsabilidade — Rose murmurou, fugindo dos seus braços e indo até as poucas prateleiras que haviam ficado inteiras após o incêndio, as usando como armário — Muito menos sua irmãzinha.

— Mas é como se fosse — Dimitri tornou a dizer, notando o tom amargo nas palavras de Rose, o que sempre acontecia quando ele lhe demonstrava o carinho fraterno.

— Isso é tudo o que sou? — Questionou, se irritando em como sempre Dimitri dizia aos outros o que deveriam ou não fazer, mas, especialmente, se irritou em como ele estava sempre pronto para lhe dar ordens, exatamente como um irmão mais velho cuidadoso faria.

O russo ficou embraçado. Ela era mais do que uma irmã, para ele. Ao menos, o sentimento que ele nutria por ela, era mais do que o permitido para amigos, no entanto, não sabia como dizer aquilo a ela em um momento no qual a sobrevivência era tudo o que eles pudessem se preocupar.

Rose se lembrou de ter espiado Dimitri e por um breve momento, se arrependeu de não ter entrado junto a ele no banheiro para ver como ele reagiria. Pensava tanto em como seria ser tocada por ele, ter um contato maior do que os carinhos superficiais que Dimitri quase sempre lhe dirigia com extremo cuidado.

No entanto, Dimitri não pode responder quando Eddie e Gisela entraram, cantando felizes alguma canção que somente os dois pareciam conhecer. O assunto morreu ali, contudo, Dimitri não pode evitar passar todo o jantar refletindo no que fizera Rose agir daquela forma. Não conseguiu deixar de encará-la enquanto a mesma ignorava as brincadeiras de Eddie e as repetidas vezes que Lissa resmungava alguma coisa que ela não nem ao menos se esforçou a entender.

Quando apagaram todas as velas e lamparinas, Dimitri se recolheu para o quarto que dividia com Eddie, mas não conseguia dormir. Lembrava-se da família que havia ficado na Rússia quando o pai havia o levado para uma viagem na Alemanha. Iria conhecer o serviço democrático, seu pai havia lhe dito. Mas não foi assim que aconteceu.

Pensou na irmã mais velha, Karolina, como ela estaria ainda hoje. Se estavam bem ou sequer vivos... se pensavam e se lembravam dele ainda.

Quando percebeu que não conseguiria dormir, foi até a cozinha, buscar um pouco de agua, mas acabou sendo atraído por uma luz trêmula que parecia vir das escadas que levava ao porão. Ajustando seus olhos a escuridão, Dimitri seguiu pelo caminho. Ficou surpreso quando encontrou Rose com um folheto nas mãos, o erguendo na altura dos olhos. A vela acesa iluminava sutilmente seu rosto enquanto ela parecia desconfortável sentada a escada.

Dimitri deu uma pequena batida na parede, fazendo Rose erguer os olhos para ele e então esconder rapidamente o folheto em suas costas, mas era tarde.

— Onde conseguiu isso?

Envergonhada, ela se levantou, pegando a vela e subindo as escadas, indo até Dimitri e lhe mostrando o folheto.

— Estava no chão do caminhão, então eu trouxe comigo. Achei que não faria mal saber um pouco sobre o que está acontecendo — justificou.

Ele assentiu com a cabeça, olhando curioso para o papel.

— E o que diz aí?

Rose corou. Não sabia ler muito bem, o pouco que sabia Dimitri que havia lhe ensinado. Sem dizer uma palavra, ela estendeu o velho impresso a ele.

— Eu só entendi que era sobre a Turquia. Ancara. Já ouvi minha mãe falar sobre esta cidade — falou quando Dimitri começou a passar os olhos pela reportagem — Acho que é lá que meu pai está, se continua vivo.

Ele balançou a cabeça, concordando parecendo realmente não ter prestado atenção.

— Aqui diz que a Turquia não entrou na guerra, que ofereceram um acordo a eles. Fala também que em breve quando cortarem o fornecimento deles, irão assinar o tratado.

Rose concordou, não querendo olhar em seus olhos e também se sentindo tola pela sua atitude de antes. Não podia cobrar qualquer coisa de Dimitri, mas também não querendo tocar no assunto e pedir desculpas.

Ela se assustou quando sentiu um toque quente em sua testa, gentilmente sobre o corte recente provocado pela matrona nazista que fazia a guarda do carregamento de comida.

— Como está se sentindo?

Rose deu de ombros.

— Melhor. Ela não era assim tão forte — brincou, mesmo sabendo que poucas vezes passara tão perto da morte.

Dimitri sorriu, mas logo parou. O sorriso dando lugar a uma expressão mais intensa enquanto ele se aprofundava em seus próprios pensamentos.

— O que houve? — perguntou, notando sua expressão e se preocupando quando ele demorou a responder.

— Estava pensando que eu quase perdi você hoje — ele segurou sua mão e olhou rapidamente para elas, vendo-as juntas — Pensando no que eu faria se algo de ruim lhe acontecesse.

— Mas eu estou aqui — Rose falou, não entendendo o tom aflito e porque Dimitri estava lembrando-se daquilo, já que claramente o incomodava.

— Eu sei, — murmurou, voltando a olhar seu rosto, ele escorreu sua mão até sua bochecha, fazendo um carinho ali — Mas eu não posso arriscar novamente, entende? Por isso, não importa o que esteja acontecendo, você não vai mais se arriscar dessa forma. Podemos fazer como sempre fizemos, sem nos ariscarmos tanto.

— Mas e se-

— Eu disse que não, Roza! — a interrompeu. A mão que estava repousada em sua bochecha se moveu. Os dedos longos fizeram o contorno dos lábios enquanto os olhos de Rose estavam presos nos dele. Colocou a mão embaixo de seu queixo e segurou ali com firmeza — Eu disse que não — falou novamente, embora em um tom baixo, mas ainda sim determinado. Inclinou o corpo para mais perto de Rose, e olhou em seus olhos uma última vez, antes de abaixar a cabeça e encostar seus lábios aos dela.

Rose ficou estática por alguns instantes, os olhos abertos enquanto sentia a pressão em seus lábios aumentar. Quase que sem pensar, uma mão foi para a o meio do peito de Dimitri, enquanto colocava a outra em seu pescoço e fechava os olhos, tentando retribuir o beijo, sem saber ao certo o que estava fazendo, mas seguindo o ritmo do companheiro. Seu peito era firme e ela tentou não lembrar da visão de mais cedo, mas falhou miseravelmente quando o coração começou a bater em um ritmo descompassado.

Não durou muito. Dimitri a soltou, instantes depois, e abriu os olhos, parecendo culpado.

— Me desculpe por isso — murmurou.

Rose tocou os lábios com as pontas dos dedos, a sensação dos lábios macios de Dimitri contra os dela ainda presente. Sorriu antes de ficar na ponta dos pés e segurar o seu rosto com as duas mãos, abaixando sua cabeça para beijá-la.

Dimitri tinha as mãos quentes e levemente hesitantes enquanto as colocava ao redor de Rose. Em sua cabeça, quando ele imaginava o primeiro beijo que teriam, pensava que seria em um lugar diferente daquele, mas agora, aquele parecia ter sido o momento perfeito. O que acontecia com Rose era um pouco mais diferente, enquanto ela sentia os pensamentos e o corpo reagirem a Dimitri, era tomada de pensamentos que nunca havia tido antes.

Ela sentiu suas costas contra a parede e seus pés serem erguidos do chão, mas apenas abraçou Dimitri, enterrando suas mãos no cabelo castanho que tanto amava. Sentia uma urgência que não conseguia entender. Parecia que quanto mais Dimitri a beijava a e apertava, mais ela queria.

Contrariando todos os seus instintos, Dimitri se afastou. Os lábios levemente inchados enquanto os olhos pareciam ainda mais escuros, como se fosse possível.

— É melhor pararmos — declarou, com a respiração entrecortada — Está tarde e você precisa descansar depois do dia que teve hoje.

Eles ainda estavam próximos o suficiente para Rose ainda desejar que Dimitri a tocasse.

— Pode dormir no quarto comigo, se quiser.

Ela não sabia ao certo se queria dizer aquelas palavras, mas, naquele momento, ela sabia que não queria ficar longe de Dimitri.

Este, por sua vez, era homem e sabia das suas necessidades. Conhecia um pouco mais da vida do que Rose, então, ele apenas se afastou, dando um passo para trás.

— Durma bem, Roza — murmurou, antes de voltar para o quarto em que Eddie dormia completamente alheio ao que se passara do lado de fora. Havia se esquecido do copo de água, mas, quando se deitou para dormir novamente, todos os pensamentos giravam em torno de Rosemarie.

No dia seguinte, quando Rose levantou, todos estavam sentados do lado de fora da casa, vendo Dimitri tentando ensinar Eddie a dar um golpe decente. Até mesmo Lissa parecia melhor, sentada em uma cadeira com um cobertor sob suas costas.

— Você tem que ver a humilhação que Eddie está sofrendo — Gisela gargalhou, entregando uma xicara de café quente para Rose.

Rose olhou de volta para os dois, a tempo de ver Dimitri derrubar Eddie no chão, o que, pelo estado das suas roupas, não parecia ser a primeira e nem a segunda vez no dia.

— Ele é péssimo — Lissa sussurrou para Rose, que apenas sorriu.

Dimitri lutava bem, ela sabia disso. Era algo como pai ter lhe colocado para fazer aulas de luta desde bem pequeno, de forma que sentiu pena de Eddie quando Dimitri agarrou seu pulso o torcendo para trás quando ele tentou lhe acertar um soco em seu rosto.

— Você tem que colocar toda sua força, Edison. Não precisa pegar leve comigo — Dimitri disse.

— Bem, camarada — Rose chamou sua atenção — Eu tenho certeza de que ele está colocando toda sua força. Você que não está facilitando.

Rose tinha um sorriso esperto nos lábios e no momento em que olhou para ela, Dimitri vacilou, piscando e se lembrando dos beijos que partilharam na noite anterior. A distração pareceu ser o suficiente para que Eddie usasse o braço livre e pegasse impulso, acertando-lhe em cheio um soco no estomago. Não foi com muita força, mas o suficiente para Dimitri soltar Eddie, se inclinar e levar a mão até o local.

Gisela vibrou, correndo até Eddie e jogando seus braços ao redor dele.

— Eu estava distraído — Dimitri disse, os olhos ainda em Rose, que caminhou até ele, sabendo que o golpe não havia o machucado.

— Não pode ficar se distraindo assim, camarada — respondeu, esbarrando no braço dele propositalmente e lhe provocando — Você é o único soldado que temos para nos proteger aqui.

As comemorações de Eddie e Gisela e as piadinhas de Lissa para o amigo pareciam só um barulho bem distante naquele momento em que os olhos estavam presos um no outro.

Quebrando a pouca distância entres eles, Rose o abraçou, encostando a cabeça no peito de Dimitri. Ela esperou que ele a afastasse, mas, ao invés disso, Dimitri passou seus braços ao redor dela, a apertando gentilmente contra si. Ambos sabiam que a promessa de que cuidariam um do outro estava ainda mais forte agora.

Notas finais
O que acharam do nosso pequeno grupo de desafortunados? Eu confesso que ter uma Gisela por perto, assim tão negativa, não deve ser muito facil srsrs