Auschwitz

19 Capítulo 17


Notas iniciais
Mesmo sendo imperdoável, aqui vai: Me perdoem a demora. Acho que ninguém mais acompanha essa fic, e não julgo. Até mesmo eu achei que nunca mais fosse concluir... Mas enfim, finalmente saiu.

Rose passou grande parte de sua vida não fazendo planos, apenas sonhando acordada com possibilidades que ela acreditava estarem bem distantes de se realizarem. Ela sonhou com uma casa simples, bonita e aconchegante, com janelas enormes que ela pudesse espiar sem medo. Sonhou com uma lareira para esquentar as mãos e pés no inverno, com uma mesa grande e tão farta que ela pudesse comer até realmente matar sua fome e calar seu estomago. Sonhou com um banho quente, direto do chuveiro, e que pudesse usar roupas que fossem realmente do seu tamanho e não roubadas.

Sonhos pequenos, mas que para ela eram tão grandes quanto impossíveis. Ela se contentou com casas praticamente aos escombros, em viver escondida temendo a própria sombra. Contentou-se com pequenas fogueiras, com comida que apenas forrasse o estomago que rugia. Achou o banho frio e rápido o suficiente, e os maltrapilhos o suficiente.

No entanto, tudo o que ela mais queria, não ousou nem ao menos sonhar. Então, quando parou em meio ao jardim florido e pode sentir a grama pinicando entre os dedos dos pés, olhou ao redor, vendo o verde a perder de vista e a paisagem de tirar o folego. Não tinha gritos arrogantes, sussurros temerosos e nem cheiro de medo ou morte. Era só o cheiro de terra, molhada pelos poucos pingos de chuva que começavam a cair. Cheiro de doce, também, dos morangos selvagens e dos mirtilos que seu pai cultivava na propriedade.

Sentiu braços a rodearem e fechou os olhos, aproveitando a sensação que sempre sentia percorrer do peito até os dedos dos pés quando Dimitri a tocava.

— Estava procurando por você — sussurrou ao ouvido, beijando sua bochecha antes de virá-la para ele — Que bom que encontrei.

Rose abriu os olhos, sorrindo e jogando os braços ao redor do seu pescoço.

— Agora, ou anos atrás?

Ele sorriu de volta, a puxando para mais perto pela cintura antes de beijar calidamente seus lábios. Faziam muito isso agora. Os beijos, os toques, as promessas sendo cumpridas aos poucos.

— Vem, tem uma pessoa querendo te ver.

Ele a arrastou de volta para a casa. Ibrahim a tinha escolhido especialmente para Rose, mesmo que não soubesse. Tinha o campo que gostava de correr por ele sem rumo, sentindo o vento em seu rosto e o sol a aquecer, a plantação de morangos que ela se deitava no chão de barriga para baixo para comer até não aguentar mais, as trepadeiras que subiam pelas paredes até seu quarto e que agora estavam floridas. A sala tinha a lareira grande, que Rose sempre pedia para Dimitri ou Ibrahim acenderem para esquentar seus pés. Fazia pouco mais de um mês que tinha acordado de seu pesadelo, e todos os dias lutava para que não deixasse nenhum deles tomar conta dela e a guiasse. Preferia ser guiada pela esperança, quando tudo parecia realmente bem.

Quando chegou a soleira da porta e a viu de pé, conversando com Ibrahim, Rose disparou até ela até conseguir envolvê-la em um abraço e a apertar com força

— Não acredito! — não conseguiu segurar as lagrimas. De felicidade, de saudade e alívio. Estava realmente bem — Por que demorou tanto?

Era a primeira vez que se viam depois que conseguiram fugir.

— Queria ter vindo antes, mas não pude — corou, sentindo a voz embargar — Fiquei tão feliz quando soube que tinha acordado. Tive tanto medo de que algo te acontecesse, Rose.

Lissa a afastou um pouco, a olhando com calma e vendo que ela estava bem, mas, mais do que bem, que parecia feliz. Os outros dois as deixaram para que se resolvessem entre si.

— Dimitri me buscou essa manhã, sinto muito por não ter ficado ao seu lado.

Rose balançou a cabeça, negando e então secou as lagrimas ainda sorrindo de felicidade.

— Não se preocupe, eu soube.

Dimitri tinha tido um bocado de trabalho para convencer Rose a não brigar com Lissa quando a visse outra vez. Sabia por que a amiga não tinha estado lá, não podia dizer que compreendia, mas entendia seus motivos. O soldado que os ajudara estava preso e Lissa tentou com todas as suas forças para que ele não fosse julgado como os outros.

— Devo a minha vida a você, Rose — Lissa tomou as mãos dela nas suas, as segurando quando se sentaram uma ao lado da outra — Nunca vou esquecer de todas as vezes que cuidou de mim e que não me deixou desistir, mas...

Não precisou terminar.

— A gente não escolhe, não é? — Rose sorriu para ela, tentando não deixar as lembranças a cegarem outra vez — Tenho certeza de que não o escolheria se pudesse.

Ela concordou, corando outra vez. Sentia que estava traindo sua amiga e até a si mesma, mas realmente não escolheu aquilo.

— Christian fez um acordo. Delatou o pai e todas as coisas que sabia, esconderijos, planos, tudo, mas ainda assim vai ficar preso.

Rose também sabia, e por mais que amasse Lissa, sentia que era pouco. Cinco anos de prisão para o que ela havia presenciado não era nada. Não se lembrava do tal soldado chegando a ferir alguém, mas sabia que o tinha feito. Sabia que a única razão para ter mudado de lado, era a garota loira de olhos verdes a sua frente. Não foi a culpa que fez Christian se arrepender, foi o destino irônico e cruel.

Eddie se juntou a elas mais tarde e quando Dimitri se sentou próximo a lareira para ouvi-los conversar, notou quando a apreensão tomou conta e o silencio incomodo surgiu. Ninguém tocou no nome de Gisela, mas todos sabiam que pensavam no mesmo. Tinham conseguido, estavam vivos e salvos, mas Gisela, a menina corajosa e falastrona, havia desistido. O medo a consumiu.

— Está faltando um — Rose colocou em voz alta — Nunca mais seremos os cinco outra vez.

Eddie deitou a cabeça no ombro de Lissa, que sentiu os olhos transbordarem quase que imediatamente. Doía como no dia, e doeria para sempre.