Auschwitz

18 Capítulo 16


Notas iniciais
Recebi uma mensagem no nome de Gabriela Mendes Potter que fez voltar com tudo com essa fanfic. Voce que já é leitor antigo, volte ao inicio da fanfic pois eu adcionei varias coisas (cof cof primeira vez Romitri cof cof) Voce que é novo seja bem-vindo. Enfim, espero que gostem.

Em algum lugar de sua mente, um apito soou. A palavra em turco lhe era familiar. Ela encarou fixamente o homem novamente. O cabelo preto, mas com alguns fios grisalhos assim como o cavanhaque. Um terno escuro e que parecia ter sido escolhido cuidadosamente com uma lapela vermelha em seu bolso. Mas o que mais a intrigou, foram os olhos escuros. Tinha alguma coisa que lhe era familiar. Biberiye... A palavra se repetia em sua mente, girando como uma roda gigante, de maneira lenta e a cada vez que a palavra se repetia em sua mente, mais a cabeça de Rose latejava. A tradução da palavra no idioma que ela nunca mais usou após a morte de sua mãe, chegou a ela no mesmo instante em que a velha canção turca que escutava sempre que seu pai a colocava para dormir. Rosemarie. Era o nome dela. Ela conseguia se lembrar da voz e do cheiro das velas que queimavam na sala, mas a imagem do rosto do seu pai havia sido esquecida há tantos anos que não se atreveu a dizer a palavra em voz alta.

Ao invés disso, ela pegou com cautela o enfeite de cabelo que ele estendeu a ela. Rose o apertou suavemente em sua mão, antes de mostrar a palma com o objeto prateado com pequenas pedrinhas azuis.

O homem se aproximou novamente e Dimitri se levantou de onde esteve sentado observando toda a cena. Temia por Rose não estar em condições, mas também sabia que ela havia lutado tempo demais pensando estar sozinha no mundo.

— Minha mãe deu isso a ela quando nos casamos — disse ele — É algo novo, emprestado, velho e azul.

A mão de Rose tremia, mas ela não vacilou quando os dedos do homem encostaram em sua pele, dedilhando o pequeno objeto e então segurando a mão dela. Rose subiu seu olhar vagarosamente para o rosto do homem a sua frente. A garganta ainda estava dolorida, mas não foi por isso que a voz saiu tremula.

— Um pequeno pássaro estava congelado, foi colocado na minha janela — falou em turco. A antiga canção que sua mãe tantas vezes cantara para ela enquanto fugiam e que Janine tinha dito que o seu pai lhe cantaria quando estivessem a salvo.

— Eu o levei para chilrear, guinchar, guinchar. Ganhou vida enquanto zumbia, minhas mãos estão vazias — Ibrahim cantou de volta, sentindo o coração aquecer como há muitos anos não sentia.

A visão turva de Rose quase a levou a pensar que estava novamente sonhando, mas as grossas lagrimas quentes rolaram por suas bochechas e ela teve que limpar o rosto quando as lágrimas a cegaram. Quando braços calorosos se colocaram ao seu redor, ela teve certeza de que realmente estava acordada. O toque era cauteloso no mesmo instante em que afoito. Querendo matar uma saudade de anos de distância. Querendo apagar do peito o sentimento de descrença que ambos tinham de que nunca mais se veriam. Havia tanto que Ibrahim queria lhe dizer e perguntar. No instante em que Dimitri havia contado a história de como conhecera Rose, ele teve certeza. Tratava-se de sua filha. A que passara anos procurando e oferecendo recompensas a quem tivesse notícias.

Foi logo que Dimitri chegara ao acampamento dos soldados com os outros refugiados. Ele levava Rose em seus braços, completamente desacordada. Ibrahim estava em uma das cabanas e o barulho alto de uma discussão do lado de fora chamou sua atenção. Viu um homem alto com uma mulher baixinha em seus braços. Um pano havia sido amarrado em sua cabeça, mas este já estava manchado de um vermelho escuro e seco

— O que acontece? — perguntou a um soldado que permanecia em alerta.

— O camarada não quer deixar que levem a garota — respondeu achando a confusão engraçada — A garota rolou pelo barranco e se machucou feio quando os encontramos.

Ibrahim suspirou, voltando para dentro da cabana somente para pegar um cobertor e então saindo novamente. Ele caminhou até Dimitri que continuava a gritar que não encostariam nela e então jogou o cobertor sobre a mulher que permanecia desacordada, chamando a atenção do russo.

— Ela perdeu muito sangue — afirmou — Temos médicos e enfermeiras aqui. Deixem que cuidem dela.

Dimitri olhou para os outros soldados. O rosto cansado e os braços tensos por ter carregado Rose por todo o caminho, mas ainda assim, ele não baixou a guarda.

— Não tenho como saber se são amigos ou inimigos.

Ibrahim olhou para os soldados armados, e então fez um gesto para que abaixassem os rifles e baionetas.

— Está tudo bem. Não somos inimigos. Ao menos não o seu.

Ibrahim fez um sinal com a cabeça para a bandeira içada no acampamento. O tecido vermelho, com um martelo cruzado com uma foice e uma estrela na ponta era familiar para Dimitri. Ele havia idolatrado sua nação e beijado sua bandeira antes de ir para a Alemanha a negócios com o seu pai.

Percebendo que o homem havia parado de resistir, uma enfermeira pediu que ele a seguisse até a pequena instalação que haviam montado para receber os doentes e feridos. Durante alguns dias ficaram ali, e durante todos eles que se seguiram, Ibrahim notava como o russo estava sempre ao lado daquela mulher. Um dia, passando pela zona dos feridos para falar com um soldado, ele notou que o homem olhava com doçura para a enferma.

— Eu diria que ela é sua irmã porque se parecem um pouco — começou ele, chamando a atenção de Dimitri — Mas não olha para ela como um irmão... Talvez tenham um relacionamento amoroso, mas seria tolice dado o local em que foram prisioneiros.

Dimitri ponderou. Não quis dizer em voz alta que realmente tinha sido um tolo. As mãos estavam fechadas e ele mantinha o queixo apoiado nelas. Ibrahim não tinha porque ter uma resposta, mas ainda assim, ele o respondeu. Não havia com quem mais falar sobre aquilo. Gisela não estava em si. Lissa mantinha todos os seus esforços em tentar convencer os soldados a deixarem que ela visse Christian que havia sido feito prisioneiro desde que os encontraram. Eddie não merecia ser atormentado com ainda mais preocupações.

— Nos conhecemos quando éramos crianças. Eu prometi a ela que ficaríamos juntos quando tudo isso acabasse.

Ibrahim aquiesceu, recordando-se de uma época em que havia feito a mesma promessa a alguém e de que não havia sido capaz de cumpri-la.

— Ela parece forte — disse por fim — Tenho certeza de que ficará bem.

Dimitri balançou a cabeça, negando.

— Ela é forte como ninguém, mas... As coisas que viu... O quanto lutou... Não sei se ela ficará realmente bem — fechou os olhos, se lembrando de todas as vezes que assistira o sofrimento de Rose sem poder fazer nada — Quando nos conhecemos ela estava quase conseguindo fugir para a Áustria. Seu pai a estava esperando do outro lado, mas eu vi quando atiraram na mãe dela. E o sofrimento que eu vi nos seus olhos naquela noite, a dor que eu pude ver que ela sentiu, não é nada comparado a como ela ficou quando estávamos naquele maldito campo de extermínio.

Ibrahim ergueu os olhos rapidamente para a mulher que permanecia deitada em sono profundo. Olhou para o homem que estava sentado de costas para ele e então de volta para a mulher, notando pela primeira vez suas feições. Era difícil saber sua idade, o rosto estava inchado e muito ferido. Ibrahim soltou um resfôlego profundo.

— Onde na Áustria?

— BraunauamInn — respondeu, a lembrança o atingindo como uma pedrada. Se soubesse do que aconteceria com Rose, teria lhe demonstrado o seu amor desde antes — Rose merecia uma vida mais justa.

— Rose? — Ibrahim repetiu — Rosemarie?

— Ela se foi — Rose tentou dizer em meio aos soluços que brotavam em seu peito — Ela se foi e eu não consegui correr. Eu não consegui.

Ibrahim sabia. Ele esteve na ponte naquele dia com mais dois soldados que não o deixaram atravessar no momento em que ouviu o tiro. Ele não viu sua filha, mas quando finalmente o deixaram ir, encontrou o corpo de sua esposa sobre a neve manchada de sangue. Ele levou o corpo consigo, lhe dando um velório decente e encontrando um a um dos soldados que esteve junto a Janine e Rose naquela noite — mas nenhum deles se lembrava das duas. Nem da criança e nem da mulher que haviam assassinado. Mesmo Ibrahim usando toda a persuasão a que teve acesso. Até o final, nenhum deles deu uma esperança de que a menina pudesse estar viva. Nem mesmo antes de darem o último suspiro.

Rose se afastou, o olhando e notando os olhos marejados e emocionados a fitarem. Os dedos acariciavam suavemente o cabelo tão parecido com o dele — assim como os olhos. Mas a determinação, ele tinha que admitir, era tão sagaz quanto a de Janine. Isso era tudo o que pensava quando Dimitri e Lissa lhe contavam de como Rose havia sido como uma grande amiga para o primeiro, e como uma mãe, para o restante do grupo dos desafortunados.

— Está tudo bem, querida. Está tudo bem agora — ele sussurrou, olhando para a aparência maltratada da filha e pensando em quanto havia sofrido quando ele nem ao menos sabia onde ela estava. Passou os últimos 11 anos a procurando, teve que mudar o sobrenome quando virou um procurado político, mas nunca, nem por um segundo, deixou de acreditar que a encontraria — Não sabe como eu te procurei. Como desejei que antes de morrer eu pudesse lhe encontrar uma vez só.

Rose se lembrava da ponte e da promessa da mãe. E então, finalmente ela pode fazer a pergunta que guardara para si durante todos aqueles anos e que a atormentou durante cada um dos dias em que passara no campo de concentração.

— Você realmente esteve lá? Estava nos esperando?

Ibrahim sorriu, pegando o enfeite da mão de Rose e o prendendo em seu cabelo. Uma lágrima escorreu solitária por sua bochecha, antes de responder a filha.

— Eu esperei por vocês naquela noite — respondeu — Eu procurei por você durante cada um dos dias que se seguiram. E eu teria passado toda a minha existência te procurando até que pudesse vê-la e deixá-la a salvo.